Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 8 de 40

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Prazeres Violentos

Seis

Paul sorriu.

— Posso vê-la de novo?

Juliette bateu a porta.

— Com toda a certeza, não.

Seis

Roma não estava tendo um bom dia.

Na primeira hora acordado, tropeçou ao subir as escadas, quebrou sua caneca favorita com seu chá de ervas favorito e bateu o quadril na mesa da cozinha com tanta força que uma mancha roxa gigante brotou no local.

Depois o forçaram a inspecionar a cena de um crime. E

depois ele teve que lidar com a possibilidade de que aquela fosse uma cena de crime de proporções sobrenaturais.

Enquanto Roma caminhava com dificuldade até o eixo central de Xangai sob o sol vespertino, pôde sentir sua paciência se esgotando. Cada assobio do vapor de máquinas soava como o ruído que seu pai fazia com a boca quando estava furioso, e cada crec do cutelo de um açougueiro o lembrava de tiros.

Normalmente, Roma adorava a agitação que cercava seu lar. Ele deliberadamente tomava rotas mais longas para passar pelas barraquinhas, olhando as pilhas de vegetais cultivados em fazendas, mais altas que seus vendedores.

Ele fazia caretas para os peixes, inspecionando a condição de seus aquários pequenos e sujos. Se tivesse tempo livre, catava docinhos de cada vendedor, jogando-os na boca enquanto seguia em frente, e saía da feira com dentes doendo e bolsos vazios.

A feira era um de seus maiores amores. Mas hoje não era nada além de uma irritação acima de uma já virulenta comichão.

Roma agachou-se sob os varais estendidos ao longo do beco estreito que dava no quarteirão residencial central dos Montagov. Tanto água limpa como suja gotejavam em poças ruidosas no pavimento: elas eram transparentes se estavam embaixo de um vestido encharcado, ou escuras e lodosas se abaixo de um cano mal instalado.

Esta era uma característica que se tornava mais frequente à medida que se explorava Xangai mais a fundo. Era como se um artista preguiçoso tivesse sido responsável por construir tudo — telhados e bordas de janelas se curvando e esticando com os mais graciosos ângulos e arcos, para abruptamente serem cortados ou se encerrarem nos blocos vizinhos. Nunca havia espaço suficiente nas partes mais pobres da cidade. Os materiais sempre acabavam antes que os construtores pudessem utilizá-los. A tubulação era sempre um tantinho mais curta, ralos tinham apenas meia tampa, calçadas formavam bacias. Se Roma quisesse, poderia esticar os braços para fora da janela de seu quarto e alcançar facilmente a janela do quarto de um edifício adjacente, que abria para fora. Se, em vez disso, esticasse as pernas, poderia saltar sem dificuldades e dar um susto no velho que morava lá.

Não era como se faltasse espaço para eles. Havia uma abundância de terras disponíveis para expansão fora da cidade — terra intocada pela influência das Concessões Internacional e Francesa. Mas os alojamentos dos Rosas Brancas se estabeleceram bem ao lado da Concessão Francesa e lá ficariam; eles estavam decididos quanto a isso. Os Montagoves estavam ali desde que o avô de Roma emigrara. Os estrangeiros reclamaram as terras adjacentes apenas nos anos recentes, à medida que seu poder legal os

deixava mais impetuosos. De tempos em tempos isso gerava problemas aos Rosas Brancas, sempre que os franceses tentavam controlar as atividades da organização, mas o estado das coisas sempre soprava a favor dos russos.

Os franceses precisavam deles; eles não precisavam dos franceses. Os Rosas Brancas permitiriam aos estrangeiros que praticassem suas leis sobre um espaço que não parecia pertencer nem a eles e nem aos russos, e os comerciantes pomposos, com seus paletós florais e sapatos lustrados, saíam de perto quando os gangsteres tocavam o terror nas ruas.

Era um trato que, todavia, se tornaria mais tenso com o passar do tempo. Lugares como aquele já eram bastante sufocantes. De nada adiantava colocar mais peso sobre o travesseiro pressionado a suas faces.

Roma ajeitou a bolsa de Benedikt no ombro. O primo não ficara muito satisfeito por Roma ter levado consigo o seu material de arte, mas Roma fingiu tentar devolvê-los e seu primo precisou de apenas uma olhada — em todos os insetos mortos que Lourens não quis guardar e no sapato do defunto que Roma enfiara lá dentro — para prontamente empurrá-la de volta, pedindo que Roma apenas a devolvesse depois de uma boa lavagem.

Roma destrancou a porta da frente de seu quarto e entrou.

Justo quando se arrastava até a sala de estar, uma porta bateu à sua direita, e Dimitri Voronin também caminhava por ali.

O dia de Roma, que já estava ruim, ficou péssimo.

— Roma! — berrou Dimitri. — Onde você esteve a manhã toda?

Apesar de ser apenas alguns anos mais velho, Dimitri agia como se fosse léguas e léguas superior ao herdeiro Rosa Branca. Enquanto Roma passava por ele, Dimitri sorriu de orelha a orelha e esticou o braço para bagunçar o seu cabelo.

Roma se afastou, estreitando os olhos. Ele tinha 19 anos, era herdeiro de um dos dois maiores impérios do submundo da cidade, mas sempre que Dimitri estava no mesmo cômodo que ele, era reduzido a uma criança novamente.

— Saí — Roma deu uma resposta vaga. Se dissesse que foi por algum motivo relacionado a negócios dos Rosas Brancas, Dimitri ficaria se intrometendo até que também estivesse por dentro. Embora Dimitri não fosse idiota o bastante a ponto de insultar Roma abertamente, o rapaz podia ouvir seu desprezo implícito em cada referência à sua juventude, em cada tsc de quase-simpatia sempre que ele falava. Dimitri era a razão pela qual Roma não podia se permitir amolecer. Dimitri era a razão pela qual Roma esculpira um rosto gélido e brutal, que odiava encarar toda vez que se olhava no espelho.

— O que você quer? — Roma perguntou dessa vez, servindo-se de um copo de água.

— Não se preocupe — Dimitri entrou na cozinha depois de Roma, pegando um cutelo próximo. Espetou um naco de carne cozida que estava em um prato sobre a mesa e levou a larga lâmina à boca, mastigando sem se importar com quem deixara o prato ali ou há quanto tempo a comida estava nele. — Já estava de saída.

Roma fez uma careta, mas Dimitri já estava saindo, levando consigo o carregado cheiro de almíscar e fumaça.

Sozinho, Roma soltou um longo suspiro e virou-se para colocar seu copo na pia.

Só que, ao se virar, se viu observado por olhos castanhos arregalados, nas órbitas de uma face pequenina como a de um duende.

Ele quase deu um grito.

— Alisa — Roma repreendeu a irmã, escancarando as portas do armário da cozinha. Ele não conseguia imaginar como ela conseguira espiá-lo de lá sem ser notada, ou como ela conseguira se enfiar entre os temperos e açúcares, mas já sabia que não adiantava perguntar.

— Cuidado —choramingou ela enquanto Roma a pegava no colo, removendo-a do armário. Quando a pôs no chão, ela gesticulou para a manga de sua blusa, que Roma amassara com o punho. — Essa é nova.

Longe disso. Na verdade, a blusinha de amarrar que cobria os ombros miúdos da menina lembrava as roupas que os camponeses usavam antes do fim das dinastias chinesas, rasgada de tal forma que somente seria possível se alguém a vestisse passando pelos cantos mais estreitos. Alisa simplesmente dizia coisas absurdas assim por motivo algum, exceto criar confusão, levando pessoas a acreditar que ela patinava na linha tênue entre insanidade e exagerada imaturidade.

— Quieta — disse Roma. Ele passou a mão no colarinho dela e congelou quando a mão tocou uma corrente que Alisa enrolara no pescoço. Era da mãe, uma relíquia de Moscou. A última vez que vira a joia foi em seu cadáver, após ter sido assassinada pela Sociedade Escarlate; uma corrente

prateada

brilhante

que

jazia

irretocável,

contrastando com o sangue que jorrava de sua garganta cortada.

Lady Montagova ficou doente um pouco depois que Alisa nasceu. Roma a visitava uma vez por mês, quando Lorde Montagov o levava para um local secreto, um esconderijo enfiado nos recantos ocultos de Xangai. Em sua mente, ela estava esquelética e tinha a pele acinzentada, mas sempre alerta, sempre pronta para sorrir quando Roma se aproximava de sua cama.

A ideia de um esconderijo era para que Lady Montagova não necessitasse de guardas. Supunha-se que ela estava segura. Mas, há quatro anos, a Sociedade Escarlate a encontrou e cortou sua garganta em resposta a um ataque ocorrido naquela semana, deixando uma rosa vermelha murcha em suas mãos. Quando a enterraram, ainda havia espinhos cravados em suas palmas.

Roma deveria odiar a Sociedade Escarlate muito antes de eles terem assassinado sua mãe, e deveria odiá-los muito mais — com um furor ardente — após o homicídio de Lady Montagova. Mas ele não os odiava. Afinal, era a Lei de Talião: olho por olho — era assim que a guerra de sangue funcionava. Se ele não tivesse ordenado aquele primeiro ataque, eles não teriam retaliado contra sua mãe. Não havia maneira de distribuir a culpa em uma disputa de tamanha escala. Se havia alguém a culpar, era ele mesmo. Se havia alguém a odiar pela morte de sua mãe, era ele mesmo.

Alisa acenou a mão na frente do rosto de Roma.

— Vejo olhos, mas não vejo cérebro.

Roma voltou ao presente. Colocou um dedo gentil por baixo da corrente, sacudindo-a.

— Onde você pegou isso? — perguntou docemente.

— Estava no sótão — respondeu Alisa. Seus olhos brilharam. — É lindo, não é?

Alisa tinha apenas oito anos de idade. Não lhe contaram sobre o assassinato, apenas que Lady Montagova sucumbira à doença.

— Muito lindo — disse Roma, com a voz embargada.

Então, seus olhos moveram-se rapidamente para cima ao ouvir passos no segundo andar. O pai estava no escritório.

— Agora, vá embora. Eu te chamo quando der a hora do jantar. Fazendo uma reverência zombeteira, Alisa saiu da cozinha e subiu as escadas, seu cabelo loiro e fino trilhando o seu encalço. Quando ouviu a porta do quarto da irmã se fechar no quarto andar, Roma começou a subir as escadas em direção ao escritório do pai. Ele sacudiu a cabeça com força, limpando a mente, e bateu à porta.

— Entre.

Roma encheu os pulmões de ar. E abriu a porta.

— E então? — disse Lorde Montagov em vez de cumprimentá-lo. Sequer ergueu os olhos. Sua atenção estava voltada para a carta em sua mão, que inspecionou rapidamente antes de jogá-la para longe e pegar a seguinte em uma pilha. — Espero que tenha encontrado algo.

Cautelosamente, Roma entrou e pôs a bolsa no chão.

Enfiou a mão nela e hesitou por um instante antes de puxar o sapato e colocá-lo sobre a mesa do pai. Roma prendeu a respiração, juntando as mãos nas costas.

Lorde Montagov olhou para o sapato como se Roma houvesse lhe presenteado com um cão raivoso. Fazia essa cara para o filho com frequência.

— O que é isto?

— Encontrei isso onde os primeiros sete homens morreram

— Roma explicou com cuidado —, mas pertence ao homem que morreu no cabaré Escarlate. Penso que ele estava na cena do primeiro crime e, se estava, estamos falando de contágio…

Lorde Montagov bateu na mesa com as duas mãos. Roma se encolheu muito, mas forçou-se a não fechar os olhos, forçou-se a manter o olhar tranquilo.

—Contágio! Surto! Monstros! O que há de errado com esta cidade? — berrou Lorde Montagov. — Eu lhe peço respostas e você me traz isto?

— Eu trouxe exatamente o que o senhor pediu —

respondeu Roma, em voz baixa, quase inaudível. Nos últimos quatro anos, ele sempre fez o que lhe pediam, fossem trabalhos menores ou terríveis. Se não o fizesse, teria que arcar com as consequências e, embora odiasse ser um Rosa Branca, odiava ainda mais a ideia de não ser um.

Seu título lhe conferia poder. Poder o mantinha a salvo.

Poder lhe dava autoridade, mantinha os inimigos distantes e lhe permitia manter Alisa a salvo, lhe permitia manter todos os seus amigos dentro de seu círculo de proteção.

— Tire isso da minha frente — ordenou Lorde Montagov, apontando para o sapato.

Roma contraiu os lábios, mas pegou o sapato e o enfiou no local de onde o puxara.

— Mantenho o argumento, Papa — sacudiu a bolsa, deixando o tecido engolir o calçado. — Oito homens confrontaram-se nos portos de Xangai; sete dilaceraram as próprias gargantas, um escapou. Se este homem, então, dilacera sua garganta no dia seguinte, isto não lhe parece uma doença contagiosa?

Lorde Montagov não respondeu por um longo período. Em vez disso, girou em sua cadeira até que estivesse de frente para a janelinha que dava para um beco movimentado.

Roma observava o pai, observava suas mãos apertarem os braços da grande cadeira, a cabeça, com cabelo raspado bem curto, transpirando quase imperceptivelmente. A pilha de cartas fora momentaneamente abandonada. As assinaturas em chinês no fim de muitas delas eram familiares: Chen Duxiu, Li Dazhao, Zhang Gutai.

Comunistas.

Após a Revolução Bolchevique varrer Moscou, a onda política quebrara aqui, em Xangai. As novas facções que surgiram há alguns anos persistentemente tentavam recrutar os Rosas Brancas como aliados, ignorando o fato de que a última coisa que os Rosas Brancas queriam era redistribuição social. Não após os Montagoves passarem gerações escalando até o topo. Não quando a maior parte dos

membros

da

organização

havia

fugido

dos

Bolcheviques.

Mesmo que os Comunistas vissem os Rosas Brancas como aliados em potencial, estes os viam como inimigos.

Lorde Montagov, enfim, emitiu um ruído de nojo, virando as costas para a janela.

— Eu espero não ser envolvido neste negócio de surtos —

decidiu. — Esta tarefa agora é sua. Descubra o que está acontecendo.

Lentamente, Roma assentiu. Ele se perguntou se a irredutibilidade na voz do pai era um sinal de que ele pensava que a questão dos surtos era algo inferior à sua posição ou se tinha medo de contrair a loucura também.

Roma não tinha medo. Temia apenas o poder dos outros.

Monstros e coisas que vagavam pela noite eram fortes, não poderosas. Era diferente.

— Vou descobrir o que puder sobre este homem — decidiu Roma, referindo-se à vítima mais recente.

Lorde Montagov afastou a cadeira de rodinhas alguns centímetros, então pôs seus pés em cima da mesa.

— Não se precipite, Roma. Você precisa confirmar que este sapato realmente pertencia ao homem que morreu noite passada.

Roma franziu as sobrancelhas.

— A última vítima está sendo mantida em um hospital Escarlate. Serei recebido com tiros.

— Dê um jeito de entrar — respondeu simplesmente Lorde Montagov. — Quando lhe dei a ordem para obter informação com os Escarlates, me pareceu que você conseguiu se aproximar com facilidade.

Roma enrijeceu. Era injusto. A única razão pela qual seu pai o enviara para território Escarlate foi o fato de que uma interação lorde com lorde era demasiadamente extrema. Se Lorde Cai e seu pai se encontrassem e a reunião terminasse pacificamente,

ambos

sairiam

com