Prazeres Violentos
Trinta e Quatro
— Me perdoe — disse ele, ofegante, quando se separaram.
— Me perdoe, Juliette.
Ela estava cansada de ódio, de sangue e de vingança.
Tudo o que queria era aquilo.
Juliette abraçou-o e pressionou o queixo no ombro de Roma, mantendo-o o mais perto que podia. Era uma reconciliação, uma volta para casa. Era sua mente sussurrando, ah, aqui estamos de novo — finalmente.
— Eu te perdoo — disse ela, suavemente. — E, quando isso acabar, quando o monstro estiver morto e esta cidade for nossa novamente, vamos ter uma conversinha.
Roma deu uma risada. Depois, beijou a lateral do pescoço dela.
— Ok. Por mim, tudo bem.
— No momento — Juliette o soltou e estendeu a mão —
suponho que temos um monstro para encontrar.
Trinta e quatro
Uma chuva fraca começou a cair sobre a cidade. As pessoas nas ruas correram para se abrigar, com pressa para tirar suas barraquinhas de bāozi da calçada. Mandavam seus filhos entrarem depressa, antes que os céus desabassem… e antes que os bramidos ecoassem do sul.
Àquela altura todos já haviam ouvido os boatos. Uma Revolta Comunista começaria hoje, em Nanshi. Inicialmente, eles planejaram um levante gradual, fábrica após fábrica, cada uma seguindo o exemplo da outra em um preciso efeito dominó. Agora, tinham pressa. Souberam do assassinato de seu Secretário-Geral. Preocupavam-se com a existência de um assassino que mirava o Partido. Eles bradaram vingança e juraram se revoltar junto aos operários da cidade, de uma vez só, antes que qualquer outro segmento pudesse ser abatido.
A chuva cai. Em um terraço, cinco jovens gangsteres são alguns dos poucos pontos imóveis na cidade, imperturbados pelo clima cinzento. Eles se sentam dispersos nos ladrilhos de concreto — dois deles lado a lado, igualmente concentrados, outros dois mais próximos e a última fitando a cidade, com a face voltada para o vento, deixando as gotas de água molharem seus cabelos.
O sofrimento ferve dentro deles. Suas tentativas de salvar a garotinha loira que amavam no hospital podem ter, em
vez disso, acelerado seu fim. Se o caos realmente explodir hoje, a morte virá logo em seguida.
Eles podem apenas rezar e rezar para que o boato seja só um boato. Eles podem apenas se apoiar na crença de que os sussurros naquela cidade sofrem mutações com mais velocidade que a doença e torcer para que, pelo menos uma vez, estejam corretos.
O vento sopra. Um pássaro grasna.
— Talvez devêssemos fugir. Os surtos certamente vão se espalhar por cada canto da cidade em algum momento.
— Para onde iríamos?
— Há pessoas chamando os Estados Unidos de a terra dos sonhos.
Um ruído irônico flutua até as nuvens. É um som que existe em incongruência com os resíduos de ansiedade que correm pelas artérias da cidade. É o único som que personifica o país em questão, de certa forma igualmente charmoso e terrível, igualmente desdenhoso e desprezível.
A terra dos sonhos. Onde homens e mulheres de capuzes brancos rondam as ruas para matar pessoas negras. Onde leis escritas proíbem chineses de pisar nos litorais. Onde filhos de imigrantes são separados de suas mães na Ilha Ellis para nunca mais serem vistos.
Mesmo a terra dos sonhos precisa despertar às vezes. E, embora possa haver beleza por baixo da podridão de seu núcleo, embora seja grande, vasta e abundante, ocultando aqueles que desejam estar ocultos e realçando aqueles que desejam ser lembrados, continua sendo outro país.
— Este é o nosso lugar, Roma. Este sempre será nosso lugar.
A voz treme, mesmo com a certeza de tais palavras. Estão enganados. Estes herdeiros pensam que são reis e rainhas, sentados em um trono de ouro e dominando um império cintilante e próspero.
Mas não são. São criminosos — criminosos no topo de um império de ladrões, grandes narcotraficantes e cafetões, preparando-se para herdar uma coisa quebrada, precária, derrotada, que os vislumbra com tristeza.
Xangai sabe. Sempre soube.
O lugar todo está prestes a desabar.
— Estamos desperdiçando tempo nos escondendo aqui em cima — disse Marshall. Ele estava sentado, muito impaciente, se arrastando constantemente para a frente ou batendo com a ponta dos sapatos nos riscos no concreto.
— O que você queria que fizéssemos? — perguntou Juliette, inclinando ligeiramente a cabeça para trás. Ela resistiu ao impulso de se apoiar em Roma, somente porque isso pareceria um tanto pavoroso do ponto de vista de Kathleen. — Se Larkspur tem algum papel nisso tudo, já mudou de local desde nossa última visita e apagou todos os traços de sua existência. Se Larkspur não tem nada a ver com isso tudo e mentiu para nós sobre Zhang Gutai apenas para que o matássemos, então é isso — Juliette abriu as mãos. — Fim da linha.
— Impossível — balbuciou Kathleen. — Em uma cidade tão grande, como ninguém mais sabe de nada?
— Não é questão de alguém mais saber ou não — disse Benedikt. — É sobre o tempo que nos resta. Não podemos tirar Alisa dos aparelhos no hospital sem colocá-la em
perigo. Também não podemos deixá-la ali quando a fábrica ao lado se revoltar.
— Eles podem não se revoltar por semanas — disse Marshall. — A quantidade de presentes nas reuniões ainda é baixa. Eles ainda não têm muita força.
Roma balançou negativamente a cabeça. O movimento fez seu corpo tremer.
— Eles ainda não têm muita força — disse —, mas todos os outros são muito fracos. Essa insanidade tomou a vida de muitos. Se não em corpo, em mente. Os que continuam vivos não permaneceram leais.
— É questão de tempo — disse Kathleen.
Benedikt suspirou com ferocidade.
— Isso não faz o menor sentido.
Marshall resmungou algo em voz baixa para ele, que sibilou algo de volta. Percebendo que as conversas haviam se dividido e que Kathleen estava perdida em pensamentos, Juliette esticou o pescoço na direção de Roma, estalando a língua para chamar-lhe a atenção.
— Daremos um jeito — disse Juliette quando Roma baixou-lhe o olhar. — Ela não está perdida.
— Não está, por enquanto — respondeu ele, com a voz baixa —, mas eles irão matá-la. Degolarão Alisa enquanto dorme. Ela morrerá da mesma forma que minha mãe.
Juliette ficou confusa. Ela ajeitou a postura, virando-se para encará-lo de forma adequada.
— Sua mãe faleceu por doença.
Uma gota de chuva caiu na bochecha de Roma. Ele a removeu, e foi como se houvesse secado uma lágrima.
Quando seus olhares se encontraram, não havia dúvidas da parte de Roma, nenhuma perplexidade sobre por que
Juliette acreditava que foi assim que aconteceu. Havia apenas uma delicada e estremecida… tristeza.
— Não foi? — indagou Juliette. Por um motivo desconhecido, a parte interna de seus pulsos começou a suar. — Como pode sua mãe ter sido degolada em razão de uma doença?
Roma balançou negativamente a cabeça e disse gentilmente, como uma carícia.
— Foi um ataque Escarlate, dorogaya.
Subitamente, Juliette não conseguia respirar. Sua visão foi invadida por terríveis pontos violetas. Sua mente ficou aérea. Foi necessário todo seu esforço para manter-se imóvel — para manter um semblante impassível.
— Mas a disputa de sangue é a disputa de sangue. Não pense muito nisso. Não se atormente. Não é culpa sua.
— Pensava que tivesse sido doença — disse Juliette, com muita dificuldade. — Eles disseram que foi por doença.
Lady Montagova havia falecido duas semanas depois que Juliette deixou Xangai. Duas semanas depois do ataque na casa Escarlate que matou todos os empregados.
Meu Deus. Meu Deus meu Deus meu Deus…
— Os Rosas Brancas apenas sustentaram essa versão para não mancharem sua reputação — disse Roma. — Ela foi encontrada com uma rosa vermelha enfiada à força em sua mão.
— Esperem aí!
A exclamação repentina veio de Benedikt, e Juliette voltou sua atenção para ele com um sobressalto, atraindo um olhar estranho de Roma. Ele pôs uma mão reconfortante em suas costas; todos os gestos do passado estavam sendo
rememorados sem necessidade de uma reapresentação formal.
Mas Juliette mal percebeu. Sua mente estava a mil.
Você tem de contar a ele. Ele tem de saber.
Ele nunca me perdoará.
Juliette sacudiu a cabeça, limpando a mente. Aquela era uma questão a ser discutida posteriormente. Não adiantava nada pensar naquilo agora.
— O que Larkspur disse a vocês? — questionava agora Benedikt. — Digam para mim, exatamente com as mesmas palavras.
— Benedikt, nós já te contamos mais cedo…
— De novo — disse ele, com aspereza. — Tem algo muito familiar nisso.
Roma e Juliette trocaram um olhar de curiosidade.
— Ele disse: — respondeu Roma — Zhang Gutai está se transformando em um monstro. Eu estou fabricando a vacina com os dados que ele me fornece.
Com um gesto rápido como um foguete, Benedikt agarrou o ombro de Marshall.
— E antes disso?
— É meio irrelevante — respondeu Juliette, torcendo o nariz.
— Se você já me disse isso, diga de novo.
— Ele perguntou: Vocês querem saber meu esquema com Zhang Gutai? — respondeu Roma. — Benedikt, o que foi?
A expressão de Benedikt foi se fechando cada vez mais.
Kathleen se aproximou, como se não fosse mais possível para os cinco ficarem dispersos no pequeno terraço —
tinham de se aproximar mais e mais, fazendo um círculo para evitar que a informação entre eles escapasse.
— Quando estávamos vigiando o apartamento de Zhang Gutai — disse Benedikt, lentamente —, nós vimos estrangeiros falar com seu assistente pessoal, um após o outro. Tentavam discutir política, mas saíam em questão de minutos.
Uma grossa gota de chuva caiu em sua testa.
— Isso é sobre aquele francês que você perseguiu? —
perguntou Marshall.
Benedikt anuiu.
— Eu tentei intimidá-lo para que me dissesse o que estava fazendo ali — disse ele —, mas ele apenas insistiu que o esquema dele com Zhang Gutai não era da minha conta. Na hora eu não estranhei muito, mas… — Benedikt franziu o cenho. — Por que ele falaria tão especificamente de seu esquema com Zhang Gutai se ele havia se encontrado com seu assistente?
Os fatos também começavam a se alinhar na cabeça de Juliette, um a um. Talvez Larkspur tenha se enganado.
— O assistente pessoal de Zhang Gutai — disse Juliette. —
Será que, por acaso, ele também é o assistente profissional de Zhang Gutai no Diário do Proletariado?
— Sim, ele é — respondeu Kathleen, confiante. — Qi Ren.
Ele é seu escrivão nas reuniões Comunistas. E também deve ser seu transcritor no trabalho.
A escrivaninha vazia com o memorando para Zhang Gutai.
Os desenhos do monstro. A porta dos fundos que estremecia, como se alguém tivesse acabado de deixar a escrivaninha, sentindo a urgência da transformação, saindo às pressas para que ninguém pudesse ver…
Ela se recordou de Qi Ren tentando se apresentar como Zhang Gutai quando foi com Roma até sua porta. Recordou-
se de sua resposta fácil, como se já estivesse habituado a fazer aquilo, como se seu trabalho fosse atender às reuniões com as quais Zhang Gutai não queria perder tempo. Como se estivesse acostumado a se passar por seu superior, agindo em seu nome perante os estrangeiros desinformados que vinham à porta solicitar reuniões.
— Talvez Larkspur não tenha mentido — disse Juliette, em voz baixa. — Talvez ele tenha pensado que estava dizendo a verdade ao revelar que Zhang Gutai era o monstro.
E isso significava que Zhang Gutai nunca fora o monstro de Xangai.
Era Qi Ren.
Sem aviso, o prédio sob seus pés tremeu com um forte solavanco. Os cinco ficaram alertas, preparando-se para um ataque. A princípio, nada aconteceu. Mas, quando os gritos começaram nas ruas abaixo e a sensação de calor soprou em meio à chuva, eles perceberam que algo estava muito, muito errado.
Sua posição estratégica no terraço permitiu que seu campo de visão se estendesse por mais duas ou três ruas em cada direção. Ao oeste, o fogo rugia no pátio de uma delegacia. Houve uma explosão — que causara o impacto sentido sob seus pés. Ela sacudiu todos os frágeis prédios da vizinhança, gerando uma fina camada de poeira e areia que desceu até a calçada.
Em meio à poeira, um jorro de operários entrava na delegacia como uma colônia de formigas, todos com trapos vermelhos amarrados no braço direito, tão brilhantes quando sinalizadores.
Aquela não era a farda elegante de um exército estrangeiro. Eram os trapos do povo, em um levante que
vinha de dentro.
— Vai ser aqui — balbuciou Juliette, incrédula. — Os protestos terão início na própria cidade.
Foi genial. Haveria tumulto demais para que fosse possível acabar rapidamente com os protestos urbanos. O caos na cidade galvanizaria os que estavam na periferia e os incitaria a se revoltar com uma vontade revestida de aço, espalhando a destruição.