Prazeres Violentos
Trinta
— Nunca há uma só verdade. Nunca — disse Roma.
— Isso não é uma resposta.
— É tudo o que posso lhe dar — Roma ergueu as mãos, envolvendo o cano da arma lentamente com os dedos. — E
isso é tudo que você suportaria ouvir. Você fala comigo como se eu ainda fosse a mesma pessoa que você deixou para trás, que te traiu há quatro anos, mas não sou. E você também não é a Juliette que eu amava.
Era Juliette quem segurava a arma, mas subitamente sentiu-se como se ela tivesse levado um tiro. O Mantua estava em silêncio agora; a incursão terminara e a polícia municipal se fora. Lá, só o que se movia era o brilho refletido da placa de neon do prédio, ondulando nas poças rasas de água da chuva.
— Por quê? — disse ela, com aspereza. A pergunta que ela deveria ter feito há quatro anos. A pergunta que estava ancorada à sua mente por todos aqueles anos, um peso acorrentado a seu coração. — Por que você mandou atacar meu pessoal?
Roma fechou os olhos trêmulos. Era como se ele estivesse esperando pelo tiro.
— Porque — sussurrou — eu não tive escolha.
Juliette abaixou a arma. Antes que Roma pudesse dizer algo mais, ela partiu.
Trinta
Juliette enterrou as mãos bem fundo no solo fértil. Ela o apertava e o misturava, fechando os dedos em volta dos pedacinhos de adubo que forravam seus jardins.
Ela estava trabalhando nos canteiros de flores na frente de sua casa desde o amanhecer, aliviando a dor de cabeça latejante com o brilho do sol e os sons da natureza. Porém, como denunciava sua expressão fechada, aquilo não estava funcionando. Quando ela fazia jardinagem na infância, limpando os canteiros, retirando deles punhados de pétalas mortas, significava que estava de mau humor e tentava aplacar sua ira sem dar tiros de pistola. Era praticamente uma lenda urbana Escarlate: fale com Juliette quando ela tem uma planta nas mãos e sofra as consequências.
Ninguém mais cuidava daqueles jardins desde que Ali sangrou até morrer neles.
Juliette suspirou profundamente. Abriu com as mãos uma florzinha roxa de jacinto, colocando-a delicadamente no buraco que havia cavado. Antes que a flor bulbosa pudesse ficar torta, Juliette devolveu a terra ao buraco.
Ela desejava poder se preencher assim. Desejava que pudesse pressionar montinhos de solo fértil nas brechas de seu coração, ocupando os espaços até que rosas pudessem criar raízes e florescer. Talvez então ela parasse de ouvir a voz de Roma em sua cabeça o tempo todo, dominando cada centímetro de seus pensamentos.
Os joelhos de Juliette estavam cobertos de pequenos arranhões em cicatrização. Ela havia levado um tombo a cerca de 400 metros do Mantua, e ali ficou, com as palmas das mãos raspando o cascalho e o vestido absorvendo a lama e a água da chuva. Os arranhões arderam bastante durante o resto da jornada para casa, mas a dor agora era boa. O frescor da terra sob ela, o sol da manhã traçando uma linha dourada em sua face, a dureza pontiaguda das pedrinhas e dos galhos que se enterravam em sua pele —
isso a lembrava de que não estava se desprendendo do chão e flutuando em direção às nuvens.
É tudo o que posso lhe dar.
Nada daquilo fazia sentido. Se Roma Montagov não a odiara por todos aqueles anos, então por que fingiu que sim? Se ele havia a odiado por todos aqueles anos, então por que disse aquelas coisas — por que fingir, com tanta agonia em suas palavras, que sua traição o ferira tanto quanto a ela?
Eu não tive escolha.
Juliette gritou de repente, socando o chão com força. Duas criadas que trabalhavam ali perto deram um pulo e saíram às pressas, mas Juliette não lhes deu atenção. Pelo amor de Deus, ela já havia feito a mesma coisa quatro anos atrás. Há muito ela havia traçado duas colunas em sua mente: as atitudes de Roma e as palavras de Roma, totalmente incapaz de comparar uma à outra, incapaz de compreender por que — por que — ele a trairia quando dizia que a amava. Agora ela novamente não conseguia compreendê-lo, não conseguia alinhar o modo como ele a tocara ao ódio que ele alegava possuir, não conseguiu entender a tristeza
em seus olhos quando disse que ela era uma nova e fria Juliette, que ele não suportava ver.
Nunca há uma só verdade. Nunca.
Juliette pegou a pá que estava a seu lado, com a ira em suas veias se intensificando como um crescendo. Plantar flores era coisa de criança. Ela ficou de pé e ergueu a pá em vez disso, batendo com força a borda metálica no terreno que ela embelezara durante horas. Repetidamente, ela afundou a pá nos canteiros de flores até que todas elas estivessem despedaçadas, pétalas pontiagudas sujando o solo negro. Alguém chamou seu nome de longe e essa simples convocação a deixou ainda mais inflamada, a ponto de ela dar meia-volta e escolher um novo alvo, a primeira coisa que seus olhos viram: uma árvore fina que era duas vezes mais alta que ela.
Juliette irrompeu até o tronco. Ergueu a pá e bateu, bateu, bateu…
— Juliette!
A pá ficou paralisada no meio do movimento. Quando Juliette se virou, viu a mão delicada de Rosalind e suas unhas feitas segurando a pá com força, impedindo uma nova pancada na árvore.
— Qual é o seu problema? — vociferou Rosalind. — Por que está transtornada?
— Me deixe em paz — respondeu Juliette, com rispidez. Ela puxou a pá das mãos da prima e entrou em casa às pressas, deixando uma trilha de terra e ferramentas de jardinagem no vestíbulo, pouco se importando com a bagunça que fazia enquanto seguia para o quarto. Lá, pegou seu maior e mais sem graça casaco e o vestiu, escondendo o vestido e a face, cobrindo cada elemento que denunciava seu prestígio.
Quase que por força do hábito, vestiu o capuz, cobrindo os cabelos, mas isso era desnecessário; ela não havia feito as finger waves que eram sua marca registrada. Em vez delas, mechas soltas de cabelo preto roçavam seu pescoço.
Juliette pegou um fio que estava sobre a orelha e lhe deu um puxão, como a checar se era de verdade.
Ela marchou para fora de casa, andando com os olhos voltados apenas para a frente, conferindo os arredores apenas uma vez. Ela ainda estava sendo seguida? Mal se importava com isso. Não quando seu coração batia como um tambor de guerra em seus ouvidos. Não quando era impossível parar de abrir e fechar os punhos em um esforço desesperado para distrair seus dedos trêmulos.
Juliette sempre se orgulhara de sua capacidade de definir prioridades. Sabia como enxergar o que era importante, tal como exploradores sabiam encontrar a estrela do norte. Sua cidade, sua organização, sua família. Sua família, sua organização, sua cidade.
Mas como um explorador poderia encontrar a estrela do norte se o mundo inteiro havia virado de ponta-cabeça?
Com uma bota maltrapilha após a outra, Juliette caminhava. Em um dado momento, ela passou pelo Bund, serpenteando pelos veículos motorizados que entravam e saíam perigosamente de suas vagas de estacionamento e se fundiam às estradas muito congestionadas, como um zíper fechado.
Vagamente, Juliette se perguntou como seria parar de andar para a frente e desviar para a lateral em vez disso, descendo o cais até o rio. Ela podia simplesmente continuar andando e cair diretamente na água, tornando-se nada
além de outra caixa de produtos perdida, outra marca solta nos catálogos, outra estatística de queda na receita.
Juliette saiu do Bund, da Concessão Internacional, e entrou, por fim, no território dos Rosas Brancas.
Ela cobriu ainda mais a cabeça com o capuz. O ato não era necessário — era muito mais fácil para ela se misturar nas ruas ali, onde reinavam os Montagoves, do que era para Roma passar despercebido no território dela. Sem cores Escarlates entrelaçadas em seu pulso ou presas em seus cabelos, sem nenhum de seus identificadores costumeiros, para qualquer Rosa Branca de vigia, ela era apenas mais uma mulher chinesa que vivia nas redondezas.
— Ei!
Juliette se encolheu, abaixando a cabeça antes que a pessoa em quem ela trombou pudesse ver seu rosto.
— Desculpe! — respondeu ela. Um pouco antes de virar a esquina às pressas, pensou ter visto de relance cabelos loiros acima de um par de olhos que a encaravam com curiosidade.
— Aconteceu a coisa mais esquisita — anunciou Benedikt.
Ele tombou no assento livre, desenrolando o cachecol do pescoço e colocando-o sobre a mesinha de canto. Marshall gesticulou para que Benedikt prosseguisse, mas Roma agia como se não tivesse sequer ouvido o primo. Ele encarava o vazio no outro lado do restaurante e — para a preocupação de Benedikt — parecia que não dormia há dias. Desde que Alisa fora infectada com o surto, a fadiga no rosto de Roma ficara mais e mais profunda, mas algo em sua expressão agora era… diferente. Parecia que não apenas seu corpo havia chegado ao limite, mas sua mente também, prestes a
atingir um ponto sem volta, e agora permanecia ociosa, esperando por algo que a trouxesse de volta à razão.
Benedikt se perguntou se Roma chegara a ir para casa na noite anterior, já que o primo estava usando a mesma camisa branca amarrotada do dia anterior. Ponderou se deveria perguntar o que estava errado ou se era melhor fingir que tudo estava bem e tratar o primo da mesma forma de sempre.
Receando as respostas à primeira alternativa, optou pela segunda.
— Acho que acabei de ver Juliette Cai.
O joelho de Roma ergueu-se em um espasmo, colidindo com tanta força no fundo da mesa que o prato na frente de Marshall quase caiu no chão.
— Ei, cuidado — repreendeu Marshall, pondo as mãos protetoras ao redor de seu medovik. — Só porque sua comida ainda não chegou não significa que você pode estragar a dos outros.
Roma ignorou Marshall.
— O que você disse? — perguntou a Benedikt. — Tem certeza de que era ela?
— Calma — respondeu Benedikt. — Ela estava cuidando da própria vida.
Roma já estava saltando da cadeira. Quando Benedikt se deu conta do que estava acontecendo naquela súbita onda de movimentos, Roma já havia saído, deixando para trás as portas oscilantes do restaurante.
— O que… foi aquilo? — indagou Benedikt, atordoado.
Marshall deu de ombros e enfiou uma colherada grande de bolo na boca.
— Quer um pedaço?
Enquanto isso, Juliette se embrenhava no território Rosa Branca, usando apenas a memória como guia, voltando atrás e passando mais de uma vez por caminhos dos quais achava que se lembrava. Eventualmente, as ruas começaram a exibir alguma semelhança com as imagens que tinha na mente. Eventualmente, ela achou um beco muito familiar e entrou nele, abaixando a cabeça para passar pelo monte de varais baixos, torcendo o nariz para o cheiro de umidade no ar.
— Que nojo — resmungou Juliette, limpando as gotas de água de roupa suja que pingavam em sua nuca. Assim que ela parou, na intenção de se livrar da água, avistou uma figura alta e imponente na outra extremidade do beco.
Todos os seus músculos se retesaram. Velozmente, Juliette forçou-se a cerrar bem os punhos, a continuar andando com passos que não levantariam suspeitas. Recuar e fugir do beco naquele momento imediatamente atestaria que era uma intrusa em território inimigo.
Por sorte, Dimitri Voronin não pareceu reconhecê-la quando passou. Ele estava ocupado resmungando para si mesmo e alisando as barras das mangas da camisa.
Ele saiu do beco. Juliette também emergiu do outro lado, respirando aliviada. Ela observou o complexo de apartamentos que estava em sua frente, comparando a memória com a vista diferente. Ela esteve ali antes, mas tanto tempo havia se passado que as cores das paredes eram diferentes e os azulejos estavam desbotados…
— Você perdeu a noção?
Juliette arfou, mal identificando a voz de Roma antes que ele passasse o braço por sua cintura para arrastá-la para o lado, conduzindo-a ao beco próximo ao prédio. Quando
Juliette se debateu para se pôr de pé novamente, mal conteve a tentação de pisar no pé de Roma.
— Eu consigo andar sozinha — vociferou.
— Você parecia bem tranquila, parada à plena vista de cada uma das janelas de minha casa! — vociferou Roma, em réplica. — Eles vão te matar, Juliette. Acha que somos uma piada?
— O que você acha? — disparou Juliette, rebatendo. —
Todos os meus parentes mortos diriam que não!
Ambos ficaram em silêncio.
— O que está fazendo aqui? — indagou Roma, em voz baixa. Seu olhar estava focado em um ponto logo acima do ombro dela, se recusando a fazer contato visual. Mas Juliette o fitava diretamente. Não conseguia parar de olhar.
Ela o encarava e queria estourar com tudo o que desejava dizer, tudo o que desejava ouvir, tudo do que desejava se livrar. Tudo, tudo, estava rígido: seus pulmões, sua pele, seus dentes. Seu corpo era pequeno demais para ela e estava fadado a explodir em pedaços e se tornar um fragmento da natureza, crescendo nas rachaduras do concreto.
— Estou aqui — disse Juliette, com dificuldade — porque estou farta de fugir e permanecer na ignorância. Eu quero a verdade.
— Eu te disse…
— Você não pode fazer isso — Juliette começou a gritar. Ela não queria, mas começou; eram quatro anos de silêncio se libertando de uma vez. — Eu não mereço saber? Eu não mereço saber ao menos um ínfimo do que diabos passou pela sua cabeça quando decidiu contar a seu pai exatamente como preparar uma emboscada aos meus…
Juliette parou no meio da frase, erguendo tanto as sobrancelhas que elas desapareceram em sua franja. Havia uma lâmina apontada para seu coração. Roma pressionava uma lâmina em seu peito, com o longo braço estendido.
Um instante se passou. Juliette esperou para ver o que ele faria.
Mas Roma apenas balançou a cabeça. Subitamente, sentiu-se muito parecido com seu eu do passado. Como o garoto que a havia beijado pela primeira vez na cobertura de um clube de jazz. Como o garoto que não acreditava em violência, que jurou que um dia controlaria sua metade da cidade com equidade e justiça.
— Você nem está com medo — resfolegou Roma, com a voz presa. —, e sabe por quê? Porque sabe que eu não consigo enfiar esta faca. Você sempre soube e, mesmo que duvidasse da minha compaixão quando voltou, você a descobriu bem rápido, não é?
A ponta da lâmina era fria como gelo, mesmo por trás do vestido, o que era quase um alívio contra a onda de calor que emanava de seu corpo.
— Se você sabia que eu não ficaria com medo —
perguntou Juliette —, então por que sacou a faca?
— Porque foi por isso… — Roma fechou os olhos. Lágrimas. Lágrimas caíam por seu rosto. — Foi por isso que minha traição foi tão horrível. Porque você acreditava que eu era incapaz de te machucar, e ainda assim eu te machuquei.
Ele recuou, então, afastando a ponta da faca do coração de Juliette, deixando o ar frio preencher aquele espaço. Sem aviso, Roma virou-se e arremessou a faca; a lâmina inteira cravou-se no muro oposto. Juliette observou aquilo entorpecida, como se ela fosse um espectro flutuando bem
alto. Presumiu que esperava por aquilo. Roma tinha razão.
Ela não conseguia temê-lo, mesmo quando sua vida estava nas mãos dele. Afinal, levara sua vida até o território Rosa Branca, que a aguardava de mãos abertas.
— Então, por quê? — indagou Juliette. Suas palavras saíram roucas. — Por que você fez aquilo?
— Foi um acordo — Roma esfregou sua face com força.
Seus olhos se dirigiram à entrada do beco, procurando por ameaças, certificando-se de que não seriam interrompidos, que não estavam sendo vigiados. — Meu pai queria que eu te matasse de imediato, e eu me recusei.
Juliette se lembrou da rosa branca no caminho para sua casa, do bilhete escrito por Lorde Montagov, carregado de escárnio.
— Por que não?
Uma gargalhada. Roma balançou a cabeça.
— Você ainda pergunta? Eu te amava.
Juliette mordeu a língua. Lá estava aquela palavra novamente. Amor. Amava. Ele falava como se tudo que havia acontecido entre eles tivesse sido real até que se tornou insustentável, e Juliette não conseguia entender aquilo, dificilmente podia aceitar aquilo após ter passado tanto tempo convencendo a si mesma de que todo o passado deles foi uma mentira, nada além de uma espetacular atuação de Roma para chegar a seu ato definitivo.
Ela precisava convencer a si mesma. Como suportaria pensar que ele a amava e ainda assim a destruíra? Como poderia suportar a verdade, que também o amara, tão profundamente que ainda havia resquícios, e se aquilo tudo não havia sido um plano de mestre de Roma para cravar as
garras em sua mente… então a sensação que corria agora pela ponta de seus dedos não podia ser atribuída a mais nada além da fraqueza de seu próprio coração.
Um gosto ferroso inundou sua boca. Com um espasmo de dor, Juliette afrouxou a mandíbula, mas ainda assim permaneceu em silêncio, com um corte latejante na língua.
— Você pode acreditar no que quiser — prosseguiu Roma, percebendo a expressão em seu rosto —, mas você queria a verdade, então aqui está ela. Meu pai descobriu, Juliette.
Algum espião lhe contou que éramos namorados e, para lavar a honra do nome Montagov, ele me deu uma faca —
Roma apontou para a arma no muro — para que eu a enfiasse em seu coração.
Ela lembrou-se do quão profundamente Roma temia o próprio pai, de como temia as coisas que os Rosas Brancas eram capazes de fazer. Lembrou-se de como Roma costumava ponderar, dia após dia, sobre como mudaria as coisas quando os Rosas Brancas estivessem sob seu comando. E lembrou-se de seu próprio apreço por tal ambição, aquela centelha de esperança acesa em seu coração toda as vezes que Roma dizia que o futuro era deles, que a cidade seria deles um dia, unida, contanto que tivessem um ao outro.
Juliette encarou a faca no muro e sussurrou:
— Mas você não fez isso.
— Não — disse Roma. — Eu disse a ele que preferia tirar minha própria vida e ele ameaçou fazer exatamente isso.
Meu pai esperava que eu estragasse tudo desde o dia em que nasci e isso finalmente aconteceu. Ele disse que poderia mandar que te matassem…
— Não poderia — interrompeu Juliette. — Ele não tem poder para…
— Você não pode garantir isso! — a voz de Roma rachou, fragmentando-se. Ele se virou novamente; falava enquanto fitava a entrada do beco. — E eu também não podia. Meu pai… pode não parecer, porque ele não recorre a isso com frequência, mas ele tem olhos em todos os lugares. Sempre teve. Se ele decidisse matá-la como prometeu, se ele quisesse fazer parecer que nós dois nos matamos no meio de Xangai e fazer a disputa de sangue atingir outros patamares, poderia fazê-lo. Eu não tinha dúvida disso.
— Nós poderíamos ter enfrentado ele — Juliette não sabia por que se dava ao trabalho de sugerir soluções a uma situação que havia passado há muito tempo. Àquela altura, era instinto, um jeito de proteger-se da possibilidade de que Roma talvez tivesse tomado a decisão certa. — Lorde Montagov ainda é humano. Poderia ter levado uma bala na cabeça.
Roma soltou outra gargalhada, totalmente esvaziada de humor.
— Eu tinha quinze anos, Juliette. Não conseguia me defender nem dos tapas fortes que Dimitri me dava no ombro. Acha que eu conseguiria enfiar uma bala na cabeça do meu pai?
Eu conseguiria, Juliette quis dizer. Mas ela não sabia se era uma vã esperança, se ela realmente teria sido capaz antes que a raiva tivesse feito sua pele pegar fogo e depois endurecer como rocha.
No passado, ela acreditava nas mesmas coisas que Roma, acreditava que aquela cidade dividida poderia ser costurada e unificada novamente.
Acreditava quando se sentavam sob a noite de veludo e
fitavam as luzes nebulosas à distância, quando Roma dizia que desafiaria tudo, tudo, até mesmo as estrelas, para mudar o destino de ambos naquela cidade.
— Astra inclinant — ele sussurrava ao vento, com uma sinceridade comovente, mesmo quando recitava em latim
— sed non obligant.
As estrelas nos inclinam, não nos obrigam.
Juliette inspirou superficialmente. Sentiu algo dentro de si se desvelar.
— O que aconteceu? — disse, com dificuldade. — O que o fez mudar de ideia?
Roma começou a arregaçar as mangas. Tentava achar algo para ocupar as mãos, algo que gastasse sua energia incansável, porque não conseguia ficar ali parado como Juliette — um soldado petrificado.
— Meu pai te queria morta porque se sentiu insultado. E
me queria morto porque ousei me rebelar — ele fez uma longa pausa. — Então, fui até ele e lhe dei um plano melhor.
Um plano que causaria mais perdas aos Escarlates. E que me colocaria novamente ao lado dele — Roma finalmente voltou a fitar Juliette, finalmente a olhou nos olhos. — Isso a machucaria mais do que a morte, mas pelo menos estaria viva.
— Você— Juliette ergueu a mão, mas não sabia o que estava tentando fazer. Acabou apontando o dedo para Roma, como se aquilo não fosse nada além de uma pequena reprimenda. — Você—
Você não tinha o direito de fazer essa escolha.
Mas ela não conseguiu nem mesmo formular as palavras.
Roma estendeu a mão, envolvendo a dela, que agora se fechava em um punho. As mãos dele estavam firmes. As de
Juliette, trêmulas. Arrependidas.
— Se você quer um pedido de desculpas, não posso lhe dar um — sussurrou Roma — e… acho que lamento por não lamentar mais. Porém, tendo que escolher entre sua vida e a de seus Escarlates… — Roma soltou a mão de Juliette. —
Eu escolhi você. Satisfeita?
Juliette fechou os olhos com força. Não se importava mais que aquilo fosse perigoso, que ela estivesse se desfazendo no meio do território Rosa Branca. Pressionou o punho contra a testa, sentido os anéis pontiagudos entrando em sua pele, e arquejou:
— De fato, eu nunca estarei satisfeita.
Ele escolheu a mim. Ela pensava que ele era calculista, que havia realizado a maior traição possível quando ela lhe ofereceu seu amor.
Em vez disso, a verdade é que ele foi contra tudo o que acreditava. Manchou as próprias mãos com as vidas de dúzias de inocentes, enfiou navalhas no próprio coração apenas para manter Juliette viva e a salvo, longe das ameaças de seu pai. Ele não usou a informação adquirida em seu tempo com ela para demonstrar poder, mas sim para atestar sua fraqueza.
Juliette quase irrompeu em risadas — em delírio, em pura descrença. Era isso que aquela cidade fazia com namorados. Jogava a culpa ao redor como uma camada viscosa de sangue, que se misturava a tudo até que deixasse sua mancha. Por isso ele não quis lhe contar. Sabia que ela chegaria àquela conclusão — à percepção de que, indiretamente, o sangue da Ama também estava em suas mãos. Se Roma não a amasse de verdade, teria sido a vida
dela levada pela disputa de sangue — uma troca simples e limpa.
Ela abriu os olhos e olhou para o céu. O céu cinza e lúgubre do primeiro dia de outubro. Lá embaixo, nas sombras do beco gélido, ela podia permanecer furtiva no escuro, podia estender a mão e limpar a lágrima que descia pelo maxilar de Roma e saber que ninguém poderia ser testemunha daquilo. Ela resistiu. Em algum lugar lá em cima, depois das nuvens e dos ventos gelados, a estrela do norte girava e girava sobre o mundo sem se importar com mais nada.
Sua cidade, sua organização, sua família. Sua família, sua organização, sua cidade.
— Pois bem.
Roma ficou confuso.
— Como é?
Juliette baixou as mãos aos flancos, alisando o vestido.
Tentou sorrir, mas tinha certeza de que simplesmente tinha uma expressão de mágoa.
— Pois bem — repetiu. — Não temos tempo para resolver nossos dramas pessoais, não é? Caso encerrado.
Ela caminhou até a faca e a retirou do muro do beco. Era linda. O cabo tinha um lírio entalhado e sua lâmina era brilhante, afiada, dourada.
Aquela cidade estava sob os ombros deles. Não podiam fraquejar agora, independentemente da vontade louca que Juliette tinha de deitar na grama e ficar imóvel pelos próximos milênios. E, independentemente do quanto isso a magoava, ela olhou para trás, olhou para Roma, bem na hora em que ele vestiu novamente sua máscara, saindo do pesar à frieza mais uma vez.
Você escolheu a mim quatro anos atrás. Você ainda me escolheria? Você escolheria essa versão de mim, com farpas afiadas e mãos muito mais ensanguentadas que as suas?
Sua cidade, sua organização, sua família. A melhor coisa a fazer agora era se afastar, se afastar de qualquer coisa que a distraísse do que era importante. Mas ela não conseguia.
Ela… tinha esperança. E ter esperança era perigoso. A esperança era o mal mais perverso de todos, a coisa que vingava na caixa de Pandora entre a miséria, a doença e a tristeza — e como ela poderia sobreviver junto a coisas com dentes tão afiados se ela mesma não tivesse garras horrendas?
— Ainda temos um monstro a caçar — disse Juliette com firmeza, mesmo sabendo que não estava nada bem. —
Chenghuangmiao é território Rosa Branca. Vamos.
Ela temia que Roma dissesse não. Que ele desistisse, mesmo que ela não pudesse. Havia tantas pessoas passando pelo Chenghuangmiao diariamente — chineses ou não — que seria impossível manter a Sociedade Escarlate afastada. Ela não precisava da ajuda de Roma para encontrar Larkspur àquela altura. Eles não precisavam mais cooperar. Ele sabia disso.