Prazeres Violentos
Vinte e Três
Roma anuiu com a cabeça.
— Vamos.
Vinte e três
Um dia, este lugar deve ter sido silencioso. Talvez houvesse o ruído ocasional dos cascos de um cavalo, passando de pasto a pasto até que os sulcos forjados no solo gerassem uma trilha. Em alguns breves anos, trilhas forjadas
por
séculos
de
passos
pesados
foram
pavimentadas. Pedrinhas que se pensavam imortais foram reduzidas a nada; árvores mais velhas que nações inteiras foram derrubadas e destruídas.
E, no lugar delas, brotou a cobiça. Brotou em trilhos de trem, ligando vilarejo a vilarejo até que não houvesse mais fronteiras. Brotou em fios e tubulações e apartamentos, empilhados um por cima do outro com pouco planejamento.
Juliette achava que a Concessão Internacional deve ter ficado com o pior de tudo aquilo. Os invasores não podiam apagar as pessoas que já viviam dentro da área que decidiram chamar de sua, mas podiam apagar todo o resto.
Para onde foram as lanternas? , pensou Juliette, parando na beira da rua e erguendo a cabeça. O que é Xangai sem suas lanternas? — Chegamos — disse Roma, interrompendo seu devaneio.
— Aqui é o endereço dos panfletos.
Ele apontou para o prédio atrás daquele que Juliette estava fitando. Por um segundo, enquanto observava a construção, Juliette pensou que seus olhos estavam lhe pregando uma peça. Era uma noite escura, mas havia a luz fraca de lâmpadas a óleo que fluía pelas janelas, suficiente
para iluminar dezenas de pessoas do lado de fora: uma fila que começava na porta da frente, tão longa que dava três voltas ao redor do prédio.
Ela foi em frente.
— Juliette! — sibilou Roma. — Juliette, espere…
Não importa, Roma, ela queria lhe dizer. Sabia o que ele estava pensando, ou pelo menos tinha uma ideia aproximada: era necessário ter cuidado, evitar serem vistos juntos. Os assassinos de Larkspur estavam no encalço deles, então precisavam saber a quem representavam um incômodo. Não importa, ela queria gritar. Se seu povo não parasse de morrer, se eles não conseguissem salvar o que estavam tentando preservar, nada mais nesse mundo importava.
Juliette foi empurrando as pessoas até chegar à frente da fila. Quando um homem mais velho tentou empurrá-la de volta, ela soltou o palavrão mais nojento que conhecia em xangainês e ele murchou como se a vida tivesse sido drenada de suas veias.
Juliette sentiu a presença de Roma atrás dela quando parou em frente ao homem enorme que guardava a porta.
Roma cautelosamente pôs a mão no cotovelo dela em sinal de alerta. O homem era duas vezes maior que Juliette em largura. Uma olhadela de cima a baixo sob a luz da lâmpada a óleo indicou a ela que possivelmente se tratava de um segurança contratado, de um país muito mais meridional que a China, de lugares onde a fome era o combustível e o desespero era o motor.
As cutucadas em seu cotovelo se intensificaram. Juliette desvencilhou o braço, disparando um olhar de advertência a Roma, ordenando que parasse com aquilo.
Roma nunca ficara tão preocupado com a segurança deles.
Ele estivera em muitos tiroteios com a Sociedade Escarlate nos anos em que Juliette esteve fora. Apesar de sua aversão ao clube de luta Rosa Branca, ele havia entrado em mais brigas de rua do que gostaria de admitir e conseguira uma boa porção de cicatrizes porque sua primeira reação a uma lâmina sempre era bloquear em vez de esquivar. Era inevitável: mesmo que odiasse violência, ela o encontrava; então, ou ele aceitava aquilo ou seria abatido.
Mas ele sempre tinha reforço. Tinha inúmeros pares de olhos cobrindo todos os seus ângulos.
Aqui, todavia, estavam apenas ele e Juliette contra uma terceira ameaça sombria que não era nem Escarlate, nem Rosa Branca. Eram apenas os dois contra uma força que os queria mortos, que queria os poderes vigentes em Xangai esmagados até que restasse apenas a anarquia.
— Deixe-nos passar — ordenou Juliette.
— Somente funcionários do Larkspur — disse o guarda, com palavras reverberantes — Caso não sejam, esperem sua vez.
Roma espiou por sobre o ombro do homem, com a respiração tão agitada quanto seus gestos rápidos. Eles estavam cercados pelas filas encadeadas, mas havia algo de estranho na posição de alguns homens e mulheres; eles não estavam na fila, mas rondando-a — mantendo a ordem sem se revelarem funcionários.
— Juliette — alertou Roma. Ele mudou para o russo para evitar ser compreendido por bisbilhoteiros. — Pelo menos cinco pessoas nessa multidão foram contratadas com o dinheiro sujo do Larkspur. Elas estão armadas. E vão reagir se você se portar como uma ameaça.
— Elas têm armas? — repetiu Juliette. Seu russo sempre teve um trejeito; não era bem um sotaque. Seu tutor era muito bom para deixar isso passar. Era uma peculiaridade, um jeito de falar as vogais que as fazia unicamente Juliétticas. — Eu também.
Juliette armou o soco. Em um arco que teve início na altura do estômago e se projetou para fora, ela encaixou um cruzado tão forte no guarda que ele caiu duro, saindo do caminho e permitindo que Juliette abrisse a porta com um chute e puxasse Roma antes mesmo que ele assimilasse a sequência de eventos.
Ela usou a arma, percebeu ele, com atraso. Juliette não obtivera subitamente a força de um lutador —
simplesmente golpeara a têmpora do guarda com a coronha da pistola. O segurança nem mesmo a viu pegar a arma.
Sua destreza manual ficara completamente fora de vista enquanto o foco do homem estava voltado à face dela —
em sua mandíbula e seu sorriso frio.
Juliette acolhia o perigo de braços abertos. Parecia que Roma não era capaz disso, nem mesmo quando todo o seu mundo corria risco, mesmo quando Alisa estava com braços e pernas amarrados. Ele chegava a ter medo do que o faria chegar ao limite, e esperava que isso nunca acontecesse, porque ele mesmo não queria que esse momento chegasse.
— Passe o trinco — disse Juliette.
Roma voltou à realidade. Olhou para a fina porta de aço e a bateu,
virando
a
fechadura.
Também
olhou
cautelosamente para Juliette e para as quatro paredes que os cercavam. Estavam na base de uma escadaria, tão íngreme que Roma não pôde identificar o que os aguardava no fim dela.
— Temos cinco minutos, no máximo, antes que eles arrombem essa coisa frágil — estimou Roma. As batidas na porta no lado de fora já estavam começando.
— Cinco minutos devem ser suficientes — disse Juliette.
Ela apontou para a porta com o polegar. — Meu medo é que, com esse barulho, tenhamos até menos.
Ela subia dois degraus de uma vez, ocultando a pistola que estava em sua mão. Apesar de estar com os olhos travados nela o tempo todo, Roma não sabia ao certo onde a arma havia parado. O casaco dela tinha apenas um bolso raso. O
vestido por baixo dele era apenas uma longa peça de tecido com uma miríade de contas. Como ela esconde todas as armas?
No penúltimo degrau, o aroma de incenso serpenteou sob o nariz de Roma. Ele não se surpreendeu muito quando chegou ao andar de cima e assimilou a cena. Ela o fez lembrar dos livros de histórias que Lady Montagova lia para ele quando pequeno, sobre noites da Arábia e gênios no deserto. Cortinas coloridas de seda tremulavam com a corrente de ar gerada pelo movimento de Juliette e Roma, revelando janelas em ruínas e passando perigosamente perto das velas que ardiam no chão. Tapetes felpudos tecidos à mão se estendiam no piso e nas paredes, transmitindo uma sensação de calor e exalando um odor peculiarmente antigo. Não havia cadeira alguma à vista, apenas um turbilhão de almofadas, e cada “assento” era ocupado pelos muitos que estavam sob o domínio de Larkspur.
No centro de tudo aquilo, uma mesa baixa situava-se entre uma mulher com uma seringa e um homem com o braço
estendido. Ambos também estavam sentados em almofadas.
— Mon Dieu — exclamou o homem à mesa. A pistola de Juliette ressurgira. Estava apontada para a mulher com a seringa.
— Você é Larkspur? — indagou ela, em inglês.
Roma inspecionou os outros vinte estranhos que ocupavam a sala. Ele não conseguia distinguir bem quem era empregado de Larkspur e quem estava ali pela vacina.
Metade ajeitou a postura, denunciando sua participação no esquema, mas não parecia que tentariam tomar alguma atitude. Seus braços tremiam; seus pescoços, encolhidos entre os ombros. Eram todos como Paul Dexter, haviam entrado em contato com os Rosas Brancas uma ou duas vezes. Se achavam poderosos e prestigiados, mas, no fim das contas, eram covardes. Eles mal teriam a audácia de falar que viram Roma e Juliette trabalhando juntos se não pudessem provar.
A mulher não respondeu imediatamente. Puxou a seringa e limpou a ponta, abrindo um pequeno estojo. De um lado, uma fileira de cinco ampolas vermelhas reluzia à luz das velas. Do outro, uma fileira de quatro ampolas azuis estava à espera.
Quanto mais a mulher demorava a responder, mais dava a entender que ela tinha de ser Larkspur e que os pronomes masculinos que todos utilizavam eram mera suposição.
Até que olhou para cima de repente, com olhos negros delineados a kajal e cílios espessos fitando o cano da pistola de Juliette, e disse:
— Não, não sou.
Ela tinha um sotaque incomum, pendendo para o francês, mas não exatamente. O francês que se sentava no lado oposto dela estava totalmente imóvel. Talvez pensasse que, se não se movesse, não seria percebido por Juliette.
— O que são essas injeções? — perguntou Juliette.
Sua outra mão, a que não empunhava uma pistola, movia-se em seu flanco enquanto ela falava. Por um bom tempo, Roma não entendeu o que ela estava fazendo, até que percebeu em um estalo que ela estava apontando para as ampolas. Ela queria que ele pegasse uma.
— Ora, se eu te dissesse — retrucou a mulher —, iríamos à falência.
Enquanto Roma chegava cada vez mais perto das ampolas, não havia nada que Juliette desejasse mais do que puxar o gatilho. Há muito, um de seus tutores dissera que seu pavio terrivelmente curto era um defeito fatal. Ela não conseguia lembrar qual deles — de literatura chinesa?
Francês? Etiqueta? Não importava a disciplina; ela ficou indignada e se revoltou com ele por causa do comentário, provando por A mais B que ele estava certo.
Agora ela respirava fundo. Sorria, disse a si mesma. Antes de conhecer cada estrangeiro em Nova York, ela fazia o mesmo ritual: sorriso, ombros para trás, olhar sedutor. Ela era leve e risonha, a melindrosa por excelência, se esforçando dez vezes mais para manter a imagem desejada apenas por ser de outra etnia.
— Então me responda — disse Juliette. Seu sorriso foi exibido forçosamente, como se ela achasse a situação impossivelmente divertida, como se a pistola em sua mão não estivesse na altura dos olhos da mulher. — O que
Larkspur sabe sobre os surtos? Por que ele tem a cura quando ninguém mais tem?
Roma
agachou-se
enquanto
Juliette
cuidava
do
interrogatório. Ele meteu a mão aberta na nuca do francês para intimidá-lo, mandando-o levantar e sumir de sua frente. Enquanto Roma falava, chegava mais perto, fingindo prazer por estar se impondo sobre aquele homem. Na verdade, ele se inclinava para ocupar o máximo de espaço possível perto da mesa, até que seu braço estivesse pairando logo acima do estojo de ampolas, e, com um movimento veloz de mão, passou uma ampola azul para dentro da manga da camisa.
Enquanto isso, alheia ao que acontecia bem debaixo de seu nariz, a mulher deu de ombros, com uma calma enfurecedora. Sua indiferença derramou gasolina sobre a tensão que já era um caldo grosso e fervente no cômodo, a uma faísca de explodir.
— Você terá que perguntar ao próprio Larkspur — retrucou a mulher —, mas receio que ninguém saiba onde ele está, ou quem ele é.
Juliette quase puxou o gatilho ali mesmo. Ela não queria a mulher morta; nem gostava de matar por diversão. Mas, se alguém entrava em seu caminho, precisava sair da frente.
Não desejava um abate, mas ação. Os seus estavam morrendo como moscas por uma insanidade que ela não podia conter, sua cidade tremia de medo por causa de um monstro que ela não podia enfrentar, e ela estava farta de não poder fazer nada.
Qualquer coisa seria melhor que ficar ali, imóvel. Quando Juliette queria estourar de frustração, a única solução era estourar qualquer outra coisa.
Roma ergueu-se e tocou seu cotovelo.
— Peguei — murmurou suavemente em russo, e Juliette, rangendo os dentes com tanta força que fazia uma dor subir e descer pela mandíbula, abaixou a arma.
Juliette pigarreou.
— Certo. Guarde seus segredos. Vocês têm uma janela da qual podemos pular?
— Já é hora de irmos para casa?
Benedikt revirou os olhos. Eles estavam andando pela rua com ouvidos atentos a sinais de pânico, mas desatentos quanto a todo o resto. Não era como se não esperassem por aquilo. Todas as suas buscas haviam sido infrutíferas.
Aqueles que sucumbiam aos surtos resistiam até o último segundo ou já estavam mortos.
— Foi uma perda de tempo — reclamou Marshall. — Perda de tempo, Ben! Uma peeeeeeeeee…
Benedikt segurou o rosto de Marshall. O gesto era tão automático que ele nem precisou olhar; simplesmente esticou o braço enquanto andavam lado a lado e fechou os dedos em volta do primeiro pedaço de pele que agarrou.
Marshall aguentou por apenas três breves segundos.
Depois disso, começou a cutucar Benedikt ferozmente, gargalhando enquanto o amigo gritava que parasse, com palavras ininteligíveis no esforço para não rir enquanto as costelas doíam.
Ele teria ficado satisfeito por rir, por preencher a noite com bom humor mesmo que ela não desse nada em troca. Mas então ele ouviu aquilo.
Um barulho estranho, muito estranho.
— Mars — arquejou Benedikt —, espera aí, sério.
— Que sério o quê, você…
— É sério. Escute!
Marshall parou de repente, percebendo que Benedikt não estava brincando. Sua mão lentamente afrouxou o aperto forte que prendia o pulso do amigo. Ele pôs o ouvido na direção do vento, escutando.
Asfixia — aquele era o barulho.
— Excelente — disse Marshall, arregaçando as mangas. —
Finalmente. Finalmente — Ele se lançou para a frente, com os ombros rígidos como se estivesse marchando para batalha com um escudo em uma das mãos e uma lança na outra. Este era Marshall. Mesmo quando não trazia nada consigo, fingia que trazia.
Benedikt correu atrás do amigo, na ponta dos pés, para tentar ver por cima dos ombros de Marshall, tentando localizar a vítima. Benedikt viu primeiro uma silhueta —
uma coisa primitiva agachada, parecendo mais animal do que gente.
Eles estavam em um ponto morto do território Rosa Branca, na seção mais a leste daquela metade da cidade.
Benedikt esperava que a pessoa agonizante fosse um deles.
Mas não era um Rosa Branca tossindo no beco. Quando a figura ergueu a cabeça, apreensiva com as vozes de Benedikt e Marshall se aproximando, balançando um longo cordão de cabelos pretos que refletiam prata à luz da lua, Benedikt avistou ombros fardados: o uniforme do Exército Nacionalista.
— Pegue-a — ordenou Benedikt.
A mulher recuou. Ou ela entendeu o russo de Benedikt, ou captou algo em sua entonação ansiosa.
Ela não foi muito longe. Seu pé travou em um passo e então ficou contra o muro de tijolos, sem saída. Se ela tivesse mais controle sobre si, teria se virado e corrido até a outra extremidade do beco. Mas estava perdida — delirando devido ao ataque neural dos insetos, que a instruíam a dilacerar a garganta.
— Você está de brincadeira? — sibilou Marshall. — Ela é uma Nacionalista. Eles virão atrás de nós…
Benedikt projetou-se para a frente, levando a mão à arma.
— Eles não vão saber.
Normalmente era Marshall quem tomava as decisões precipitadas. Marshall só se tornava prudente apenas quando estava tentando manter Benedikt longe do perigo.
— Ben!
Tarde demais. Com toda a força que podia, Benedikt bateu com a coronha do revólver no crânio da Nacionalista, arqueando os ombros para a frente de modo a manter a própria cabeça afastada. Assim que ela tombou, com o pescoço pendendo sobre o concreto e as mãos abertas, com sangue revestindo a ponta das falanges, Benedikt a ergueu com um grunhido, levando-a pela cintura como uma boneca de pano.