Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 35 de 40

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Prazeres Violentos

Trinta e Três

— Estou apenas cuidando de você.

Agora não é hora de cuidar de mim! , Kathleen quis disparar. Que parte disso era tão difícil de entender? Ela sacudiu a cabeça. Engoliu suas palavras, forçando-se a suavizar seu tom de voz.

— É uma questão simples, Rosalind. Você vai ajudar ou não?

Quando seus olhos se encontraram novamente, Kathleen viu apenas indiferença na expressão da irmã.

— Não vou.

— Pois bem — disse Kathleen. — Então, por favor, não me impeça.

A cidade estava infestada de monstros a cada esquina. Ela se recusava a deixar sua própria irmã impedi-la de abater pelo menos um deles.

Kathleen saiu do quarto.

Trinta e três

Juliette estava parada na esquina do edifício-sede do Diário do Proletariado, com o corpo nas sombras das paredes externas e dos canos expostos. Ela havia escolhido uma pequena faixa de grama onde o prédio se curvava um pouco, perto da porta enferrujada dos fundos que parecia não ser limpa há semanas. Trepadeiras cresciam naquele local, suspensas ao longo das paredes e se balançando bem acima da cabeça de Juliette. À distância, ela poderia parecer uma estátua, com um olhar vazio e morto, fixo à frente. Ela não podia piscar demais. Se o fizesse, poderia cair dura ali mesmo, tornando-se irmã gêmea da Níobe de mármore que ficava na Concessão Internacional, e então jamais se levantaria de novo.

— Juliette… ah, Deus.

Juliette também estava ali parada porque havia encontrado um cadáver. Uma vítima do surto: uma mulher mais velha com o pescoço em pedaços. Ela permanecia ali porque não sabia o que fazer, se era melhor deixar a vítima como estava ou fazer alguma coisa — ou se matar Zhang Gutai hoje seria o bastante para aliviar aquele fardo que carregava nos ombros.

Juliette virou-se, soltando o ar ao ver a prima. Kathleen cobriu a boca, horrorizada, agachando-se para passar sob as videiras.

— Antes que você pergunte — disse Juliette — ela já estava assim quando eu cheguei. Trouxe um silenciador?

— Bem aqui — disse Kathleen. Ela passou a Juliette uma das pistolas em seu bolso, com o olhar ainda fixo na mulher morta escorada na parede.

— Onde está Rosalind? — perguntou Juliette. Ela ficou na ponta dos pés para olhar por cima do ombro de Kathleen, como se Rosalind estivesse apenas andando um pouco mais lentamente.

— Ela não pôde vir — respondeu Kathleen, desviando o olhar da morta. — O cabaré precisou dela. Seria muito suspeito se ela viesse.

Juliette anuiu com a cabeça. Ela preferia ter mais um par de olhos e mãos de confiança ali, mas não havia nada a se fazer a respeito.

— Agora você pode dizer o que está acontecendo? —

questionou Kathleen.

— Exatamente o que meu bilhete dizia — respondeu Juliette. — A insanidade acaba hoje.

— Mas… — Kathleen coçou a parte interna do cotovelo, traçando linhas raivosas na pele. — Juliette, você certamente não está pensando em invadir esse prédio, que é essencialmente uma fortaleza Comunista, apenas comigo.

Pode ser um local de trabalho, mas eu não tenho a menor dúvida de que há algumas pessoas armadas…

Juliette fez uma careta.

— A respeito disso… — ela viu três pessoas se aproximando pela calçada. Ela ergueu a mão, chamando a atenção de Roma. — Não entre em pânico. Vou explicar tudo depois.

Kathleen se virou. Como sempre, quando alguém diz para não entrar em pânico, a primeira coisa que se faz é entrar em pânico. Ela, por instinto, recuou alguns passos quando

Marshall Seo lançou-lhe um sorriso largo e acenou para ela.

Benedikt Montagov estendeu a mão e abaixou o braço do outro rapaz.

Os Rosas Brancas passaram por baixo das videiras e Roma arremessou algo velozmente na direção de Juliette: uma coisa macia com formato quadrado, enrolada em uma massa de tecido de modo que pudesse viajar pelo ar até a palma da mão dela. Um grande lenço. O projétil repentino ajudou Juliette a fingir que seu arquejo reprimido fora uma reação ao susto de ter que pegar o tecido, e não porque Roma havia se aproximado, quase roçando seu ombro.

— Para cobrir seu rosto — explicou ele. Havia outro em suas mãos para o mesmo propósito. — Já que somos os assassinos… ah.

Benedikt e Marshall ficaram em estado de alerta, ambos retesando-se à espera de perigo. Mas não havia perigo, pelo menos não ali. Roma apenas avistara a mulher morta.

— Como ela veio parar aqui? — murmurou Benedikt.

— Devia ser uma funcionária — respondeu Marshall, apontando o polegar para as paredes claras do edifício-sede. — Melhor termos cuidado. Pode haver um surto chegando.

Roma emitiu um ruído de nojo do fundo da garganta, mas não disse mais nada.

Talvez aquilo fosse um pouco sádico da parte de Juliette, conduzir a todos eles para se encontrarem ali, a menos de um metro de um cadáver. Mas eles precisavam ver o corpo antes de entrar. Precisavam se lembrar do que estava em jogo.

A vida de um culpado pela vida de inúmeros inocentes. A vida de um culpado pela salvação da cidade.

Talvez fosse essa a escolha que deveria ter sido feita quatro anos atrás. Se ao menos Juliette tivesse mais culpa em sua alma naquela época. Isso faria com que sua morte valesse a pena.

Pare, repreendeu a si mesma. Seu coração pulsava uma sinfonia em seus ouvidos. Ela receava que os outros pudessem ouvi-lo. Ela se perguntava se, cada vez que abria a boca, o som viajava de seu peito, passando por sua garganta, alcançando o mundo externo.

Juliette superou seu nervosismo. Ela havia vencido oponentes muito mais ferozes do que batimentos altos.

É agora ou nunca.

Juliette pigarreou.

— Vamos proceder desta forma — iniciou. — Precisamos de cobertura nos fundos. O escritório de Zhang Gutai tem uma janela da qual ele pode pular.

Roma acenou com a cabeça para Benedikt e Marshall. Sem dizer nada, eles foram às pressas para os fundos do prédio.

— Kathleen, preciso que você force uma evacuação no primeiro andar. Cause comoção suficiente para que ninguém nos impeça de chegar ao segundo andar e entrar no escritório de Zhang Gutai.

Kathleen sacou a pistola, preparando-a com as duas mãos.

Soltou o ar lentamente e anuiu com a cabeça.

— Fiquem atentos ao meu sinal — disse ela. — Espero que você saiba o que está fazendo, Juliette. — Kathleen passou por baixo das videiras.

Santo Deus, eu também espero.

— E quanto a nós — Juliette voltou-se para Roma e amarrou o lenço na metade inferior da face. — Pronto?

— Pronto.

Um tiro ruidoso ecoou do edifício-sede. Mais três se seguiram em rápida sequência. Vidro quebrando. Gritos confusos.

— Vamos.

Eles seguiram às pressas para as portas da frente, mesclando-se à comoção sem serem notados. Kathleen não estava à vista, mas isso apenas significava que ela conseguira sair dali rapidamente. Ela deixou para trás um cenário de perplexidade, mas sem pânico — as pessoas estavam muito preocupadas balbuciando sobre o que deviam fazer para notar Roma e Juliette avançando escada acima. Aquilo era mais uma simples missão de assassinato do que um confronto direto. Quanto mais rápido pudessem entrar e sair, melhor.

Infelizmente, também havia pessoas no segundo andar: dois homens de pé guardando a porta do escritório de Zhang Gutai. Talvez Zhang Gutai soubesse que seu assassinato estava por vir.

— Não — sibilou Roma, antes que Juliette avançasse. —

Não podemos matá-los.

— Digam o que querem! — pediu preguiçosamente um dos homens próximos à porta.

— Eles estão no caminho — sibilou Juliette, rebatendo Roma.

Os dois homens à porta agora ficaram alertas. Se os panos sobre as faces de Roma e Juliette não eram o suficiente para levantar suspeitas, as pistolas em suas mãos certamente eram. Os homens avançaram velozmente.

— Perna — argumentou Roma.

— Estômago.

— Juliette.

— Está bem!

Juliette mirou e abriu buracos na parte superior das coxas dos homens. Impiedosa. Eles gritaram, caíram no chão, e ela investiu à frente. Quando espalmou a porta do escritório, ela se abriu com tanta força que deixou uma marca na parede.

— Cuidado!

Roma a puxou para o lado com força, resmungando baixinho uma oração. Uma bala incandescente acertou o batente bem no local onde a cabeça de Juliette estaria.

Zhang Gutai estava atrás de sua escrivaninha, mirando novamente. Sua empunhadura fraquejava. Ele tinha gotas de suor descendo pela face, olhos muito arregalados. Enfim, foi pego.

— O que eu fiz para vocês? — questionou Zhang Gutai. Ele os reconhecera. Claro que sim. Era preciso mais que um frágil pano para disfarçar Juliette Cai. — Qual é o seu problema conosco?

— Meu problema é com seus surtos — respondeu Juliette, com voz de trovão.

— Eu não sei do que você está falando! — gritou Zhang Gutai. — Eu não tenho nada a ver com…

Juliette atirou. Zhang Gutai olhou para baixo e viu a mancha vermelha florescendo em sua camisa branca.

— Não — sussurrou ele. Enfraquecido, derrubou sua arma.

Em vez de tentar recuperá-la, sua mão tombou sobre a escrivaninha. Ele fechou as mãos em volta de uma fotografia emoldurada de uma senhora de idade. Sua mãe.

— Não… vocês não têm nada contra mim.

— Larkspur nos contou tudo — disse Roma, seco. Seus olhos fitavam a fotografia nas mãos de Zhang Gutai. —

Sentimos muito que tenha de ser assim. Mas foi preciso.

— Larkspur? — chiou Zhang Gutai. A perda de sangue o fez desabar no chão. Ele balançava, quase sem forças para continuar sentado. — Aquele… charlatão? O que… ele tem para… dizer…

Juliette atirou novamente e o Comunista caiu. Seu sangue encharcava completamente a fotografia, até que a expressão estoica de sua mãe estivesse coberta por um brilho vermelho.

Lentamente, Juliette se aproximou, e então empurrou o ombro dele com a ponta do pé para fazê-lo rolar e ficar de barriga para cima. Seus olhos já estavam vidrados. Juliette lhe deu as costas, colocando a pistola dentro do bolso.

Parecia que o momento demandava mais cerimônia, talvez um ar solene, mas tudo o que havia naquela sala era o fedor gélido de sangue, e Juliette queria sair dali o mais rápido possível.

Enquanto estivesse fazendo a coisa certa, ela seria uma assassina calculista. Não ligava para quase mais nada.

— Alguém está vindo — avisou Roma. Ele estava com a cabeça inclinada para a porta, prestando atenção ao som de passos subindo as escadas. — Suba na janela.

Juliette fez o que ele disse. Ela passou uma perna para fora da vidraça e gritou um aviso a Marshall e Benedikt, que ficaram sobressaltados quando ela surgiu com o pescoço coberto de pontos vermelhos. E ficaram ainda mais assustados quando ela disse:

— Marshall Seo, me pegue.

E se jogou, dando a Marshall uma fração de segundo para abrir os braços rapidamente. Juliette aterrissou com um elegante e educado salto.

— Obrigada.

Um alarme começou a soar dentro do prédio. À primeira nota aguda, Roma rapidamente desceu pela janela até que estivesse pendurado na borda. Quando se soltou, conseguiu aterrissar com firmeza sobre a grama.

— Conseguiram? — indagou Benedikt imediatamente. — O

monstro está morto?

Quando Roma estava prestes a assentir, Kathleen virou a esquina correndo, ofegante.

— Por que vocês não o mataram? — questionou ela. — Eu vi vocês chegando ao segundo andar!

Juliette piscou, confusa. Sob a fraca luz do sol, suas mãos ainda estavam manchadas com a evidência do crime.

— O que você quer dizer? — indagou. — Eu o matei.

Kathleen recuou e xingou baixinho.

— Então não funcionou — disse, ofegante. — Os surtos.

Escute.

Um grito breve e agudo. Um coro de ganidos intensos.

Tiros, em rápida sucessão.

— Não — arquejou Juliette. — Impossível.

Ela irrompeu a correr. Alguém a chamou e outro alguém tentou agarrar-lhe o cotovelo, mas Juliette se desvencilhou deles, dando a volta no prédio e voltando à cena de seu crime. Ela nem precisou abrir as portas da frente ou sequer estender as mãos para elas. Através da vidraça que se estendia verticalmente pela madeira, ela viu três funcionários no interior do prédio dilacerando seus pescoços, indo ao chão em completa sincronia.

— Não — balbuciou Juliette, horrorizada. — Não, não, não

— ela chutou a parede próxima. Seu sapato deixou uma marca de sujeira no branco intacto.

Não deu certo.

— Juliette, vamos! — Kathleen a agarrou pelo pulso e a arrastou de volta à lateral do prédio, logo antes das portas se escancararem, forçando os que não estavam infectados a buscar abrigo. Sua prima podia ter tido a intenção de mantê-los em fuga, mas Juliette não podia fazer aquilo. Pelo canto do olho, pôde ver que os Rosas Brancas estavam olhando para ela, observando como ela reagiria, e mesmo assim ela não conseguiu manter as forças. Seus joelhos fraquejaram. Ela cedeu à fadiga sem resistência e se afundou na grama macia, escavando a terra com os dedos e apertando-a até que o solo frio se embrenhasse em suas unhas.

— Ei!

Apitos de policiais. Alguém deve tê-los chamado ao ouvir os tiros. Ou um funcionário dentro do prédio deu um telefonema para a delegacia mais próxima, suplicando por ajuda. No entanto, quando os homens fardados chegaram, não foi surpresa terem focado nos cinco gangsteres que espreitavam o prédio e começaram a se mover.

Em um dia como aquele, enquanto a revolução se agitava por toda a cidade, a polícia estava louca para realizar prisões.

— Vão — resmungou Roma, baixinho, para Benedikt e Marshall. — Sumam nos becos até despistá-los. Vamos nos reencontrar no terraço do Dragão de Jade.

Dragão de Jade era o restaurante que ficava a menos de duas quadras dali; era facilmente o prédio mais alto da rua e estava constantemente lotado de clientes. O caos absoluto dos grandes restaurantes contribuía para que gangsteres pudessem se esgueirar por suas altas

escadarias quando quisessem, subindo nos terraços e usando-os como pontos de vigia. Benedikt e Marshall saíram em disparada para o oeste; Kathleen disse:

— Juliette, vamos.

No entanto, Juliette se recusou.

— Vá também, Kathleen — entoou Juliette. — Siga o mesmo plano.

— E quanto a você…

— Eles podem te prender, mas não a mim. Não ousariam.

Kathleen franziu o cenho, observando Juliette com cautela, e depois Roma, que ainda estava ali, de braços cruzados.

— Tenha cuidado — sussurrou, antes que os três policiais se aproximassem e ela saísse correndo, sumindo em um piscar de olhos.

— Sob a jurisdição da…

— Sumam — interrompeu Roma, em russo. Os policiais não o compreenderam. Não precisavam. Apenas precisavam ouvir o idioma russo e fitar suas roupas para notar que aquele era o herdeiro dos Rosas Brancas. Então cerraram as mandíbulas e trocaram olhares breves. Então foram forçados a recuar sem dizer mais nada, correndo na direção que Benedikt e Marshall tomaram na esperança de que não haviam perdido por completo a chance de prendê-los.

— Juliette — disse Roma, quando os policiais desapareceram. — Você precisa se levantar.

Ela não conseguia. Não iria. Havia superado a raiva e a ira e chegado ao torpor. Ela havia alimentado o fogo em seu peito por tanto tempo que não percebeu o quão intensamente ardia, mas agora a chama havia se extinguido e ela descobriu que nada mais restara ali, exceto um espaço chamuscado, vazio, onde seu coração deveria estar.

— Por que deveria? — indagou — Larkspur nos enganou.

Ele nos fez fazer seu trabalho sujo.

Com um suspiro, Roma se agachou, ficando na mesma altura que ela em seu estado caído.

— Juliette…

— Zhang Gutai nunca foi o culpado, e mesmo assim eu o executei — prosseguiu Juliette, mal dando ouvidos a Roma.

— O que nós conseguimos? Apenas mais sangue…

— Não ouse — disse Roma. — Não ouse desmoronar agora, dorogaya.

Juliette ergueu a cabeça abruptamente. Seu fôlego ficou preso na garganta, fazendo todo o seu esôfago amargar. O

que ele pensava que estava fazendo? Ela já estava nocauteada. Ele podia muito bem chutá-la algumas vezes apenas para assegurar-se de que estava morta.

— Eu atirei nele — disse Juliette, como se ele não tivesse visto a cena. — A sangue frio. Ele não estava me atacando.

Ele implorou por sua vida.

— Nós assumimos um risco calculado para salvar milhões.

Você atirou por Alisa. Pela ínfima chance de salvar a vida de uma inocente. Recomponha-se. Agora.

Juliette respirou fundo repetidamente. Quantas vezes mais conseguiria fazer aquilo? Quantos monstros fajutos seriam despedaçados com violência desmedida em sua busca pelo verdadeiro? Em que ela era diferente dos assassinos ocultos em sua cidade, os que ela tentava impedir?

Ela não percebeu que estava chorando até que as lágrimas acertassem sua mão. Não percebeu que as lágrimas haviam começado a escorrer por seu rosto com mais velocidade do que as batidas aceleradas de seu coração até que a postura

rígida de Roma se suavizou e seus olhos duros ficaram preocupados.

Ele estendeu a mão para tocá-la.

— Não — disse Juliette com dificuldade, respiração falhando, erguendo uma das mãos para afastar os dedos dele com um tapa. — Eu não… preciso que sinta pena de mim.

Lentamente, Roma se agachou até que também estivesse ajoelhado.

— Não sinto pena. Você fez a escolha certa, Juliette.

— Nós caçamos o monstro para impedi-lo de trazer a devastação a esta cidade — Juliette estendeu as mãos ensanguentadas. — Mas isto… isto é monstruosidade.

Roma estendeu a mão novamente para tocá-la. Desta vez, Juliette não o impediu. Desta vez ele deslizou suavemente os polegares pelas bochechas dela para secar suas lágrimas e ela se apoiou nele, com a cabeça descansando sobre seu peito, que a envolveu em seus braços — familiares, estranhos, perfeitamente encaixados.

— Um monstro — disse, contra os cabelos da jovem — não sofre com o luto.

— Você sofreu? — indagou Juliette, quase inaudível. Ela não precisava explicar o que queria dizer. Ambos viram em suas mentes: a explosão, os danos, o sangue e as vidas e o vermelho ardente, muito ardente.

— Sofri — disse Roma, tão suavemente quanto ela. — Sofri por meses, anos, nos portões do cemitério. Mesmo assim, não me arrependo de ter escolhido você. Não importa o quanto você se ache cruel, seu coração bate por seu povo.

Por isso você atirou nele. Por isso não perdeu essa chance.

Não porque você é impiedosa, mas porque tem esperança.

Juliette ergueu o olhar. Se Roma se virasse para ela, mesmo que ligeiramente, estariam tocando os narizes.

— Eu lamento ter sido forçado a fazer essa escolha —

prosseguiu

Roma.

Suas

palavras

eram

lânguidas,

sussurradas ao mundo enquanto as ruas rugiam com sirenes, o prédio ao lado deles fervilhava com o caos e policiais em cada esquina gritavam palavras de ordem. No entanto, Juliette o ouviu perfeitamente. — Eu odeio que a guerra de sangue tenha forçado minha mão, mas não posso… eu fiz o que eu precisava fazer e você pode pensar que sou um monstro por isso. A disputa segue ferindo e matando e, mesmo assim, eu não consegui parar de te amar mesmo quando pensei que te odiava.

Amar. Amava.

Odiava. Amar.

Juliette se afastou, mas apenas para olhá-lo nos olhos, e sua pulsação estava em um crescendo. Ele não recuou.

Encontrou seu olhar, firme, inabalável.

Naquele momento, tudo que Juliette pensava era: Por favor, por favor, por favor.

Por favor, não me despedace de novo.

— Então — prosseguiu Roma —, você não pode mais me enganar. Você é a mesma garota indomável pela qual eu daria minha vida para salvar. Eu escolhi acreditar em você.

Agora é a sua vez de fazer uma escolha. Vai continuar lutando ou vai desabar?

Ela havia passado uma vida inteira fazendo ambos. Não conseguia distinguir bem as vezes em que estava lutando e as vezes em que mal conseguia se manter de pé, em escombros, seguindo em frente aos tropeços, passo a passo. Talvez as duas coisas fossem uma só.

— Me responda uma coisa primeiro — retrucou ela, com um sussurro.

Roma pareceu se preparar. Ele sabia. Sabia o que ela perguntaria.

— Você ainda me ama?

Os olhos de Roma se fecharam. Um longo momento passou. Parecia que Juliette não se fizera entender, que chegara a um abismo e julgou mal o salto, desaparecendo na fenda escura e sem fim…

— Você não me ouve quando eu falo? — respondeu ele, trêmulo, torcendo o lábio. — Eu te amo. Eu sempre te amei.

Juliette pensava que tinha o coração vazio, mas agora estava envolto por ouro. E parecia certo que seu coração funcionava, no fim das contas, pois agora estava explodindo, explodindo…

— Roma Montagov — disse ela, determinada.

Roma pareceu se assustar com seu tom de voz. Seus olhos ficaram arregalados, beirando a preocupação.

— O que foi?

— Eu vou te beijar agora.

Em uma faixa de gramado atrás de uma fortaleza Comunista, com um enxame de policiais de todas as concessões, abaixo dos fios de telefone cruzados e janelas de vidro cheias de sangue, Juliette estendeu a mão na direção de Roma. Tocou seu rosto com as duas mãos e moveu-se para encontrar seus lábios, beijando-o com toda a intensidade dos anos perdidos. Roma respondeu à altura, envolvendo-a pela cintura, abraçando-a — abraçando-a como se ela fosse preciosa, uma ninfa que se desprendera do vento.