Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 4 de 40

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Prazeres Violentos

Dois

Do silêncio, fizeram-se gritos. Dos gritos, fez-se o caos, e Juliette arregaçou as mangas cintilantes, com lábios retesados e expressão cerrada.

— Sr. Montagov — disse ela, por sobre a confusão — o senhor precisa se retirar.

Juliette avançou em marcha, acenando para dois de seus homens que estavam ali perto. Eles atenderam o chamado, mas fizeram uma expressão estranha, o que quase deixou Juliette ofendida, até que — instantes depois — ela piscou, olhou por sobre os ombros e viu Roma ainda parado no mesmo lugar, sem nenhuma intenção de sair. Em vez disso, ele passou por ela como se fosse dono do recinto e se agachou perto do moribundo, observando, dentre todas as coisas, os sapatos do sujeito.

— Mas será possível? — murmurou Juliette, mandando os dois Escarlates na direção de Roma. — Escoltem-no para fora.

Era o que eles estavam esperando. Imediatamente, um dos Escarlates empurrou com truculência o herdeiro dos Rosas Brancas, forçando Roma a se levantar rapidamente para não cair no chão ensanguentado.

— Eu disse escoltem-no — disparou ela aos Escarlates. —

Estamos no Festival do Meio do Outono. Não sejam trogloditas.

— Mas, senhorita Cai…

— Não percebeu ainda? — Roma os cortou com frieza, apontando um dedo para o homem que agonizava. O

herdeiro virou-se para Juliette com a mandíbula cerrada e olhos na mesma altura que os da jovem, completamente fixos nela — apenas nela. Ele agia como se não houvesse mais ninguém em seu campo de visão além de Juliette, como se os dois homens ali não o estivessem esfaqueando com o olhar, como se todo o cabaré não estivesse gritando em meio ao caos, correndo em círculos ao redor da poça crescente de sangue. — Foi exatamente isso que aconteceu noite passada. Não é um caso isolado, é um surto…

Juliette suspirou, acenando com pulso frouxo. Os dois Escarlates seguraram firmemente os ombros de Roma e ele engoliu suas palavras com um fechar ruidoso da mandíbula.

Não faria uma cena em território Escarlate, já havia tido sorte o bastante por estar saindo sem um buraco de bala nas costas. Ele sabia disso. Essa foi a única razão pela qual tolerara ser carregado por homens que poderia ter matado nas ruas.

— Obrigado por ser tão compreensivo — disse ela, sorrindo afetadamente.

Roma não disse mais nada enquanto era carregado para fora da vista de Juliette. Ela o observava, estreitando os olhos, e somente quando se assegurou de que Roma estava fora do cabaré voltou sua atenção à completa desordem diante dela, suspirando e ajoelhando-se ao lado do homem agonizante.

Não havia salvação para um ferimento como aquele. Ainda jorrava sangue, formando poças vermelhas no chão.

Certamente havia sangue manchando a malha de seu

vestido, mas Juliette mal o sentia. O homem tentava lhe dizer algo, mas ela não conseguia ouvir o quê.

— A senhorita deveria acabar com o suplício desse homem.

Walter Dexter conseguiu chegar até a cena e, com uma expressão quase que curiosa, agora espiava por sobre o ombro de Juliette. Manteve-se imóvel, mesmo quando as garçonetes começaram a afastar a multidão e a isolar a área, mandando embora aos gritos os observadores. Para a irritação de Juliette, nenhum dos Escarlates se preocupou em levar Walter embora — seu semblante passava a sensação de que precisava estar ali. Juliette já conhecera muitos homens assim nos Estados Unidos: homens que presumiam ter o direito de estar onde quisessem porque o mundo fora estruturado para favorecer sua etiqueta civilizada. Esse tipo de confiança não conhecia limites.

— Cale-se — disparou Juliette, furiosa, aproximando seu ouvido do homem que estava morrendo. Se ele tinha últimas palavras, merecia ser ouvido e…

— Eu já vi isso antes: é o delírio de um viciado. Talvez meta-anfetamina ou…

— Cale-se!

Juliette concentrou-se até que pudesse isolar os sons vindos da boca do moribundo, até que a histeria ao redor se tornasse mero ruído de fundo.

— Guài. Guài. Guài .

Guài?

Com a mente girando, Juliette passou por toda e qualquer palavra que tivesse alguma semelhança com o cântico do homem. A única que fazia sentido era…

— Monstro? — indagou ela, apertando o ombro do moribundo. — É isso que o senhor quer dizer?

Ele ficou imóvel. Seu olhar ficou surpreendentemente límpido por um brevíssimo instante. Então, o moribundo proferiu, em um breve ruído — Huò bù dān xíng —. Após aquele único fôlego, única expiração, único alerta, seus olhos vidraram-se.

Juliette, ainda atônita, estendeu o braço e fechou-lhe as pálpebras. Antes que pudesse assimilar direito as palavras do morto, Kathleen já se aproximava para cobri-lo com uma toalha de mesa. Apenas seus pés ficaram para fora, naqueles sapatos esfarrapados que Roma estivera encarando.

Eles não formam um par, Juliette percebeu, de repente.

Um sapato era elegante e lustroso, preservando o brilho da última engraxada; o outro era demasiadamente pequeno, tinha uma cor totalmente diferente, e seu cabedal se mantinha preso por um pedaço fino de fio enrolado em três voltas na região dos dedos.

Estranho.

— O que foi aquilo? O que ele disse?

Walter ainda estava espreitando por trás dos cotovelos dela. Ele parecia não entender que aquela era sua deixa para sair dali. Parecia não ligar para o fato de Juliette estar com os olhos fixos à frente, estupefata, se perguntando como Roma havia sincronizado sua visita para coincidir com esta morte.

— Infortúnios não andam sozinhos — traduziu Juliette quando finalmente saiu do transe de volta para o caos da situação. Walter Dexter apenas a fitava de forma vazia, tentando entender por que um moribundo diria algo tão

elaborado. Ele não entendia os chineses e seu amor por provérbios. Sua boca estava se abrindo, provavelmente para mais uma ladainha sobre seu vasto conhecimento a respeito do mundo das drogas, outro alerta sobre os perigos de comprar produtos de quem ele considerava não confiáveis. Juliette levantou um dedo, interrompendo-o. Se ela tinha certeza de algo, era de que aquelas não eram as últimas palavras de um homem sob excesso de drogas. Era o aviso final de um homem que viu algo que não deveria.

— Permita-me a correção. Vocês, britânicos, já possuem uma tradução mais adequada — disse ela. — Quando chove, inunda.

Muito acima da tubulação furada e dos carpetes mofados da casa Rosa Branca, Alisa Montagova estava empoleirada em uma ripa de madeira nas vigas do teto, o queixo pressionado contra os joelhos enquanto bisbilhotava a reunião que ocorria logo abaixo.

Os Montagoves não viviam em uma grande e chamativa residência como seu orçamento podia adquirir. Preferiam ficar no coração de tudo, o mesmo em que pessoas com o rosto sujo de poeira catavam o lixo das ruas. De fora, seu domicílio parecia idêntico às fileiras de apartamentos ao longo daquela agitada rua da cidade. Por dentro, transformaram o que costumava ser um complexo de apartamentos em um grande quebra-cabeças de cômodos, escritórios e escadarias, cuidando do lugar não com servos ou criadas, mas com hierarquia. Não apenas Montagoves viviam aqui, mas qualquer Rosa Branca que tinha algum papel na organização, e entre a variedade de pessoas entrando e saindo desta casa, dentro e fora dos seus muros,

havia uma ordem. Lorde Montagov reinava no topo e Roma

— pelo menos no nome — estava em segundo lugar, mas, abaixo, os cargos mudavam constantemente, definidos por determinação em vez de sangue. Enquanto a Sociedade Escarlate dependia de relações — de quais famílias eram mais antigas antes do país despencar do trono imperial —

os Rosas Brancas operavam no caos, no movimento constante. Mas a escalada ao poder era uma escolha, e aqueles que permaneciam nos degraus mais baixos da organização o faziam por vontade própria. Tornar-se um Rosa Branca não era questão de poder ou riqueza; era sobre saber da possibilidade de sair a qualquer momento se não gostassem das ordens dadas pelos Montagoves. Era um punho levado ao peito em saudação, uma troca fixa de olhares, uma anuência com um aceno de cabeça— assim, os refugiados russos que chegavam a Xangai fariam qualquer coisa para se juntar ao quadro dos Rosas Brancas, qualquer coisa para reconquistarem a sensação de pertencimento que deixaram para trás quando os Bolcheviques bateram à porta.

Assim era para os homens, pelo menos. As russas desafortunadas o bastante para não nascerem como Rosas Brancas trabalhavam como dançarinas ou meretrizes. Na semana anterior, Alisa ouvira por acaso uma britânica chorando por causa de um estado de emergência na Concessão Internacional de Xangai — de famílias sendo destruídas por beldades siberianas que não tinham dinheiro algum, apenas um rostinho e um corpinho bonitos e vontade de viver. As refugiadas faziam o que tinham de fazer; bússolas morais não valiam de nada face à fome.

Alisa sobressaltou-se. O homem que ela bisbilhotava começou de repente a sussurrar. A mudança abrupta no volume chamou sua atenção para a reunião lá embaixo.

— As facções políticas fizeram muitos comentários maliciosos — resmungou uma voz áspera. — É quase certo que os políticos estejam por trás dos surtos, mas é difícil dizer agora se os responsáveis são o Kuomintang ou os Comunistas. Várias fontes falam em Zhang Gutai, mas…

bem, eu não acredito muito nisso.

Outra voz complementou ironicamente:

— Tenha dó, Zhang Gutai é tão incompetente como Secretário do Partido Comunista que colocou a data errada em um dos cartazes de reunião.

Alisa conseguia ver, através da fina tela que cobria as fendas ao longo do teto, três homens sentados em frente a seu pai. Ela não conseguiria enxergar muito bem a fisionomia deles sem correr o risco de cair das vigas, mas o idioma russo falado com sotaque dizia o suficiente. Eram espiões chineses.

— O que sabemos sobre o método deles? Como esse surto se espalha?

Agora era seu pai que falava, sua voz lenta tão familiar quanto unhas arranhando um quadro-negro. Lorde Montagov falava de uma forma tão imperativa que faria qualquer um crer que estava pecando ao não lhe prestar atenção.

Um dos chineses pigarreou. Ele passava as mãos na camisa e a retorcia com tanta agressividade que Alisa se inclinou para frente nas vigas, espiando através da tela para ter certeza de que via realmente aquele gesto.

— Um monstro.

Alisa quase levou um tombo. Suas mãos foram à ripa e a equilibraram bem na hora. Ela suspirou de alívio.

— O quê?

— Não podemos confirmar nada acerca da origem da loucura, exceto por uma coisa — afirmou o terceiro e último homem. — Isso tem ligação com o aparecimento de um monstro. Eu mesmo o vi. Vi olhos prateados no rio Huangpu, piscando de um jeito que homem nenhum…

— Basta, basta — interrompeu Lorde Montagov. Seu tom era áspero, irritado com o rumo que a reunião de inteligência tomara. — Não tenho interesse algum em ouvir sandices sobre um monstro. Se não há nada além disso, espero revê-los em nossa próxima reunião.

Fazendo uma careta, Alisa se apressou pelas ripas, seguindo os homens enquanto saíam. Ela já tinha doze anos de idade, mas era miúda, sempre disparando de uma sombra à outra como um roedor selvagem. Enquanto a porta se fechava lá embaixo, a menina saltava de uma viga a outra até que estivesse colada na que estava diretamente acima dos espiões.