Prazeres Violentos
Vinte e Sete
Pessoas como Tyler não precisavam se preocupar. Mesmo que eles tivessem o mesmo grau de parentesco, ele carregava o sobrenome Cai. Qualquer coisa que fizesse, qualquer coisa que conquistasse, eram coisas maravilhosas que refletiam na família, nas gerações de ancestrais que os construíra a partir do chão. Qualquer coisa de que Kathleen ou Rosalind tomassem parte refletia nos Langs, e Kathleen não sabia absolutamente nada sobre a história daquele lado de sua família; só conhecia a avó que visitava uma vez por ano.
— Sim — sussurrou Rosalind. Ela suspirou, esfregando a testa. — Bem, eu preciso ir. Me desculpe por gritar — ela saltou da cama. — Vá dormir. Bonne nuit.
— Boa noite — repetiu Kathleen. A porta já havia se fechado. Quando ela se deitou e pegou a revista
novamente, já não conseguia prestar atenção nos sapatos.
Você ouviu os mesmos boatos que eu.
— Espere — Kathleen sussurrou em voz alta. — Que boatos?
Vinte e sete
Juliette estava a um fio de explodir.
O ar estava fresco naquela tarde, consequência de um céu limpo e da brisa do mar. Enquanto ela caminhava pela calçada sob a delicada sombra das árvores que balançavam com o vento, foi cercada pelo som de água corrente de uma fonte e pelo canto dos pássaros — sons típicos da Concessão Internacional quando ainda estava um pouco atordoada pela louca noite anterior, despertando apenas com os raios de sol dourados que acariciavam suas divisas.
Deveria ter sido um passeio tranquilo e silencioso. Pena que estava com Paul Dexter, que ainda não dera nenhuma informação significativa apesar das horas que já haviam passado juntos.
— Tenho uma surpresa para você — dizia agora Paul, tomado de entusiasmo. — Fiquei muito contente ao receber sua carta, Senhorita Cai. Estou adorando o tempo que estamos passando juntos.
Pelo menos um de nós está.
Era quase como se ele soubesse o jogo que ela estava jogando. A cada vez que ela comentava sobre o trabalho do pai dele, Paul mudava de assunto e começava a falar de quão duro o pai trabalhava. A cada vez que ela comentava sobre o trabalho dele com Larkspur, Paul tangenciava para a situação de Xangai e como era difícil conseguir uma ocupação respeitável. Por um breve momento, ela se
perguntou se Paul talvez tinha ficado sabendo que Juliette invadira uma de suas casas de vacinação e agora suspeitava que ela estivesse tentando derrubar Larkspur, mas parecia improvável que aquela informação seria repassada a alguém tão irrelevante quanto Paul Dexter. Ela também se perguntava se ele havia recebido a mesma instrução que Larkspur dera aos outros comerciantes —
matar Juliette por um preço — mas ela não conseguia imaginar como ele faria isso. Era mais provável que estivesse guardando para si tudo o que sabia para mantê-la por perto por mais tempo.
— Uma surpresa? — repetiu Juliette, distraída. — Não precisava.
Ele devia saber que ela estava atrás de alguma coisa. Isto por si só já lhe dava uma vantagem — dava-lhe o direito de conduzir Juliette aonde bem quisesse. Mas não havia chance de ele saber especificamente o que ela procurava, e Juliette mantinha isso bem oculto. Não havia chance de ele saber que ela tinha conhecimento sobre a posição de seu pai como fornecedor de Larkspur e que ela estava atrás de qualquer ponta de informação que os Dexters tinham sobre a identidade de Larkspur.
Alguém que fornecia a Larkspur a droga que ele precisava para suas vacinas devia ter um endereço de distribuição.
Seria absurdo cogitar outra hipótese. De que outra maneira Walter Dexter faria as entregas? Deixando as drogas em um buraco marcado em um muro?
— Ah, mas eu precisava sim. — Paul deu meia-volta de repente. Em vez de andar ao lado dela, ele agora estava dois passos à frente, andando de costas para que pudesse
olhar para ela, com a mão estendida. Juliette forçou-se a pegar a mão dele. — Você vai amar. Está na minha casa.
Juliette ficou animada. Era um tanto inadequado que Paul Dexter lhe mostrasse algo em sua casa, mas era uma oportunidade maravilhosa de maximizar sua espionagem. Ai dele se tentasse algo indecente. Acabaria ficando incapacitado.
— Que intrigante — disse Juliette.
Paul deve ter percebido sua mudança de humor, porque sorriu intensamente para ela. Na verdade, não parou de sorrir enquanto caminhavam; nem parou de tagarelar, falando sobre o que achava da cidade, da vida noturna, dos cassinos…
— Você soube das greves?
O salto de Juliette bateu com força em uma rachadura na calçada. Paul se esticou rápido, segurando-a pelo cotovelo para que não caísse, mas Juliette não pensou em lhe agradecer quando olhou de relance para a expressão gentil do rapaz. Apenas piscou os olhos, deixando escapar uma risadinha incrédula.
— O que você sabe sobre as greves? — indagou.
— Muitas coisas, Senhorita Cai — respondeu Paul, confiante. — Há dois tipos de Comunistas agora: os que estão morrendo porque são muito pobres para merecer a cura de Larkspur e os que estão com tanta raiva disso que desejam se rebelar.
Muito pobres para merecer… Que espécie de disparate.
— Estas greves estão acontecendo nas fábricas custeadas pelos Escarlates — disse Juliette. Sua voz saiu com secura e ela tossiu, tentando aliviar o tom para que Paul não
pensasse que ela estava agindo com agressividade. — Tudo vai se resolver. Estão sob controle.
— Certamente — concordou Paul, mas ele soava como se a estivesse apenas reconfortando, o que por si só já era um insulto. — Ah, aqui estamos.
Assim que Paul parou diante de um portão alto, apertando um botão para pedir que alguém dentro da casa o abrisse, Juliette estreitou os olhos para ver por entre as barras.
Como a casa ficava bem no interior do terreno, não conseguiu ver nada além de morros e morros cobertos de grama.
— Seu pai não está em casa? — perguntou Juliette.
— Não. Está em uma reunião — respondeu Paul. — O
aluguel não vai se pagar sozinho, afinal.
O portão se abriu, ressoando um firme clique. Paul ofereceu o braço.
— De fato — balbuciou Juliette. O aluguel não estava se pagando sozinho. Então, quanto ganhava um comerciante para poder dar conta desta propriedade, e como conseguiu tanto dinheiro em tão pouco tempo? Outras casas ao longo daquela estrada eram ocupadas por banqueiros, tenentes e diplomatas bem-sucedidos. Walter Dexter viera até Xangai desesperado o bastante para implorar por uma reunião com a Sociedade Escarlate. Havia se esgueirado até o cabaré trajando um terno que tinha um pequeno rasgo na manga.
Ele certamente não começara as atividades já morando nesta casa. E certamente não entrara na cidade com bolsos já cheios de dinheiro.
Mesmo assim, a evidência diante dela dizia o contrário.
Eles passaram pelas estátuas fixas no gramado, representações de deusas e duendes uns sobre os outros,
com faces desoladas e pele de mármore reluzente. A porta da frente, que Paul abriu para ela, tinha entalhes a ouro, arrojada em comparação às outras entradas e às íngremes escadarias externas que emolduravam a casa.
— É linda — disse Juliette, em voz baixa.
E falava sério.
Juliette passou pelo hall de entrada e entrou em uma sala de estar circular, com os sapatos ecoando alto no assoalho duro e atraindo a atenção dos criados que dobravam mantas de linho. Assim que viram Paul, pegaram suas coisas e saíram apressados, trocando olhares de quem sabia o que fazer. Nenhum dos criados se deu ao trabalho de fechar as portas excêntricas nas laterais da sala de estar —
portas que eram ladeadas por vasos de flores e davam para um quintal espaçoso. Elas estavam escancaradas, permitindo que um vento forte entrasse imponente, fazendo as cortinas diáfanas esvoaçarem de uma forma que fez Juliette pensar em bailarinas dançando.
Paul apressou-se até as portas e as fechou. As cortinas foram retornando ao repouso, tremulando até ficarem tristemente inertes. Ele ficou parado ali por um segundo a mais que o necessário, contemplando o quintal, e seus olhos brilhavam com a forte luz do exterior. Juliette foi até seu lado, respirando fundo. Ali, se ela se esforçasse o bastante, quase poderia esquecer como eram as ruas de Xangai. Poderia estar em qualquer outro lugar. Nos campos ingleses ou no sul dos Estados Unidos, talvez. O ar tinha um aroma bem doce. A paisagem era bem agradável.
— Magnífico, não é? — perguntou Paul, suavemente. — Um sol de setembro, perdendo um pouco de seu calor, senão de seu brilho…
— Estamos bem longe dos pastos do Colorado, Sr. Dexter
— retrucou Juliette, entendendo a referência.
Paul sobressaltou-se, incapaz de esconder a surpresa.
Então, sorriu de orelha a orelha e disse:
— Brilhante. Absolutamente brilhante. Para uma chinesa, seu inglês é extraordinário. Não há nenhum traço de sotaque.
Juliette pôs a mão sobre as portas. Quando as pressionou, sentiu o frio do vidro delicado penetrar seus ossos.
— Eu tenho sotaque norte-americano — respondeu ela, de forma vaga.
Paul gesticulou, discordando.
— Você sabe o que eu quero dizer.
Eu sei? , ela quis dizer. Eu seria inferior se falasse da mesma forma que minha mãe, meu pai, e todos na cidade que foram forçados a aprender mais de uma língua, ao contrário de você?
Ela não disse nada. Paul aproveitou a oportunidade para tocar o cotovelo dela e conduzi-la pelo resto da casa, falando sobre sua surpresa com entusiasmo. Eles percorreram os longos corredores, passando por pinturas surrealistas que estavam penduradas nas paredes branco-pérola. Juliette esticava o pescoço para todos os lados, tentando investigar os cômodos que conseguia vislumbrar, mas estavam andando muito rápido para que ela pudesse dar uma boa olhada.
No fim das contas, Juliette não precisava ter se preocupado em procurar o local onde Walter Dexter fazia negócios. Paul a levou diretamente a ele. Eles entraram em um amplo escritório — provavelmente o maior cômodo da casa — com assoalho liso de madeira e estantes altas de
livros alinhadas às paredes. Ali a atmosfera era diferente: mais turva, mais úmida, resultado das janelas lacradas e das cortinas espessas. Os olhos de Juliette primeiro foram até a imensa escrivaninha, assimilando a grande quantidade de arquivos e pilhas e mais pilhas de papelada.
— Hobson — chamou Paul. — Hobson!
Um mordomo apareceu atrás deles: chinês, vestido com trajes ocidentais. Ele certamente não se chamava Hobson.
Juliette não ficaria surpresa se Paul simplesmente lhe tivesse dado aquele nome porque não desejava pronunciar seu nome chinês.
— Senhor?
Paul gesticulou para a sala, para o amplo espaço em frente à escrivaninha onde havia um tapete oval cinza e, sobre ele, quatro cavaletes com quatro grandes telas, cobertas por um pano grosso.
— Poderia fazer as honras?
Hobson fez uma mesura. Ele adentrou o cômodo, de coluna ereta e com as mãos calçando luvas brancas à sua frente. Quando ele puxou o pano, o tecido se mesclou com as luvas.
Juliette fitou as quatro telas.
— Ah… meu…
Cada tela era uma gravura de si: duas eram estudos de sua compleição facial e as outras duas envolviam cenários, situando-a em um jardim ou no que poderia ser o chá da tarde mais solitário do mundo. Juliette não sabia o que era mais horripilante: se era Paul achando que aquele seria um presente que a faria feliz, ou se era o fato de ele ter efetivamente gastado o dinheiro sujo e suado que recebeu
de Larkspur naquilo. Ela nem mesmo sabia o que dizer, à exceção, talvez, de:
— Meu nariz não é tão alto.
Paul recuou, muito ligeiramente.
— Como?
— Meu nariz — Juliette desvencilhou o cotovelo que ele ainda segurava e virou-se para fitar as janelas cobertas, de modo que ele pudesse vê-la de perfil — é bem achatado. Eu sou linda de frente, eu sei, mas meu perfil é bem sem graça. Você me retratou melhor do que sou.
Hobson começou a dobrar o pano. O ruído era muito alto em meio ao silêncio abrupto que se instalara no cômodo. Os lábios de Paul estavam murchando lentamente, vacilantes
— finalmente, finalmente, pela primeira vez em todo aquele dia, percebendo o comportamento de Juliette. Isso não era bom. Ela deveria estar conquistando a confiança dele, não a destruindo, não importava o quão esquisito ele fosse. Ela rapidamente se virou para encarar Paul novamente, sorrindo intensamente.
— Mas estou incrivelmente lisonjeada. Quanta gentileza.
Como posso lhe agradecer por um presente desses?
Paul agarrou-se à oportunidade que ela lhe dava de se recuperar. Ele inclinou a cabeça, novamente satisfeito, e disse:
— Ah, o prazer é meu. Hobson, embrulhe as pinturas e mande alguém levá-las para a casa da Senhorita Cai.
Juliette estava ansiosa para jogar as telas no sótão e nunca mais olhar para elas. Ou talvez ela devesse queimar aquelas coisas horrendas. Se Rosalind as visse, nunca mais deixaria Juliette em paz.
— Devemos prosseguir, então?
Juliette sobressaltou-se. Se saíssem do escritório de Walter Dexter agora, será que conseguiria dar um jeito de voltar sem ser vista? A casa estava cheia de criados e ela duvidava que alguém hesitaria em denunciá-la se a pegasse espreitando o lugar.
Hobson pigarreou, tencionando passar por Juliette, espremendo-se, com uma das telas nas mãos. Distraída, ainda pensando em suas opções, Juliette se afastou e abriu caminho, pressionando as costas na fria pilastra de madeira atrás de si. Estava bastante quente naquela parte da casa dos Dexters. Quente de uma forma não natural.
Enquanto Hobson saía, veio a inspiração.
— Toda essa emoção… — disse Juliette, subitamente, colocando a mão na testa. — Eu… — e fingiu um desmaio.
Paul lançou-se para segurá-la. Ele foi rápido o bastante para impedi-la de ir ao chão, mas ela já havia se colocado firmemente em uma posição contorcida, com os joelhos dobrados.
— Senhorita Cai, você está…
— É só o calor. Vai direto para minha cabeça — garantiu Juliette, sem fôlego, afastando a preocupação dele com um aceno. — Você tem bálsamo Tigre? Claro que não. Vocês, britânicos, não conhecem nada de nossos remédios. Estou certa de que um dos seus criados deve saber do que estou falando. Pode me trazer um pouco?
— Claro, claro — respondeu Paul, gaguejando. — Agitado, ele a soltou gentilmente e saiu com pressa.
Juliette levantou-se imediatamente.
— Isso de espiar as escrivaninhas dos outros já está virando um hábito — balbuciou para si mesma. Correndo contra o tempo, ela folheou os arquivos, vasculhando
qualquer menção a Larkspur. Ela encontrou dezenas de cartões de visita, dezenas de cartas com informações de contato, mas não havia nenhum recibo contendo Larkspur
— nem mesmo algo relacionado a lernicrom. Com certeza ele ainda estava tentando vender a droga, então onde estava a evidência?
Não havia tempo para reflexões. Ela ouviu passos no corredor.
Xingando baixinho, Juliette arrumou as pilhas de arquivos e retornou ao ponto onde colapsara, apoiando-se nos cotovelos. Ela não olhou para cima quando Paul surgiu diante dela, fingindo estar muito zonza para erguer a cabeça mais do que alguns centímetros do chão.
— Perdão pela demora — bufou Paul. — Eu chamei Hobson e ordenei que trouxesse esse bálsamo Tigre para mim, mas ele não foi receptivo à minha pressa. Disse que já havia deixado um pouco na minha pasta semana passada quando reclamei de dor de cabeça. Tive que procurar por ela.
Dois cliques soaram pelo cômodo. Juliette espiou por entre seus cílios maquiados e viu Paul vasculhando a bagunça de sua pasta de documentos. Quando ele enfiou a mão em um de seus bolsos, resmungando quando os dedos ficaram presos no espaço apertado, Juliette avistou registros comerciais dentro da pasta, recibos de entrega escritos com uma letra tão pequena que foi um milagre seus olhos terem captado A/C LARKSPUR.
Juliette mal segurou o suspiro de espanto. Paul talvez tenha interpretado o ruído que ela emitiu como gratidão, porque ele abriu o frasco e tocou cuidadosamente o bálsamo, besuntando bem o dedo para passá-lo em sua têmpora.
Pelo menos ele sabia o bastante sobre o bálsamo para saber onde devia aplicá-lo. Seus dedos estavam terrivelmente gelados.
— Obrigada — disse Juliette. Ela forçou os olhos a divagarem para que Paul não notasse onde fixara sua atenção. — Sinto-me bem melhor. Será que eu poderia tomar um copo de água? Ficarei melhor ainda quando estiver hidratada.
Paul anuiu com vigor e saiu apressado novamente, desta vez deixando a pasta aberta para trás.
Juliette afanou os registros comerciais.
Registro nº 10092ª
23 de setembro de 1926
A/C Larkspur
10 caixas — lernicrom
A assinatura infra confere ao signatário a responsabilidade de assegurar a entrega do produto ao seu receptor.
Entregador: Archibald Welch
– Archibald Welch — murmurou Juliette. Ela nunca havia ouvido esse nome antes. Mas o recibo em suas mãos
deixava claro como o dia que aquele homem teve contato pessoal com Larkspur, agindo como intermediário entre ele e Walter Dexter. Rapidamente, ela folheou cada papel do registro, descobrindo que todos tinham datas diferentes com quantidades variadas de caixas, mas continham a mesma assinatura. Não era a mesma coisa que descobrir o endereço de Larkspur, mas era um passo a mais.
Juliette pôs os registros de volta com cuidado. Paul voltou, com um copo de água nas mãos.
— Como está se sentindo? — perguntou ele. Entregou o copo a ela e a viu tomar um gole. — A cabeça está melhor?
Sorrindo, Juliette baixou o copo.
— Ah — disse, inocentemente. — Tudo está melhor agora.
— Você chegou tarde.
Juliette jogou a jaqueta na cama, e depois se jogou sobre ela também, fazendo a armação inteira balançar com seu peso. Kathleen quase foi arremessada da posição confortável que arranjara para si no pé da cama. Ela disparou um olhar maléfico à prima enquanto o movimento da cama cessava, mas nenhum olhar maléfico de Kathleen era genuíno.
— Vou sair de novo em meia hora — grunhiu Juliette, tampando os olhos com o braço. Apenas um segundo depois, rapidamente o removeu, esfregando os resíduos de cosmético que estavam em sua pele e se encolheu, sabendo que havia passado um pouco do produto nos olhos.
— Onde está Rosalind?
Kathleen apoiou o queixo na mão.
— Ela foi novamente requisitada no cabaré.
Juliette franziu o cenho.
— Mais estrangeiros?
— Os franceses estão ficando inquietos com esses surtos
— respondeu Kathleen — e se não puderem fazer nada a respeito fingirão que estão sendo úteis solicitando reuniões sucessivas para discutir suas próximas ações.
— Não há próximas ações — respondeu Juliette, seca. —
Pelo menos não da parte deles. A menos que queiram mobilizar suas tropas contra um monstro que espreita nas sombras de Xangai.
Kathleen suspirou em resposta. Ela passou para a página seguinte de sua revista de moda.
— A propósito, seu pai passou aqui mais cedo te procurando.
— Ah, é? — disse Juliette. — O que Bàba queria?
— Ele disse que estava apenas contando cabeças — disse Kathleen, com uma careta. — Ele está muito nervoso com essa coisa de espião Rosa Branca. Parece que está considerando despejar alguns parentes distantes da casa.
— Acho ótimo — resmungou Juliette.
Kathleen revirou os olhos, então estendeu a mão. Juliette entrelaçou os dedos nos da prima, sentindo o fardo que carregava diminuir imediatamente, e a tensão em seu corpo se dissipou.
— Você ainda está seguindo os Comunistas? — perguntou Kathleen.
— Não, nós… — Juliette se interrompeu, com a pulsação disparando. Corrigiu rapidamente — Eu estou esperando mais evidências antes de fazer qualquer acusação.
Kathleen anuiu com a cabeça.
— Justo — ela virou outra página de sua revista com a outra mão. Quando virou três e Juliette não disse mais nada,
optando por fitar o teto em vez disso, Kathleen retorceu o nariz.
— Algum problema?
— Estou tentando organizar meu tempo mentalmente —
respondeu Juliette, com ironia. Ela puxou a mão de volta e rolou na cama, fitando com olhos estreitos o reloginho que tiquetaqueava em sua penteadeira. — Preciso de um favor.
Kathleen fechou a revista.
— Pode falar.
— Preciso de toda informação possível sobre um homem chamado Archibald Welch. Preciso saber como encontrá-lo.
— E há um motivo? — indagou Kathleen. Apesar da pergunta, ela já estava se levantando da cama, pegando seu casaco e o vestindo.
— Ele pode saber a verdadeira identidade de Larkspur.
Kathleen ergueu a gola do casaco e puxou a mecha de cabelo que havia ficado em sua parte interna.
— Vou lhe mandar um mensageiro com tudo que descobrir.
Precisa disso antes de sua reunião?
— Sim, seria o ideal.
Kathleen prestou uma continência de brincadeira. Ela saiu velozmente, com um objetivo fixo na mente, mas, assim que chegou ao batente da porta, Juliette a chamou:
— Espere.
Kathleen parou.
Um instante se passou. Juliette sentou-se ereta, encostando os joelhos contra o peito.
— Obrigada — disse, com a voz subitamente trêmula. —
Por ficar do meu lado. Mesmo quando você desaprova —
Mesmo quando minhas mãos estão cheias de sangue.
Kathleen quase achou engraçado. Lentamente, ela voltou ao quarto e se agachou delicadamente diante da prima.
— Sinto que você acha que eu julgo um pouco tudo o que você faz.
Juliette deu de ombros. Com sinceridade, perguntou:
— Não julga?
— Juliette, por favor — Kathleen ergueu-se, optando por sentar-se ao lado da prima. — Você se lembra da amiga de Rosalind? Aquela irritante?
Juliette não sabia bem aonde ela queria chegar, mas recorreu à memória mesmo assim, buscando as poucas amigas de Rosalind das quais se lembrava.
Nada veio à mente.
— Isso foi antes de irmos para o Ocidente ou na primeira vez que voltei?
— Na primeira vez que você voltou. Rosalind já trabalhava no cabaré.
Pela expressão constipada de Juliette, Kathleen presumiu que ela não se lembrava.
— Ela tinha um nome de pedra preciosa em inglês —
Kathleen continuava tentando. — Eu não consigo me lembrar exatamente de qual, mas… Ruby? Sapphire?
Emerald?
De repente, veio um estalo. Juliette deixou escapar uma risada, então Kathleen — mesmo fechando os lábios com força — começou a rir também, apesar de aquela lembrança mal pudesse ser motivo de humor.
— Amethyst — disse Juliette. — Era Amethyst.
Amethyst era pelo menos cinco anos mais velha que elas, e Rosalind beijava o chão em que ela pisava. A amiga era a
grande estrela dos palcos e treinava Rosalind para ser o próximo meteoro deslumbrante.
Amethyst também tirava Kathleen do sério. Sempre estava lhe dizendo para comprar cremes clareadores de pele, um novo qipao sob medida, chegando cada vez mais perto de insinuar as coisas mais ofensivas…
Até o dia em que Kathleen explodiu.
— Juliette! — ela se lembrava de chamar a prima aos gritos, nos fundos do cabaré. — Juliette!
— O que houve? — grunhira Juliette, deixando a mesa e indo em direção ao chamado de Kathleen. Logo ela se viu entrando no camarim de Rosalind e, embora ela não estivesse ali, Kathleen estava andando em círculos no cômodo, de olho em um corpo estatelado no chão.
— Acho que ela está morta — disse Kathleen, chorando. —
Ela tentou me agarrar, então eu a empurrei e ela bateu a cabeça e…
Juliette gesticulou para que a prima parasse de falar. Ela se ajoelhou e pôs a mão no pescoço de Amethyst. Havia uma pequena mancha de sangue brotando da têmpora da jovem, mas seu pulso estava normal.
— O que raios ela estava fazendo aqui? — indagou Juliette.
— Ela te seguiu?
Kathleen anuiu com a cabeça.
— Eu fiquei com tanta raiva. Só estava me defendendo! Eu não quis…
— Acalme-se, ela está bem — disse Juliette, ficando se pé.
— Estou mais preocupada com você me chamando nesse tom…
A porta do camarim de Rosalind então se escancarou com força. Duas outras dançarinas entraram agitadas com
Rosalind. Imediatamente, as dançarinas correram até Amethyst, chorando de preocupação.
— O que aconteceu? — indagou Rosalind, horrorizada. As duas dançarinas olharam imediatamente para Kathleen.
Kathleen olhou para Juliette. E naquele momento, enquanto Juliette e Kathleen trocavam um olhar, ocorreu um estalo.
Uma sempre estaria segura. A outra não.
— Talvez Amethyst devesse cuidar da própria vida — disse Juliette. — Da próxima vez vou bater mais forte.
Uma das dançarinas ficou indignada.
— Como é que é?
— Eu vou ter que repetir? — disse Juliette. — Sumam da minha frente. Na verdade, sumam dessa boate. Eu não quero ver nunca mais a cara de vocês.
Rosalind ficara boquiaberta.
— Juliette…
Não importava o quanto Rosalind tentara defender Amethyst. Com um aceno de Juliette, Amethyst foi carregada para fora em segundos, ainda inconsciente.
— Desde esse dia — dizia agora Juliette — Rosalind ainda pensa que eu ataquei Amethyst sem motivo algum. Nunca tivemos coragem de dizer a ela que sua amiga era uma pessoa horrível, mesmo quando ela mandou avisar que não voltaria mais a dançar ali.
— Eu acho que ninguém seria corajoso o bastante para voltar ao local de trabalho depois de ser expulso pela herdeira Escarlate.
— Ah, pff. Eu já ameacei muita gente nessa cidade. E você não vê todo mundo fugir chorando para casa.