Prazeres Violentos
Trinta e Dois
Dando um último trago em seu cigarro, Tyler pinçou a brasa para apagá-la e então o jogou no chão, não se importando com as novas queimaduras nos dedos.
Tyler os vira. Ele não conseguiu ouvir o diálogo deles, mas os viu — trabalhando juntos, um estendendo a mão para o outro.
— Tā mā de, Juliette — murmurou ele. — Traidora.
Trinta e dois
-Mensagem para a Senhorita Lang.
Kathleen rolou de uma ponta da cama bem arrumada de Juliette à outra. Ela era o pior pesadelo das criadas.
Havia uma porção de cadeiras para ocupar naquela casa, mas sempre que Juliette deixava seu quarto, Kathleen vinha tomar posse de sua cama.
Ninguém poderia julgá-la: era uma cama absurdamente confortável.
— Para mim? — perguntou Kathleen, acenando para que o mensageiro entrasse. Aquilo era incomum. Não chegavam muitos recados para ela.
— Na frente está escrito Lang Selin e Lang Shalin, mas não consegui encontrar a Senhorita Rosalind — respondeu o mensageiro, pronunciando de forma estranha as sílabas de seus nomes. Quando ele lhe mostrou a frente do bilhete, Kathleen percebeu que seu nome chinês, Lang Selin, havia sido escrito com caracteres românicos equivalentes em vez de ideogramas chineses.
Só podia ser Juliette. Ninguém mais seria tão enigmático.
Kathleen ergueu uma sobrancelha, estendendo a mão para pegar o bilhete.
— Obrigada.
O mensageiro saiu. Kathleen desdobrou o pedaço de papel.
Preciso da sua ajuda. O Secretário-Geral do Partido Comunista é o monstro. Encontre-me perto do edifício onde ele trabalha. Traga armas.
Traga silenciadores. Não conte a ninguém.
— Ah, merde.
Juliette estava tentando matar o Secretário-Geral do Partido Comunista.
Kathleen jogou o bilhete no chão e levantou-se em um pulo da cama, indo às pressas para o depósito de armas na porta ao lado. Elas guardavam suas armas naquele quartinho, com relógios de pêndulo e sofás apodrecidos, em uma fileira de armários que aparentavam ser inofensivos a um observador casual. Ela se movia com velocidade, escancarando as gavetas e carregando duas pistolas, rosqueando firmemente os silenciadores. Verificou a munição, travou cada parte frouxa com força e então enfiou as duas armas nos bolsos.
Kathleen
paralisou.
Seus
ouvidos
aguçaram-se
subitamente, ouvindo um barulho do outro lado da parede, vindo do quarto de Juliette.
Passos. Quem estava andando por ali?
Em estado de alerta, Kathleen saiu da inércia silenciosamente, mantendo os passos leves enquanto saía do depósito de armas para voltar ao quarto de Juliette.
Prendendo a respiração, ela espiou pelo batente da porta e avistou uma figura familiar. Relaxou. Era apenas Rosalind, segurando o bilhete.
— Que diabos é isso? — questionou Rosalind.
Kathleen ficou imediatamente tensa de novo.
— Eu… acho que as palavras são autoexplicativas.
— Você não pode estar falando sério — os olhos de Rosalind desceram até os bolsos de Kathleen. Ela percebeu a forma das armas com um olhar aguçado, vazio. — Você não está cogitando ir, está?
— Por que não? — indagou Kathleen, confusa.
Um momento se passou. Aquele momento seria marcante para sempre: a primeira vez em que Kathleen fitou Rosalind
— realmente fitou — e percebeu que não tinha a mínima ideia do que poderia estar passando pela mente da irmã.
Quando Rosalind explodiu, Kathleen sentiu o impacto como se um pedaço de escombro tivesse perfurado suas entranhas.
— Isso é absurdo! — gritou Rosalind, repentinamente. —
Nós não temos o direito de sair por aí matando Secretários-Gerais ao nosso bel prazer! Juliette não pode arrastar você para isso como bem entende!
— Rosalind, pare — implorou Kathleen, se apressando a fechar a porta. — Ela não está me arrastando para coisa nenhuma.
— Então esse bilhete é o quê? Uma simples sugestão?
— Isso é importante. É uma questão de acabar com os surtos.
Os lábios de Rosalind se contraíram. Sua voz reduziu de volume até que não estivesse alta e irada, mas fria e acusatória.
— E eu aqui pensando que você era a pacifista da família.
Pacifista. Kathleen quase caiu na gargalhada. De todas as palavras que poderiam descrevê-la, pacifista era a mais distante da verdade. Só porque não gostava de derramamento de sangue, de repente era uma santa caridosa. Ela seria capaz de apertar um botão para extinguir toda a vida naquela cidade se isso significasse que poderia ter paz e sossego.
— Engano seu — disse Kathleen, calmamente. — Engano de todos.
Rosalind cruzou os braços. Se ela apertasse um pouco mais o bilhete em seu punho, faria um buraco bem no meio das palavras.
— Presumo que Juliette seja a única pessoa que, a seus olhos, não é uma tola.
O queixo de Kathleen quase caiu.
— Você está ouvindo o que diz? — indagou. Talvez ela tivesse entrado em uma máquina que as levou de volta ao tempo em que eram crianças petulantes.
Mas Rosalind não queria se autoavaliar. A amargura viera à superfície e agora não conseguia parar de transbordar.
— Repare em como Juliette lida com essa insanidade casualmente — sibilou ela. — Repare como ela trata isso como se fosse apenas outra tarefa para impressionar seus pais…
— Pare — as mãos de Kathleen fecharam-se em volta da barra de sua camisa, amassando o tecido grosso com os dedos. — Você não esteve por perto na maior parte disso.
— Eu vi o monstro!
— Isso não é culpa de Juliette. Ela não pode ser culpada por tratar isso como seu trabalho, porque é…
— Você não entende — sibilou Rosalind, avançando. Ela parou bem em frente a Kathleen e a agarrou pelos ombros.
— Juliette nunca arcará com as consequências de qualquer coisa que faça. Nós sim. Nós sentiremos cada maldita parte dessa cidade quando ela quebrar.
— Rosalind — repreendeu Kathleen —, você está muito, muito estressada — ela desentrelaçou as mãos da camisa e as estendeu à sua frente. Era tanto um gesto para manter Rosalind distante quanto para acalmar sua irmã, da mesma
forma que se acalma um animal feroz. — Eu entendo, entendo mesmo, mas estamos todos do mesmo lado.
— O sobrenome dela é Cai! — exclamou Rosalind. — Como podemos estar do mesmo lado se eles nunca cairão? Eles são invulneráveis. Nós, não!
Kathleen não podia mais ficar escutando aquilo. O tempo estava se esgotando. As armas em seu bolso ficavam mais pesadas a cada segundo que passava. Sem dizer nada, ela afastou as mãos de Rosalind, que apertavam seus ombros, e se virou para sair.
Até que Rosalind disse:
— Celia, por favor.
Kathleen congelou. Então se virou.
— Não — vociferou. — Há ouvidos em todos os lugares desta casa. Não me ponha em perigo apenas para vencer uma discussão. Rosalind desviou o olhar. Soltou um longo suspiro, parecendo se recompor, e sussurrou: