Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 6 de 40

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Prazeres Violentos

Quatro

— Como? — atiçou. — Você vai me matar aqui, no corredor? A dez passos da mesa do café da manhã?

Juliette forçou mais a faca. Um fio de sangue começou a descer da bochecha do primo, escorrendo pelas linhas da

mão dela e gotejando ao longo de seu braço.

Tyler parou de rir.

— Eu sou a herdeira da Sociedade Escarlate — disse Juliette. Sua voz ficou tão afiada quanto sua arma. — E

acredite em mim, tángdì, eu o matarei antes que tire isso de mim.

A jovem empurrou Tyler para longe da lâmina, e o metal reluziu em vermelho. Ele não disse mais nada. Sua única resposta foi um olhar vazio.

Juliette virou-se, com seus sapatos de salto deixando sulcos no carpete, e foi embora.

Quatro

-Não há nada aqui.

Ressabiado, Roma Montagov continuou sua busca, enfiando os dedos nas rachaduras das docas.

— Cale-se. Continue procurando.

Não haviam achado nada relevante até o momento, mas o sol ainda estava alto no céu. Raios extremamente quentes se refletiam nas ondas que calmamente quebravam contra as docas, cegando qualquer um que as fitasse por muito tempo. Roma mantinha as costas viradas para as águas turvas de cor verde-amarelada. Embora fosse fácil evitar o brilho do sol nas vistas, era muito mais difícil evitar a voz incessante e irritante que tagarelava em suas costas.

— Roma. Ro- maaaa. Roma…

— Meu Deus, mudak. O quê? O que é?

Ainda restavam muitas horas ao dia e Roma não estava particularmente a fim de voltar a pôr os pés em casa sem levar nenhum achado para seu pai. Sentiu um calafrio ao pensar na hipótese, imaginando a retumbante decepção que marcaria cada palavra do chefão Rosa Branca.

— Você pode cuidar disso, não? — Lorde Montagov indagara pela manhã, dando um tapinha no ombro de Roma. Para um observador comum, pode ter parecido que Lorde Montagov aplicara um gesto paternal, reconfortante.

Na verdade, o tapinha fora tão forte que Roma ainda estava com uma marca vermelha no local.

— Não me deixe na mão dessa vez, filho — sussurrou Lorde Montagov.

Era sempre essa palavra. Filho. Como se significasse algo.

Como se Roma não tivesse sido substituído por Dimitri Voronin — não no nome, mas no favoritismo —, relegado a papéis que Dimitri estava muito ocupado para assumir. Esta tarefa não fora atribuída a Roma devido à grande confiança que o pai lhe depositava. Foi lhe dada porque a Sociedade Escarlate não era mais o único mal que lhes infestava os negócios; porque os estrangeiros em Xangai estavam tentando tomar o lugar dos Rosas Brancas como a nova força contra os Escarlates; porque os Comunistas eram uma constante perturbação, tentando recrutar pessoas dentro das fileiras dos Rosas Brancas. Enquanto Roma esquadrinhava o chão atrás de algumas marcas de sangue, Lorde Montagov e Dimitri estavam ocupados lidando com políticos. Estavam repelindo britânicos, norte-americanos e franceses, todos babando por uma fatia do bolo que era o Reino do Meio — mais famintos ainda por Xangai, a cidade acima do mar.

Quando teria sido a última vez que seu pai o enviara efetivamente para perto da Sociedade Escarlate, como o verdadeiro herdeiro que era, para sondar o inimigo, da forma que fizera noite passada? Lorde Montagov não queria protegê-lo da guerra de sangue. Isso não ocorria há muito. A missão lhe foi dada porque seu pai não confiava nem um pouquinho nele. Dar aquela tarefa a Roma fora a cartada final.

Um grunhido longo e impaciente trouxe a atenção de Roma de volta para o presente.

— Sabe — ele disparou, virando-se e protegendo os olhos da luz que refletia no rio —, você escolheu vir hoje.

Marshall Seo apenas sorriu de orelha a orelha, finalmente satisfeito por ter conseguido a atenção de Roma. Em vez de rebater com uma tirada, Marshall enfiou as mãos nos bolsos da calça bem engomada e simplesmente mudou de assunto, pulando do idioma russo para um rápido e veemente coreano. Roma conseguira pescar algumas palavras aqui e ali: “sangue”, “desagradável” e “polícia”, mas o resto se perdera, à deriva no vazio das aulas que ele matara enquanto jovem.

— Mars — Roma interrompeu —, você vai ter que mudar de língua. Não estou com cabeça para traduzir nada hoje.

Em resposta, Marshall apenas continuou a reclamar. Suas mãos gesticulavam com os usuais vigor e entusiasmo, movendo-se no mesmo ritmo que a fala, sílaba empilhada em sílaba, até que Roma não soubesse ao certo se Marshall ainda empregava a língua nativa ou meramente fazia barulho para expressar sua frustração.

— Vou resumir: aqui fede a peixe — uma terceira voz, mais calma e cansada, suspirou a alguns passos dali —, mas você não vai querer saber os exemplos que ele está dando como comparação.

A tradução vinha de Benedikt Montagov, primo de Roma e a terceira pessoa que fechava aquele trio de Rosas Brancas.

Cabelos loiros em uma cabeça que normalmente estava inclinada em direção aos cabelos pretos de Marshall; uma dupla dinâmica, que maquinava uma jogada para auxiliar na próxima tarefa de Roma. No momento, estava inclinada para baixo, atenta, examinando uma pilha de caixas tão alta quanto ele. O homem estava tão concentrado que

permanecia imóvel; apenas seus olhos, indo da esquerda para a direita, escaneavam.

Roma cruzou os braços:

— Sejamos gratos por feder a peixe e não a cadáver.

Seu primo fungou, não esboçando outras reações.

Benedikt era assim. Sempre parecia estar fervendo por baixo da superfície, mas nada vinha à tona, mesmo que ele ficasse à beira de explodir. O pessoal das ruas o descrevia como a versão aguada de Roma, e Benedikt somente aceitou a associação porque tal vínculo com Roma, mesmo que depreciativo, lhe conferia poder. Aqueles que o conheciam bem pensavam que ele tinha dois cérebros e dois corações. O primo sentia demais, mas pensava duas vezes mais rápido — uma granada moderadamente carregada, colocando o pino em si mesma sempre que alguém tentava puxá-lo.

Marshall não fora dotado com o mesmo controle. Marshall Seo era um explosivo de duas toneladas de potência.

Pelo menos ele finalmente interrompera as analogias malcheirosas, agachando-se repentinamente perto da água.

Marshall sempre foi agitado dessa forma — como se o mundo estivesse prestes a acabar e ele precisasse executar o máximo de movimentos possível. Desde que ficara enrolado em um escândalo envolvendo outro homem e um almoxarifado escuro, aprendera a bater primeiro e bem rápido, combatendo os boatos que o seguiam com um sorriso de orelha a orelha, tal qual o gato de Cheshire. Se ele fosse mais resistente, não seria nocauteado. Se fosse mais cruel, ninguém o julgaria sem temer uma faca pressionada contra a garganta.

— Roma.

Benedikt acenou e Roma foi até seu primo, torcendo para que ele tivesse encontrado algo. Após a noite passada, os corpos haviam sido removidos e enviados ao hospital local para armazenamento, mas a cena sangrenta do crime permanecera lá. Roma, Marshall e Benedikt precisavam entender o motivo que levaria cinco de seus homens, um Escarlate e um policial britânico a rasgarem as próprias gargantas, só que a cena do crime continha tão poucas evidências que obter respostas parecia uma causa perdida.

— O que é? — Roma perguntou. — Achou algo?

Benedikt olhou para cima.

— Não.

Roma murchou.

— Esta é a segunda vez que passamos um pente fino na cena — Benedikt prosseguiu. — Acho que fizemos todo o possível, não há como termos deixado passar algo.

Mas, além de examinar a cena do crime, o que mais eles poderiam fazer para entender aqueles surtos? Não havia ninguém a interrogar, nenhuma testemunha, nenhuma história para associar. Quando um crime não tinha autor, quando as vítimas causam algo tão terrível a si mesmas, como encontrar respostas?

Perto da água, Marshall suspirou alto, exasperado, descansando o cotovelo sobre o joelho, cabeça apoiada no punho.

— Você ouviu algo sobre um suposto segundo incidente na noite passada? — perguntou, agora em chinês. — Há rumores, mas eu não soube de nada conclusivo.

Roma fingiu encontrar algo relevante nas rachaduras do chão. Não pôde conter a careta quando assinalou:

— Os rumores são verídicos. Eu estava lá.

— Ah, excelente! — Marshall ficou de pé em um instante, juntando as palmas das mãos. — Bem, não tão excelente para o morto, mas excelente! Vamos investigar a nova cena em vez dessa e torcer para que haja mais informação do que nesse lugar fedorento e…

— Não podemos — Roma cortou. — Foi em território Escarlate.

Marshall parou de comemorar, desolado. Benedikt, por outro lado, observava o primo com curiosidade.

— E como você foi parar dentro do território Escarlate? —

perguntou. Ainda por cima sem nos levar junto, foi o trecho não dito que completava sua indagação.

— Meu pai me enviou para conseguir respostas dos Escarlates — Roma replicou. Era uma meia-verdade. Lorde Montagov, de fato, enviara Roma a fim de identificar o que os Escarlates sabiam. Entrar no cabaré, contudo, fora ideia exclusiva do rapaz.

Benedikt arqueou uma sobrancelha.

— E conseguiu?

— Não — O olhar de Roma se perdeu. — Juliette não sabia de nada.

Um baque súbito ecoou alto na relativa calmaria das margens. Benedikt, incrédulo, dera uma cotovelada acidental nas caixas, e a que estava no topo da pilha foi ao chão, espatifando-se em dúzias de pedaços de madeira.

— Juliette? — Benedikt exclamou.

— Juliette voltou? — Marshall acompanhou.

Roma permanecera em silêncio e seus olhos ainda seguiam a beira do rio. Uma dor brotava em sua cabeça, uma tensão que latejava sempre que sondava suas memórias. Doía só de falar o nome dela. Juliette.

Eles se conheceram aqui. Enquanto funcionários iam e vinham com trapos encardidos enfiados nos bolsos, que eram desentocados periodicamente para limpar a sujeira que se acumulava em seus dedos, dois herdeiros se escondiam ali à vista de todos, quase que diariamente, dando risadas por causa de uma simples partida de gude.

Roma fez força para afugentar as imagens. Seus dois amigos não sabiam o que acontecera, mas sabiam que houvera alguma coisa. Sabiam que, em um dia, Roma tinha a confiança do pai, tão intensa quanto a que se espera de pai e filho, e, no outro, passou a ser visto com suspeita, como se fosse o inimigo. Roma lembrava-se dos olhares das pessoas, aqueles que trocavam entre elas quando Lorde Montagov o desautorizava, o insultava, batia em sua cabeça pela menor das infrações. Todos os Rosas Brancas eram capazes de notar a mudança, embora nenhuma alma viva ousasse falar sobre aquilo em voz alta. A situação tornou-se algo sutilmente aceito, algo sobre o que se ponderava, mas nunca se discutia. Roma também não falava disso. Ou aceitava a nova condição, ou arriscava comprometê-la ainda mais se batesse de frente. Quatro anos se passaram com ele em rédeas curtas. Enquanto não tentasse correr mais rápido do que lhe mandavam, não perderia seu patamar acima do resto dos Rosas Brancas.

— Juliette voltou — Roma confirmou, sem alarde. Seus punhos cerraram-se, apertados. Sentiu um nó na garganta.

Ele puxou o ar e mal conseguiu soltá-lo após o calafrio que consumiu seu peito.

Todas as histórias abomináveis que ouvira, as que encobriam Xangai em uma névoa densa de terror, injetadas diretamente no coração daqueles que não contavam com a

proteção Escarlate — ele esperava que fossem mentiras, que não fossem nada além de propaganda negativa visando envenenar a força de vontade dos homens que poderiam machucar Juliette Cai. Mas ele a vira noite passada, a primeira vez em quatro anos. Olhou dentro de seus olhos e, naquele instante, sentiu a verdade daquelas histórias como se um poder maior tivesse aberto sua cabeça e aninhado cuidadosamente aqueles pensamentos em sua mente.

Assassina. Violenta. Impiedosa. Tudo isso, e mais, era a atual Juliette.

E ele lamentava por ela. Não desejava isso, mas lamentava — doía saber que a leveza da juventude deles se fora para sempre, que a Juliette da qual se recordava estava morta há muito. Doía ainda mais pensar que, embora tenha sido ele quem deu o golpe fatal, ainda sonhara com ela durante esses quatro anos, com sua risada ecoando pelas margens do rio. Era uma assombração. Ele enterrara Juliette como um cadáver sob o assoalho, conformado a conviver com os fantasmas que lhe sussurravam durante o sono. Vê-la novamente foi como descobrir que o cadáver não apenas ressuscitara, mas apontava uma arma direto para sua cabeça.

— Opa, o que é isso?

Benedikt empurrou para o lado um pedaço da caixa que ele mesmo quebrara, pegando algo do chão. Levou as mãos para perto do nariz e deu uma olhada antes de soltar um grunhido de nojo, sacudindo para longe uma substância que parecia poeira. Atento, Roma apoiou um joelho no chão e Marshall correu para perto, ambos focados no que Benedikt encontrara, totalmente confuso. Um minuto se passou antes que alguém falasse.

— Isso são… insetos mortos? — Marshall perguntou. Coçou o queixo, incapaz de explicar a presença de criaturas tão pequenas na caixa. Elas não se pareciam com nenhum inseto que viram antes. Cada uma certamente possuía o corpo segmentado em três partes e seis pernas, mas tinham um formato esquisito — eram do tamanho de uma unha de criança e totalmente pretos.

— Mars, confira as outras caixas — Roma ordenou. —

Benedikt, me dê sua bolsa.

Com uma careta, Benedikt deu-lhe a bolsa a tiracolo, observando, enojado, Roma coletar alguns dos insetos e colocá-los junto aos seus cadernos e lápis. Não havia alternativa: Roma precisava levá-los para uma melhor inspeção.

— Nada aqui — Marshall reportou após quebrar a tampa da segunda caixa. Eles observaram o amigo mexer nas demais. Cada uma delas foi bastante sacudida e recebeu algumas batidas, mas não havia mais insetos.

Roma olhou na direção do céu.

— Aquela caixa do topo — disse. — Estava aberta antes de você mexer nela, não estava?

Benedikt franziu o cenho.

— Suponho que sim — respondeu. — Os insetos podem ter ido até lá e…

Uma repentina explosão de vozes chinesas veio da esquina, assustando Roma a ponto de fazê-lo derrubar a bolsa de Benedikt. Ele girou nos calcanhares, se deparou com os olhos arregalados do primo e viu que Marshall ficou imediatamente em guarda.

— Escarlates? — Marshall perguntou.

— Não precisamos ficar aqui e descobrir — Benedikt disse imediatamente. Velozmente, empurrou Marshall com força, que não teve tempo de reagir. No susto, ele foi tropeçando até a beira das docas, balançou, balançou e caiu na água, emitindo um baixinho plinc! Roma não teve tempo nem de reclamar; o primo já investia contra ele, derrubando ambos no rio Huangpu antes que as vozes animadas fizessem a curva e cruzassem com eles no calçadão.

Uma escuridão pantanosa e pontinhos de luz do sol líquida encerraram-se ao redor de Roma. O rapaz caíra silenciosamente na água com a condução de Benedikt, mas agora fazia tanto barulho quanto seu coração disparado; seus braços se debatiam ferozmente para se localizar em meio às ondas. Estaria ele afundando ou emergindo? Estava em posição normal ou de ponta-cabeça, nadando em direção ao solo até que seu corpo estivesse enterrado no rio, desaparecendo para sempre?

Uma mão acertou sua cabeça. Os olhos de Roma se abriram.

Benedikt boiava diante dele e seu cabelo caía em mechas curtas por toda a face. Pressionou um dedo irritado nos lábios do primo e o arrastou pelo braço, nadando até que estivessem abaixo das docas. Marshall já flutuava por lá, tendo enfiado a cabeça em uma das poucas frestas de ar entre a parte de baixo das docas e o rio ondulante. Roma e Benedikt

fizeram

o

mesmo,

respirando

o

mais

silenciosamente possível para retomar o fôlego e então encostando as orelhas nos estrados da plataforma. Eles conseguiam ouvir as vozes dos Escarlates lá em cima, falando sobre um Rosa Branca que tinham acabado de espancar até deixá-lo semimorto, fugindo apenas porque

um batalhão da polícia havia passado por perto. Os Escarlates não pararam, nem notaram a bolsa de tiracolo que Roma derrubara. Estavam imersos na adrenalina, nos efeitos posteriores à sede de sangue que o conflito causara.

Suas vozes ficaram muito altas logo antes de enfraquecerem novamente, desaparecendo por completo do alcance dos três Rosas Brancas que se ocultavam nas águas logo abaixo.

Assim que se foram, Marshall deu um cascudo em Benedikt.

— Você não precisava ter me empurrado — rosnou, irritado. — Ouviu o que eles disseram? Dava para lutar com eles. Agora estou com água até o talo em partes que homens deviam manter secas.

Enquanto Benedikt e Marshall começavam a discutir, os olhos de Roma vagueavam, observando a parte de baixo das docas. Com o sol brilhando intensamente pelas frestas da plataforma, a luz revelava toda sorte de mofo e sujeira ali, acumulados em grumos. Também revelou a Roma algo que parecia um… sapato, boiando na água e batendo na parte interna da estrutura.

Roma o reconheceu.

— Por Deus — exclamou. Nadou em direção ao calçado e o tirou da água, segurando-o como um troféu. — Sabe o que isso significa?

Marshall fitou o sapato, dando a Roma um olhar que era, de certa forma, mais verbal que palavras.

— Que o Rio Huangpu está ficando cada vez mais poluído?

A essa altura, Benedikt estava cansado de boiar na sujeira sob as docas e nadou para fora. Marshall o seguiu rapidamente e Roma — lembrando de repente que já era seguro emergir — logo fez o mesmo, apoiando as mãos no lado seco da plataforma flutuante e sacudindo a água das calças quando ficou novamente de pé.

— Isto — Roma disse, gesticulando em direção ao sapato

— pertencia ao homem que morreu em território Escarlate.

Ele também esteve aqui — Roma pegou a bolsa de Benedikt e enfiou o sapato dentro dela. — Vamos. Eu sei para onde…

— Ei — Marshall cortou. Ainda encharcado, estreitou os olhos para a água. — Vocês… vocês viram aquilo?

Quando Roma olhou para o rio, tudo o que vira foi a ofuscante luz do sol.

— Hum… — disse. — Você está de brincadeira?

Marshall virou-se para encará-lo. Havia algo em sua expressão completamente séria que anulou o comentário grosso de Roma, deixando-lhe um gosto amargo na língua.

— Eu acho que vi olhos na água.

O amargor se espalhou. De repente, todo o ar ao redor deles assumiu um tom acobreado, carregado de apreensão, e Roma apertou a bolsa do primo até que a estivesse praticamente abraçando.

— Onde? — indagou.

— Foi só um relance — disse Marshall, passando as mãos nos cabelos, tentando tirar o excesso de água. — Sendo franco, acho que foi só a luz do sol no rio.

— Você pareceu ter certeza sobre os olhos.

— Mas por que haveria olhos…

Benedikt pigarreou, terminando de bater a água das calças. Roma e Marshall voltaram-se para ele.

— Vocês ouviram o que estão dizendo por aí, não?

As respostas foram imediatas.

— Goe-mul — Marshall sussurrou, ao mesmo tempo em que Roma entoou — Chudovishche.

Benedikt emitiu um ruído afirmativo. Aquilo finalmente retirou Roma de seu estupor, acenando para seus amigos apressarem-se e afastarem-se da água.

— Ah, por favor, não me vão cair nesse papo de monstro que está circulando pela cidade — disse. — Só venham comigo.

Roma apressou-se. Ele saiu veloz pelas ruas da cidade, passando direto pelas barraquinhas de feira, mal enxergando os vendedores no caminho, mesmo que eles tentassem puxá-lo pelo braço a fim de anunciar uma nova fruta estranha que viera velejando de outro mundo.

Benedikt e Marshall ofegavam para acompanhar o ritmo dele, trocando caretas ocasionais entre si e imaginando para onde Roma os levava com tanto fervor, agarrado com firmeza a uma bolsa cheia de insetos mortos.

— Aqui — Roma finalmente declarou, derrapando até parar do lado de fora do laboratório dos Rosas Brancas, arfando muito enquanto recuperava o fôlego. Benedikt e Marshall trombaram logo atrás dele e quase levaram um tombo na pressa de parar ao mesmo tempo que Roma. Eles já estavam, naquele momento, praticamente secos do mergulho no rio.

— Ai! — reclamou Marshall.

— Desculpe — disse Benedikt —, eu quase escorreguei nisso — levantou o pé e tirou do chão um fino pedaço de papel, um pôster que caíra de uma placa. Eles normalmente continham anúncios de serviços de transporte ou apartamentos vagos, mas aquele tinha um texto enorme no topo, alertando EVITEM O SURTO. VACINEM-SE!

— Me dê isso aqui — ordenou Roma. Benedikt passou-lhe a folha de papel e Roma a dobrou, colocando o quadradinho de papel no bolso para examiná-lo posteriormente. —

Sigam-me.

Roma irrompeu para dentro do prédio e atravessou o longo corredor, entrando no laboratório sem bater. Ele deveria vestir um jaleco sempre que entrava lá, mas ninguém jamais ousou expulsá-lo, e os vários jovens cientistas que os Rosas Brancas empregavam nesses estabelecimentos mal olhavam para cima quando Roma fazia sua visita mensal.

Eles estavam tão acostumados com sua presença que o deixaram passar, e o cientista-chefe, Lourens, conhecia Roma o suficiente para não dizer nada sobre sua má conduta. Além disso, quem questionaria o comportamento do herdeiro Rosa Branca? No que lhes dizia respeito, Roma era praticamente o responsável por suas folhas de pagamento.

— Lourens? — chamou Roma, sondando o laboratório. —

Lourens, onde está você?

— Aqui em cima — a voz grave de Lourens expandiu-se pelo laboratório em um russo com sotaque. Ele acenava do segundo andar. Roma subiu as escadas, de dois em dois degraus, com Marshall e Benedikt colados atrás dele como filhotes ansiosos.

Lourens observou a chegada deles e então franziu as sobrancelhas grossas e brancas. Não estava acostumado com visitas. Quando Roma aparecia, normalmente estava sozinho, sem fazer alarde, de cabeça baixa. Roma sempre ia sorrateiro até o laboratório, como se o ato físico de se encolher funcionasse como um escudo ante a natureza escorregadia dos negócios ilegais da facção. Talvez se ele

não andasse com a boa postura de sempre, poderia se esquivar da culpa de solicitar os relatórios mensais acerca do progresso dos produtos que entravam e saíam do laboratório.

O lugar deveria ser um centro de pesquisa Rosa Branca com tecnologia de ponta em desenvolvimento farmacêutico, aperfeiçoando remédios modernos para os hospitais que operavam em seu território. Essa, pelo menos, era a fachada que mantinham. Na verdade, as mesas ao fundo estavam manchadas de ópio e cheiravam pesado a alcatrão enquanto os cientistas aditivavam a mistura com suas toxinas singulares, até que as drogas fossem alteradas para causarem o vício mais forte.

E então os Rosas Brancas distribuiriam o produto dali para fora, trariam o dinheiro para dentro, e a vida seguiria. Não era um empreendimento humanitário; era um negócio que levava miséria a vidas já miseráveis e engordava os cofres dos ricos até estourarem.

— Eu não o esperava hoje — disse Lourens, acariciando a barba desgrenhada. O cientista estava inclinado contra o parapeito a fim de olhar para o primeiro andar, mas sua coluna arqueada fazia a posição do corpo parecer terrivelmente perigosa. — Ainda não finalizamos o lote atual.

Roma se encolheu. Cedo ou tarde, se acostumaria à maneira blasé com que as pessoas daqui banalizavam o ofício. Trabalho é trabalho, afinal.

— Não estou aqui por causa das drogas. Preciso de seus talentos.

Enquanto Roma se apressava à mesa de Lourens e empurrava a papelada para o lado a fim de liberar espaço, Marshall deu um salto à frente, aproveitando a oportunidade para se apresentar com extravagância. Sua face inteira iluminou-se, como sempre ocorria quando ele tinha a chance de adicionar outro nome à imensa lista de pessoas que conhecera.

— Marshall Seo, é uma honra conhecê-lo — Marshall estendeu a mão, fazendo uma pequena mesura.

Lourens, de juntas lentas e endurecidas, apertou a mão de Marshall com desconfiança. Seus olhos voltaram-se para Benedikt, com certa esperança, e, com um suspiro imperceptível, o primo de Roma também estendeu a mão, com pulso frouxo.

— Benedikt Ivanovich Montagov — disse. Se a impaciência já não estivesse escorrendo por sua fala, seus olhos vagos certamente comprovavam onde realmente estava sua atenção: nos insetos que Roma espalhava pela mesa de Lourens. A face de Roma estava travada em uma careta enquanto usava a manga de sua camisa para cobrir os dedos e separar cada uma das criaturas.

Com um ar pensativo, Lourens apontou o dedo para Roma.

— Ivanovich não é o seu patronímico?

Roma virou de costas para as criaturas e estreitou os olhos para o cientista.

— Lourens, o nome de meu pai não é Ivan. Você sabe disso.

— Que coisa, minha memória está mesmo decaindo com a idade se eu não consigo me lembrar do seu — resmungou Lourens — Nikolaevich? Sergeyevich? Mik…

— Podemos ver isso aqui? — interrompeu Roma.

— Ah — Lourens se voltou-se para a mesa. Sem ligar para a questão fundamental da higiene, cutucou os insetos com

as mãos nuas e seus olhos cansados piscavam, confusos. —

Para o que estou olhando?

— Encontramos eles na cena de um crime — Roma cruzou os braços, ocultando seus dedos trêmulos na malha do paletó — na qual sete homens perderam a sanidade e dilaceraram as próprias gargantas.

Lourens não reagiu à gravidade da alegação. Apenas puxou a barba mais algumas vezes, franzindo as sobrancelhas até que se tornassem uma única taturana peluda na sua testa.

— Você acha que estes insetos fizeram os homens arrancarem as próprias gargantas?

Roma trocou um olhar de relance com Benedikt e Marshall.

Deram de ombros.

— Não sei — admitiu Roma. — Esperava que você me dissesse. Confesso que não consigo imaginar por qual outro motivo encontraríamos insetos na cena do crime. A única teoria alternativa viável é a de que um monstro possa ter emergido do rio Huangpu e induzido os surtos.

Lourens suspirou. Se fosse qualquer outra pessoa, Roma poderia ter ficado um tanto irritado, por ser um indicativo de que não estava sendo levado a sério, apesar da seriedade de seu pedido. Mas Lourens suspirava até quando preparava seu chá ou abria sua correspondência. Roma já conhecia o bastante do temperamento de Lourens Van Dijk para saber que aquele era simplesmente seu estado normal.

O cientista cutucou um inseto novamente. Desta vez, puxou o dedo de volta rapidamente.

— Ah… Oh. Isso é interessante.

— O quê? — indagou Roma. — O que é interessante?

Lourens se afastou sem responder, arrastando os pés pelo piso. Procurou em sua estante e resmungou baixinho alguma coisa em holandês. Apenas quando achou um isqueiro, uma coisa pequenina e vermelha, respondeu:

— Vou lhe mostrar.

Benedikt fez uma careta, acenando com um braço em silêncio.

Por que ele é assim? disse, sem emitir sons.

Deixe-o se divertir, Marshall retrucou, também sem emitir sons.

Lourens voltou, coxeando. Pegou uma placa de Petri em uma gaveta da mesa e delicadamente coletou três dos insetos mortos, colocando-os na placa, um após o outro.

— Você devia usar luvas — disse Benedikt.

— Cale-se — respondeu Lourens. — Você não percebeu, não é?

Benedikt fez outra careta, dessa vez parecendo que chupava limão azedo. Roma suprimiu o mais ligeiro sinal de sorriso que ameaçou surgir em seus lábios e rapidamente segurou o cotovelo do primo como alerta.

— Perceber o quê? — perguntou, quando teve certeza de que Benedikt ficaria calado.

Lourens afastou-se novamente da mesa, andando até ficar a pelo menos dez passos de distância dela.

— Venham aqui.

Roma, Benedikt e Marshall o seguiram. Observaram Lourens libertar uma chama do isqueiro e aproximá-la do inseto no centro da placa de Petri, mantendo sua luz amarela e ardente no inseto até que ele começasse a murchar; o exoesqueleto reagia ao estímulo mesmo após a morte.

No entanto, estava acontecendo uma coisa estranhíssima: os outros dois insetos em cada lado queimavam junto, murchando e brilhando com o calor. Enquanto o inseto no centro se encolhia mais e mais para dentro, queimando com o fogo, os que estavam a seu lado passavam pela mesma coisa.

— Seu isqueiro é bom mesmo, hein? — comentou Marshall.

Lourens apagou a chama. Andou em direção à mesa, em um ritmo que Roma não pensava que ele fosse capaz, e segurou a placa de Petri acima do resto das dúzias de insetos que permaneceram na superfície de madeira.

— Isso não é obra do isqueiro, meu garoto.

Ele o acendeu novamente. Desta vez, enquanto o inseto sob a chama se tornava vermelho ígneo e se encolhia, acontecia o mesmo a todos os outros sobre a mesa —

grotescamente, subitamente, de uma forma que quase assustou Roma, por pensar que haviam voltado à vida.

Benedikt deu um passo para trás. Marshall levou a mão à boca.

— Como pode? — indagou Roma. — Como isso é possível?

— A distância é o determinante — disse Lourens. — Mesmo na morte, a ação de um inseto é determinada pelos outros que estão perto. É possível que não tenham uma mente própria, que os insetos que estão vivos ajam como se fossem todos um só.

— O que significa isso? — pressionou Roma. — Eles são responsáveis pelos mortos?

— Talvez, mas é difícil dizer — Lourens repousou a placa de Petri e esfregou os olhos. O pesquisador pareceu hesitante, o que era terrivelmente inesperado e, por algum motivo, fez um vazio começar a se abrir no estômago de Roma. Conhecia o cientista há muitos anos. Lourens sempre dizia o que vinha à mente, sem pensar duas vezes.