Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 37 de 40

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Prazeres Violentos

Trinta e Cinco

Está começando.

— O hospital — arquejou Roma. — Benedikt. Marshall. Vão para o hospital. Protejam Alisa.

Protejam-na até que eles possam matar o monstro.

— Vá para casa — Juliette ordenou a Kathleen. — Reúna todos os mensageiros. Mande-os avisarem os donos de fábricas para que fujam imediatamente.

Eles certamente já haviam sido avisados para ficarem alertas a um levante, avisados sobre as massas nas plenárias bradando por um fim do jugo dos mafiosos. Mas ninguém poderia imaginar que aquilo teria início com tamanha intensidade. Não esperavam todo esse vigor.

Pagariam pelo erro de cálculo com suas cabeças.

Kathleen, Benedikt e Marshall saíram depressa, sem perder tempo. Apenas Roma e Juliette ficaram por mais um instante no terraço, cercados por fogo e confusão.

— Uma vez mais — prometeu Juliette. — Desta vez, faremos direito.

Trinta e cinco

Roma e Juliette irromperam pelas escadas até o

apartamento de Zhang Gutai, onde Qi Ren estaria esperando. Em um dado momento, Juliette notou que havia sangue ainda úmido nas linhas entre seus dedos. Isso deixou impressões digitais no corrimão que ela tocava enquanto subiam lances e mais lances de escadas sem parar.

Quando chegaram à cobertura, Juliette parou bem em frente à porta de Zhang Gutai.

— Como faremos isso? — perguntou ela.

— Assim.

Roma derrubou a porta com um chute.

O apartamento de Zhang Gutai estava um caos. Ao adentrarem a sala, cautelosos, seus sapatos afundaram em água, o que fez Juliette arquejar de susto e Roma xingar. Os tacos de madeira estavam submersos por uma fonte de água corrente cujo barulho parecia vir da cozinha. A água subia até seus tornozelos e se elevava a cada segundo. Se não fosse pelo alto degrau da entrada, eles teriam inundado o resto do prédio assim que abriram a porta do apartamento.

Algo não estava se encaixando para Juliette. Ela se agachou e colocou a mão na água, franzindo o cenho assim que o frio penetrou em seus dedos. A água rodopiou e dançou, envolvendo-os. O movimento a fez lembrar do Huangpu, da maneira como a corrente sempre se move em

uma dúzia de sentidos diferentes, carregando para longe o que quer que flutuasse em seu curso, carregando para longe todos os mortos que tombaram em suas margens. O

confronto de gangsteres nos portos. Os russos em seu navio.

As primeiras vítimas de cada onda dos surtos, pensou Juliette, de repente. Todas elas estavam próximas ao Rio Huangpu?

— Juliette — chamou Roma, em voz baixa, atraindo sua atenção —, parece que houve uma briga.

Juliette ficou novamente de pé, sacudindo a água da mão.

Avançando apartamento adentro, havia papéis espalhados por toda parte: panfletos finos de propaganda e planilhas de contabilidade mais grossas — números, letras e ideogramas, todos sangrando juntos na água. Enquanto circulava no entorno, Juliette fitou o balcão da cozinha, percebendo panelas e frigideiras viradas para baixo, não apenas flutuando na pia que transbordava, mas amassadas sobre as mesas, como se alguém houvesse pegado uma delas para bater repetidamente em algo.

— Onde ele está? — sussurrou Juliette. O estado do apartamento apenas aumentou sua confusão. Por que um idoso, um assistente de um Comunista, se transformaria em um monstro? Por que inundar o piso e amassar todo o equipamento de cozinha?

— Ele não está aqui — disse Roma. Seus olhos estavam fixos em algo atrás dela. — Mas outra pessoa está.

Juliette olhou para onde Roma apontava e viu o corpo caído no canto da sala de estar. Ela e Roma haviam se sentado ali uma vez, enquanto Qi Ren lhes servia chá. Agora as cadeiras estavam viradas e o rádio, em pedaços sobre o

tapete, onde outro jovem estava jogado. Suas pernas estavam abertas em um estranho V sob a água enquanto suas costas estavam apoiadas contra a parede. Seu pescoço pendia tanto para a frente que a única coisa que se via era o topo de sua cabeça — cabelos loiros, emaranhados em sangue.

Os olhos de Juliette se arregalaram.

— Meu Deus. É Paul Dexter.

— Paul Dexter? — repetiu Roma. — O que ele veio fazer aqui?

— É isso que eu gostaria de saber — resmungou Juliette.

Ela avançou depressa, afundando os joelhos na água rasa antes de sacudir vigorosamente os ombros de Paul. Havia um corte profundo em sua testa e o que pareciam ser quatro marcas de garras em seu pescoço, maculando sua pele pálida com sulcos vermelhos.

Juliette o sacudiu com mais força.

— Paul, Paul. Acorde.

Lentamente, as pálpebras de Paul se moveram. Na terceira vez que Juliette chamou seu nome, seus olhos finalmente se abriram completamente e focaram-se nela. Ele franziu o cenho.

— Senhorita Cai? — disse Paul, com voz arranhada. — O

que está fazendo aqui?

— Responda você primeiro — respondeu Juliette, com ironia.

Paul tossiu. O ruído saiu chiado, como se Paul não tivesse nenhum líquido em sua garganta.

— Larkspur me enviou — disse ele, vagarosamente. Olhou ao redor, tateando o espaço a seu lado, e pareceu relaxar

quando achou sua pasta de documentos, que estava flutuando na água.

— O que você está fazendo no chão? — indagou Roma.

Paul enrijeceu de repente, como se sua memória estivesse voltando aos poucos, ativada pela pergunta. Soltando um ganido baixinho, fez esforço para ajustar sua posição e se arrastar ao longo da parede, erguendo-se até que estivesse sentado de forma que pudesse colocar a pasta no colo.

— O monstro… — disse Paul, soltando o ar. — Ele me atacou.

— Atacou você aqui? — questionou Juliette. Ela ficou de pé e deu uma volta completa no próprio eixo, espalhando água enquanto vasculhava a sala de estar. — Onde ele está agora?

— Eu… Eu não sei — respondeu Paul. Ele abaixou os olhos enquanto abria sua pasta e verificava seu conteúdo.

Colocou algo dentro de seu bolso. — Droga, ele ainda pode estar aqui. Pode me ajudar a levantar, Senhorita Cai?

Com um olhar de relance para trás, observando o nível da água subir e ainda pensando que havia algo errado naquilo, Juliette estendeu a mão, reprimindo uma tirada arrogante sobre a imprestabilidade de Paul.

Foi um erro subestimá-lo. Quando a mão dele agarrou a sua e o jovem se levantou, ele puxou uma seringa com a outra mão. O braço de Juliette estava esticado por causa de seu esforço para puxá-lo… e então Paul enfiou uma agulha nas veias expostas da parte interna de seu cotovelo.

Juliette arquejou de susto; a agulha reluziu. Antes que pudesse puxar o braço, Paul pressionou o êmbolo da seringa, e o líquido azul penetrou sua corrente sanguínea.

Tarde demais, Juliette recuou em um salto, agarrando o cotovelo. Roma conseguiu pegá-la antes que caísse na água, perplexa.

— Ele te machucou? — questionou Roma.

— Não — respondeu Juliette. Ela removeu lentamente a mão da parte interna do cotovelo, percebendo um pontinho vermelho. — Ele me vacinou.

Paul então voltou à sua postura regular, jogando a seringa usada e toda a sua pose na água.

— Estou apenas tentando te ajudar, Juliette — disse ele. —

Não quero que você morra. Eu te amo.

Juliette deu uma risada.

— Não, não ama — rosnou ela — Isso não é amor.

Paul lançou-lhes uma expressão fulminante. Ele apontou um dedo na direção de Roma, que ainda tinha Juliette nos braços.

— E isso, é? Amor manchado com o sangue de todos os seus mortos?

A respiração de Juliette ficou entalada na garganta. Não pelo insulto de Paul — ela mal ouvira suas palavras. Foi pelo grunhido baixo de sua voz e a súbita descoberta de onde ela havia escutado aquilo antes.

— Quer falar de meus mortos? — respondeu Juliette, fervendo por dentro. — Falemos então, Larkspur.

Roma estava perplexo. Paul apenas sorriu. Ele nem tentou negar. Em vez disso, inclinou a cabeça para o lado, de uma forma angelical e corrompida, e disse:

— Eu quis te contar, Juliette. Devo admitir, quando pensei nesta revelação vindo à tona, imaginei que ficaria mais impressionada do que parece estar agora.

— Impressionada? — repetiu Juliette. Talvez ela estivesse a três decibéis de gritar. — Que parte disso é impressionante para você?

— A parte em que eu tenho toda a cidade dançando como marionete nos meus cordéis? — Paul levou a mão ao bolso do casaco e Juliette ficou alerta, com as mãos descendo lentamente até sua pistola, mas ele estava apenas puxando outra ampola azul, segurando-a contra a luz. Ela refletia pequenos cristais nas paredes beges, marcas de lápis-lazúli dançando em pares. — A parte em que eu deflagro a solução para o sofrimento de meu pai? Diga-me, Juliette, não é o sonho de todo filho que os pais possam viver com a maior felicidade possível?

Juliette ergueu sua pistola. Medo e relutância estavam estampados na face de Roma e, embora Juliette tivesse plena consciência de que era perigoso provocar Paul antes que eles soubessem o que mais ele ocultava por baixo da manga, ela tinha muita raiva ardendo dentro de si para manter-se calma ao bel prazer de Paul.

— Todos os gangsteres e comerciantes que viraram alvos ao longo do rio — disse Juliette. — Pensava que a culpa era dos Comunistas. Pensei que eles estavam eliminando as ameaças capitalistas — ela riu com amargura. — Mas foi você. Foi você, para limpar o mercado a fim de que seu negócio prosperasse. Foi você, liquidando as ameaças para que Larkspur não pudesse ser questionado.

Paul abriu um sorriso cintilante, com fileiras de dentes brancos a reluzir.

— Brilhante, não é? E pensar que tudo isso começou quando encontrei um inseto pequenininho na Inglaterra.

— Seu tolo — vociferou Juliette. — Como ousa…

— Começou como um favor a esta cidade — cortou Paul.

Seu olhar ganhava um ar sombrio. Ele estava começando a ficar ofendido com a raiva de Juliette. Nunca havia visto esse seu lado enfurecido. — Você não leu os jornais? Não ouviu os rumores? Todos estavam comentando sobre como as empreitadas capitalistas nesta cidade seriam ameaçadas se política de verdade começasse a vigorar em Xangai, e os Comunistas almejavam ser os desafiantes mais fortes. Eu ia ajudar. Queria matar os Comunistas. Você certamente não desaprova isso.

Juliette desaprovava totalmente. Todavia, não era hora de verbalizar tal argumento.

— Você queria infectar Zhang Gutai primeiro — adivinhou ela. Ela passou o olho pela sala, pelas cadeiras viradas, aguçando sua busca. Em vez de ver apenas uma seringa a seus pés, ela viu duas. De onde viera a segunda? Mais importante, para que fora usada? — Você não percebeu que estava falando com seu assistente.

— Mas não importou, não é mesmo? — Paul deu um passo à frente; Roma e Juliette, um passo para trás. — Pensei que o primeiro inseto simplesmente saltaria de um hospedeiro para outro e mataria os Comunistas individualmente.

Imagine minha surpresa quando o velho se transformou em um monstro! Imagine minha surpresa quando ele se tornou o hospedeiro-mãe e liberou milhares de insetos clones capazes de levar todos nesta cidade à loucura!

Enfurecida, o braço de Juliette começou a tremer. Roma pôs uma das mãos no cotovelo dela, mas isso de nada adiantou para persuadi-la a abaixar sua arma.

— A água — sussurrou Juliette, meio perguntando, meio respondendo o que ela já sabia. Ela mexeu um dos pés,

perturbando o líquido que subia de nível ao redor deles.

Estava na metade de sua panturrilha. Paul queria matar os Comunistas, mas seu plano evoluiu quando o monstro surgiu no Rio Huangpu. Aquele rio era o coração pulsante da cidade; se uma infecção tivesse início ali, significava que os surtos varreriam os gangsteres que trabalhavam nos portos e os comerciantes que se reuniam.

Eles sequer eram os verdadeiros alvos. Apenas calhou de serem os gangsteres e os comerciantes os que passavam a maior parte do tempo próximos ao Rio Huangpu, e era para lá que o monstro ia liberar seus insetos.

A cada onda, os negócios de Walter Dexter subitamente explodiam. Subitamente, Larkspur entrou na jogada com uma vacina que gerava mais lucro do que um comerciante comum jamais conseguiria imaginar. Uma vacina que operários não conseguiam comprar, mas compravam assim mesmo. Uma vacina que outros comerciantes conseguiam comprar, mas recebiam apenas uma solução salina que lhes daria uma falsa segurança e, depois, a morte, perecendo como moscas, deixando o caminho livre para que Walter Dexter brilhasse.

— Água — repetiu Paul. — Que auspicioso para a cidade sobre o mar.

Juliette não aguentava mais. Ela destravou a pistola.

— Você me dá nojo.

Paul deu outro passo à frente.

— Meu pai abriu mão de tudo para fazer fortuna nesta cidade.

— Ah, coitado, seu pai experimentou ser pobre por um dia

— disse Juliette, com desdém. — Valeu a pena? A sensação

de ser um comerciante bem-sucedido compensou as vidas de todo o meu povo?

Paul suspirou e contorceu as mãos, como se finalmente estivesse sentindo um pouco de culpa.

— Se desejar — disse ele, como se estivesse realizando um grandioso gesto, vindo da bondade de seu coração —, eu produzo a vacina em larga escala para a Sociedade Escarlate—

— Você não entende — interrompeu Juliette. — Eu não quero sua vacina. Quero o fim dos surtos. Quero o monstro morto.

Paul ficou imóvel, abaixando a sobrancelha erguida em uma expressão de esperança. Revelou o que sempre fora, deixando a máscara cair.

— Você se importaria se os surtos matassem apenas Rosas Brancas? — indagou Paul, friamente.

Juliette cuspiu em sua direção, veemente.

— Sim.

— Por causa dele, não é? — Paul apontou para Roma com o queixo. Dez mil alfinetadas de repulsa em um único gesto.

— Bem, peço desculpas, Juliette, mas você não pode matar Qi Ren. Não vou permitir.

— Você não pode me impedir — disse Juliette. — Homens mais habilidosos tentaram e falharam. Diga, onde ele está, Paul?

Paul sorriu. Aquele sorriso era a danação da cidade, plantando rancor em seus estratos. E Juliette — Juliette sentia-se possuída pelo terror. Calafrios disparavam em cada centímetro de pele, um tremor que a varreu dos pés à cabeça.

A água no corredor do apartamento agitou-se baixinho.

Alguém estava saindo dos quartos.

Roma e Juliette se viraram na direção do som. Uma inspiração trêmula preencheu a sala. Uma expiração ofegante.

Uma criatura emergiu à luz do sol, tremendo de esforço. Qi Ren estava ali em algum lugar. Juliette podia vê-lo nos ombros molengas e cansados e nos olhos constantemente estreitados, como se a vista do idoso tivesse sido transferida para aquela outra forma. Mas as semelhanças paravam por aí. Os olhos do monstro se tornaram inteiramente opacos, com um lustro prateado, e gosmentos, com a mesma textura de uma alga. Da cabeça aos pés, a coisa era feita de músculos fibrosos, azul-esverdeados, com escamas ao longo do peito e ventosas circulares ao longo dos braços.

Com um sibilar deplorável de seus flácidos e cinzentos lábios, o monstro emitiu um ruído que poderia ser interpretado como de dor. Ele pressionava a mão membranosa no estômago e se contorcia, com falta de ar.

Os espinhos triangulares cravejados ao longo da espinha dorsal sacudiam vigorosamente. Segundos depois, todos eles desapareceram, retraindo-se para o interior do monstro e deixando buracos em formato de losango para trás.

Juliette sentiu Roma pegar sua mão. Ele a puxou, tentando fazê-la recuar.

— Não — disse Juliette, com a voz quase inaudível. — Não, ele só os libera no rio. Ele nunca antes soltou seus insetos fora do rio.

Não é?

Paul emitiu um ruído de deboche. Ele ouviu sua hesitação.

— Juliette, acontece que — Paul ajeitou os punhos da camisa — é um tanto irritante que Qi Ren tenha de voltar à forma original assim que os insetos são liberados. Então eu andei experimentando umas coisas. Eu fiz algumas…

modificações, por assim dizer.

A segunda seringa.

Um inseto caiu da espinha do monstro. Depois outro. Eles saíam lentamente, como uma única gota d’água, rastejando-se ladeira abaixo em asfalto seco.

— Sejam livres! — comandou Paul. Ele abriu as portas de correr que davam na pequena sacada, deixando entrar uma lufada de vento e uma explosão de sons e, sem perder tempo, o monstro investiu na direção da sacada, batendo em tudo tão violentamente no caminho que lascou um pedaço da parede de gesso e derrubou cada uma das plantas que estavam nos vasos do lado de fora.

Enquanto se posicionava na beira da sacada, preparando-se para saltar, começou uma chuva de insetos.

— Não! — gritou Juliette, lançando-se à frente.

Era tarde demais. O monstro saltou da sacada e caiu na rua abaixo dela. Insetos choviam sem parar, pousando no solo e se dispersando. Uma infecção como aquela poderia ser colossal. Se o monstro percorresse a cidade, passasse pelas multidões — pelos protestos — àquela hora do dia, o número de vítimas seria devastador.

Juliette mirou com a pistola e atirou — de novo, e de novo, e de novo, na esperança de que aquilo pudesse matar o monstro ou que, no mínimo, o atrasasse — mas as balas ricocheteavam em suas costas como se ela tivesse atirado em aço. O monstro começou a se mover, a descer a rua, e sua velocidade aumentava em ritmo constante.

— Não adianta, Juliette.

Com um grito, Juliette deu meia-volta e atirou para dentro do apartamento. Furiosa, sua mira ampliou-se; Paul se esquivou e saiu da frente. A bala passou meramente de raspão em seu braço, mas ele contraiu-se de dor, apoiando-se na parede e pressionando a ferida com os dedos.

— Como o impedimos? — indagou Roma, em tom de comando. Ele atravessou toda a extensão da sala em dois tempos, agarrando Paul pelo colarinho e o sacudindo. —

Como o impedimos?

— Não podem — disse Paul com aspereza, sorrindo de orelha a orelha. — E não podem me impedir — em um lampejo, ele agarrou o braço de Roma, torcendo-o até que ele o soltasse, sobressaltado. Paul se agachou e, embora Juliette tivesse mirado de novo para tentar atirar, ele era muito veloz.

Três balas cravaram a parede em uma linha reta. Paul Dexter recuperou rapidamente a pasta de documentos que estava na água, apertou-a contra o peito e fugiu pela porta do apartamento.

— Merda, merda — rosnou Roma. — Eu vou atrás dele.

— Não! — Juliette olhou pela sacada novamente, ofegante.

— O monstro está indo para o leste. Acho que está voltando para o Rio Huangpu.

Se o monstro estivesse se dirigindo para o rio, então teria de atravessar a Concessão Francesa inteira antes. Juliette mal conseguia engolir o nó em sua garganta, uma amargura crescendo por trás de seu nariz, de seus olhos. O monstro teria de passar por todas as lojas abertas, por todas as criancinhas que comiam seus dòu shā bāo nos degraus das lojas. Ele teria de se misturar ao centro da cidade, aos

grupos de estudantes que saiam de suas salas de aula para protestar, aos mais velhos que faziam suas rotineiras caminhadas da tarde.

Juliette agarrou a cortina da sacada, rasgando-a na altura de sua vara.

— Vá, Roma — exclamou ela. Chegue ao rio antes dele.

Evacue as pessoas.

— E você?

Juliette torceu a cortina até que virasse uma firme corda, até que fosse uma faixa de tecido espessa o bastante para aguentar seu peso. Os protestos que rasgavam a cidade estavam em andamento, dispersos por diferentes áreas, indiferentes a qual país controlava as calçadas nas quais marchavam. Eles não saberiam que o monstro estava a caminho até que os insetos estivessem andando dentro de seus crânios.

— Eu preciso avisar a todos em seu caminho para se trancarem em casa — ofegou Juliette. Ela foi para a sacada, esmagando os vasos quebrados com os sapatos. Ela olhou para trás. — Te encontro no Bund.

Roma assentiu. Parecia que ele queria dizer algo mais, mas o tempo era crucial, então ele simplesmente se decidiu por um olhar que deu a Juliette a sensação de estar sendo suavemente abraçada. Então ele se virou e saiu correndo do apartamento.

Juliette rangeu os dentes.

— Tudo bem. Vamos lá.

Seus olhos pousaram no cano que descia pela parede exterior, bem na borda da sacada. Ela subiu no parapeito e se apoiou na parede para se equilibrar, lançando o olhar para a rua a cada segundo para acompanhar o monstro

rumo ao leste. Ele desapareceria pela rua extensa em meros segundos. Ela tinha de se apressar.

— Por favor, não quebre — rezou ela, passando uma ponta da cortina entre o cano e a parede. — Por favor, por favor, por favor— ela puxou a outra ponta e, com as duas pontas da cortina enroladas no cano, ela segurou o tecido como se estivesse dando um nó.

Juliette saltou da sacada. A queda foi rápida e turbulenta; quando ela aterrissou na rua, a cortina quase havia se rasgado em duas devido ao atrito, mas aquilo não importava — ela partiu em disparada, com a pistola apontada para o alto.

— Para dentro, para dentro! — gritava. Ela atirou, assustando quem não estava perto o bastante para ouvir seu comando. Na hora em que corria para alcançar o monstro, o caos já havia deixado um rastro de destruição, com insetos subindo nas barraquinhas da rua e civis enfiando as unhas no pescoço. Outros, os que não haviam sido infectados, apenas ficavam parados, incapazes de acreditar no cenário que haviam testemunhado em plena luz do dia.

— Andem! — gritou Juliette — Mexam-se!

Quem estava imóvel saiu do transe e foi às pressas para dentro. Juliette continuou gritando, sem parar de se mover, com os pulmões queimando tanto pelo esforço quanto pelos berros. Sempre em frente, ela persistia. Ainda assim, não importava o quão rápido corresse, ela não conseguia alcançar o monstro desajeitado.

Totalmente apavorada, ela o viu entrar na parte chinesa da cidade. Ela o viu investir contra a multidão que estava reunida ali, o viu penetrar as aglomerações de

manifestantes tão rapidamente que nenhum deles se deu conta do que estava acontecendo até que os primeiros infectados pelos insetos começaram a cair. Então pararam de agitar os punhos. Então olharam em volta, perceberam Juliette chegando, balançando freneticamente os braços e, se não fosse tarde demais, finalmente se dispersaram, buscando abrigo.

Aquela cidade era maior que um mundo dentro de si mesmo. Não importava o volume dos gritos de Juliette, as pessoas que estavam uma rua depois estariam alheias ao pânico até que os insetos as alcançassem, se entocando em suas cabeças. Não importava o quanto gritasse, a multidão que erguia seus trapos vermelhos não se importaria até que o monstro passasse por eles e suas mãos fossem até seus pescoços. Eles cairiam — um por um por um. Estavam lutando por seu direito de viver, mas aquela cidade sequer lhes prometera o direito de sobreviver.

Elas eram muitas. Muitas multidões nas ruas, maldição!

— Por favor! — gritava Juliette. Ela atravessou para a próxima rua rapidamente, quase derrapando nos trilhos do bonde. — Para dentro! Não é hora disso!

Os manifestantes não lhe deram atenção. Mafiosos ricos sempre tentariam lhes dizer que não era hora — por que agora seria diferente? Por que deveriam ouvir?

Juliette não podia culpá-los. Ainda assim, isso os levaria à morte. Isso resultaria em uma calçada repleta de corpos, empilhados uns sobre os outros, manchando a cidade inteira de vermelho.

O monstro subia a outra rua, sumindo rapidamente de vista. Se eles apenas olhassem, se apenas dessem alguns passos à frente e olhassem, os manifestantes veriam o

rastro de destruição, os corpos se contorcendo e os corpos em frenesi, os corpos fugindo às pressas e pisoteando os corpos caídos.

Juliette fechou as mãos com força, apertando a arma. Ela engoliu o choro enlouquecedor que ameaçou surgir e pigarreou para afugentar a rouquidão. Então, ela atirou para o alto mais uma vez e voltou a correr atrás do monstro.

Parecia uma causa perdida.

Porém, fosse como fosse, ela ainda precisava tentar.

Roma roubou um carro.

Para ser justa, ele realmente não teve escolha. E, quando o herdeiro dos Rosas Brancas marcha em sua direção com uma pistola na mão, mandando você sair do carro, não importa qual cargo importante você ocupa no Conselho Administrativo Municipal — você sai da merda do carro.

— Mais rápido — disse ele ao chofer. — Eu falo sério, o mais rápido que puder…

— Você quer que eu passe por cima das pessoas? —

indagou o motorista. — É isso que você quer?

Roma esticou o braço. Pressionou a buzina e não soltou.

Os agrupamentos de manifestantes pelos quais passavam foram forçados a se dispersar, a menos que quisessem ser atropelados.

— Dirija!

Eles rasgaram a Concessão, pegando a rota mais direta possível. Era difícil mensurar quanto tempo havia se passado, o quão velozes eram em comparação ao monstro que corria. Ele não sabia se Juliette estava conseguindo acompanhar.

Contudo, o caos estava começando.

Fora da janela do carro, se não havia grupos de proletários revoltados com trapos vermelhos amarrados nos braços, havia civis comuns que tentavam conseguir uma refeição antes que a cidade inteira estivesse tomada pelos Comunistas. Mesmo assim, para qualquer lado que Roma olhasse, havia pessoas se movendo depressa, correndo até seus entes queridos e dizendo para se apressarem, conduzindo crianças para esquinas e espiando por cima dos ombros, saboreando a amarga aspereza no ar. A aspereza que alertava do desastre a caminho.

— Ali, ali — disse Roma, rapidamente. Bem no limite do Bund. Entre na pista.

O carro parou em frente a um banco estrangeiro e Roma saltou, vasculhando o cenário diante de si para achar algum sinal do monstro. Ele não havia chegado ali ainda. Nem os manifestantes.

Ótimo.

Roma apontou a pistola para o alto. Atirou: três balas em sequência.

— Vamos evacuar o local! — anunciou ele quando os trabalhadores perto da água o fitaram, quando os pescadores recolheram suas redes, quando os homens que mastigavam palitos de dente no leme de seus navios o encararam. — Saiam agora se quiserem viver. Vão para o norte!

— Ei, qual é, chega de gritaria! — Um Rosa Branca se debruçou no parapeito de seu navio. — Mas será possível que…

Roma apontou a arma, com um nó apertado no estômago.

Ele atirou e, quando a bala cravejou o ombro do Rosa

Branca, ele pôde apenas cuspir seu palito, boquiaberto.

Roma nunca errava.

— Estou falando sério — disse ele, friamente. — Vá para o hospital. Todos os demais, circulando, ou eu vou mandar vocês à força para o hospital também.

Eles saíram depressa. Roma desejou que fossem mais rápidos. Desejou que não tivesse sido necessário ameaçá-los para que lhe obedecessem.

Um grito ecoou pelo Bund.

Roma se virou, erguendo a arma imediatamente.

— Entrem nos prédios! — rugiu ele. Todas as damas que passeavam no Bund, as estrangeiras com sombrinhas, o fitaram com olhos arregalados e assustados, mas não hesitaram. O grito era um sinal de ameaça real. O tom de Roma era a confirmação de que algo estava vindo. As multidões correram para longe da água. Roma vasculhou tudo de onde estava — olhos escaneando as diversas ruas que davam no Bund, tensos com a possibilidade de avistar o monstro.

— Andem! Andem!

Juliette. Ele reconheceria sua voz em qualquer lugar. Ela vinha da estrada distante.

Roma correu, disparando direto para a estrada e fazendo sinal para que os carros dessem marcha à ré. Não importava que buzinassem e quase o atropelassem. Ele brandiu a arma e aqueles que estavam na frente imediatamente tentaram voltar com um ruído alto de seus motores, criando um bloqueio quando os carros de trás tentaram avançar.

Satisfeito com o congestionamento, Roma voltou sua atenção a outro lugar. Havia apenas uma estrada entre a

água e a entrada da rua que a cruzava — uma estrada e um cais longo, dependendo de qual direção o monstro queria seguir, dependendo se mergulharia nas águas rasas onde os barcos dos pescadores estavam ancorados, ou se desceria o cais para o fundo do rio. Roma voltou, parando no começo do cais. Descendo a rua, um borrão de movimento veio acelerado pelas linhas do bonde, espalhando pontos pretos onde quer que fosse.

O monstro.

— Ok — balbuciou ele. Preparou a arma. Mirou. Mesmo que balas não penetrassem suas costas, a parte frontal ainda era mole assim como a dos humanos. — Basta.

Roma puxou o gatilho.

A arma deu um coice… mas nada saiu dela.

Ele não tinha mais balas.

— Merda!

Roma jogou a arma fora, colocando a mão no casaco para pegar a reserva. A seu lado, um lampejo de movimento.

Antes que pudesse pegar qualquer coisa, Roma virou-se bem na hora de ver Paul Dexter com a pistola apontada.

Por puro instinto, Roma se agachou velozmente, mal se esquivando de uma bala na cabeça. Ele pressionou as palmas das mãos no chão duro, observando o entorno.

— Desista — sibilou Paul. Em uma das mãos empunhava uma arma e na outra, sua pasta.

Roma não lhe obedeceu. Ele pegou o objeto mais próximo de si — uma caixa de madeira — e a arremessou, mirando bem no rosto. Com um ganido, Paul se viu forçado a derrubar a pasta, forçado a quase afrouxar a empunhadura da pistola. Quando se recuperou, Roma já havia enfiado a mão no paletó e sacado a segunda arma.

O dedo de Roma pairava no gatilho. Ele teria atirado em Paul ali mesmo se a terra não tivesse começado a tremer.

Se o mundo ao redor não tivesse começado a se encher subitamente com uma inundação de pontinhos mortais investindo contra ele em massa.

— Não — sussurrou Roma.

O monstro havia chegado.

— Andem! Andem!

Ofegante, Juliette derrubou uma mulher, salvando-a bem na hora de um arco de insetos que subia por sua carrocinha de comida. Um grupo de pessoas a menos de três passos de distância caiu em uníssono. A mulher choramingou, com olhos arregalados.

— Fique aqui — ordenou Juliette. — Fique agachada, não tire os olhos do chão e saia quando vir os insetos, entendeu?

A mulher assentiu, com um gesto vacilante. Juliette se ergueu em um salto, voltando a procurar pelo monstro. Eles já se aproximavam do Rio Huangpu, da destruição final que marcava o fim de uma trilha sangrenta, horripilante — ou pelo menos Juliette esperava que fosse o final. O Bund estava logo à frente, na próxima interseção.

— Não. Os olhos de Juliette se fixaram em duas pessoas bem perto da água, em combate corpo a corpo. Seus olhos viram o monstro, viram seus insetos, que iam na direção de qualquer vítima que encontrassem.

— Roma! — gritou ela.

Roma deu meia-volta, os olhos arregalados. Ele agiu imediatamente, se jogando para longe do monstro que investia sobre o cais, evitando um punhado de insetos que

caíram no chão e passaram pelos sapatos de Paul antes de se dispersarem. Paul nem precisou se mover. Era imune.

Juliette presumiu que aquela era a razão pela qual ele não ficou nem um pouco preocupado quando o monstro mergulhou na água.

Um splash alto, muito alto, ecoou pelo quase silencioso Bund.

Ela não devia ter pedido a Roma para chegar ao rio primeiro. Devia ter trocado de função com ele.

— Roma, corra! — gritou ela, indo na direção dele o mais rápido que podia. — Ele vai…

Uma erupção. Assim que Juliette finalmente chegou no cais, a água se espalhou por todo o lado com pontos pretos, subindo cerca de três metros antes de descer sobre os portos. Os insetos andavam por toda a parte, caçando qualquer cantinho em que pudessem se entocar, qualquer superfície em que pudessem se fixar. Eles choviam — em Paul, em Juliette, em Roma.

Juliette nunca teve tanto nojo em toda a sua vida.

Centenas de patas rastejavam sobre ela, se entocando nas aberturas de suas roupas e mordiscando seus poros para checar onde haviam caído. Sua pele nunca havia coçado com tamanha intensidade; ela nunca vivenciara tamanha repugnância, a ponto de querer vomitar com a sensação.