Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 26 de 40

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Prazeres Violentos

Vinte e Quatro

Havia sangue escorrendo pela testa da mulher. Mais anéis de sangue manchavam o espaço ao redor de seu pescoço, mas pelo menos não havia nenhuma ruptura perto de um vaso vital. Ela sobreviveria até que eles chegassem ao laboratório.

É uma pessoa, sibilava uma voz nas alcovas mais profundas da mente de Benedikt. Você não pode sequestrar uma pessoa na rua e fazer dela uma cobaia.

Ela morreria de qualquer jeito.

E você tem o direito de decidir quando?

Sem isso, mais pessoas morreriam.

Você já matou pessoas demais para dizer que se importa com a vida humana.

— Me ajude — Benedikt pediu a Marshall, lutando contra o peso morto da mulher.

Marshall fez uma careta.

— Tá, tá — resmungou, se aproximando. Com a faca na mão, cortou a longa trança da mulher, e a mecha caiu no chão com um sereno baque.

— Para prevenir que a gente se contamine — explicou Marshall. Ele agarrou as pernas dela, dividindo o peso. —

Agora, vamos. Lourens já deve estar encerrando o expediente.

Vinte e quatro

Juliette estava com os punhos cerrados.

Abre, fecha, abre, fecha. Suas mãos estavam coçando muito para fazer algo.

Em grande parte, estavam loucas para obter a ampola que Roma enfiara na manga da camisa. Juliette não pedira por ela — não passaria de seus limites assim, fazendo o rapaz pensar que ela desconfiava tanto dele. Mas era um verdadeiro teste de autocontrole manter as mãos quietas e não tentar afaná-la.

— É logo depois dessa esquina — assegurou Roma, alheio ao conflito interno de Juliette ou mal interpretando-o. —

Estamos quase lá.

Ele lhe dirigiu a palavra como se ela fosse um coelho arisco prestes a saltar. Juliette estava inquieta, mas não era porque estava em território Rosa Branca que se permitiria ser atacada, e quanto mais Roma tentava ser gentil com ela, mais ela retorcia o nariz.

— Você está mais nervoso do que eu — comentou Juliette.

— Não estou — rebateu Roma. — Eu simplesmente sou cuidadoso.

— Eu não me lembro de você olhar para trás a cada segundo quando entrou no cabaré Escarlate.

Na verdade, ela se recordava dele parecendo muito confiante, o que a irritou imensamente.

Roma lançou-lhe um olhar lateral, estreitando os olhos cansados. Ele precisava de um momento para achar uma

resposta e, quando achou, simplesmente resmungou:

— Os tempos mudaram.

E haviam mudado mesmo. A começar pelo simples fato de que Roma e Juliette estavam andando lado a lado e mesmo assim os braços de Juliette se moviam normalmente, afastados de suas armas.

Quando dobraram a esquina, Juliette imediatamente avistou o centro de pesquisas que Roma havia descrito.

Entre os prédios, era o único com um tom mais prateado que marrom, exibindo placas de metal que reluziam sob a luz da lua, enquanto os outros, construídos com reboco ou madeira, tinham um brilho trivial. Ela deu um tempo para admirar a vista, mas Roma foi velozmente até a porta, há muito tempo habituado àqueles detalhes.

— Você custeou isso? — perguntou Juliette.

Ela observou a elegante fechadura que Roma abria. Os olhos dele estavam focados nos números que rodopiavam rapidamente no painel, movendo o disco até as centenas antes que caíssem para 51, 50, 49… Embora o interior das portas com vidraças estivesse escuro, ela conseguiu vislumbrar um longo corredor e uma única porta que emitia luz.

— Eu não — respondeu Roma.

Juliette suspirou longamente.

— Os Rosas Brancas custearam esse lugar, seu engraçadinho?

A fechadura clicou. Roma abriu a porta e gesticulou para Juliette entrar.

— Sim.

Juliette assentiu. Havia alguma surpresa, algum reconhecimento, e uma pontinha de aprovação no leve

movimento de sua cabeça. A Sociedade Escarlate nunca custearia algo assim. Ela presumiu que os Rosas brancas provavelmente testavam seus produtos aqui, se certificando de que as drogas que vendiam eram o que os comerciantes diziam ser, mas, com uma tecnologia daquelas, havia infinitas possibilidades de pesquisa e inovação.

Os chineses ainda eram pessoas do passado. Enfatizavam textos clássicos e poesia em detrimento da ciência, e isso ficava evidente — nas espeluncas apertadas e escuras em que punham os testadores de drogas dos Escarlates, nos milhares de poemas que foram dados a Juliette para que ela memorizasse antes que lhe ensinassem o básico sobre seleção natural.

Ela fitou as lâmpadas elétricas organizadamente espaçadas, todas apagadas no momento. Mesmo enquanto estava envolta em sombras, conseguia localizar as linhas incólumes no teto, as lâmpadas que eram minuciosamente polidas pelo pessoal da limpeza todo final de semana, pontualmente.

— Lourens, deixe-me entrar.

O corredor subitamente iluminou-se, mas não pelas lâmpadas. A única porta que transbordava luz se abrira.

— Zdravstvuyte, zdravstvuyte — berrou Lourens, colocando a cabeça para fora ao cumprimentá-lo. Ele vacilou quando viu Juliette. — Ei… nǐ hǎo?

Sua desorientação era quase adorável.

— O senhor não precisa mudar de idioma — respondeu ela, em russo, andando em direção ao laboratório.

Internamente,

Juliette

pensou

rapidamente

nas possibilidades do sotaque do pesquisador. — Mas podemos falar em holandês, se o senhor desejar.

— Ah, não precisa — disse Lourens. Intrigado, as rugas perto de seus olhos se intensificaram. Ele nunca se sentira tão cativado. — Roma, coitado, se sentiria terrivelmente deslocado.

Roma fez uma careta.

— Espera aí, eu — e se interrompeu. Virou para a porta, parecendo estar com os ouvidos em alerta. — Tem alguém vindo?

De fato, naquele momento, duas figuras brotaram pela porta, carregando entre elas uma forma suspensa — uma mulher inconsciente em uma farda Nacionalista. Benedikt Montagov piscou, atônito e desconcertado por ver Juliette a poucos metros de seu primo. Marshall Seo apenas fungou, acenando para que abrissem caminho e eles pudessem entrar no laboratório. As mesas de trabalho haviam sido esvaziadas, limpas e polidas, preparadas para servir como uma superfície espaçosa onde pudessem deitar a Nacionalista. Assim que foi posta sobre a mesa, seu corpo ficou estático, mas seu cabelo farfalhava, com partes do couro cabeludo tendo espasmos.

Juliette levou a mão à boca. Seus olhos seguiram a trilha de sangue que maculava o pescoço da Nacionalista, pequenas luas crescentes que pareciam o resultado de unhas afiadas. Aquela mulher estava infectada com a insanidade. Mas ainda não estava morta.

— Desculpe entrar assim — disse Marshall Seo. Ele soava como se estivesse um pouco orgulhoso demais de si mesmo para pedir desculpas genuínas. — Estamos interrompendo alguma coisa?

Roma pôs sua ampola sobre outra mesa. O azul de seu líquido cintilava sob a intensa luz branca.

— Só a resposta sobre a vacina de Larkspur, mas isso pode esperar — disse ele. — Lourens, você queria fazer experimentos em uma vítima viva da insanidade, correto?

— Certamente, mas — Lourens gesticulou na direção de Juliette. — Há uma dama presente.

— A dama tem interesse em observar seus experimentos, por favor — disse Juliette. Salvo por seu breve espanto ao ver a Nacionalista, seria impossível perceber qualquer sinal de perplexidade em Juliette. Ela falava como se aquilo fosse uma ocorrência rotineira.

Lourens soltou um suspiro. Passou a mão pela sobrancelha, com um movimento lento, mesmo quando o mundo a seu redor acelerava com o surgimento da Nacionalista à beira da morte.

— Pois bem. Vejamos se conseguimos achar uma cura.

E começou.

Juliette assistia fascinada enquanto o cientista trazia uma caixa e retirava seu conteúdo, enchendo o laboratório com equipamentos e maquinário muito mais adequados a um hospital do que a uma instalação de testes de drogas.

Lourens colheu amostras de sangue e tecido e, com os lábios contraídos, até mesmo coletou folículos capilares da Nacionalista na mesa, colocando-os em um microscópio e tomando notas em velocidade recorde. Juliette cruzou os braços e batia o pé, ignorando os murmúrios entre os três Rosas Brancas no lado oposto da sala. Suas orelhas ficariam ardendo se ela os ouvisse. Ela não sabia qual outro assunto poderia entretê-los tanto, qual outro assunto faria Roma gesticular com intensidade enquanto sibilava em voz baixa para seus dois amigos.

— Isso é ruim.

O comentário de Lourens rapidamente atraiu a atenção dos três que estavam no canto.

— O que descobriu? — indagou Roma, se afastando dos amigos.

— Esse é o grande problema — respondeu Lourens. —

Nada. Mesmo com equipamento avançado, não vejo nada que os médicos em toda a Xangai já não tenham visto. Não há nada nessa mulher que sugira uma infecção de qualquer tipo.

Juliette franziu o cenho e então se apoiou na mesa atrás dela, em silêncio.

Marshall questionou:

— Então não há forma de curar os surtos?

— Impossível — rebateu imediatamente Roma. Para o bem de sua sanidade, ele precisava acreditar que existia uma cura. Não podia nem mesmo se permitir que nutrisse a ideia de que sua investigação não dera em nada e que Alisa jamais despertaria novamente.

— Talvez não seja uma questão de não haver cura —

complementou Benedikt, falando em um tom mais tranquilo. Suas palavras foram proferidas com o tom mais límpido, como se ele tivesse ensaiado a frase em sua cabeça antes de verbalizá-la. — Você disse que esses surtos foram criados por alguém, afinal de contas. Se há uma cura, está escondida de nós. Se há uma cura, apenas quem projetou a insanidade tem a fórmula.

Lourens tirou as luvas. As máquinas à sua volta emitiam ruídos em diferentes tons, dando ao laboratório um ar quase musical.

— Muitos fatores — disse Lourens. — Muitos segredos, muitos dados que não temos. Seria absurdo tentar isso…

— O senhor ainda não tentou de tudo — disse Juliette.

Todos os pares de olhos no local — os que estavam conscientes, pelo menos — voltaram-se para ela. Juliette ergueu o queixo.

— O senhor coletou o sangue, examinou a pele… é tudo muito humano, muito corpóreo. — Juliette foi em direção à Nacionalista inconsciente, fitou aquela entidade de carne, aquele receptáculo de vida que fora alterado. — Esta insanidade não é natural. Por que tentar desenvolver uma cura natural? Abra a cabeça dela. Puxe os insetos para fora.

— Juliette — repreendeu Roma —, isso é…

Lourens já estava indo atrás de um bisturi, dando de ombros sem cerimônia.

— Espere — disse Benedikt. — Da última vez…

A ponta da lâmina entrou no couro cabeludo da Nacionalista. Lourens separou gentilmente uma porção de seu cabelo para abrir um espaço e puxar um inseto…

A Nacionalista se debateu violentamente. A mesa inteira sacudiu e Juliette não sabia se isso a tinha feito ranger terrivelmente ou se, na verdade, foi o arquejo rasgado da moça que ecoou pela sala. Em um instante a mulher se confundia com um morto; no outro, agonizava, com a mão travada no peito e as pernas rigidamente retas. Seus olhos permaneciam cerrados. Eles só puderam notar sua morte quando sua mão se desprendeu do peito, balançando na lateral da mesa como um pêndulo.

Seu cabelo, novamente, se agitou. Desta vez não era porque os insetos estavam invadindo — eles estavam saindo, alguns descendo pelo pescoço em pequenas linhas negras, se apressando em uma evacuação em massa tão ordenada que lembrava um fluido escuro.

Outros saíram voando, saltando sem aviso para se fixar no que estivesse mais perto.

Para dois insetos, o hospedeiro mais próximo era a barba de Lourens.