Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 18 de 40

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Prazeres Violentos

Dezesseis

Seu cabelo naturalmente liso precisava de pelo menos um quilo de cosméticos para ficar ondulado, ou então o penteado não se sustentava.

— Quero ver eles tentarem.

Roma não respondeu nada. Contraiu os lábios e olhou para os jardins. Os sobreviventes escolheram se entocar em um gazebo, soturno e vacilante. O pai de Juliette estava separado do resto, com as mãos nas costas, simplesmente observando.

Não havia nada que qualquer pessoa pudesse fazer, exceto ficar ali e ver a última das vítimas morrer.

— Uma reunião.

Roma voltou o olhar para ela, surpreso.

— Como é?

— Uma reunião — repetiu Juliette, como se o problema fosse a audição do rapaz. Ela limpou o sangue em sua face.

— É tudo o que posso prometer.

Dezesseis

Juliette levou um tempo se armando. Havia algo reconfortante no ato, algo satisfatório na sensação suave e fria de uma arma pressionando sua pele nua — uma em seu sapato, uma na coxa e uma perto da cintura.

Ela tinha certeza de que outras pessoas discordariam. Mas se Juliette seguisse os outros, não seria mais Juliette.

Após o incidente nos jardins da Concessão Francesa, o tumulto se estabelecera na mansão Cai.

— Apenas os escute — dissera a seus pais, com os olhos ardendo por causa da hora. — Ouvir não arranca pedaço…

Resmungos insatisfeitos irromperam imediatamente dos parentes reunidos nos sofás — parentes do círculo interno Escarlate e parentes que não faziam a mínima ideia do que acontecia dentro da organização. Em vez de ir dormir, todos estavam ouvindo uma proposta que Juliette direcionava apenas a seus pais, e deflagraram sua indignação, enojados que Juliette pudesse sequer cogitar a ideia de entrar em uma reunião pacífica com os Rosas Brancas…

— Calem-se! — gritou Juliette. — Calem-se, calem-se, todos vocês!

Exceto por seus pais, todos ficaram estáticos, com olhos arregalados, assustados como guaxinins pegos à luz. Juliette arfava, sua face ainda manchada com o sangue do Sr. Li. Ela estava em frangalhos.

Bom, pensou ela. Deixe que pensem que sou cruel. É

melhor do que parecer fraca.

— Pensem — disse, quando conseguiu respirar normalmente de novo. Sua explosão forçou o silêncio sobre a sala de estar. — Imaginem o que os estrangeiros devem estar pensando de nós. Imaginem o que estão discutindo entre si agora, enquanto observam seus policiais carregarem os mortos. Nós apenas confirmamos que somos selvagens, que este país é um lugar onde a insanidade se espalha como doença, arrebatando pessoas aos montes.

— Talvez isso seja bom — disse Tyler, no térreo da escadaria. Estava sentado casualmente, com os cotovelos apoiados em um degrau enquanto o resto de seu corpo repousava no piso de madeira maciça. — Por que não esperar essa insanidade seguir seu curso? Matar estrangeiros o suficiente até que eles façam as malas e saiam com o rabo entre as pernas?

— Porque não é assim que as coisas funcionam — sibilou Juliette. — Você por acaso sabe o que acontecerá em vez disso? Eles darão ouvidos às doces ladainhas de seus missionários. Tomarão para si o posto de nossos salvadores.

Farão tanques de guerra rodarem pelas ruas e trarão seus governos para Xangai. Antes que você se dê conta… —

Juliette se interrompeu. Mudou de xangainês para inglês, dando seu máximo para imitar o sotaque inglês. — “Graças aos céus fomos capazes de colonizar os chineses no tempo devido. Quem há de saber as diversas outras formas pelas quais eles poderiam ter imposto a si próprios a destruição?”

Silêncio. Muitos de seus parentes não a compreenderam quando ela falou em inglês. Não importava. Aqueles que ela precisava convencer — seus pais — a entenderam muito bem.

— A meu ver — prosseguiu Juliette, voltando a seu natural sotaque norte-americano —, se nossos gangsteres continuarem morrendo, perdemos o controle. Os operários nas fábricas de algodão e centros de ópio começarão a se agitar, a cidade inteira vai ferver em caos, e os estrangeiros assumem o trono, isso se os Comunistas não assumirem primeiro. Pelo menos os Rosas Brancas jogam no mesmo nível. Pelo menos estamos em equilíbrio, pelo menos temos metade da cidade em vez de nada.

— Fale de uma vez — disse Lady Cai, escorregando também para um inglês com sotaque. — Você quer dizer que deixar de lado a disputa com os Rosas Brancas é mais aceitável que o risco de estrangeiros nos governarem.

— Por que eles simplesmente não falam běndì huà ? —

resmungou

uma

tia,

amargurada,

sem

conseguir

acompanhar o debate.

— Uma reunião só — retrucou rapidamente Juliette, ignorando os grunhidos. — Apenas para juntarmos nossos recursos e erradicar os surtos de vez. Apenas para que os homens brancos mantenham as mãos longe deste maldito país.

E, embora ela acreditasse muito em seu argumento enquanto o proferia, tomou o maior susto de sua vida quando seus pais concordaram. Agora ela se olhava no espelho da penteadeira, alisava seu vestido e escovava uma mecha solta de seu cabelo de volta às suas ondas, apertando-a bem para que se misturasse ao gel.

Suas mãos tremiam.

Tremiam enquanto ela descia as escadas, enquanto seus saltos ressoavam pela entrada da casa, enquanto deslizava para a extremidade do banco de trás do carro para que

Rosalind e Kathleen pudessem se apertar junto com ela. As mãos tremiam e tremiam e tremiam enquanto ela apoiava a cabeça na janela, olhando para as ruas da cidade enquanto o carro passava. Ela via as pessoas sob uma nova perspectiva, observando os vendedores e seus produtos e os barbeiros trabalhando nas calçadas, deixando tufos de cabelo preto caírem no concreto.

O ânimo em Xangai desaparecera. Era como se uma mão gigante tivesse descido dos céus e arrancado a vida de cada trabalhador nas ruas — roubado a voz alta dos vendedores, o vigor dos carregadores de riquixá, o bate-papo alegre dos homens que ficavam nas lojas sem nenhum motivo além de puxar assunto com quem passava por elas.

Pelo menos até virem o carro chique descendo a rua. Aí, seus olhos assustados se estreitavam. Eles não se revoltavam abertamente, mas encaravam, e seus olhares por si só diziam muito.

Os gangsteres eram os donos da cidade. Se ela caísse, eles levariam a culpa. E então todos morreriam — na revolução política, com ou sem insanidade, com ou sem estrangeiros.

Juliette se recostou no assento, mordendo a parte interna de suas bochechas com tanta força que o gosto metálico inundou sua boca. A menos que conseguisse fazer algo, tudo aquilo teria um desfecho péssimo.

— Terrível, não é? — sussurrou Rosalind, se inclinando para olhar pela janela.

— Não por muito tempo — respondeu Juliette, prometendo.

— Não se eu puder evitar.

Suas mãos pararam de tremer.

Alisa Montagova memorizara quase todas as ruas de Xangai. Em sua cabeça, em vez de dendritos e sinapses, ela fantasiava que havia um mapa vivo da cidade, sobrepondo seus lobos temporais e seu par de amígdalas até que ela fosse inteiramente feita dos lugares em que esteve.

Quando Alisa sumia dos lugares em que deveria estar, normalmente estava bisbilhotando a conversa de alguém.

Podia ser em sua própria casa ou na cidade inteira, Alisa não fazia distinção. Às vezes ela pescava as mais interessantes migalhas de assuntos de quem vivia a seu redor, pedacinhos que se uniam das maneiras mais inesperadas se ela ouvisse o suficiente de pessoas diferentes.

Hoje, no entanto, foi só frustração.

Suspirando, Alisa desceu do duto de ventilação no qual se espremera, desistindo da discussão entre o Sr. Lang e sua velha mãe. Havia alguns rumores de instabilidade dentro da Sociedade Escarlate, de Lorde Cai sendo destronado por seu cunhado, mas era pura balela. A única ameaça que o Sr.

Lang representava era matar a própria mãe de tédio em visita a seu pequeno apartamento na cidade, reclamando constantemente da forma como ela fazia seus dumplings.

— Coitada — Alisa disse para si mesma. Da laje do terceiro andar em que se encontrava, ela olhou para baixo, coçando a cabeça. Há uma hora, ela conseguira se esgueirar até ali escalando uma barraquinha de rua. Por apenas um centavo (comprou um pãozinho de vegetais) o velho deixou-a subir na estrutura para que sua perna alcançasse a janela do segundo andar do bloco de apartamentos.

Então o vendedor juntou suas coisas e levou consigo sua carrocinha convenientemente alta.

Fechando a cara, Alisa procurou por uma saliência que encurtasse a distância entre o segundo andar e o solo, mas não conseguiu ver algo que pudesse usar daquele lado do prédio. Ela teria que encontrar outro jeito de descer, e rápido. O sol se punha velozmente, e Roma havia ameaçado tomar todos os seus sapatos se não aparecesse na reunião hoje à noite, o que, para Alisa, era um castigo que a fazia tremer da cabeça aos dedos friorentos dos pés.

— Eles irão nos inspecionar até o último detalhe — dissera Roma. — Vão observar cada movimento do Papa. Vão perceber a notoriedade de Dimitri. Não os deixe notar que você não está lá. Então Alisa tampou o nariz e deslizou por um cano que dava no beco atrás do prédio. Havia tanto lixo ali que ela teve problemas até para respirar pela boca. Era como se o fedor estivesse sendo absorvido por sua língua.

Grunhindo, Alisa atravessou o lixo, tentando estimar o quanto estava atrasada. O sol já estava terminando de se pôr, quase fora de vista de dentro da cidade, enfiado nos prédios à distância. Ela estava tão absorta em sua preocupação que quase não ouviu um chiado até que estivesse bem perto.

Alisa ficou estática.

— Olá? — disse, no primeiro dialeto chinês que brotou em sua língua. — Tem alguém aí?

E, em russo, uma voz fraca respondeu:

— Aqui.

Alisa voltou desajeitada, apressando-se pelos sacos de lixo em busca da pessoa que falava. Seu olhar aterrissou em um borrão vermelho. Quando ela chegou perto, a forma de um homem apareceu em meio ao lixo, perto do muro.

Ele jazia em uma poça de seu próprio sangue, com a garganta despedaçada.

— Ah, não.

Não foi preciso que a genialidade de Alisa fosse empregada para que ela entendesse que o homem era uma vítima da insanidade que assolava Xangai. Ela ouvira o irmão murmurando a respeito, mas ele não lhe diria nada concreto, e nunca discutiria o assunto em lugares nos quais ela pudesse estar ouvindo. Talvez de propósito.

Alisa não reconheceu a vítima diante de si, mas ele era um Rosa Branca e, pela aparência de suas roupas, deveria estar em expediente nos portos próximos dali. Alisa parou, sem equilíbrio. Seu irmão a havia alertado para ficar longe, muito longe de qualquer um que parecesse, mesmo um pouco, esquisito.

Mas Alisa nunca escutava. Ficou de joelhos.

— Socorro! — gritou. — Socorro!

Uma repentina movimentação irrompeu no fim do beco, com um burburinho confuso e irritadiço que vinha de outros Rosas Brancas se aproximando para ver do que se tratavam os gritos. Alisa aproximou a orelha da boca do moribundo, necessitando saber se ele ainda respirava, se ainda estava vivo.

Ela chegou bem no momento de seu último e longo suspiro.

Morto.

Alisa cambaleou para trás, atordoada.

Os outros Rosas Brancas se reuniram em volta dela, e sua irritação se tornou tristeza assim que entenderam porque Alisa estivera gritando. Muitos tiraram seus chapéus e os seguraram contra o peito. Não estavam surpresos em ver

tal cena diante deles. Pareciam conformados — outra morte para se juntar às centenas que já haviam ocorrido diante de seus olhos.

— Vá embora, pequena — disse gentilmente o Rosa Branca mais próximo de Alisa.

Alisa ergueu-se lentamente, deixando os homens lidarem com o parceiro morto. De algum modo, desorientada, ela encontrou o caminho de volta às ruas, olhando para o céu alaranjado.

A reunião!

Ela começou a correr, xingando baixinho enquanto sacava seu mapa mental em busca da rota mais rápida. Alisa já estava perto do Rio Huangpu, mas o endereço que memorizara estava bem mais ao sul, no setor industrial de Nanshi, onde as fábricas de algodão funcionavam e os prédios mudavam de comerciais a industriais.

As organizações rivais se encontrariam ali, longe das divisas definidas de seus territórios, longe dos limites bem estabelecidos do que era Escarlate e do que era Rosa Branca. Em Nanshi só havia fábricas. Mas, entre elas, havia donos de fábricas que eram subsidiados pelos Escarlates ou associados dos Rosas Brancas, ou operários com faces sujas, vivendo sob o jugo da máfia, mas indiferentes ao movimento das marés.

Alguns daqueles operários costumavam jurar lealdade a uma ou a outra facção, assim como os empregados do centro da cidade. Mas a remuneração das zonas rurais começou a despencar e os donos de fábricas começaram a ficar mais ricos. Então os Comunistas vieram e começaram a sussurrar a revolução em seus ouvidos e, afinal, só

poderia haver revolução se as cabeças de quem está no poder fossem cortadas.

Alisa deu sinal para um riquixá e subiu no assento. O

homem que o puxava lhe deu um olhar estranho, provavelmente se perguntando se ela tinha idade para estar correndo por aí sozinha. Ou talvez pensasse que ela era uma fugitiva, uma daquelas dançarinas russas fugindo das dívidas. Aquelas mulheres eram vistas como os adereços mais baratos de Xangai — com a aparência muito ocidental para serem chinesas e o comportamento muito parecido com o das locais para serem exoticamente estrangeiras.

— Siga em frente até ver prédios que parecem que vão desabar — Alisa pediu ao puxador do riquixá.

O riquixá começou a se mover.

Na hora em que Alisa chegou, o sol já estava quase completamente sob o horizonte; apenas um traço seu flutuava por cima das ondas amareladas. Ela esperou na frente do prédio que Roma havia descrito, confusa e tremendo devido aos primeiros sinais de frio noturno. Seu olhar moveu-se da porta fechada do armazém abandonado para dez passos dali, onde uma jovem chinesa fitava o rio.

Àquela distância ao sul, o Huangpu tinha uma cor diferente, quase cinzenta. Talvez fosse por causa da fumaça que pairava no ar ao redor delas, um pouco da fábrica de farinha, um pouco da fábrica de óleo adjacente. A Companhia de Águas Francesa também se estabelecera ali.

Sem dúvida sua tubulação contribuía para os entupimentos da região. Alisa deu um passo hesitante à frente, com esperanças de pedir à jovem que confirmasse onde estavam. Sua manta de pele farfalhava à brisa, com um tom ligeiramente alaranjado sob o pôr-do-sol.

— Ainda não começou. Não se preocupe.

Alisa piscou ao ouvir palavras em russo, surpresa por um breve momento. Tudo fez sentido quando a garota deu meia-volta e Alisa reconheceu seu rosto.

— Juliette — disse Alisa, sem pensar. Engoliu em seco em seguida, imaginando que apanharia por falar o nome da herdeira tão casualmente.

Mas a atenção de Juliette estava voltada para o isqueiro em sua mão. Ela brincava levianamente com ele, girando a pederneira e em seguida apagando a chama assim que nascia.

— Alisa. Acertei?

Aquilo era uma surpresa. Todos em Xangai conheciam Roma. Conheciam seu sangue frio e sua reputação como o metódico e calculista herdeiro dos Rosas Brancas. Mas Alisa, que pouco tinha a ver com aquilo, era um fantasma.

— Como sabe?

Juliette finalmente olhou para cima e ergueu uma sobrancelha, como se respondesse, Como eu não saberia?

— Você é a cara de Roma — disse ela. — Eu chutei.

Alisa não sabia o que responder, nem o que dizer como um todo. Foi salva por um jovem Rosa Branca que abriu a porta do armazém e colocou a cabeça para fora, avistando Alisa primeiro e depois encarando Juliette. A animosidade não era inesperada, mesmo que as organizações tenham acordado se comportar hoje. Os simples preparativos daquela reunião mandaram cinco de seus homens ao hospital depois que uma das mensagens enviadas ao território Escarlate foi entregue com um pouco de violência.

— É melhor entrar, senhorita Montagova — disse o garoto.

— Seu irmão está perguntando pela senhorita.

Alisa anuiu, mas seu olhar curioso ficava voltando para Juliette.

— Você não vai entrar?

Juliette sorriu. Havia um divertimento oculto naquilo, do tipo que tinha uma causa que todos gostariam de saber, mas nunca conseguiriam identificar.

— Em um instante. Vá na frente.

Alisa correu para dentro.

O clima dentro do armazém poderia ser melhor descrito com a palavra “glacial”. Lorde Cai e Lorde Montagov simplesmente se encaravam de lados opostos da sala, ambos sentados às suas respectivas mesas nas metades separadas do armazém.

Não havia muitas pessoas ali e, embora o armazém fosse pequeno, a quantidade de pessoas era reduzida o bastante para que parecesse espaçoso. Alisa contou menos de vinte em cada lado, o que era bom. Os gangsteres haviam se dispersado

em

pequenos

grupos,

fingindo

estar

conversando, mas, na verdade, cada lado observava atento o outro, esperando o menor sinal de emboscada. Pelo menos era improvável que qualquer um deles agisse sem ordens de Lorde Cai ou de Lorde Montagov. A reunião barrara a presença de membros do alto escalão das duas gangues, a menos que compusessem o círculo interno. É

mais difícil controlar os poderosos. Já os mensageiros e capangas fariam o que lhes ordenassem e serviriam de escudos humanos no caso de a coisa desandar.

Ela avistou Roma no canto, de pé, estoico e afastado de Benedikt e Marshall. Quando ele viu Alisa, acenou vigorosamente para ela.

— Já era hora.

Roma lhe entregou a jaqueta que trazia nas mãos. Ele a levara consigo porque sabia que Alisa sempre esquecia seus casacos e acabava tremendo de frio.

— Desculpe — disse ela, ajeitando a jaqueta nos ombros.

— Já aconteceu alguma coisa interessante?

Alisa passou os olhos pela mesa a seu lado. Seu pai estava sentado como uma geleira. A seu lado, Dimitri estava relaxado, com o pé apoiado sobre o joelho da outra perna.

Roma balançou a cabeça negativamente.

— Por que você se atrasou tanto?

Alisa engoliu em seco.

— Esbarrei em uma pessoa interessante lá fora.

Como se a mera menção a tivesse conjurado, Juliette entrou pela porta. Cabeças se voltaram na direção dela, que simplesmente manteve o olhar firme, sem nenhuma emoção.

Roma contraiu os lábios.

— Eu não deveria ter que dizer isso — alertou, em voz baixa —, mas fique bem longe dela. Juliette Cai é perigosa.

Alisa revirou os olhos.

— Sério que você acredita naquelas histórias dela matando os namorados norte-americanos com as mãos nuas…

Roma a cortou com um olhar afiado. Todavia, sua carranca não durou muito, pois sua atenção se desviou e o que quer que ele tenha visto o deixou completamente tenso.

Alisa acompanhou seu olhar, confusa. A expressão de Juliette não era mais de cinismo e zombaria. Ela acenou com a cabeça para Roma. Percebendo a expressão de Roma, igualmente séria, Alisa notou que definitivamente havia perdido algum detalhe.

— Alisa.

Ela acordou da reflexão, fitando o irmão, que já olhava para outro lugar.

— O que foi?

Roma franziu o cenho, esticou o braço na direção da menina e tirou as mãos da irmã da cabeça. Ela nem percebera que estava se coçando intensamente, puxando mechas de cabelo loiro platinado da raiz, que se enrolavam em seus dedos como fios de joias.

— Desculpe — disse Alisa, juntando as mãos nas costas.

Ela sentia a pele pinicando e ardendo. Talvez fosse a jaqueta quente, mas uma sequência de calafrios em sua clavícula indicava que não. — Estou com muito calor.

— Quer o quê, que eu te abane? — resmungou Roma. —

Fique sentada. Vamos torcer para que isso não dê merda.

Alisa anuiu e sentou-se, tentando não se coçar.

Quando Juliette entrou, foi o peso da arma em sua coxa que lhe aliviou o peso dos olhares que recebeu. Ela acenou com a cabeça a seus pais para lhes assegurar e então direcionou o olhar para o resto do espaço. Nos primeiros segundos, ela assimilou cada rosto, ligou-os a nomes, e os classificou em ordem de periculosidade.

Lá estava Dimitri Voronin. Juliette já ouvira que ele era agressivo e impossível de controlar, mas hoje Lorde Montagov apreciava a diplomacia — ou pelo menos dizia que sim — então Dimitri permaneceria em silêncio. Também via Marshall Seo, girando o que parecia ser uma lâmina de grama nos dedos como se fosse uma lâmina real. A seu lado, Benedikt Montagov estava sentado com expressão neutra, parecendo uma estátua pensativa.

E, é claro, lá estava Roma.

Juliette se juntou a Rosalind e Kathleen em seus lugares, puxando uma cadeira e sentando-se nela. Com grande relutância, concluiu que nenhum dos Rosas Brancas parecia ser mais volátil que Tyler, que praticamente tremia em seu assento, se esforçando para se manter em silêncio.

— Isso é para você — disse Kathleen, notando a chegada de Juliette.

Ela deslizou um pedaço quadrado de papel pela mesa para a prima. Juliette levantou um cantinho dele e leu breves rabiscos com números e nomes de rua. Kathleen cumprira sua missão. Encontrou-se com seu contato novamente e conseguiu o endereço pessoal de Zhang Gutai.

— Descobriu algo no Bund? — indagou Juliette, guardando o endereço.

— Os banqueiros não sabiam de nada — respondeu Kathleen. — Apenas uma mulher tinha informação e achou ter visto um monstro dentro do rio.

Juliette matutou sobre a situação.

— Interessante.

Rosalind pigarreou, se inclinando.

— Sobre o que estamos sussurrando?

— Ah — Juliette gesticulou. — Nada demais.

Rosalind estreitou os olhos. Parecia que ia dizer algo, acusar Juliette de dispensá-la. Não seria de todo injusto —

Juliette, de fato, estava tentando evitar a expansão desnecessária do assunto, tentando ficar quieta enquanto estavam em um armazém repleto de Rosas Brancas.

Rosalind entendeu o recado. Mudou de assunto.

— Dê uma olhada em Tyler. Ele está quase esperneando de birra. Juliette virou-se. Seu rosto estava impregnado de desgosto. A tremedeira dele ficara mais forte.

— Talvez devêssemos pedir-lhe para se retirar.

— Não — Kathleen balançou a cabeça negativamente e então ergueu-se do assento. — Eu falo com ele. Pedir para ele sair causaria ainda mais problemas.

Antes que Juliette e Rosalind pudessem reclamar, Kathleen já estava indo; afastou a cadeira e andou em direção a Tyler, sentando-se a seu lado. Juliette e Rosalind não conseguiam ouvir o que Kathleen dizia, mas percebiam que Tyler não lhe dava ouvidos, mesmo quando Kathleen pegou o cotovelo dele e lhe deu uma forte sacudida.

— Ela é gentil até demais — comentou Rosalind.

— Deixe-a — respondeu Juliette. — Muitos corações gentis se esfriam dia após dia.

Um silêncio começou a tomar o armazém. A reunião estava começando. Do canto do olho, Juliette percebeu que Roma a fitava novamente. Ela queria que ele parasse com aquilo. Toda aquela situação era estranha, tanto pelas razões óbvias quando pelas que ela não conseguia desvendar com precisão. Unir a Sociedade Escarlate e os Rosas Brancas parecia um ato de cooperação, mas também dava a sensação de derrota.

Todavia, eles não tinham escolha.

— Bom, eu espero que todos estejam tendo uma agradável noite.

O silêncio seguiu imediatamente as palavras de Lorde Montagov. Ele falava no dialeto pequinês, a língua chinesa mais comum, a que comerciantes e executivos estrangeiros aprendiam primeiro, mas com sotaque. As gerações mais velhas não eram tão fluentes quanto seus filhos.

— Irei direto ao ponto — disse. — Há surtos nesta cidade que estão matando tanto Escarlates quanto Rosas Brancas.

Lorde Montagov parecia uma pessoa amistosa. Se Juliette não o conhecesse bem, diria que era paciente e tranquilo.

— Logo, estou certo de que concordarão comigo —

prosseguiu ele. — Isso precisa parar. Seja uma doença fabricada por homens ou uma ocorrência natural, precisamos de soluções. Precisamos descobrir por que isso está afetando nossos homens com tanta intensidade e, enfim, precisamos impedir isso.

Apenas se ouvia o silêncio.

— Sério? — disse uma voz sarcástica. Não era direcionada a Lorde Montagov, mas à silenciosa Sociedade Escarlate.

Marshall Seo se levantou. — Com a cidade inteira morrendo, vocês ainda se recusam a falar?

— É que me parece, simplesmente — disse Lorde Cai, com frieza —, que quando uma pessoa anuncia um plano para erradicar a insanidade, deve oferecer algumas de suas próprias soluções primeiro.

— Não foi sua filha quem sugeriu este encontro?

A fala veio de Dimitri Voronin, que dava de ombros de uma maneira blasé, totalmente desinteressada.

— Nossa filha — cortou Lady Cai, com voz de trovão —

buscou começar um diálogo. Não houve promessa nem garantia de troca de inteligência.

— Típico — zombou Dimitri.

O comentário não caiu bem na Sociedade Escarlate. Os capangas que cercavam Lorde Cai se remexeram em seus assentos, aproximando cada vez mais as mãos das armas ocultas em seus flancos. Lorde Cai fez um gesto impaciente, ordenando a todos que se acalmassem.

— Esta é a situação corrente — disse Lorde Cai. Pôs as mãos sobre a mesa, com as palmas sobre a superfície fria.

— Sob as atuais circunstâncias, temos pistas e fontes para discutir se desejamos investigar estes surtos.

Lorde Montagov abriu a boca, mas o pai de Juliette ainda não havia concluído.

— Isso significa — continuou Lorde Cai — que nós não precisamos de sua ajuda. Compreenderam? Estamos aqui na esperança de ampliar nosso conhecimento e agilizar nossas investigações. Esta é a posição da Sociedade Escarlate. Dito isto, os Rosas Brancas desejam compartilhar seu conhecimento, suas ideias, e efetivamente começar a cooperar, ou compareceram a esta reunião apenas como sanguessugas, como têm sido por décadas?

Enquanto aconteciam as provocações, olhos se moviam para a direita e para a esquerda; olhares se cruzavam em todas as direções. Todos estavam em um diálogo não falado, um lado fazendo a pergunta onipresente e o outro lado respondendo com o mais breve balançar de cabeça.

Ocorreu a Juliette que talvez os Rosas Brancas não tenham oferecido trilhas investigativas porque não tinham nenhuma. Contudo, para eles, admitir que não tinham nada era tão ruim quanto fornecer todos os seus segredos comerciais. Uma concessão de poder. Seria preferível manter a Sociedade Escarlate no lado da hostilidade.

E alguns Escarlates caíram nessa.

Enquanto Marshall Seo ridicularizava os insultos, murmurando réplicas inaudíveis, Tyler saltou, incapaz de se conter por mais tempo. Em dois ou três passos, ele cruzou a metade Escarlate do armazém.

E Benedikt sacou sua arma, freando Tyler onde estava.

O salão inteiro prendeu a respiração, incerto do que fazer em seguida, se agora era um bom momento de reagir com violência, se o simples ato de apontar uma arma clamava por retaliação. Juliette tocou sua arma, mas estava mais preocupada em analisar aquela reviravolta, tentando usar a lógica.

Foi Marshall de mãos calejadas quem sofreu a ameaça, mas foi Benedikt de dedos manchados de tinta quem reagiu.

As mãos de Juliette se afastaram do coldre na coxa. Ela compreendeu. Benedikt ergueu a arma para impedir que Marshall o fizesse primeiro. Marshall atiraria, Benedikt, não.

— Nós pensamos que esta reunião seria pacífica — disse ele, calmamente, tentando desfazer a tensão perante si. Ele não sabia com quem estava lidando. Tyler não era razoável; explodiria primeiro e daria um jeito de se livrar das consequências depois.

— Ah, que lindo — zombou Tyler. — Você saca a arma e vem falar de paz. Paz.

Em um lampejo, o revólver de dois tiros de Tyler estava em suas mãos, apontado para Benedikt. Juliette ficou de pé em um instante, movendo-se tão rapidamente que sua cadeira caiu, mas Tyler foi mais veloz e já estava para atirar.

— Eu odeio essa palavra tanto quanto odeio os Montagoves.

Ele puxou o gatilho. O som do tiro ecoou pelo armazém, provocando arquejos vindos de todas as direções.

Mas Benedikt apenas piscava, ileso.

Juliette freou, respirando com dificuldade, com olhos arregalados enquanto se virava e procurava por Kathleen.

Kathleen deu uma piscadela para Juliette quando fizeram contato visual. Abriu a mão para mostrar a ela as seis balas que ali estavam.

Não houve dano físico, mas o estrago já estava feito.

Cadeiras eram afastadas e gangsteres ficavam de pé, destravando, preparando e apontando suas pistolas —

firmes, mesmo quando os gritos começaram.

— Se é assim que deve ser — anunciou Lorde Montagov, por sobre o barulho, as acusações e os palavrões inflamados

—, então a Sociedade Escarlate e os Rosas Brancas nunca cooperarão entre…

Ele não terminou sua declaração.

Um ruído sufocado vinha do canto do armazém — um arquejo

baixo,

repetido.

Confusos,

os

gangsteres

procuraram sua origem, atentos a qualquer armadilha.

Eles não esperavam que o ruído viesse de Alisa Montagova, que chiava uma última vez antes de cair de joelhos, lançando os dedos em sua garganta.