Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 9 de 40

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Prazeres Violentos

Sete

a

reputação

comprometida. Roma, por outro lado, poderia entrar em contato com a Sociedade Escarlate sem consequências para os Rosas Brancas. Ele era meramente o herdeiro, enviado em uma importante missão.

— O que o senhor está dizendo? — indagou Roma. — Só porque eu tive motivos para entrar no cabaré da Sociedade Escarlate não significa que eu posso sair batendo perna pelo hospital deles e…

— Encontre alguém que te leve até lá. Ouvi rumores de que a herdeira Escarlate retornou.

Roma sentiu um aperto no peito. Ele não ousou reação alguma.

— Papa, não me faça rir.

Lorde Montagov deu de ombros com desdém, mas havia algo em seus olhos que Roma não gostou.

— Não é uma ideia tão absurda — disse o pai. —

Certamente você pode pedir um favor a ela. Afinal, foi sua namorada.

Sete

No intervalo de alguns dias, começou o falatório na cidade. A princípio, nada além de rumores: uma suspeita de que o responsável pelos surtos não era um inimigo ou uma força da natureza, mas o diabo em pessoa, batendo de porta em porta na calada da noite e, com um olhar, impondo total insanidade à vítima.

Então as aparições começaram.

Donas de casa que penduravam roupas perto dos portos alegaram ter visto tentáculos se movendo freneticamente quando elas se aventuravam do lado de fora a fim de pegar suas coisas no cair da noite. Um punhado de operários Escarlates que chegaram tarde em seus turnos foram afugentados por grunhidos, e depois por olhos prateados que os encaravam da outra extremidade do beco, em um relance. O relato mais pavoroso foi a história que o proprietário de um bordel à beira-rio espalhou, falando de uma criatura encolhida em meio aos sacos de lixo fora do estabelecimento enquanto ele o fechava. O homem descrevera uma coisa ofegante, como se estivesse sentindo dor, lutando contra si mesma, parcialmente oculta na penumbra, mas indubitavelmente estranha, antinatural.

— A coluna é cravejada de lâminas — Juliette ouviu alguém sussurrar à sua frente; a história estava sendo passada do filho para a mãe enquanto esperavam a comida vir da janelinha de um restaurante de serviço expresso. O

garotinho dava pulinhos, animado, reproduzindo palavras

que ouvira de um colega de classe ou um amigo vizinho.

Quanto mais mortes ocorriam, e foram várias desde o homem no cabaré, mais as pessoas especulavam, como se só de falar sobre as hipóteses pudessem esbarrar na verdade. Mas quanto mais falavam, mais a verdade escapava.

Juliette teria classificado as histórias como boatos, mas o medo que escorria para as ruas era muito, muito real, e ela duvidava que o sentimento alcançaria tais níveis sem uma base substancial para as alegações. Então, o que era aquilo? Monstros não eram reais, não importava que alguns contos de fadas chineses tivessem sido tomados como verdade no passado. Vivia-se uma nova era de ciência, de evolução. O suposto monstro tinha que ser criação de alguém — mas de quem?

— Quieto — a mãe tentou conter o menino. Os dedos de sua mão esquerda entrelaçavam-se com nervosismo nas contas em seu pulso direito. Era um terço budista, usado para recitar mantras, mas qualquer mantra que aquela mulher repetisse naquele momento não conseguiria competir com o entusiasmo ilimitado do filho.

— Dizem que tem garras do tamanho de antebraços! —

prosseguiu o garoto. — Ele espreita à noite atrás de gangsteres e, quando sente o cheiro do sangue deles, dá o bote.

— Não estão morrendo apenas gangsteres, qīn’ài de —

disse a mãe, em voz baixa. Ela apertou a nuca do filho, mantendo-o parado na lenta fila.

O garotinho ficou estático. Um tremor penetrou sua doce voz.

— Māma, eu também vou morrer?

— O quê?! — exclamou a mãe. — É claro que não. Não seja ridículo — ela olhou para cima, chegando à frente da fila. —

Dois.

O lojista passou uma sacola de papel pela janela e mãe e filho saíram apressados. Juliette os seguiu com o olhar e refletiu sobre o medo súbito na voz do menino. Naquele breve instante, o menino — que tinha pouco mais de 5 anos de idade — compreendera que ele também podia morrer e se unir ao resto dos cadáveres em Xangai; quem estaria a salvo dos surtos?

— É por conta da casa, senhorita.

Juliette olhou para cima de repente, e uma sacola de papel já pairava na frente de seu rosto.

— Para a princesa de Xangai, apenas o melhor — disse o velho lojista, com os cotovelos apoiados na borda da janela de serviço.

Juliette conjurou seu mais resplandecente sorriso.

— Muito obrigada. — disse ela, pegando a sacola. Aquelas duas palavras dariam ao lojista muito material para se gabar quando encontrasse seus amigos no dia seguinte para jogar mahjong.

Juliette virou-se e saiu da fila, enfiando a mão na sacola e partindo um pedaço do pãozinho para beliscar. Seu sorriso desapareceu assim que saiu de vista. Estava ficando tarde e ela em breve precisaria estar em casa, mas ainda assim Juliette matava tempo nas lojas do distrito comercial de Chenghuangmiao, o Templo do Deus da Cidade. Uma garota se movendo em marcha lenta no meio de uma multidão caótica. Ela não tinha muitas chances de perambular por lugares como aquele, mas hoje surgira uma. Lorde Cai a enviara para averiguar um centro de distribuição de ópio, o

que, infelizmente, não foi tão entusiasmante quanto ela pensava que seria. O local apenas cheirava mal e, quando ela finalmente localizou o dono com os papéis que o pai solicitara, o homem os entregou a ela com a aparência de quem acabara de acordar. Ele nem mesmo a cumprimentou, nem verificou se Juliette podia pedir uma informação tão confidencial acerca de produtos. A jovem não entendia como alguém assim podia gerenciar mais de cinquenta funcionários.

— Com licença — balbuciou Juliette, empurrando uma multidão particularmente grande em frente a uma loja de desenhos a lápis. Apesar da escuridão que escorria para o céu rosado, a região de Chenghuangmiao ainda estava lotada de visitantes: namorados passeando lentamente em meio ao caos, avós e avôs comprando xiǎolóngbāo para os netos, estrangeiros simplesmente visitando. O nome Chenghuangmiao em si refere-se ao templo, mas, para as pessoas de Xangai, passou a abranger todo o comércio movimentado e centros de atividade da região. O exército britânico estabelecera seu gabinete central ali, há quase um século, no Jardim Yuyuan, pelo qual Juliette estava passando. Desde essa ocasião, mesmo após deixarem a cidade, os estrangeiros haviam tomado gosto pelo local.

Sempre era possível avistá-los ali, com rostos deslumbrados e maravilhados.

— É o fim! Consiga a cura agora! Só existe uma cura!

E, às vezes, era repleto de nativos excêntricos também.

Juliette fez uma careta, abaixando a cabeça para não fazer contato visual com o velho que gritava na Ponte Jiuqu. No entanto, apesar de seu árduo esforço em passar despercebida, o velho se empertigou ao vê-la e disparou

pela ponte em zigue-zague — o baque de seus passos na ponte era preocupante, pois a estrutura era muito antiga.

Ele derrapou e parou na frente dela antes que a jovem pudesse abrir distância entre eles.

— Salvação! — berrou ele. Suas rugas se aprofundaram até que seus olhos fossem completamente engolidos por pele flácida. O velho mal podia endireitar a coluna com uma corcunda perpétua; ainda assim, se moveu tão rápido quanto um ávido roedor procurando comida. — Você precisa espalhar a palavra da salvação. O lā-gespu nos trará a salvação!

Intrigada, Juliette ergueu as sobrancelhas. Ela sabia que não devia dar trela a homens que gritam nas ruas, mas havia algo nele que lhe arrepiava os pelos da nuca. Apesar do sotaque rural, ela entendia quase tudo do xangainês coaxado daquele homem — tudo, exceto aquele trechinho sem sentido.

Lā-gespu? Será que o ‘ s’ era apenas um maneirismo vindo da educação de sua geração?

— Lā gē bō? — Juliette tentou corrigir, presumindo. — Um sapo nos trará a salvação?

O velho pareceu profundamente ofendido. Balançava a cabeça de um lado para outro, sacudindo seus cabelos finos e brancos, fazendo sua frágil trança farfalhar. Ele era uma daquelas poucas pessoas que ainda se vestia como se o país não tivesse saído da era imperial.

— Minha mãe me contou um sábio provérbio quando eu era jovem — prosseguiu Juliette, agora se divertindo —, Lā

gē bō xiāng qiē tī u nȳ.

O velho meramente a fitava. Será que ele não compreendera seu xangainês? No exterior, ela tinha

constante receio de que esqueceria como pronunciar aqueles tons persistentemente planos que não são encontrados em nenhum outro dialeto do país.

— Foi uma piada ruim? — perguntou Juliette. Ela repetiu, no dialeto mais comum, desta vez mais hesitante. — Lài háma xiǎng chī tiān é ròu? Sim? Eu mereço pelo menos uma risadinha, vamos.

O velho bateu o pé, sacudindo-se todo em um esforço para ser levado a sério. Talvez Juliette tenha escolhido brincar com o provérbio errado. O sapo feio quer comer carne de cisne. Talvez o velho não tenha crescido ouvindo contos de fadas sobre o Príncipe Rã e seu meio-irmão, um sapo feio.

Talvez ele não tenha gostado do fato da piada de Juliette ter implicitamente dito que seu salvador, o lā-gespu — seja qual for o significado disso — era equivalente a uma criatura proverbial feia e maquiavélica que ansiava pelo cisne, a amada do Príncipe Rã.

— Lā-gespu é um homem — disparou ele, bem na cara de Juliette, e sua voz era um sibilo estridente. — Um homem de tremendo poder. Ele me deu uma cura. Uma injeção! Era para eu ter morrido quando meu vizinho caiu sobre mim, dilacerando a garganta. Ah! Tanto sangue! Sangue em meus olhos e sangue derramando-se em meu peito! Mas eu não morri. Eu fui salvo. O lā-gespu me salvou.

Juliette deu um grande passo para trás, o que ela deveria ter feito há cinco minutos, antes de a conversa começar.

— É, foi divertido — disse —, mas eu realmente preciso ir.

Antes que o velho pudesse detê-la, ela se esquivou e saiu apressada.

— Salvação! — ele gritou em seu encalço. — Somente o lā-gespu pode trazer a salvação agora!

Juliette fez uma curva fechada, ficando completamente fora de vista. Agora que estava em uma área menos lotada, soltou o ar e passou um tempo serpenteando por meio das lojas, dando olhadelas para trás, certificando-se de que não estava sendo seguida. Somente quando estava certa de que não havia ninguém em sua cola, suspirou de tristeza por estar deixando Chenghuangmiao para trás e saiu da miríade de lojas amontoadas, voltando às ruas da cidade para começar a caminhada até sua casa. Ela poderia ter chamado um riquixá ou parado qualquer Escarlate vadiando em frente aos cabarés para que lhe trouxesse um carro.

Qualquer outra mulher de sua idade teria feito isso, especialmente com um colar tão brilhante como o que ela usava ao redor do pescoço, especialmente se seus passos reverberassem com um eco que se ouvia a duas ruas dali.

Sequestro era um negócio lucrativo. O tráfico humano prosperava, em seu auge, e a economia explodia com o crime.

Mas Juliette seguiu em frente. Passou por homens em grupos grandes e homens que se agachavam na frente de bordéis com um olhar malicioso, como se aquele fosse seu segundo emprego. Passou por gangsteres arremessando facas do lado de fora dos cassinos que foram contratados para proteger, passou por comerciantes mal-encarados limpando suas armas e mastigando palitos de dente. Juliette não fraquejou. O céu ficava mais vermelho e seus olhos, mais brilhantes. Aonde quer que fosse, não importava o quanto penetrasse as entranhas mais sombrias da cidade; enquanto permanecesse em seu território, ela reinava suprema.

Juliette parou, girando o tornozelo para aliviar o aperto do sapato. Em resposta, cinco Escarlates que estavam em volta de um restaurante também pararam para ver se seriam convocados. Eram matadores e extorsionistas, forças coléricas da violência, mas, de acordo com os rumores, Juliette Cai era a garota que estrangulara e matara o namorado norte-americano com um colar de pérolas.

Juliette Cai era a herdeira que, no segundo dia em Xangai, entrou no meio de um confronto entre quatro Rosas Brancas e dois Escarlates e matou todos os quatro rivais com apenas três balas.

Apenas um destes rumores era verdade.

Juliette sorriu e acenou para os Escarlates. Em resposta, um deles acenou de volta e os outros quatro riram, nervosos, entre si. Temiam a ira de Lorde Cai se algo acontecesse com ela, mas temiam ainda mais a ira de Juliette se resolvessem testar os boatos.

Era a reputação da jovem que a mantinha segura. Sem ela, Juliette não era nada.

Ou seja, quando Juliette entrou em um beco e foi parada pela súbita pressão do que parecia ser uma arma pressionada à sua coluna lombar, ela sabia que não era um Escarlate que ousara rendê-la.

Juliette congelou. Em uma fração de segundo, ela vasculhou todas as possibilidades: um comerciante ofendido querendo reparação; um estrangeiro ambicioso buscando o pagamento de um resgate; um viciado confuso nas ruas que não a reconheceu pelas contas brilhantes de seu vestido estrangeiro…

Então uma voz familiar disse, em inglês, dentre todos os idiomas:

— Não grite por socorro. Siga em frente, siga minhas instruções, e eu não atiro.

O gelo em suas veias derreteu em um instante e tornou-se cólera flamejante. Ele esperou que ela entrasse em uma área deserta, até que não houvesse ninguém por perto para ajudar, pensando que ela ficaria amedrontada demais para reagir? Ele pensou que isso realmente funcionaria?

— Você realmente não me conhece mais — disse Juliette, em voz baixa. Ou talvez Roma Montagov pensasse que a conhecia muito bem. Talvez se considerasse um perito e tivesse espantado os rumores que ela espalhara sobre si mesma, achando que não havia como ela ter se tornado a assassina que alegava ser.

Ela matara pela primeira vez aos 14 anos.

Tinha conhecido Roma há apenas um mês, mas jurou a si mesma que não seguiria a disputa sangrenta, que seria superior. Então, certa noite, quando estavam a caminho de um restaurante, o carro da família foi emboscado por Rosas Brancas. Sua mãe gritou para ela ficar abaixada, para se esconder atrás do carro com Tyler, para usar as armas que foram postas em suas mãos para apenas quando fosse necessário. O confronto estava quase acabando. Os Escarlates haviam matado quase todos os Rosas Brancas.

Então o último Rosa Branca mergulhou na direção de Juliette e de Tyler. Nele havia um olhar tomado pela fúria ardente da última ação e, naquele instante, embora não houvesse dúvida de que era um momento de absoluta necessidade, Juliette congelou. Foi Tyler quem atirou. Sua bala se alojou no estômago do Rosa Branca, o homem foi ao chão e, horrorizada, Juliette olhou para o lado, de onde seus pais observavam a cena.

Não foi alívio que ela viu. Foi dúvida. Dúvida sobre o porquê da paralisia de Juliette. Dúvida sobre por que Tyler fora mais capaz. Então Juliette ergueu sua arma e atirou também, terminando o serviço.

Juliette Cai temia a desaprovação mais do que temia manchar sua alma. Aquele assassinato era um dos poucos segredos que escondera de Roma. Agora ela sabia que devia ter lhe contado, nem que fosse para provar que era tão nefasta quanto Xangai sempre disse que era.

— Ande — ordenou Roma.

Juliette manteve-se parada. Como pretendera, ele confundiu sua inércia com medo e, muito ligeiramente, hesitou e reduziu por um ínfimo a pressão da arma em suas costas.

Ela girou. Antes que Roma pudesse sequer piscar, a mão direita de Juliette desceu com força sobre seu pulso direito, torcendo a mão que segurava a arma até que seus dedos ficassem dobrados de uma forma não natural. Deu um tapa na arma com a mão esquerda, fazendo o objeto quicar no chão. Ela cerrou a mandíbula, preparando-se para o impacto, e passou o pé por trás do de Roma, puxando-o contra os tornozelos dele — até que ele estivesse caindo para trás e ela o acompanhasse, com uma das mãos travada no pescoço de Roma e a outra indo ao bolso do vestido para pegar uma faca com a espessura de uma agulha.

— Ok — disse Juliette, ofegando vigorosamente. Ela o manteve colado ao chão, de costas, com os joelhos pressionando os quadris de Roma e a lâmina contra sua garganta. — Vamos tentar novamente, como pessoas civilizadas.

A pulsação de Roma saltava sob as pontas dos dedos dela.

Sua garganta lutava para se afastar da lâmina. Seus olhos estavam dilatados enquanto a encarava, ajustando-se às sombras do pôr-do-sol enquanto o beco esmaecia em um violeta-crepúsculo. Eles estavam perto o bastante para ouvir a respiração um do outro, curta e breve, apesar do esforço de ambos para parecer indiferentes ao esforço da batalha.

— Pessoas civilizadas? — repetiu Roma. Sua voz estava arranhada. — Você está com uma faca na minha garganta.

— Você estava com uma arma nas minhas costas.

— Eu estou no seu território. Não tive escolha.

Juliette fechou a cara e então pressionou a faca até que uma gota de sangue aparecesse em sua ponta.

— Ok, pare, pare — Roma estremeceu. — Já entendi.

Naquele momento, um pequeno escorregão da mão de Juliette abriria o pescoço dele. Ela estava quase tentada a fazer isso. Tudo entre eles passava um sentimento de familiaridade, de intimidade automática. Ela estava louca para se livrar daquele sentimento, para cortá-lo fora como se fosse um tumor maligno.

Roma ainda tinha o mesmo cheiro: bronze, menta e a leveza de um gentil zéfiro. De tão perto, ela pôde distinguir isso tudo e, mesmo assim, nada mudara.

— Vamos — ordenou Juliette, torcendo o nariz. — Explique-se.

Roma piscou os olhos, irritado. Ele agia com petulância, mas Juliette estava monitorando a pulsação irregular que latejava sob seus dedos. Ela conseguia sentir cada sobressalto e tremor enquanto se inclinava na direção dele com a faca.

— Eu preciso de informações — elaborou Roma.

— Estou chocada.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Se você me soltar, posso explicar.

— Eu prefiro que você explique aí, do jeito que está.

— Ah, Juliette.

Clic.

O eco da trava de segurança de uma arma soou pelo beco.

Sobressaltada, Juliette olhou para a esquerda, onde a arma que ela afastara ainda jazia, intocada. Voltou seu olhar para Roma e o viu sorrindo, seus lindos lábios perversos retorcidos debochadamente.

— O que foi? — perguntou Roma. Ele soava quase provocativo. — Você pensou que eu só tinha uma?

Ela sentiu o metal gélido em sua cintura. O frio se espalhou pela malha de seu vestido e imprimiu sua forma na pele de Juliette. Com relutância, ela lentamente tirou a faca da garganta de Roma e ergueu as mãos para o alto. Ela afrouxou a pressão fatal sobre ele, cada passo o mais prolongado possível até que estivesse de pé, recuando para se colocar a dois passos de distância da pistola.

Em uníssono, não havendo alternativa para evitar um impasse, abaixaram as armas.

— O homem que morreu na sua boate noite passada —

começou Roma. — Você se lembra dos sapatos trocados?

Juliette mordeu a parte interna das bochechas e então concordou com um aceno.

— Encontrei o outro par no Rio Huangpu, bem no local em que o resto dos homens morreu na noite do Festival do Meio do Outono — prosseguiu Roma. — Acredito que ele escapou do primeiro derramamento de sangue, mas levou a

insanidade consigo para a sua boate, no dia seguinte, e então sucumbiu a ela.

— Impossível — Juliette disparou imediatamente. — Que espécie de ciência…

— Estamos além da ciência, Juliette.

Com a revolta queimando a garganta, Juliette ergueu os ombros até as orelhas e cerrou os punhos. Gostava da ideia de chamar Roma de paranoico, irracional, mas infelizmente sabia o quão diligente ele era quando encontrava algo em que focar. Se ele pensava que isso era possível, então era possível.

— O que você quer dizer?

Roma cruzou os braços.

— Quero dizer que preciso saber ao certo se foi, de fato, o mesmo homem. Preciso ver o outro sapato no cadáver. Se os sapatos formarem um par, então estes surtos… podem ser contagiosos.

Juliette sentiu a negação, pesada e espessa, deitar-se sobre seus ossos. A vítima morrera em sua boate, espirrando sangue em um salão cheio dos seus Escarlates, tossindo em cima de uma aglomeração do pessoal dela. Se aquilo era efetivamente uma doença mental — uma doença mental contagiosa — a Sociedade Escarlate estava em grandes apuros.

— Pode ter sido um pacto suicida — sugeriu, sem muita convicção. — Talvez o homem tenha desistido e acabou agindo depois — mas Juliette havia olhado nos olhos do moribundo. Lá dentro, a única emoção que existia era o terror.

Deus. Ela olhara nos olhos do homem agonizante. Se isso era contagioso, qual era o risco de ela ter sido infectada?

— Você, assim como eu, sente isso — disse Roma. — Algo não está certo. Até isso chegar às autoridades e começarem uma investigação, mais pessoas inocentes terão morrido por causa destes surtos estranhos. Preciso saber se isso está se espalhando. Roma olhava diretamente para Juliette quando ficou em silêncio. Juliette o fitou de volta com uma frieza profunda se desdobrando em seu estômago.