Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 33 de 40

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Prazeres Violentos

Trinta e Um

Os olhos de Roma estavam vazios. Ele assumiu uma postura regular, com a coluna ereta.

— Vamos — disse ele.

Trinta e um

Tyler Cai foi o primeiro a receber notícias dos tumultos na cidade. Ele se orgulhava por manter os ouvidos atentos a boatos, por ter a face voltada para os sussurros que voavam com o vento acerca de qualquer foco de incêndio, com olhos fixos naqueles que precisavam dele.

Cidadãos comuns eram criaturazinhas voláteis. Não se podia confiar que viveriam suas vidas com sensatez.

Precisavam de supervisão, de uma mão gentil e bondosa que, conforme a necessidade, os conduzisse e manipulasse as cordas que controlavam seus destinos, senão as cordas se embolariam e as pessoas sufocariam até a morte com sua própria tolice e inaptidão.

— Sr. Cai — as notícias chegavam por meio de um mensageiro

chamado

Andong,

que

Tyler

havia

especialmente abrigado debaixo de sua asa e orientado expressamente para procurá-lo primeiro, antes de qualquer pessoa. — É muito grave.

Tyler se endireitou em sua escrivaninha, colocando sua caneta tinteiro sobre ela.

— O que houve?

— Uma greve em uma fábrica de Nanshi — disse Andong, sem fôlego. Ele havia entrado às pressas, quase colidindo com o batente da porta. — Mortos. Desta vez há mortos.

— Mortos? — repetiu Tyler, franzindo as sobrancelhas. —

Eles são meros operários fazendo baderna. Como houve vítimas? Aconteceram surtos ao mesmo tempo?

— Não, foram os Comunistas — respondeu o mensageiro, nervoso. — Havia pessoas do sindicato infiltradas na fábrica, instruindo os operários e levando armas para dentro. O

gerente está morto. Foi encontrado com um cutelo cravado na cabeça.

Tyler fechou a cara. Lembrou-se das manifestações nas ruas, dos partidos políticos que a Sociedade Escarlate estava tentando manter sob controle. Talvez tivessem errado quando se aliaram aos Nacionalistas. Talvez devessem ter observado os Comunistas mais atentamente em vez disso.

— Eles ficaram insatisfeitos com o quê? — desdenhou Tyler. — Como ousam se revoltar contra quem lhes dá segurança?!

— Eles não enxergam dessa forma — respondeu Andong.

— Os operários que não morrem com os surtos morrem de fome. Estão fazendo filas em massa para conseguir aquela vacina estúpida e, em vez de ficarem indignados com os preços abusivos desse maldito Larkspur, eles o veneram pela segurança de suas ampolas mágicas e culpam as fábricas Escarlates por não pagarem o bastante para que tenham vacina e comida.

Tyler balançou a cabeça negativamente e sibilou:

— Ridículo.

— Mesmo assim, os Comunistas estão crescendo com essa situação.

E estavam. Estavam tirando vantagem total do caos para fazer o povo de Xangai se voltar contra seus governantes, para derrubar o reino que os gangsteres haviam construído.

Mas aquilo não era grande coisa. A Sociedade Escarlate

ainda detinha a coroa. Se não conseguissem colocar os Comunistas na linha logo, simplesmente os destruiriam.

— Isso não é um caso isolado — avisou Andong quando Tyler continuou calado. — Pode ser um levante. Os Comunistas estão planejando algo hoje. Começou um burburinho de insatisfação em todas as fábricas de Nanshi.

Haverá mais assassinatos até o fim do dia.

Abaixo a elite! Cortem suas cabeças! Os operários estavam famintos o bastante para extirpar os gangsteres e usar o som de gritos para inflar os espaços entre suas costelas.

— Envie um alerta para nossos associados Escarlates —

ordenou Tyler. — Imediatamente.

O mensageiro anuiu. Fez menção de voltar para a direção de onde viera, mas parou antes que começasse a se mover.

— Há… outra coisa.

— Mais? — disse Tyler. Ele pôs as mãos atrás da cabeça, recostando-se no assento.

— Eu não vi com meus próprios olhos, mas — Andong deu um passo para o interior da sala e abaixou a cabeça.

Instintivamente, sua voz reduziu de volume, como se questões de morte e revolução pudessem ser debatidas à voz normal, mas fofocas menores demandassem discrição.

— Cansun disse que viu a Senhorita Juliette em território Rosa Branca. Disse que a viu… — Andong divagou.

— Desembuche — disparou Tyler.

— Ele a viu com Roma Montagov.

Tyler abaixou as mãos lentamente.

— É mesmo?

— Foi um mero relance — prosseguiu Andong —, mas ele achou suspeito. Presumiu que o senhor gostaria de saber.

— De fato, eu gostei de saber — Tyler ficou de pé. —

Obrigado, Andong. Se me der licença, preciso encontrar minha querida prima.

Roma e Juliette haviam chegado a um tipo inusitado de paz.

Quase parecia que não eram mais inimigos. Ainda assim, estavam mais frios um com o outro do que estiveram antes do Mantua — bem mais travados, mais reservados. Juliette lançou um olhar furtivo na direção de Roma enquanto andavam pelo Chenghuangmiao, observando o jeito como suas mãos estavam fechadas, como mantinha os cotovelos próximos do corpo.

Ela não havia se dado conta de que haviam ficado confortáveis na companhia um do outro até que voltaram a ficar desconfortáveis.

— Eu não estou lembrando errado, não é? — perguntou ela, em voz alta, ansiando por quebrar o clima tenso. —

Archibald Welch disse mesmo Casa de Chá Long Fa?

Juliette parou para inspecionar as lojas pelas quais passavam e, naqueles poucos segundos, três clientes trombaram com ela, um após o outro. Ela fez uma careta, quase gritando de raiva antes de se impedir. Ser invisível era melhor do que ser reconhecida, presumiu. Não significava que ela gostava daquilo, mesmo que se mesclar à multidão com seu casaco sem graça e seu penteado ainda mais sem graça estivesse lhe sendo de imensa utilidade.

— Eu não sei por que você está me pedindo para confirmar isso — respondeu Roma. — Eu estava no chão.

— Não há nada de errado em esfregar o chão de vez em quando. Demonstra sua humildade.

Roma

não

riu.

Ela

não

esperava

que

risse.

Silenciosamente, ela gesticulou para que prosseguissem antes que os clientes passassem por eles como bolas de boliche e reconhecessem seus rostos.

— Vamos, pano de chão.

Juliette voltou a andar, com passos cheios de propósito.

Eles passaram pelos vendedores de sorvete e pelos teatros de fantoches, então caminharam por toda a fila de lojas vendendo xiǎolóngbāo sem parar nenhuma vez para cheirar o vapor que subia, que tinha um aroma delicioso de carne.

Passaram por artistas que gritavam e se agacharam por baixo do arco que levava à agitação e ao movimento central do Chenghuangmiao e, lá, Roma parou abruptamente, estreitando os olhos para a vista diante de si.

— Juliette — disse Roma. — É aquela ali.

Ela anuiu com a cabeça, gesticulando para que se apressassem naquela direção. A Casa de Chá Long Fa situava-se perto dos lagos e à esquerda da ponte Jiuqu; o estabelecimento era uma construção de cinco andares, com um telhado extravagante que se curvava sobre suas bordas douradas. O prédio provavelmente estava ali desde que a China foi governada por imperadores na Cidade Proibida pela primeira vez.

Roma e Juliette adentraram pelas portas abertas da casa de chá, erguendo os pés sobre a base elevada do batente que emoldurava a entrada. Eles pararam.

— Vamos subir? — indagou Roma, olhando ao redor do térreo vazio, exceto por um banquinho encostado no canto.

— Para o último andar —Juliette o lembrou.

Eles subiram as escadas. Andar após andar, passaram por clientes e empregados, transbordando de movimento

enquanto pedidos eram feitos aos gritos e comandas eram arremessadas. Porém, quando Juliette venceu o último lance de escadas, chegando ao último andar com Roma em seu encalço, eles encontraram apenas uma porta de madeira alta, separando-os de tudo que havia do outro lado.

— É aqui?

— Deve ser — respondeu Roma. Hesitantemente, ele estendeu o braço e bateu à porta com as costas da mão.

— Entre.

Sotaque britânico. Baixo, rouco, como se tivesse um leve resfriado ou uma rinite.

Roma e Juliette trocaram um olhar. Roma deu de ombros e disse, sem emitir sons:

— Faça as honras.

Juliette abriu a porta. Imediatamente, franziu as sobrancelhas diante do que viu: uma saleta — não mais que dez metros quadrados. No centro da sala havia uma escrivaninha, embora metade dela estivesse coberta por uma enorme cortina branca que ia até o teto. Com a luz que entrava pela janela, Juliette conseguiu distinguir uma silhueta por trás da cortina, com os pés em cima da escrivaninha e braços atrás da cabeça.

— Bem-vindos ao meu escritório, Senhorita Cai e Sr.

Montagov — disse Larkspur. Ele falava como se houvesse cascalho alojado em sua laringe. Juliette se perguntou se aquela era sua voz real ou se estava fingindo. E se estava…

por qual motivo? — Não posso dizer que estava esperando pelos senhores, e normalmente só aceito reuniões com hora marcada, mas entrem, entrem.

Juliette caminhou lentamente na direção da escrivaninha.

Olhando mais de perto, ao examinar a parede atrás de

Larkspur, ela percebeu que aquilo não era uma parede —

era uma simples divisória temporária. Aquela “sala” era tão grande quanto todos os andares abaixo dela. Por trás da divisória, o resto certamente era o laboratório que Archibald Welch havia mencionado.

Larkspur acha que está sendo muito discreto, pensou Juliette, observando a linha onde a divisória se unia ao teto.

Ele deveria aprender a fazer uma pintura decente.

— Venham, sentem-se — berrou Larkspur. Por trás da cortina, via-se o contorno de seu braço gesticulando em direção aos assentos diante dele. No entanto, a silhueta do braço se dividia no momento em que se aproximava da cortina.

Juliette estreitou os olhos. Procurou por uma segunda fonte de luz refletida por trás da cortina capaz de criar tal efeito e descobriu a resposta na parede, onde metade de um espelho apontava para o teto em vez do observador. Parecia ser uma simples peça de decoração, mas bastou uma olhada para cima, no sentido que o espelho apontava, e ela detectou outro espelho, descobrindo a verdade.

Eles não conseguiam ver Larkspur, mas ele certamente conseguia vê-los.

— Não vamos tomar muito do seu tempo — assegurou Roma. Ele se sentou primeiro. Juliette o acompanhou, embora ela tenha se sentado na ponta de sua cadeira, preparada para uma fuga veloz.

— É sobre sua vacina — disse Juliette, brevemente. Não tinha tempo de ficar enrolando. — Como você a produz?

Larkspur deu uma curta risada.

— Senhorita Cai, você sabe o quão prejudicial será para meus negócios se eu contar. Seria como se eu lhe pedisse

para me entregar sua lista de clientes.

Juliette bateu na mesa com a mão espalmada.

— Isso diz respeito a vidas de pessoas.

— Diz mesmo? — rebateu Larkspur. — O que a senhorita fará com a fórmula da minha vacina? Produzirá uma cura preventiva? Estou tentando tocar uma empresa baseada em demanda, não um laboratório de pesquisas.

Roma segurou Juliette pelo cotovelo. Estava tentando lhe dizer para se acalmar, para não irritar Larkspur antes que obtivessem o que vieram buscar. Mas seu toque a deixou sobressaltada e, quando ela deu um pulo de susto, seus nervos já tensos tornaram-se uma catástrofe.

— Qual é o seu esquema com Zhang Gutai? — indagou Roma. — Você certamente ouviu os boatos sobre seu papel como criador da insanidade. Deve saber que é muito suspeito que você seja o responsável pela cura.

Larkspur apenas riu.

— Por favor — disse Roma, entre dentes cerrados. — Não estamos acusando você de nada. Estamos apenas ligando nomes, tentando encontrar um jeito de resolver esse desastre…

— Os senhores chegaram tão longe em sua

investigaçãozinha e ainda não conseguiram unir as peças?

Juliette estava prestes a voar na cortina e dar uma surra em Larkspur até que suas respostas enigmáticas fossem esclarecidas.

— O que quer dizer?

— O que acha, Senhorita Cai?

Juliette saltou tão rápido da cadeira que o móvel saiu voando e caiu de ponta-cabeça.

— Tudo bem, já chega.

Ela estendeu o braço e, em um movimento preciso e ágil, puxou a cortina com força, rasgando o tecido dos anéis que o prendiam ao teto.

Larkspur saltou, mas Juliette não vislumbrou uma face.

Não conseguiu. Ele usava uma daquelas máscaras baratas da ópera chinesa que todos os vendedores de feira vendiam para crianças curiosas, decoradas com grandes olhos e espirais vermelhas e brancas que realçavam nariz e boca.

Ela escondia toda a sua fisionomia, mas Juliette estava quase certa de que Larkspur tinha uma expressão bem satisfeita consigo mesmo naquele momento.

E também estava lhe apontando uma arma.

— Você não é a primeira pessoa a fazer isso, Senhorita Cai

— disse Larkspur, quase com simpatia. — E eu matei a última que tentou.

A arma de Juliette estava enfiada dentro de seu vestido.

Até que ela a sacasse, Larkspur teria tempo de sobra para atirar.

Mesmo assim, ela recorreu à valentia.

— Quem você acha que atira primeiro? — provocou Juliette.

— Eu acho que, no momento em que a senhorita tocar sua pistola, já haverá um buraco em sua cabeça.

Juliette deu uma olhada para Roma. Sua mandíbula estava tão cerrada que ela teve receio de que, em breve, ele teria rachaduras nos molares.

— É apenas uma pergunta — disse Roma, em voz baixa. E

perguntou novamente:

— Qual é o seu esquema com Zhang Gutai?

Larkspur lhes deu ouvidos. Ergueu a cabeça e emitiu um ruído, depois gesticulou com a mão livre, pedindo para que

Roma e Juliette se aproximassem. Eles permaneceram imóveis. Então, Larkspur andou lentamente até a mesa e se inclinou, como se fosse revelar um grande segredo.

— Vocês querem saber meu esquema com Zhang Gutai? —

sussurrou, com voz gutural. — Zhang Gutai está se transformando em um monstro. Eu estou fabricando a vacina com os dados que ele me fornece.

— Por quê? — questionou Juliette enquanto desciam as escadas às pressas. — Por que ele nos contaria isso? Por que Zhang Gutai lhe daria a fórmula da vacina?

O mundo estava girando depressa demais. O coração de Juliette pulsava a uma velocidade absurda. Sua respiração estava acelerada, mesmo quando chegaram ao térreo e pararam para se orientar, para reorganizar os pensamentos, percebendo que agora tinham todas as peças do quebra-cabeça necessárias para acabar com os malditos surtos que estavam arrasando Xangai.

Não tinham?

— Isso não faz nenhum sentido — disparou Juliette. — Ele deve saber que nosso objetivo é matar o monstro. Deve saber que agora vamos caçar Zhang Gutai por causa dessa revelação. Por que ele o entregaria de mão beijada? Sem o monstro, não há surtos. Sem surtos, ele vai à falência.

— Não sei, Juliette — respondeu Roma. — Não consigo pensar em nenhuma resposta plausível. Mas…

Abaixo os mafiosos!

O grito despertou a atenção de Roma e o pavor de Juliette imediatamente, assustando-os tanto que se deram as mãos.

Veio da Ponte Jiuqu, de um velho delirante que continuou gritando até que um gângster Escarlate ali perto ameaçou

bater nele. Aquilo, no entanto, não foi encarado com indiferença, como de costume. Em vez disso, com a intervenção do Escarlate durão, os civis começaram a murmurar entre si, lançando boatos e especulações ao vento. Juliette captou fragmentos dos sussurros: operários em greve e revoltas nas fábricas.

Ela soltou a mão de Roma rapidamente, afastando-se com um passo. Roma permaneceu imóvel.

— Por que ele diria algo assim? — balbuciou Juliette, com os olhos ainda fixos naquela cena. Por que aquele velho se sentiu destemido o suficiente para desejar morte aos mafiosos?

— Se os relatórios que li esta manhã estiverem corretos, é um problema gerado pelos Comunistas — respondeu Roma.

— Greves armadas em Nanshi.

— Nanshi — repetiu Juliette, sabendo que a área era familiar por algum motivo específico. — É lá…

Roma assentiu com a cabeça.

— Onde Alisa está, presa em um hospital bem ao lado das fábricas — finalizou ele. — Talvez estejamos ficando sem tempo. Os operários vão invadir o prédio se um levante acontecer.

Se os operários se revoltaram com seu trabalho, orientados a causar o caos, tentariam ferir todo gângster, todo capitalista, todo gerente de cargo alto e todo dono de fábrica que encontrassem, criança ou não, consciente ou não — o que incluía a pequena Alisa Montagova.

— Vamos matá-lo — decidiu Juliette. — Hoje.

Matar o monstro, acabar com os surtos. Acordar Alisa e salvá-la do caos que se acumulava à sua volta.

— Ele ainda estará em seu escritório — disse Roma. —

Como vamos fazer isso?

Juliette checou seu relógio de bolso. Mordeu o lábio, pensando muito. Não havia tempo para consultar seus pais.

Além disso, duvidava que aprovariam aquilo. Eles optariam por ponderar, traçar planos. Ela não podia pedir reforços oficiais Escarlates. Faria isso à sua maneira. — Reúna seus reforços mais próximos e suas armas. Nos encontraremos na sede do Diário do Proletariado em uma hora.

Roma anuiu. Seu olhar inspecionou a face dela, passando da testa aos olhos e à boca, como se esperasse ela dizer algo mais. Quando não disse, sem entender o que ele estava aguardando, Roma não se explicou. Simplesmente assentiu novamente e disse:

— Vejo você lá, então.

Tyler recuou de seu ponto de espionagem, grudando-se à parede externa da Casa de Chá Long Fa. Ele saiu de vista bem a tempo de evitar que Roma Montagov o visse; o herdeiro Rosa Branca correu para o meio da multidão no Chenghuangmiao e desapareceu.