Prazeres Violentos
Dezessete
Roma agiu rápido, afastando as mãos da irmã do
pescoço dela em uma fração de segundo. Antes que ela pudesse se debater e empurrá-lo para longe com o frenesi da insanidade, ele já a imobilizava no chão, de bruços, prendendo suas mãos atrás das costas e pressionando sua cabeça contra o concreto duro.
— Alisa, sou eu. Sou eu — disse Roma, arquejando. Alisa tentou se debater. Roma sibilou, inclinando a cabeça para trás. — Pare com isso!
Ele deveria saber que de nada adiantaria desperdiçar tempo com palavras. O surto estava muito além da pirraça de uma criança malcriada. Aquela não era mais sua irmã —
algo a havia consumido de dentro para fora.
— Socorro! — Roma gritou por sobre os ombros. —
Busquem ajuda!
Os Rosas Brancas ao redor — todos eles — hesitaram. Na extremidade mais distante do armazém, a Sociedade Escarlate fugia às pressas, o mais ligeiro que podia. Não era problema deles, afinal. Quando Juliette deu sinais de que permaneceria ali, sua mãe imediatamente a puxou pelo cotovelo e vociferou algo breve, como se velocidade fosse essencial para driblar o contágio.
Eles, pelo menos, tinham o direito de fugir. Por que os Rosas Brancas estavam se encolhendo?
— Não fiquem aí parados!
Benedikt finalmente saiu de seu transe e correu, arregaçando as mangas. Ajoelhou e prendeu uma das pernas descontroladas de Alisa no chão. Pálido, Marshall forçou-se a se juntar a eles, apenas por força de seus princípios, imobilizando a outra perna e estalando os dedos para chamar a atenção dos mensageiros ali perto.
— Roma — disse Benedikt —, temos de levá-la para Lourens.
— Absolutamente não — ao exclamar, inflamado, Roma quase perdeu o controle sobre Alisa, que se contorcia violentamente. Rapidamente, imobilizou de novo os pulsos da irmã. — Não vamos levar Alisa para ser cobaia de Lourens.
— Como você sabe que isso não fará bem a ela? —
argumentou Benedikt. Suas palavras eram curtas e bruscas por conta do esforço. — Essas coisas provavelmente estão devorando o cérebro dela enquanto discutimos. Se não tentarmos removê-las de alguém vivo, como podemos saber que não dá?
— Ben — repreendeu Marshall. Pela primeira vez em uma ocasião como aquela, sua voz tensa era a mais baixa entre eles. — Nós tentamos remover um bicho morto de um homem morto e puxamos dez toneladas de miolo. Vale o risco?
— Temos escolha? — indagou Benedikt.
Marshall soltou a perna de Alisa, deixando o trabalho para Roma e Benedikt, e foi apressado se agachar perto da cabeça dela.
— Sempre há uma escolha.
Marshall pôs as mãos no pescoço de Alisa e o apertou.
Todas as células racionais de Roma precisaram trabalhar
para que ele não atacasse o amigo, não o empurrasse enquanto Marshall sussurrava uma contagem. Ele sabia exatamente o que Marshall estava fazendo, sabia que era o necessário; contudo, seu instinto protetor ardia.
Alisa parou de se debater. Marshall a soltou rapidamente, removendo as mãos como se estivessem queimando, e checou o pulso da menina.
Anuiu com a cabeça.
— Ela está bem. Apenas inconsciente.
Com o coração a mil, Roma passou o braço por trás do pescoço de Alisa, erguendo sua irmãzinha como se não pesasse nada — uma boneca de papel. Quando Roma se virou, reparou que o armazém estava quase vazio. Onde raios estava seu pai?
— Vamos — disparou Roma, deixando essa reflexão para outra hora. — Precisamos ir ao hospital mais próximo antes que ela acorde.
Me deixe entrar!
Roma batia com os punhos cerrados na porta, fazendo o batente vibrar com tanta força que o chão sob seus pés parecia tremer de medo. Não importava; as dobradiças permaneciam firmes e, do outro lado, pela vidraça fina, o médico sacudia a cabeça negativamente, mandando Roma dar meia-volta e retornar à sala de espera, onde ao resto dos Rosas Brancas foi ordenado ficar.
— Agora deixe conosco — disse o médico quando levaram Alisa para dentro. Aquele hospital era menor que algumas mansões da Estrada do Poço Borbulhante, mal tinha as dimensões de uma casa que um comerciante britânico compraria para sua amante. Era precário, mas a melhor
alternativa que tinham. Não havia como dizer o quanto Alisa aguentaria, então não podiam arriscar ir de Nanshi até o centro da cidade. Mesmo que o hospital tivesse sido construído para tratar dos acidentes frequentes com os operários nas fábricas de algodão próximas. Mesmo que Roma estivesse seguro de que os médicos de olhos cansados dali não pareciam mais competentes para a função do que um vendedor ambulante.
— Mantenham-na inconsciente — exigiu Roma enquanto entregava Alisa. — Ela precisa de oxigênio, uma sonda alimentar…
— Precisamos acordá-la para saber o que houve — insistiu o médico. — Sabemos o que estamos fazendo.
— Não é uma doença comum — vociferou Roma. — É o surto.
O médico acenou para as enfermeiras, pedindo que levassem Roma embora.
— Não ousem — alertou Roma. Foi forçado a recuar um passo, depois dois. — Não! Parem! Não ousem me trancar aqui fora…
Elas o trancaram lá fora.
Agora Roma dava um último murro na porta. Depois se virou, xingando tudo o que podia, em voz inaudível. Ele puxou o cabelo, as mangas, puxou tudo o que estava ao alcance imediato para manter as mãos em movimento, para manter a ansiedade sob controle e a raiva concentrada em um raio muito bem definido. Esse era o problema de lugares como aquele — estabelecimentos muito distantes do centro e administrados por pessoas que recebiam salários baixos.
Eles não tinham tanto medo dos gangsteres quanto deveriam.
— Roma!
Roma fechou os olhos com força. Soltou uma longa e excruciante bufada e virou-se para encarar o pai.
— O que significa isso? — indagou Lorde Montagov. Ele havia chegado com cinco homens atrás de si, e agora todos eles se aglomeravam naquele pequeno setor do hospital até que o ar parecesse faltar, até que as paredes esbranquiçadas ficassem quase escorregadias de suor. —
Como isso foi acontecer?
Roma voltou o olhar para o teto, contando até dez de trás para frente. Notou todas as inúmeras rachaduras na pintura descascada do teto, notou como a degradação parecia espreitar em cada canto. Aquele hospital parecia muito fabril do lado de fora, muito diferente das instalações custeadas pelos Escarlates na Concessão Francesa às quais Juliette o levara, mas cada um deles caía aos pedaços à sua maneira.
— O que você está fazendo plantado aí? — continuou Lorde Montagov, esticando o braço, sua mão atingindo com força o alto da cabeça de Roma.
Aquela foi a gota d’água, a que fez Roma sair do sério.
— O que fez você demorar esse tempo absurdo para chegar aqui?
Lorde Montagov estreitou os olhos.
— Abaixe esse tom…
— Alisa estava morrendo e você simplesmente ficou lá, parado, vendo como a Sociedade Escarlate reagiria? O que há de errado com você?
Um dos homens de Lorde Montagov empurrou Roma no momento em que ele chegou perto demais. Talvez por algo em seus olhos, ou pela forma com que a fúria incendiou
suas palavras. O que quer que tenha sido, deve tê-lo feito parecer ameaçador, porque, com um aceno de cabeça de Lorde Montagov, o Rosa Branca sacou uma faca e a apontou para Roma, forçando-o a recuar.
Roma ficou onde estava.
— Vai fundo — disse.
— Você está fazendo papel de tolo — sibilou o pai. — Lorde Montagov se nutria com o amor das pessoas. Pavoneava-se em meio a elas e se enfurecia quando encarado. A dramaticidade de Roma o envergonhava, e isso dava ao filho uma espécie de prazer pervertido.
— Se eu sou um tolo, livre-se de mim — Roma abriu os braços. — Mande Dimitri investigar esses surtos. Ou melhor, por que você mesmo não assume o comando?
Lorde Montagov não deu sequer sinal de resposta. Se estivessem sozinhos, o pai estaria gritando, suas mãos batendo em seja lá o que for que fizesse um grande barulho
— qualquer grande barulho capaz de fazer Roma se encolher, e então ele se daria por satisfeito.
Lorde Montagov não buscava obediência; buscava afirmar seu poder.
E naquele momento Roma estava inconsequente o bastante para tomar isso dele.
— Suponho que esteja muito ocupado. Suponho que Dimitri tenha tarefas mais importantes, pessoas mais importantes para levar na lábia. Ou talvez — a voz de Roma aquietou-se, como se recitasse um poema — seja porque nem você, nem Dimitri, têm coragem suficiente para chegar perto dos surtos. Você teme por si mesmo mais do que teme por nosso povo.
— Você…
Um grito apavorante veio de dentro das portas cerradas e Roma virou-se imediatamente, pouco ligando se seus movimentos bruscos resultassem em uma faca cravada em suas costas. Ele já estava metendo a mão no bolso de seu paletó e sacando sua arma, atirando uma, duas, três vezes, até que a vidraça se espatifasse inteiramente, dando-lhe espaço para enfiar o braço por ela e girar a maçaneta no outro lado.