Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 31 de 40

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Prazeres Violentos

Vinte e Nove

— Viu algo interessante?

— Bem — observou Marshall —, nenhum monstro apareceu. Mas no terrível tédio de sua ausência, avistei… —

ele apontou para a frente, para que Marshall visse por si mesmo.

— Devo olhar para o quê?

Marshall emitiu um tsc-tsc de decepção e então pegou a cabeça do amigo para direcionar seu olhar com as próprias mãos.

— Lá, perto do canto inferior esquerdo da sacada.

Benedikt puxou o ar entre os dentes.

— Viu?

— Sim.

Lá, perto do canto inferior esquerdo da sacada: uma série de furiosas marcas de garras, descendo o pequeno parapeito.

Vinte e nove

-Dentre todos os lugares — exclamou Roma, esticando o pescoço e estreitando os olhos na direção do painel quebrado de neon preso ao teto — precisava ser esse o que nosso alvo gosta de frequentar?

O sol havia se posto há meia hora, transformando o céu vermelho-turvo em tinta preta vívida. Uma leve neblina também descia, embora Juliette não tivesse certeza de quando havia começado. Ela simplesmente se deu conta de que havia gotículas de água vindas do céu quando fitou as letras M NTUA que se repetiam em uma iteração azul nebulosa e, quando tocou a face, seus dedos ficaram úmidos.

— Honestamente? — disse Juliette. — Eu esperava que fosse mais libertino.

— Eu esperava mais tiroteios — respondeu Roma.

O Mantua se situava bem na divisa dos territórios Escarlate e Rosa Branca; era um bar e bordel que fervilhava com a emoção de seu próprio tabu. Aquele era um dos lugares mais perigosos de Xangai, mas, de um jeito inusitado e tortuoso, também era o local mais seguro para Roma e Juliette serem vistos juntos. A qualquer momento desordeiros podiam se levantar e matar uns aos outros, mulheres podiam sacar suas pistolas e abrir fogo, bartenders podiam quebrar copos e decidir começar uma guerra. Essa onda de adrenalina, essa expectativa, essa espera; era isso que os frequentadores do Mantua

buscavam. Quem acreditaria em boatos vindos de um lugar como aquele?

— Pelo que sei, houve pelo menos cinco conflitos aqui na semana passada — relatou Roma, corriqueiramente. Eles ainda estavam do lado de fora. Nenhum dos dois fez menção de entrar. — A polícia municipal tenta fazer incursões aqui semana sim, semana não. Por que um britânico viria para cá com tanta regularidade?

— Por que qualquer pessoa viria aqui? — indagou Juliette.

— Por gostar desse tipo de emoção.

Com o mesmo esforço que faria para caminhar sobre piche, Juliette abriu a velha e barulhenta porta e entrou no Mantua, dando um tempo para seus olhos se ajustarem ao interior escuro e lúgubre. Embora fosse difícil enxergar, certas áreas estavam iluminadas com feixes de neon, tubos que brilhavam com força suficiente para queimar suas retinas. Olhando em volta, Juliette quase poderia se convencer de que havia entrado em um bar ilegal de Nova York, não fosse pela luz mais turva.

Roma fechou a porta atrás de si e abanou a frente do nariz para dissipar a nuvem espessa de fumaça que pairava ali.

— Você o vê?

Juliette vasculhou por entre as sombras e os pontos iluminados por neon, estreitando os olhos para enxergar além dos três norte-americanos na pista de dança que tentavam ensinar uma prostituta a dançar o Charleston. O

balcão do bar estava lotado. A multidão em constante mudança era composta por clientes que já estavam bêbados jogando cédulas e moedas de diversos países no piso encharcado de álcool. Assim que um homem saía do balcão do bar agarrado com uma estranha em direção a

uma pequena escadaria ali perto, sem dúvida indo cometer um pecado ainda maior, outro tomava seu lugar.

Archibald Welch estava sentado na extremidade esquerda do balcão, com uma bolha de espaço vazio entre ele e os demais. Enquanto outros simplesmente ficavam de pé ao lado de seus assentos estofados de veludo vermelho, Archibald estava firmemente sentado: um gigante de cabelo ruivo e pescoço mais largo que o rosto. A cicatriz que atravessava sua face reluzia à luz azul do balcão. A foto da ficha criminal não fazia jus a seu tamanho.

— Hum — disse Roma, quando viu o alvo. — Suponho que não será possível intimidá-lo.

Juliette deu de ombros.

— Podemos tentar.

Os dois lançaram-se à frente, passando aos empurrões pelos clientes do Mantua e parando um em cada lado de Archibald, sentando-se nos bancos de veludo à esquerda e direita dele. Archibald mal se mexeu. Não deu a menor importância à presença deles, embora estivesse bem claro que Roma e Juliette estavam ali por sua causa.

— Archibald Welch, creio eu? — disse ela, docemente. —

Posso te chamar de Archie?

Archibald entornou sua bebida.

— Não.

— Sério? —Juliette continuou tentando. — Que tal Archiezinho?

Roma revirou os olhos.

— Ok, basta — interrompeu ele. — Sabemos do seu esquema com Larkspur, Sr. Welch, e estou certo de que o senhor sabe quem nós somos. Então, a menos que queira a

Sociedade Escarlate e os Rosas Brancas atrás do seu rabo, eu sugiro que comece a falar. Agora.

Roma optou por ser bruto, em contraste à amabilidade de Juliette, mas parecia que nenhuma das táticas havia funcionado. Archibald não deu nenhum sinal de que havia assimilado, ou sequer ouvido, a ameaça de Roma. Apenas continuou bebendo.

— Vamos, nós nem precisamos de informação sobre você

— choramingou Juliette. — Só queremos saber onde encontrar Larkspur.

Archibald permaneceu em silêncio. O jazz rugia e as prostitutas se misturavam, procurando seus próximos clientes. Uma delas se aproximou, portando um leque na mão delicada, mas quase que imediatamente deu meia-volta, sentindo a tensão naquele pequeno canto do bar.

Os dedos de Juliette brincavam com uma conta de seu vestido. Ela já se preparava para questionar o homem outra vez quando, para seu choque, ele pôs o copo sobre o balcão e disse:

— Eu falo.

Sua voz era cascalho contra borracha. Era a colisão de um navio contra as rochas costeiras que o levariam ao naufrágio com toda a tripulação.

— Sério? — perguntou Roma, incrédulo.

Juliette desconfiava que Roma não tinha a intenção de deixar aquela reação escapar. Com a resposta de Roma, a face de Archibald abriu-se em um sorriso. Seus olhos foram engolidos por suas pesadas pálpebras, consumidos por espirais sombrias.

Era a coisa mais assustadora que Juliette já havia visto.

— Claro — disse Archibald. Ele fez sinal para a bartender, que deixou de lado o pedido que atendia para ir até ele imediatamente. Ele mantinha três dedos erguidos. — Mas vamos deixar as coisas divertidas. Responderei a uma pergunta para cada dose que vocês tomarem.

Roma e Juliette trocaram um olhar confuso. Como aquilo beneficiava Archibald Welch? Ele estava tão desesperado assim para ter amigos de copo?

— Parece justo — resmungou Roma. Ele observou a bebida que fora servida à sua frente com mais repulsa do que sua costumeira expressão neutra.

Archibald ergueu o copo com um sorriso.

— Gānbēi.

— Saúde — balbuciou Juliette, batendo seu copo no dele e no de Roma.

A bebida desceu rápido, fazendo sua garganta arder como fogo. Ela fez uma careta, mais pelo gosto do que pelo calor, pela revolta imediata de sua língua contra a bebida terrivelmente barata.

— Meu Deus, que porcaria é essa? — disse Juliette, tossindo e colocando o copo sobre o balcão com força.

Roma fez o mesmo, tomando o cuidado de manter a expressão firme.

— Tequila — disse Archibald. Ele gesticulou para a bartender. — Próxima pergunta.

— Ei — reclamou Juliette. — Essa não conta.

— Eu disse uma dose para cada pergunta, Senhorita Cai.

Sem exceções.

Mais três doses foram colocadas diante deles. Esta tinha um gosto ainda pior. Juliette podia estar bebendo a gasolina que abastecia os carros dos Escarlates.

— Vamos começar com o básico — Roma disse assim que abaixaram aqueles copos, se antecipando antes que Juliette desperdiçasse outra pergunta. — Quem é Larkspur?

Archibald deu de ombros, fingindo se desculpar.

— Eu não sei o nome dele, nem vi sua cara.

Parecia uma mentira. Ao mesmo tempo, Juliette não conseguia imaginar que aquele homem tinha qualquer razão para proteger Larkspur. Ele nem precisava entrar na conversa se não quisesse dizer nada.

Juliette resistiu ao impulso de quebrar seu copo com a própria mão.

— Mas você entrou contato com ele? Ele é uma pessoa de verdade, com uma base real de operações?

Com um ar blasè, Archibald apenas resmungou.

— Creio que agora foram mais duas perguntas.

Seis copos desta vez. Juliette, que havia se preparado, tomou as suas tranquilamente. Roma teve que segurar a tosse.

— Claro que ele é real — retrucou Archibald. — Quem mandou vocês atrás de mim? Walter Dexter?

Por birra, Juliette devia fazer com que ele bebesse pela resposta, mas provavelmente isso não teria nenhum efeito significativo. Parecia que o álcool mal afetava Archibald.

— Pode ter sido.

Archibald anuiu com a cabeça, suficientemente satisfeito.

— Eu faço entregas diretas a Larkspur. Isso conta como entrar em contato para vocês? — ele virou seu copo de ponta-cabeça e deu batidinhas para beber as últimas gotas.

— Eu pego os produtos no armazém de Dexter e levo tudo para a cobertura da Casa de Chá Long Fa, no Chenghuangmiao. É lá que Larkspur fabrica sua vacina.

Juliette soltou a respiração em um fôlego breve. Era isso, então. Eles tinham o endereço. Podiam falar diretamente com Larkspur.

Se aquilo não desse certo, então ela não sabia mais o que raios fariam para salvar sua cidade.

— Isso é tudo por hoje? — indagou Archibald. Algo em sua voz era provocativo. Ele não esperava que aquilo fosse suficiente. Fitava Juliette como se pudesse ler sua mente, como se pudesse ver as engrenagens girando rapidamente por baixo de seu crânio.

— É tudo — disse Roma, já arregaçando as mangas, se preparando para sair.

Mas Juliette balançou a cabeça negativamente.

— Não — dessa vez, ela acenou para a bartender. Roma arregalou os olhos. Ele começou a dizer-lhe algo sem emitir sons, em choque, mas ela o ignorou. — Tenho mais perguntas.

— Juliette — rosnou Roma.

As doses vieram. Archibald deu uma risada, um ruído grande e intenso que veio direto de seu estômago e cheirava a gases, batendo na mesa, entretido.

— Beba, Sr. Montagov.

Roma encarou o copo e bebeu.

— A vacina — disse Juliette, quando o calor na garganta se dissipou. — É real? Você deve saber, se faz as entregas.

Você deve ter visto mais do que os comerciantes comuns.

Com isso, Archibald fez uma pausa. Gargarejou a bebida na boca, pensando por um longo momento. Talvez estivesse decidindo se responderia àquilo ou não. Mas promessa é promessa; Juliette e Roma já haviam pagado pelo conhecimento.

— A vacina é e não é efetiva ao mesmo tempo —

respondeu Archibald, com cuidado. — Larkspur produz uma variante em seu laboratório usando o opiáceo que eu entrego. A outra variante é simplesmente soro fisiológico colorido.

— O quê?! — exclamou Roma, chocado.

Se a insanidade não fosse erradicada, em algum momento se espalharia por todos os cantos de Xangai. Com duas variantes da vacina, uma verdadeira e uma falsa, Larkspur decidia quem estava imune ou não.

O peso da revelação atingiu em cheio o peito de Juliette.

— Larkspur, basicamente, está escolhendo a dedo quem vive e quem morre — acusou ela, inflamada.

Archibald deu de ombros, não confirmando, nem negando o que ela disse.

— Mas como? — questionou ela. — Como ele tem a vacina real, para começar?

Archibald acenou para a bartender. Juliette virou a bebida antes que ele pudesse dizer a ela que o fizesse, batendo o copo furiosamente no balcão. Roma foi o mais lento desta vez, fazendo uma careta exagerada enquanto limpava a boca.

— Você está indo além da extensão de meu conhecimento, garotinha — respondeu Archibald. — Mas eu te digo isso: na primeira entrega que fiz, fiquei vendo Larkspur trabalhar com a ajuda de um livrinho de couro. Ele o consultava constantemente, como se não conhecesse os suprimentos que joguei a seus pés. — O brilho insolente nos olhos de Archibald pareceu desaparecer. — Você quer saber sobre a vacina verdadeira? Larkspur estava usando um livrinho feito

de couro rígido encontrado apenas na Grã-Bretanha.

Captaram?

Roma e Juliette trocaram um olhar.

— Quer dizer que ele é britânico? — indagou Juliette.

— Ele prefere cadernos feitos à moda tradicional? —

complementou Roma.

Archibald olhou para os dois como se ambos tivessem neurônios a menos.

— Digam-me, se um comerciante da Grã-Bretanha veio de navio até Xangai quando as notícias dos surtos começaram a se espalhar, ele estaria aqui agora?

Juliette franziu o cenho.

— Depende do quão rápido o navio vai…

— Mesmo o navio mais veloz não explicaria o curto intervalo entre o início dos surtos e os boatos sobre a vacina de Larkspur — interrompeu Archibald. — E, mesmo assim, o livro veio da Grã-Bretanha. O que significa que ele tinha a fórmula de uma vacina antes mesmo dos surtos começarem por aqui.

Sem aviso, Archibald fez um movimento brusco no assento. Por um momento assustador, em sua linha de raciocínio frenética, Juliette presumiu que o grandalhão havia levado um tiro, mas o movimento que ele fez foi apenas para conseguir se inclinar para a frente e acenar novamente à bartender.

— Creio que essa resposta exija algumas doses a mais. Foi boa, não foi?

A cabeça de Juliette estava girando. Ela não tinha certeza se era por causa das informações ou do álcool.

— O livro — disse ela a Roma. — Eu vou pegar o livro…

— Ah, nem se dê ao trabalho — interrompeu Archibald. —

Eu nunca o vi novamente. Entretanto, vi o piso chamuscado.

Ele o queimou. Você acha mesmo que, com os métodos memorizados, ele correria o risco de ser roubado por pessoas como você?

Era um bom argumento. Juliette contraiu os lábios, mas Archibald apenas sorriu ao ver a expressão e empurrou as duas doses para perto dela. Juliette pegou uma delas sem muita hesitação. Era o brinde final. Eles haviam conseguido o que queriam.

— Juliette Cai — disse Archibald, erguendo o copo na direção dela —, você foi uma fantástica parceira de copo. O

Sr. Montagov precisa melhorar.

— Que rude — resmungou Roma.

Cuidadosamente, certificando-se de que a mão não estava tremendo, Juliette pegou o segundo copo e o ergueu. Roma a acompanhou e, então, a última dose de veneno descia, fazendo seu estrago. Sem perder tempo, Archibald levantou-se assim que terminou de beber, dando um tapinha com a mão pesada no ombro esquerdo de Juliette e outro no ombro direito de Roma, como um gesto de camaradagem.

— Foi um prazer, crianças. Mas o relógio já passa das onze, e minhas fontes me disseram que é hora de ir.

Ele saiu às pressas, misturando-se à multidão pulsante e desaparecendo em meio ao neon. Um verdadeiro agente do caos. Juliette mal conhecia o homem e já respeitava seus princípios.

Juliette fechou os olhos com força, sacudindo a cabeça e se esforçando para manter o foco. Estava bem. Podia aguentar aquilo.

— Roma? — chamou.

Roma se inclinou para a lateral e foi ao chão.

— Roma!

Juliette se levantou rápido da cadeira e ajoelhou a seu lado, bêbada o bastante para ver dobrado, mas não o bastante para perder o equilíbrio. Ela deu um tapa leve na cara de Roma.

— Me deixe aqui — disse ele, com um grunhido.

— Como você ficou tão mal? — perguntou Juliette, incrédula. — Você não é russo?

— Eu sou russo, não um alcoólatra — resmungou Roma.

Ele fechou bem os olhos, depois os abriu, piscando para o teto com uma expressão atônita. — Por que eu estou no chão?

— Vamos embora — ordenou Juliette. Ela o arrastou pelo ombro, tentando ajudá-lo a ficar de pé. Com um grunhido, Roma a acompanhou. Ou tentou; na primeira tentativa, apenas conseguiu se sentar. Juliette puxou-o de novo, e então ele estava de pé novamente, embora um pouco cambaleante.

— Vamos embora? — repetiu Roma.

Subitamente, sirenes preencheram o local, um uivo penetrante que cortou o alto volume do jazz. Houve gritos e então veio a debandada de pessoas correndo em todas as direções em tamanha desordem que Juliette não conseguia mais identificar a saída. Do lado de fora, uma voz no megafone ordenava que todos os clientes do Mantua saíssem com as mãos para cima. Do lado de dentro, as pessoas estavam destravando suas armas.

— Não vamos mais embora — corrigiu ela. — A não ser que queiramos levar um tiro da polícia municipal. Só nos

resta subir. Vamos.

Ela agarrou a manga da camisa de Roma e o arrastou em direção à pequena escadaria que ela avistara mais cedo no canto do estabelecimento. Enquanto todos os clientes do Mantua corriam e trombavam e pisoteavam uns aos outros para chegar à saída, as mulheres de roupas chamativas se encaminhavam para as escadas, subindo e sumindo de vista.

— Cuidado, cuidado — alertou Juliette quando Roma tropeçou no primeiro degrau.

Ambos estavam ofegantes quando chegaram ao topo das escadas, tentando manter o equilíbrio enquanto o mundo inteiro rodava. No segundo andar, o corredor era tão estreito que Juliette não conseguia nem abrir os braços. O

carpete era incrivelmente felpudo, fazendo com que metade de seu salto afundasse nos pelos. O brilho do neon que impregnava as paredes do andar de baixo era ausente ali.

Aquele andar era iluminado com lâmpadas fracas e esporádicas ao longo do teto, com luz suficiente apenas para que vissem aonde estavam indo e para projetar longas sombras dançantes no papel de parede descascado.

Juliette abriu a primeira porta que viu. Dois gritinhos distintos de susto soaram quando a luz penetrou o quartinho. Juliette estreitou os olhos e viu um homem com as calças arriadas.

— Sumam daqui — ordenou ela.

— Este é meu quarto — reclamou a mulher que estava na cama.

Abaixo de seus pés, ouviu-se um estrondo seguido de tiros.

— Ah, sinto muito, deixe-me reformular — disse Juliette.

Era muito difícil manter a seriedade ali. Pela razão mais

absurda, risos se formavam em sua garganta. — Sumam.

Daqui!

O homem a reconheceu primeiro. Provavelmente era um Escarlate, a julgar pela velocidade com que vestiu as calças e foi embora dali, assentindo com a cabeça para Juliette quando passou por ela. A mulher foi mais lenta, saindo contrariada da cama que ocupava metade do quarto. Havia uma janela acima da cama, mas era muito pequena até para um gato passar, que dirá uma pessoa.

— Mais rápido — disparou Juliette. Ela ouviu passos fortes na escada.

A mulher passou roçando e, quando saiu, virou a cabeça para trás e lançou um olhar de ira. Juliette empurrou Roma para dentro do quarto agora vago e bateu a porta.

— Acho que ela não gostou muito de você — disse Roma.

— Não dou a mínima — respondeu Juliette. — Vá para baixo das cobertas.

Roma

ficou

visivelmente

desconfortável.

Gritos

reverberavam no segundo andar.

— Sério mesmo? Você sabe o que as pessoas fazem debaixo dessas…

— Cubra-se! — vociferou Juliette. Ela enfiou a mão no vestido e começou a mexer em sua bolsa de dinheiro, puxando uma quantia considerável. Isso foi difícil, levando em conta que ela não conseguia ler os números.

— Tá bom, tá bom — disse Roma. Assim que ele caiu na cama e puxou a coberta sobre si, ouviram uma batida de tremer a terra na porta.

Juliette estava pronta.

Ela abriu uma fresta, insuficiente para que o policial invadisse, mas suficiente para que pudesse dar uma boa

olhada em seu rosto e seu vestido norte-americano.

Normalmente isso bastava para que ligassem os pontos, e ela aguardou — aguardou aquele milissegundo em que a ficha cairia.

E caiu.

— Este quarto está vazio — informou ela, como se estivesse hipnotizando o policial. Ele era chinês, não britânico, o que era bom para Juliette, pois significava que a probabilidade de ele ter medo da Sociedade Escarlate era maior. Juliette entregou-lhe o dinheiro que estava em suas mãos e o policial abaixou a cabeça, deixando à mostra o brasão de armas da Concessão Internacional em seu quepe azul-escuro.

— Entendido — disse ele. O policial pegou o dinheiro e seguiu seu caminho, marcando o quarto como inspecionado e deixando Juliette fechar a porta e se recostar nela com o coração a mil.

— Estamos seguros? — perguntou Roma, debaixo dos cobertores, com as palavras abafadas.

Suspirando, Juliette foi até ele e puxou as cobertas.

Surpreso, seus olhos estavam mais arregalados do que os de um lêmure, e seu cabelo estava desgrenhado.

Juliette começou a rir.

A risada subiu do calor em seu estômago, espalhando-se por todo o seu peito enquanto ela se sentava na cama com os braços em volta da barriga. Ela não sabia dizer o que era tão engraçado. Nem Roma, quando se sentou.

— Isso é… culpa… sua — conseguiu dizer Juliette, entre soluços.

— Culpa minha? — repetiu Roma, incrédulo.

— Sim — disse Juliette. — Se você soubesse beber, teríamos saído junto com Archibald.

— Por favor — disse Roma. — Se eu não tivesse caído, você teria.

— Calúnia.

— É mesmo? — desafiou Roma, dando um empurrão forte no ombro dela. O corpo inteiro e instável de Juliette vacilou e caiu de costas na cama. Sua cabeça rodopiava ferozmente.

— Seu…

Juliette investiu contra ele com as duas mãos, embora não soubesse bem qual era seu objetivo. Talvez esganá-lo, ou arrancar seus olhos, ou alcançar a arma que ele carregava no bolso, mas Roma era mais veloz que ela, mesmo embriagado. Ele a agarrou pelos pulsos e a empurrou, até que ela estivesse novamente deitada de costas e Roma por cima dela, com uma expressão convencida.

— O que você estava dizendo? — perguntou Roma. Ele não se afastou quando provou que estava certo. Permaneceu ali, com as mãos segurando os pulsos de Juliette acima de sua cabeça, seu corpo sobre o dela, com olhos estranhos, escuros e em chamas.

Algo mudou na expressão de Roma. Juliette puxou o ar em um fôlego breve. O gesto poderia ter passado despercebido se Roma não estivesse tão perto. E ele percebeu.

Ele sempre percebia.

— Por que está se encolhendo? — indagou Roma. Sua voz reduziu de volume até tornar-se um sussurro intrigante, inclemente. — Tem medo de mim?

Uma fúria quente invadiu as veias rígidas de Juliette. Uma pergunta tão insolente fez despertar novamente todos seus sentidos adormecidos, varrendo o torpor do álcool.

— Eu nunca tive medo de você.

Juliette inverteu a posição dos corpos em um empurrão ágil. Amargurada, ressentida e ofendida, ela enganchou as pernas nas dele e girou os quadris até que Roma estivesse de costas e ela se assomasse por cima dele, de joelhos sobre os lençóis. Embora ela tenha tentado imobilizar os ombros de Roma da mesma maneira que ele fizera com ela, foi uma tentativa pouco convicta, e sua cabeça ainda girava. Roma simplesmente percebeu a ira em seus gestos e respondeu à altura.

Ele sentou-se rapidamente, desvencilhando-se dela. Mas não fez mais nada. Permaneceram como estavam — perto demais, entrelaçados demais. Ela estava em seu colo; ele estava a centímetros dela.

Uma das mãos de Roma repousou sobre o tornozelo dela.

A mão de Juliette assentou-se sobre o pescoço dele.

— Talvez — disse Roma, com palavras quase inaudíveis —

você não tenha medo de mim. Porém — sua mão subia, cada vez mais alto, acariciando panturrilha, joelho, coxa. A mão de Juliette desceu até firmar-se no espaço sob a gola engomada da camisa branca de Roma —, você sempre temeu a fraqueza.

Juliette ergueu o olhar. Seus olhos se encontraram, turvos e bêbados e alertas e desafiadores ao mesmo tempo, mais distraídos e mais atentos que nunca, de alguma forma — de alguma forma.

— E isso é fraqueza? — perguntou ela.

Juliette não sabia quem tinha a respiração mais ofegante

— ela ou Roma. Estavam parados a um suspiro de distância, um desafiando o outro a tomar a iniciativa, um desafiando o outro a ceder àquilo que nenhum dos dois desejava admitir que desejavam, àquilo que nenhum dos dois desejava admitir ser algo em curso, àquilo que nenhum dos dois desejava admitir ser apenas a repetição da história.

Ambos cederam ao mesmo tempo.

O beijo de Roma era exatamente como se lembrava. Ele a preencheu com tanta adrenalina e prazer que ela poderia explodir. Ele a fez sentir-se etérea demais para o próprio corpo, como se pudesse desgarrar-se da própria pele.

O álcool tinha um gosto horrível no copo, mas seus resquícios eram totalmente doces na língua de Roma. Os dentes dele roçaram em seu lábio inferior e Juliette curvou-se contra seu corpo, passando as mãos por seus ombros, pelos fortes músculos das laterais de seu corpo, sobre a camisa e contra o calor intenso de sua pele nua.

O sangue de Juliette pulsava como um rugido. Ela sentiu os lábios de Roma se moverem de sua boca para seu maxilar, depois para sua clavícula, incendiando tudo o que tocavam. Juliette não conseguia pensar, não conseguia falar

— sua cabeça girava e seu mundo girava e ela não queria nada mais naquele momento além de continuar girando, girando e girando. Ela desejava sair dos trilhos. Desejava estar fora de controle para sempre.

Há quatro anos, eles eram inocentes, jovens e gentis. Seu amor era doce, algo a ser protegido, mais simples do que a própria vida. Agora, eram dois monstros; agora, estavam colados um ao outro e exalavam o mesmo perfume inebriante do bordel em que se esconderam, embriagados por algo além da tequila barata. A luxúria e o desejo eram o combustível de cada um de seus gestos. Juliette abriu os

botões da camisa de Roma, agarrando-se às cicatrizes e feridas antigas que cobriam suas costas.

— Eu quero uma trégua — murmurou Juliette contra os lábios dele. Eles precisavam parar. Ela não conseguia parar.

— Você está me torturando.

— Não estamos em guerra — respondeu Roma, suavemente. — Por que pedir trégua?

Juliette sacudiu a cabeça. Fechou os olhos, deixando a sensação dos lábios dele roçando seu maxilar atravessar seu corpo.

— Não estamos?

Estamos.

A constatação caiu sobre Juliette como um balde de gelo, penetrando seus ossos com uma espécie de frio que só se encontra a sete palmos sob o solo. Ela afundou o rosto na curva do pescoço de Roma, esforçando-se para não quebrar, para não chorar. Roma percebeu a mudança antes mesmo de Juliette e a envolveu em seus braços.

— O que você está fazendo, Roma Montagov? — sussurrou Juliette, com a voz rouca. — O que você está fazendo comigo?

Brincar com seu coração uma vez não bastava? Ele já não havia lhe partido ao meio e a deixado aos lobos no passado?

Roma não disse nada. Juliette não conseguiu lê-lo de maneira alguma, nem mesmo quando ergueu a cabeça e o fitou, com olhos arregalados.

Juliette

recuou

bruscamente,

levantando-se

com

dificuldade. Só então Roma reagiu. Só então estendeu a mão e agarrou o pulso da jovem, sussurrando:

— Juliette.

— O que é?! — vociferou ela. — O quê, Roma? Você quer explicar o que é essa coisa entre nós, mesmo que há quatro anos tenha deixado bem claro de que lado está o seu coração? Será que devo te render com uma arma até que você não tenha outra opção a não ser admitir que está brincando comigo mais uma vez…

— Não estou.

Juliette levou a mão ao vestido e sacou a arma que estava oculta em suas dobras. Com a mão livre, puxou a trava e pressionou o cano contra a parte inferior da mandíbula de Roma — a parte macia onde sua boca estivera há poucos minutos — e tudo o que ele fez foi levantar o queixo para que a arma afundasse ainda mais, até que a boca da arma desse um beijo diferente em sua pele.

— Eu não consigo entender — disse ela, ofegante. — Você me destrói e depois me beija. Você me dá motivos para odiá-lo e depois para amá-lo. Isso é mentira ou verdade?

Isso é um esquema ou seu coração quer me alcançar?

O coração de Roma pulsava tão forte que Juliette podia senti-lo, podia ouvir seu ribombar mesmo enquanto estava sobre ele, com a mão tão perto de seu pescoço. Um raio de luz da lua penetrou pela janelinha e agora corria pelo corpo de Roma: seus ombros e braços nus, prontos para ação, mas imóveis a fim de impedir que Juliette ameaçasse sua vida.

Ela podia puxar o gatilho. Pouparia a si mesma da agonia de ter esperança.