Prazeres Violentos
Dezenove
Benedikt piscou, confuso.
— O quê?
— Balde.
Marshall levantou-se e pegou o balde. Assim que o pôs abaixo do nariz de Roma, o brutal herdeiro dos Rosas Brancas enfiou a cabeça nele e vomitou devido a toda a violência à sua volta.
Um minuto depois, Roma ressurgiu, com o estômago vazio.
— Tudo bem — disse, com amargura. — Eu vou sozinho pedir ajuda a Juliette.
Dezenove
-Estou preocupada. Vai me culpar por isso?
Lady Cai passava a escova nos cabelos de Juliette, franzindo o cenho toda vez que encontrava um nó. Juliette certamente já tinha idade para fazer isso sozinha, mas sua mãe insistia. Quando Juliette era uma garotinha, com o cabelo até a cintura, sua mãe costumava ir a seu quarto toda noite e penteá-lo até que todos os nós se desfizessem, ou até que Lady Cai estivesse no mínimo satisfeita com o estado da cabeça da filha, o que ocasionalmente incluía os pensamentos dentro dela. Agora que Juliette voltara de vez, sua mãe retomara o hábito. Os pais de Juliette eram pessoas ocupadas. Essa era a maneira da mãe ainda ter alguma participação na vida da filha.
— Não importa o que está havendo com esta cidade, há muitas pessoas envolvidas — prosseguiu Lady Cai. — Muitas pessoas com questões particulares. Muitas pessoas com muito a perder. — Sua expressão se fechou mais enquanto falava, em consonância com as palavras que dizia e pela frustração com a tarefa que executava. O cabelo de Juliette agora tinha corte Chanel, de modo que não havia muito o que pentear, mas ainda era uma batalha manuseá-lo em meio aos resíduos dos produtos que Juliette emplastrava nele diariamente para manter suas ondas.
— Māma, você vai ter mais coisas com o que se preocupar
— Juliette fez uma careta de dor quando a escova passou por um grumo de gel que não saiu com a lavagem — se os
surtos se espalharem por cada canto dessa cidade. Nossos números em queda são mais preocupantes do que os calos em que piso quando meto o nariz nos negócios Comunistas.
Números em queda na Sociedade Escarlate. Números em queda nos Rosas Brancas. A disputa sangrenta entre eles não era nada se comparada ao perecimento de ambas as organizações; ainda assim, Juliette parecia ser a única pessoa que acreditava que aquela insanidade era potente o bastante para puxar o tapete de todo o mundo. Seus pais eram muito orgulhosos. Ficaram muito mal-acostumados com situações que podiam controlar e com adversários que podiam derrotar. Eles não viam essa situação da mesma que forma que Juliette. Não viam Alisa Montagova tentando dilacerar a própria garganta toda vez que fechavam os olhos, como Juliette via agora.
Uma menina tão jovem. Como ela foi parar no meio de tudo isso?
— Bem — disse Lady Cai, fungando —, é inevitável que você pise em alguns calos. É que eu simplesmente gostaria de enviar homens com você quando for fazer isso.
Juliette se arrepiou. Pelo menos seus pais estavam levando os surtos a sério agora. Eles ainda não achavam que isso exigia uma intervenção pessoal — ou então não viam como poderiam ser úteis quando se tratava de uma doença que fazia pessoas rasgarem as próprias gargantas — mas se importavam o bastante para oficialmente mandar Juliette cuidar daquilo, liberando-a de seus outros afazeres. Cobrar aluguel? Não mais. Juliette estava em uma missão de uma mulher só em busca da verdade.
— Por favor, não me delegue uma comitiva — disse Juliette, sentindo calafrios. — Eu poderia derrotá-los
dormindo.
Lady Cai lançou a ela um olhar ríspido através do espelho.
— O que foi? — exclamou Juliette.
— Não é sobre luta — retrucou sua mãe, com firmeza —, é sobre imagem. Sobre seu pessoal te apoiar.
Ah, Deus. Juliette podia pressentir o sermão chegando. Era uma habilidade inata dela, como aquelas pessoas que pressentem a chegada de uma tempestade com uma dor nos ossos.
— Não se esqueça de que seu pai foi destronado uma ou duas vezes durante seu comando.
Juliette fechou os olhos, suspirando internamente antes de forçá-los a se abrirem novamente. Quatro anos se passaram e sua mãe ainda se deliciava em contar aquela história como se fosse a maior lição de vida que a humanidade já viu.
— Quando aquele desprezível Montagov vingou a morte do pai matando o seu avô — disse a mãe —, seu pai deveria ter sido o novo líder.
Lady Cai passou a escova em outro nó. Juliette contraiu o rosto novamente.
— Mas ele era ainda mais jovem do que você é hoje, então os executivos o removeram e decidiram que um dos seus teria a palavra final. Trataram seu pai como nada além de um garoto e disseram que, se ele quisesse liderar com base em nada, exceto sua linhagem, então deveria ser um monarca em vez de um mafioso. Entretanto, em…
— 1892 — interrompeu Juliette, assumindo a narração de forma teatral —, com o povo desnorteado e descontrolado nas ruas de Xangai, com a Sociedade Escarlate e os Rosas Brancas tomados por sócios irrelevantes enquanto os jovens
herdeiros legítimos foram jogados para escanteio, eles por fim se rebelaram…
Juliette fechou a boca abruptamente quando viu o olhar mortal que sua mãe lhe dava através do espelho. Grunhiu um pedido de desculpas, cruzando os braços. Ela admirava a habilidade do pai para escalar de volta ao topo, assim como podia, separadamente, reconhecer que Lorde Montagov — que também fora tirado do poder quando o pai dele morreu — foi inteligente o bastante para fazer o mesmo. Só que, nesse espaço de tempo, quando as duas organizações foram lideradas por homens que não davam a mínima para laços e alianças, apenas para eficiência e dinheiro, a disputa sangrenta foi a mais pacífica de todas.
— Seu pai — disse Lady Cai, com rispidez, arrancando um fio de cabelo — reclamou seu título legítimo quando ficou mais velho porque tinha pessoas que acreditavam nele. Ele apelou à maioria comum: aqueles que você vê protegendo-o agora, aqueles que você vê dispostos a dar suas vidas por ele. Tudo é uma questão de orgulho, Juliette — Lady Cai abaixou a cabeça, colando a face na de sua filha, até que ambas estivessem encarando o espelho. — Ele queria que a Sociedade Escarlate fosse uma força da natureza. Queria que sua afiliação fosse um distintivo que emanasse poder.
Os membros comuns da organização não podiam pensar em nada mais desejável e, sob o comando de seu pai, derrubaram os executivos, que não tiveram escolha a não ser aceitar a subserviência.
Juliette ergueu uma sobrancelha.
— Em suma — disse —, é um jogo de números.
— Pode-se dizer que sim — sua mãe estalou a língua. —
Então não comece a crer que habilidade é tudo o que é
preciso para continuar no topo. A lealdade também dá suas cartadas sujas, e é uma coisa instável, inconstante.
Com isso, Lady Cai abaixou a escova, apertou o ombro de Juliette e lhe deu boa noite. Breve, rápida e abrupta — esta era sua mãe. Ela caminhou para fora do quarto de Juliette e fechou a porta, deixando a filha a refletir sobre suas últimas palavras.
O resto do mundo não via aquilo, mas, embora Lorde Cai fosse o rosto da Sociedade Escarlate, Lady Cai trabalhava tanto quanto ele nos bastidores, inspecionando cada pedaço de papel que passava pela casa. Foi Lady Cai quem convencera o marido que uma filha seria muito mais capaz de liderar a Sociedade Escarlate em vez de um parente do sexo masculino. Então a coroa foi dada a Juliette, e Lorde Cai esperava que a organização se ajoelhasse no dia em que ela se tornasse a chefe — por expectativas, por lealdade de sangue.
Juliette se inclinou na direção do espelho, tocando as linhas de expressão em sua face.
Era a lealdade que criava o poder? Ou lealdade era apenas um sintoma, sendo oferecida quando as circunstâncias eram favoráveis e tomada quando o jogo virava? O fato de que Lorde Cai e Lorde Montagov eram homens facilitava as coisas. Juliette não era ingênua. Cada um de seus mensageiros, de seus capangas, de seus gangsteres do mais baixo escalão, mas ferozmente leais, eram homens. A maior parte da Sociedade Escarlate temia e reverenciava Juliette agora, mas ela ainda não estava no comando. Como reagiriam quando Juliette tentasse exercer seu poder efetivo sobre eles? Teria de abrir mão de tudo o que era? Jogar fora os vestidos cintilantes e usar ternos para ser ouvida?
Juliette enfim se afastou da penteadeira, esfregando os olhos, cansada. O dia fora arrastado e longo e, apesar disso, seu corpo sentia-se inquieto em vez de cansado. Quando ela se esparramou nos cobertores sobre a cama, sua camisola grudava na pele. Ela podia ouvir o coração batendo e, quanto mais ela ficava ali, no escuro, mais as batidas ficavam intensas, até que o som fosse captado por seus tímpanos.
Espere aí…
Juliette levantou-se em um salto. Alguém estava batendo de forma ritmada nas portas de vidro de sua sacada no segundo andar.
— Não — disse Juliette, com a voz alta e aborrecida.
A batida veio novamente, lenta, intencional.
— Não — repetiu ela.
Mais batidas.
— Ah!
Juliette se levantou com dificuldade e irrompeu em direção ao som, abrindo as cortinas com mais força do que o necessário. Enquanto o tecido voltava ao seu lugar, ela viu uma figura familiar sentada tranquilamente no parapeito da sacada, balançando as pernas, iluminada por trás pelo brilho da lua crescente. Ela engoliu em seco.
— Sério? — exclamou Juliette, por trás da porta de vidro. —
Você subiu na minha varanda? Não podia ter simplesmente jogado umas pedrinhas?
Roma fitou os jardins abaixo.
— Não há pedrinhas aqui.
Juliette esfregou os olhos de novo, com força desta vez.
Talvez se os esfregasse forte o bastante, notaria que aquilo tudo era um delírio febril e acordaria sozinha e em paz em seu quarto.
Ela tirou as mãos dos olhos. Roma ainda estava lá.
Eles precisavam mesmo melhorar a segurança.
— Roma Montagov, isto é inaceitável — declarou Juliette, com aspereza. Tudo aquilo era nostálgico demais, saudoso demais, era demais. — Saia antes que leve um tiro.
Mesmo com a face oculta nas sombras, Roma conseguiu transmitir uma expressão fechada que atingiu Juliette com efeito máximo. Ele olhou em volta, não detectando ninguém nos jardins abaixo de si.
— Quem vai atirar em mim?
— Eu vou atirar em você — vociferou Juliette.
— Não vai, não. Abra a porta, dorogaya.
Juliette recuou, ultrajada não pela ordem, mas pela palavra de afeto. Com atraso, Roma também pareceu perceber o que lhe havia escapado, e seus olhos se arregalaram ligeiramente, mas não titubeou nem se retratou. Apenas a encarou, esperando, como se não tivesse acabado de desenterrar uma relíquia do passado, uma que eles haviam espatifado.
— A porta fica fechada — disse Juliette, com frieza. — O
que você quer?
Roma saltou do parapeito e seus sapatos aterrissaram nos ladrilhos da sacada com um som leve. Quando ele chegou mais perto do vidro, Juliette notou um corte profundo em seu maxilar e se perguntou se ele viera até lá logo depois de uma luta. Isso era quase o bastante para que ela pegasse sua arma e o botasse para correr, mas então, baixinho, Roma sussurrou:
— Eu quero salvar minha irmã.
Algo dentro de Juliette afrouxou-se. Seus olhos endurecidos ficaram um milionésimo mais suaves.
— Como está Alisa? — perguntou.
— Eles a amarraram no hospital como se fosse uma paciente de hospício — respondeu Roma. Seus olhos estavam concentrados em suas mãos. Ele as virava para cima e para baixo: palma, costas, palma, costas, procurando algo que não estava ali. — Ela tentou atacar o próprio pescoço de novo quando recobrou a consciência, então estão injetando algo nela que a mantém dormindo. Estão mantendo-a apagada até que exista um jeito de curar esses surtos.
Roma ergueu o olhar. Havia em seus olhos uma loucura, um desespero.
— Eu preciso de sua ajuda, Juliette. Todas as pistas que eu tinha esfriaram. Não há mais nada que eu possa perseguir, nenhum lugar para ir, ninguém a quem chamar. Você, por outro lado… eu sei que você sabe de alguma coisa.
Juliette não respondeu imediatamente. Ficou ali, imóvel, lutando contra o vazio em seu estômago e percebendo que não tinha certeza se essa sensação ainda era ódio… ou medo. Medo de que, se os surtos continuassem, ela também acabasse como Roma, vendo alguém que amava morrer. Medo de que, por ter simplesmente demonstrado consideração e empatia por Roma, tivesse passado dos limites.
O problema do ódio era que, quando a emoção inicial se enfraquecia, as reações a ela permaneciam. Os punhos cerrados e as veias quentes, a visão embaçada e o pulso acelerado. E, daquela forma, Juliette não tinha controle sobre o que essas reações poderiam se tornar.
Como desejo.
— Você vem me pedir ajuda — disse Juliette, com voz baixa —, mas quanto sangue há em suas mãos, Roma?
Enquanto eu estava fora, quantos dos meus lhe pediram ajuda, misericórdia, logo antes de você atirar neles?
Os olhos de Roma estavam inteiramente negros sob a luz da lua.
— Não tenho nada a dizer quanto a isso — retrucou ele. —
A disputa de sangue é a disputa de sangue. Isso aqui é algo totalmente inédito. Se não nos ajudarmos, podemos morrer, nós dois.
— Sou eu quem detém informações — alertou Juliette, com a pele formigando desconfortavelmente. — Tente se conter e não faça generalizações absurdas sobre nós.
— Você detém informações, mas eu detenho a outra metade da cidade — rebateu Roma. — Se você agir sozinha, não vai conseguir trabalhar com metade de Xangai. Se eu agir sozinho, não consigo entrar em nenhum território Escarlate. Pense, Juliette. Quando os surtos atingirem nós dois, não vai ser possível dizer em que território estarão as respostas.
Uma onda de frio passou por seu quarto, amarga, gélida e correta. Juliette tentou ignorá-la. Forçou uma risada, um som áspero.
— Como você prova neste exato momento, não acho que uma proibição lhe impeça de desfilar no meu território.
— Juliette — Roma pressionou as mãos contra o vidro. Seu semblante de súplica demonstrava vulnerabilidade. — Por favor, ela é minha irmã.
Deus…
Juliette precisou desviar o olhar. Não suportava aquilo. O peso que retorcia seu coração era injusto. Qualquer vulnerabilidade que Roma Montagov exibisse era um teatro, uma fachada cuidadosamente construída para que ele aguardasse o tempo certo até que a chance de atacar surgisse. Ela sabia disso.
Mas talvez Juliette nunca aprenderia. Talvez suas lembranças de Roma a arrastariam para a ruína, a menos que ela adentrasse o próprio peito e arrancasse todos os resquícios de ternura.
— Por Alisa — conseguiu dizer Juliette, áspera, finalmente voltando a fitá-lo — e por todas as outras garotinhas desta cidade vitimadas por um jogo que nunca pediram para jogar, eu vou te ajudar. Mas faça sua parte, Roma. Eu te ajudo e você me ajuda a encontrar a solução para esta insanidade o mais rápido possível.
Roma soltou o ar, que impregnou o vidro de alívio e gratidão. Ela o observava cautelosamente, vendo a tensão sair de seus ombros e o terror de seus olhos tornar-se esperança. Ela se perguntava quanto daquilo era verdade e quanto daquilo a beneficiaria, a fim de reforçar que estava tomando a decisão certa.
— Fechado.
Aquilo poderia arruiná-la. Poderia arruinar tudo. Mas o que importava agora não era Juliette, nem seus sentimentos —
era encontrar uma solução. Se a possibilidade de salvar seu povo significava arriscar sua reputação com eles, então era um sacrifício que estava disposta a fazer.
Quem mais faria isso? Quem mais, além de Juliette?
— Ok — concedeu ela em voz baixa. Ela supôs que agora não havia mais volta. — Eu tenho o endereço da casa de
Zhang Gutai. Minha próxima ação seria invadi-la e vasculhá-la, mas — deu de ombros, tão casualmente que ela mesma quase acreditou no gesto — para começar, podemos ir até lá juntos, se quiser.
— Sim — disse Roma. Se ele concordasse um pouco mais rápido com a cabeça, ela poderia cair e sair rolando. — Sim.
— Amanhã, então — decidiu Juliette. De repente, as memórias de seu passado juntos, as que ela passou quatro anos se esforçando ao máximo para esquecer, voltaram atropelando com força total à sua mente. Ela não tinha escolha senão invocá-las, ignorando o aperto rígido em seus pulmões. — Me encontre na estátua.
A estátua — uma pequena reprodução em pedra de uma mulher chorando — era um artefato escondido e esquecido em um parque sem nome na Concessão Internacional. Há quatro anos, Roma e Juliette esbarraram com ela ao acaso e passaram uma tarde tentando imaginar a intenção de quem a esculpira e suas origens. Juliette insistira que era Níobe, a mulher da mitologia grega que chorou tanto após o assassinato de seus filhos que os deuses a transformaram em pedra. Roma dizia que era La Llorona, a Mulher Chorona do folclore mexicano que chorava pelas crianças que matou.
Eles nunca decidiram qual era a resposta certa.
Se Roma foi surpreendido ou se estarreceu com a referência à estátua, não demonstrou. Apenas perguntou:
— Quando?
— Ao nascer do sol.
Somente então Roma pareceu um tanto preocupado.
— Ao nascer do sol? Isso é ousado.
— Quanto mais cedo, melhor — insistiu Juliette, estremecendo. — Isso reduz as chances de sermos vistos
juntos. Não é preciso dizer, mas ninguém pode saber que estamos cooperando. Nós…