Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 30 de 40

Páginas do PDF

Prazeres Violentos

Vinte e Oito

Kathleen revirou os olhos, mas pareceu gentil. Ela estendeu a mão, repousando-a no braço de Juliette.

— Escute-me, biǎomèi — disse, em voz baixa. — Você e Rosalind são minha única família. A única que importa.

Então, por favor, pare de me agradecer a cada segundo como uma maldita ocidental só porque estou te ajudando.

Eu nunca vou te julgar. Nunca seria capaz de fazer isso. Eu sempre estarei ao seu lado, aconteça o que acontecer —

Kathleen viu as horas novamente e então levantou-se, sorrindo. — Entendeu?

Juliette pôde apenas concordar.

— Eu te atualizo assim que possível.

Com isso, Kathleen se levantou e saiu, se apressando até seu destino antes que o sol se pusesse por completo. O

quarto ficou em silêncio, abrigando apenas o tique-taque dos ponteiros do relógio e os suspiros leves e gratos de Juliette.

— Obrigada — sussurrou Juliette para o quarto vazio.

Vinte e oito

Roma havia escolhido um assento nos fundos do

espaço de shows, em uma mesa longa onde se via visitantes do Grande Mundo entrando e saindo a cada segundo. Eles entornariam suas bebidas, bateriam o copo na mesa e voltariam sua atenção para o espetáculo que acontecia à frente. Eram velozes e ferozes e definitivamente fritavam com uma dúzia de drogas diferentes no organismo.

Em contraste, Roma devia estar parecendo bastante cabisbaixo enquanto bebericava algo em seu copo e aguardava. Seu chapéu bem enfiado na cabeça cobria sua face, evitando a atenção de pessoas à sua volta. Se eles o reconhecessem, começariam a sussurrar que haviam visto Roma Montagov assistindo às jovens cantoras que dançavam em cima do palco, dando altos pontapés no ar com vestidos de longas fendas, e só Deus sabe como seu pai reagiria a isso. Ele havia alertado Roma sobre o Grande Mundo desde que ele era uma criança, avisando que lugares como aquele — que fervilhavam com vida, pedacinhos de esbórnia aliados à engenhosidade chinesa —

corrompiam a mente mais rápido que o ópio. Ali, visitantes esbanjavam suas economias e trocavam comida por esquecimento. Por mais que o Grande Mundo fosse subestimado, ainda era um parâmetro de sucesso. Quem trabalhava nas fábricas em Nanshi não conseguia ganhar em um dia de trabalho o bastante para comprar um simples ingresso.

Roma suspirou, colocando seu drinque na mesa. Com a face oculta, a única pessoa capaz de encontrá-lo em meio à massa embriagada e à gritaria sabia exatamente como procurar.

— Olá, sumido.

Juliette deslizou até o assento diagonal, tirando uma mecha rebelde do rosto e mesclando-a às ondas de seu cabelo. Ela não se importava em ser identificada ali, no Grande Mundo. Apenas precisava tomar cuidado para não ser vista com o herdeiro dos Rosas Brancas.

Roma mantinha o olhar fixo no palco. Naquele momento, estavam preparando a corda bamba. Ele se perguntava quantos ossos haviam se quebrado dentro daquele prédio.

— Vamos beber — disse ele, empurrando seu copo quase cheio na direção dela.

— Está envenenado?

Com o comentário, Roma a fitou, horrorizado.

— Não.

— Perdeu uma boa oportunidade, Montagov — Juliette levou o copo aos lábios vermelhos e deu um golinho. — Pare de me olhar.

Roma desviou os olhos e perguntou:

— Encontrou alguma coisa?

— Ainda não sei, mas — ela viu as horas em um relógio de bolso; Roma não sabia ao certo de onde ela o puxara, reparando que seu vestido parecia não ter bolsos — talvez eu consiga alguma coisa daqui a alguns minutos. Fale você primeiro.

Roma estava muito exausto para discutir. Se os mafiosos naquela cidade se sentissem constantemente cansados

como ele, a disputa sangrenta chegaria a um fim definitivo no espaço de uma hora.

— Eles são a mesma coisa — disse Roma. — O monstro. Os surtos. Se acharmos o monstro, acabamos com os surtos.

Ele lhe contou tudo o que fora visto e tudo o que fora deduzido.

— Isso basta para confirmar tudo — exclamou Juliette.

Percebendo o aumento de volume em sua voz, olhou em volta e então disse, sibilando: — Precisamos agir.

— A coisa só foi vista saindo do apartamento dele — disse Roma. — Ninguém viu Zhang Gutai em pessoa o comandando.

— Se o monstro foi visto onde Zhang Gutai mora, ele com certeza o está controlando — Juliette não abriria espaço para discussão a respeito daquilo. Ela bateu com a ponta do dedo na mesa. — Roma, pense nisso. Pense nisso e em tudo mais. Esses surtos crescem em ondas, e a cada onda um grupo grande sempre morre primeiro, antes que os insetos se espalhem pela cidade. Os gangsteres nos portos. Os Rosas Brancas no navio. Os franceses no jantar. Os executivos nas cercanias do Bund.

Roma não podia negar isso. Disse:

— Parece que os alvos iniciais sempre são gangsteres ou comerciantes.

— E quem mais deseja esses grupos específicos mortos? —

prosseguiu Juliette. — Quem mais derrubaria os capitalistas assim? Se Zhang Gutai é o responsável, se ele tem as respostas que darão fim a isso, então por que perder tempo em outras trilhas…

— Só que isso não serve de nada se ele não falar.

— Nós vamos fazê-lo falar — exclamou Juliette. — Vamos pôr uma faca no pescoço dele. Vamos torturá-lo até que ele desembuche. Ainda não esgotamos todas as alternativas com ele…

— Ele é um Comunista — estava ficando incrivelmente difícil não olhar para Juliette enquanto discutiam sem parar.

Havia algo instintivo no ato de se voltar para ela, da mesma forma que todas as coisas vivas mudam seu foco quando há um barulho alto. — Ele foi treinado para guardar segredos e levá-los para o túmulo. Você acha que ele tem medo da morte?

De que valia uma ameaça se ela não podia ser concretizada? Se queriam que ele entregasse o monstro, que desse a eles um modo de acabar com o caos que estava criando com os surtos, matar Zhang Gutai não teria efeito algum, exceto destruir qualquer chance de salvação da cidade. Como podiam ameaçá-lo de morte de maneira convincente se não desejavam de fato matá-lo?

— Se ele é o único que pode nos levar até o monstro —

prosseguiu Roma —, eu não colocarei uma informação dessas em risco. Ele pode preferir se matar a falar. Eu não vou arriscar a vida de Alisa apostando nisso.

Juliette contraiu os lábios. Roma sabia que ela estava contrariada. A jovem teria continuado com as objeções, se um Escarlate não tivesse se aproximado dela naquele momento, sussurrando em seu ouvido.

Roma enrijeceu, desviando o olhar e puxando o chapéu mais para baixo. Era impossível ouvir o que o Escarlate dizia por causa do barulho no espaço aberto, por causa da vibração do público, do tilintar dos copos e do estouro dos minifogos de artifício no palco. Pelo canto do olho, viu o

capanga Escarlate entregar a ela uma pasta bege e um bilhetinho. Com um aceno de cabeça de Juliette, o Escarlate se afastou e ela começou a ler o bilhete. Satisfeita, pegou a pasta, sacudindo os papéis que ali estavam. Se Roma leu corretamente o texto, dizia: polícia municipal de xangai —

folha de antecedentes criminais — archibald welch.

— Ainda temos outras alternativas — disse Roma, quando pareceu seguro continuar com a conversa. — Larkspur pode nos contar exatamente o que queremos saber, pode nos dar a cura que procuramos. Se não fizer isso, somente então recorreremos a torturar Zhang Gutai para saber como impedir o monstro. Combinado?

Juliette suspirou.

— Tudo bem. É minha vez de anunciar minhas descobertas

— ela fez a pasta deslizar velozmente sobre a mesa, escorregando sem atrito pela superfície plana até Roma, que bateu com a mão espalmada sobre ela.

— Archibald Welch — leu Roma em voz alta, confirmando a leitura que fizera anteriormente. Uma fotografia o encarava: uma imagem em preto e branco de um homem com um olhar vazio e uma horrenda cicatriz que traçava uma linha da sobrancelha até o canto do lábio. — Quem é esse?

Juliette levantou-se de seu assento e gesticulou para ele a fim de que fossem embora.

— O único entregador que tem o endereço de Larkspur. E, se sua ficha criminal estiver correta, ele frequenta o lugar mais perigoso de Xangai toda quinta-feira.

Roma ergueu uma sobrancelha.

— Hoje é quinta-feira.

— Exato.

Apesar de seus esforços, Benedikt acabou plantado em um terraço em frente ao apartamento de Zhang Gutai, já entrando na terceira hora de vigilância.

Estava esfriando. Ele havia pisado sem querer em uma poça enquanto subia, então fazia seu trabalho parado de uma forma esquisita, meio agachado, querendo ficar em posição de repouso, mas, ao mesmo tempo, não querendo ampliar ainda mais a mancha molhada em suas calças.

Marshall morreu de gargalhar ao ver como Benedikt estava ridículo. Benedikt achou que ele jamais pararia, mas pelo menos o riso era melhor que o silêncio. Pelo menos a alegria de Marshall com o azar de Benedikt era um sinal de que deviam esquecer a sensação estranha que havia florescido entre eles no beco.

— Ei — alertou Marshall, subitamente, tirando Benedikt de seu devaneio. — Alguém está entrando.

Saindo da postura ridícula, Benedikt correu para perto da borda do terraço. Lá se uniu a Marshall, estreitando os olhos.

— É outro estrangeiro — comentou Benedikt, inclinando-se para trás e suspirando. Do local onde estavam, tinham uma vista perfeita para as portas de correr que separavam a sala de estar de Zhang Gutai de sua pequena sacada. A sacada em si era tão pequena que mal abrigava dois vasos de flores, mas as portas de vidro eram largas o bastante para permitir que Benedikt e Marshall tivessem visão total dos estrangeiros que iam e viam a cada hora. Aquilo era um mistério. Zhang Gutai sequer estava em casa. Ainda assim, estrangeiros continuavam aparecendo à porta da frente, sendo convidados a entrar por um homem que estava entre a meia-idade e a velhice — Qi Ren, seu assistente, se o

relatório de Roma estivesse correto — para bebericar chá por alguns minutos e logo depois sair. Os prédios daquele distrito foram construídos tão próximos que, quando o vento não uivava com intensidade, Benedikt conseguia aguçar os ouvidos e captar trechinhos das conversas que aconteciam dentro da sala de estar.

O inglês de Qi Ren não era muito bom. A cada duas palavras, ele voltava ao chinês em um lapso e depois começava a reclamar de fortes dores nas costas. Os estrangeiros — alguns norte-americanos, alguns britânicos

— tentavam discutir política ou a conjuntura atual de Xangai; todavia, como nenhum deles conseguia desenvolver o assunto, não era surpresa que fossem embora tão cedo.

Por que Zhang Gutai delegaria essas reuniões ao assistente? Todos os estrangeiros pareciam querer alguma coisa do Partido Comunista. Qi Ren parecia pouco se importar com o que estavam discutindo. Ele não estava tomando notas, nem nada do tipo para repassar a Zhang Gutai.

Naquele momento, o estrangeiro que havia entrado já estava de pé, preparando-se para sair, quando Qi Ren começou a adormecer no meio da frase. Revirando os olhos, o homem branco foi em direção à porta, desaparecendo no interior do prédio para seguir seu caminho até as escadas sinuosas.

— Você viu aquilo? — perguntou Marshall.

Benedikt voltou-se para ele. Não disse nada por um instante. E então:

— Vi o quê?

— Francamente, Ben, você está aqui, todo pensativo, e eu estou prestando mais atenção que você — Marshall fingiu

repreender. Apontando com o queixo na direção do prédio, ele disse: — Ele se apresentou como um oficial a serviço da Concessão Francesa. Filiado aos Escarlates. Esse território é dos Rosas Brancas. Devemos dar um trato nele?

Aquela não era uma pergunta séria; eles não tinham tempo para ficar arrumando encrenca nas ruas. Mas deu a Benedikt uma ideia que podia fazê-los entender com exatidão o que haviam testemunhado durante toda a tarde.

— Fique aqui — disse ele a Marshall.

— Espere. Você vai mesmo dar um trato nele? — disse Marshall, chamando por ele com os olhos arregalados. —

Ben!

— Só fique aqui! — respondeu ele, por cima do ombro.

Benedikt se movia com velocidade, preocupado em perder o rastro do francês. Por sorte, quando ele virava a esquina para sair na frente do condomínio de Zhang Gutai, o francês estava acabando de sair, às voltas com os botões de seu colete.

Benedikt agarrou o homem e o conduziu até o beco mais próximo.

— Ei!

— Calado — vociferou Benedikt. — Está fazendo o que na área dos Rosas Brancas?

— Ora, mas que p… — retrucou o homem. — Tire as mãos de mim.

Momentaneamente, Benedikt se perguntou se as pessoas que entravam e saíam do apartamento tinham alguma coisa a ver com a questão do monstro. E se todos eles fossem guardiões da criatura, passando relatórios em código para Qi Ren? Mas bastou uma olhada no francês para afastar a

ideia. Homens rudes como aquele não conseguiriam fazer parte de um esquema tão intrincado.

Benedikt sacou uma faca do cós de sua calça e a apontou.

— Eu fiz uma pergunta.

— Meus negócios com Zhang Gutai não são da sua conta

— respondeu o homem, com rispidez. Ele não estava tão assustado quanto deveria. Algo estava mudando na cidade.

— Você está em território Rosa Branca. Aqui, Zhang Gutai não pode te salvar.

O francês deu uma gargalhada áspera. Era como se ele nem tivesse percebido a faca apontada para seu peito. Para ele, o colete engomado era uma armadura.

— Se nós quiséssemos, tomávamos essa cidade inteira —

disparou ele. — Faríamos esse país assinar outro tratado e entregar essa terra toda. Só estamos nos segurando porque…

— Ei! — um policial soprou seu apito na outra extremidade do beco. — O que está havendo aqui?

Benedikt guardou sua faca e apontou o queixo para o francês.

— Some.

O francês pigarreou e foi embora. Satisfeito porque não haveria mais um desentendimento que exigisse sua intervenção, o policial também saiu andando. Benedikt ficou no beco, eriçado por sua raiva silenciosa. Isso nunca teria acontecido há alguns meses. Os oficiais da concessão, comerciantes e estrangeiros apenas sentiam-se fortes agora porque as organizações estavam enfraquecendo. Porque os surtos estavam matando seus integrantes aos montes, rompendo suas correntes e esburacando suas estruturas.

Eram abutres, todos eles — britânicos, franceses e todos os outros recém-chegados. Voando em círculos sobre a cidade e aguardando o fim da carnificina para que pudessem se empanturrar. Os russos haviam chegado naquele país e se misturado, desejando aprender como as coisas eram e fazê-las de um jeito melhor. Aqueles estrangeiros ancoravam ali e sorriam para o crime. Eles observavam os pedaços se partirem lentamente diante deles e sabiam que apenas precisavam esperar que a insanidade fizesse suas vítimas, esperar as facções políticas dividirem bastante a cidade até que chegasse a hora de mergulhar na carne. Eles nem precisavam sujar as mãos…

apenas esperar.

Benedikt balançou a cabeça e saiu apressado do beco.

— Descobriu algo interessante? — indagou Marshall quando Benedikt voltou.

Benedikt negou, balançando a cabeça. Bateu a poeira das calças molhadas e se agachou.