Prazeres Violentos
Doze
Da Nao saiu da sala de descanso sem nenhum alarde.
Missão cumprida; Kathleen já estava indo pular a janela, só que, desta vez, enquanto passava pela borda, sua mão tocou um panfleto jogado ali, virado para baixo e sujo de terra e graxa.
Kathleen o virou.
O CONTROLE DOS GANGSTERES CHEGOU AO FIM. É HORA DE SINDICALIZAR.
Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa. Kathleen se perguntou se aquilo era obra de Da Nao, mas não chegou a alimentar a hipótese. Mesmo assim, na margem inferior do panfleto, impresso em uma linha apagada e elegante, estava escrito Distribuído pelo Partido Comunista da China.
Parece que Da Nao não era o único empregado ali com laços Comunistas.
Um súbito barulho de água no cais assustou Kathleen e a tirou do devaneio, impelindo-a a saltar da borda da janela em direção ao terreno do lado de fora da fábrica de algodão.
Quando Kathleen olhou para a água, captou o lampejo de algo brilhante nadando muito rápido pelas ondas.
— Que estranho — murmurou. E foi para casa, apressada.
Doze
Dizem que Xangai se ergue como a filha mimada e arrogante de um imperador, a qual, por destruir a casa de uma feiticeira da floresta, foi transformada em árvore. As ruas da cidade se espalham como ramos.
Xangai, tal qual a princesa, não nasceu assim. Costumava ser linda. Costumavam lhe fazer serenatas, examinando as linhas de seu corpo, aprovando o que viam e dizendo que era boa para gerar crianças. Então ela rasgou a si mesma com um sorriso maléfico, de orelha a orelha. Passou uma faca nas bochechas, levou a lâmina ao peito e agora não mais se preocupa com pretendentes; em vez disso, corre solta, embriagada pela invulnerabilidade do poder que herdou, boa apenas para gerar lucro, farra, dança e prostituição.
Tornara-se feia, mas gloriosa.
A noite sempre cai na cidade com um ruído baixo. Quando as luzes se acendem — com o zumbido da eletricidade, recentemente cobiçada, correndo pelos fios que cruzam as ruas como veias negras — é fácil esquecer que o estado natural da noite deve ser a escuridão. Em vez disso, a noite de Xangai é vida e neon, com lâmpadas a gás cintilando contra as flâmulas triangulares que tremulam à brisa.
Nesse tumulto, uma dançarina sai do cabaré mais lotado de seu lado da cidade, libertando o cabelo de suas fitas. Ela mantém apenas uma: vermelha, retorcida, para marcar sua afiliação à Sociedade Escarlate, para que a deixem em paz
enquanto caminha por seu território a caminho de casa, para alertar os gangsteres que espreitam os becos do Bund, palitando os dentes com suas facas afiadas, que ela não deve ser perturbada, que está do lado deles.
A dançarina sente calafrios enquanto anda, jogando seu longo cigarro no chão e o apagando com o sapato. Agora com as mãos livres, cruza os braços arrepiados. Ela está pouco à vontade. Não há ninguém a seguindo; nem à sua frente. Mesmo assim, de algum modo ela tem certeza de que alguém a observa.
Não é uma ideia totalmente absurda. Esta cidade não conhece a si mesma; não sentirá os parasitas que crescem sob sua pele até que seja tarde demais. Xangai é uma miscelânea de partes unidas à força que funcionam em ritmo coletivo, mas, se lhe apontarem uma arma na cabeça, ela apenas rirá, não compreendendo a violência de tal ato.
Sempre disseram que Xangai é uma filha feia, mas, com o passar dos anos, caracterizar a cidade meramente como uma única entidade não é mais o bastante. Este lugar responde ao idealismo do Ocidente e ao trabalho do Oriente, abominando sua divisão, mas incapaz de funcionar sem ela, múltiplas facetas lutando e se debatendo em uma querela infinita. Metade Escarlate, metade Rosa Branca; metade podre de rica, metade miserável; metade terra, metade água vinda do Mar da China Oriental. Não há nada além de água ao leste de Xangai. Talvez seja esta a razão pela qual os russos vieram para cá, grupos de eLivross que fugiram da Revolução Bolchevique e mesmo antes dela, quando seu lar não podia mais ser chamado assim. Se você decidiu correr, pode simplesmente correr até atingir a borda do mundo.
Esta cidade é isto. A festa no fim do mundo.
A emblemática dançarina agora parou, deixando o silêncio soar em seus ouvidos enquanto se esforça para identificar o que está arrepiando seus nervos. Quanto mais ela ouve, maior fica o alcance de sua audição, captando o gotejar de um cano próximo e a conversa fiada dos operários do turno da noite.
A questão é essa: não é alguém que a observa. É algo.
E a coisa vem à superfície. Algo com uma fileira de chifres nas costas arqueadas, reluzindo fora da água como dez adagas tenebrosas. Algo que ergue a cabeça e pisca olhos prateados e opacos para a mulher.
A dançarina foge. Em pânico, correndo tanto para sair do alcance da horripilante aparição que tropeça bem em frente a um navio com a bandeira errada.
E o Rosa Branca que está descarregando o navio a percebe.
— Com licença — ele berra. — Você está perdida?
Ele confundiu a inércia da dançarina com confusão. O homem desce da proa e começa a andar em sua direção, apenas para frear abruptamente quando vê a fita vermelha.
A expressão do Rosa Branca muda de amistosa para enfurecida em um instante. A dançarina fecha a boca em uma expressão derrotada e levanta as mãos, tentando apaziguar a situação, gritando:
— Me desculpe, me desculpe. Eu não prestei atenção à divisa! — mas ele já está sacando a pistola, mirando com um olho só.
— Malditos Escarlates — resmunga. — Vocês pensam que podem sair vagando por qualquer lugar, não é?
A dançarina, quase que a contragosto, procura desajeitada por sua própria arma: uma pequena pistola amarrada à coxa.
— Espere — ela alerta com firmeza. — Não sou sua inimiga; tem algo lá atrás. Está vindo…
Um splash. Uma gotícula de água aterrissa na carne macia atrás de seu joelho e escorre por sua perna. Quando a dançarina olha para baixo, vê que o fio de água é totalmente preto.
Ela dá uma guinada para a direita, mergulhando em um beco e se espremendo em um canto na parede. Tiros soam pela noite quando o Rosa Branca interpreta a correria como um ato bélico, mas a esta altura ela já está fora de alcance, protegendo-se das águas, com o corpo inteiro tremendo.
Então, algo irrompe do Rio Huangpu.
Gritos ecoam pela noite.
É difícil dizer exatamente o que está acontecendo nos portos de Xangai. Enquanto a dançarina recita preces silenciosas, com as mãos cerradas sobre o peito, encolhida com os joelhos dobrados contra a testa até deixarem marcas, o Rosa Branca e todos os outros homens que ainda estavam no navio estão ao alcance do caos. Eles lutam, gritam e resistem, mas a infestação se abate sobre eles, e não há meios de impedi-la.