Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 2 de 40

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Prazeres Violentos

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Prazeres Violentos

Copyright © 2022 da Starlin Alta Editora e Consultoria Eireli.

ISBN: 978-65-5520-581-7

Translated from original These Violent Delights. Copyright © 2020 by Chloe Gong. ISBN

9781534457690. This translation is published and sold by permission of Margaret K. McElderry Books, an imprint of Simon e Schuster Children’s Publishing Division, the owner of all rights to publish and sell the same. PORTUGUESE language edition published by Starlin Alta Editora e Consultoria Eireli, Copyright © 2022 by Starlin Alta Editora e Consultoria Eireli. .

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Impresso no Brasil — 1a Edição, 2022 — Edição revisada conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 2009.

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Fillipe Amorim

Fillipe Amorim

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Copidesque Ana Beatriz Omuro

Revisão Gramatical Carlos Bacci

Capa Sarah Creech

Ilustração da Capa Billelis

Diagramação e conversão para Epub Joyce Matos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

G638p Gong, Chloe

Prazeres Violentos / Chloe Gong ; traduzido por Rafael Surgek. - Rio de Janeiro : Alta Books, 2022.

ePub

Tradução de: These Violent Delights

ISBN 978-65-5520-581-7

1. Literatura americana. 2. Literatura fantástica. 3. Ficção histórica. I. Surgek, Rafael. II. Título.

2021-4284 CDD 810 CDU 821.111(73) Editora Alta Books

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Para Você,

Querido leitor

Estes prazeres violentos têm finais violentos E em seu triunfo morrem, como fogo e pólvora,

Que, ao se beijarem, se consomem.

—Shakespeare, Romeu e Julieta

Prólogo

Na reluzente Xangai, um monstro desperta.

Seus olhos se abrem de súbito no ventre do rio Huangpu. Sua mandíbula se escancara de uma vez só para saborear o sangue asqueroso que escorre até as águas. Traços de vermelho deslizam pelas ruas modernas da cidade

antiga:

traços

que

desenham

teias

nos

paralelepípedos como uma rede venosa invadindo as águas, suas veias derramando, gota a gota, a essência vital da cidade na boca de outro ser.

À medida que a noite se torna mais escura, o monstro se eleva, enfim emergindo das ondas com o desleixo de um deus esquecido. Ao levantar a cabeça, tudo o que vê é a lua, roliça e baixa.

A coisa inspira. A coisa se aproxima.

Seu primeiro fôlego se transforma em uma brisa gelada, disparando pelas ruas e tocando os tornozelos daqueles desafortunados o bastante para estar voltando aos tropeços até suas casas em plena Hora do Demônio. Este lugar vibra à melodia da devassidão. A cidade é imunda e vive completamente à mercê do pecado perpétuo, tão saturada com o beijo da decadência que o céu, como punição, ameaça envergar e esmagar todas as criaturas que abaixo dele vivem intensamente.

Mas a punição não vem — ainda não. A década é leniente, e a moral mais ainda. Enquanto o Ocidente ergue os braços para o alto em uma festa infinita, enquanto o Reino do Meio

permanece fragmentado entre chefes militares cada vez mais velhos e os resquícios do jugo imperial, Xangai se mantém em sua pequena bolha de poder: a Paris do Oriente, a Nova York do Ocidente.

Apesar da toxina que escorre de cada beco sem saída, este lugar está tão, tão vivo. E o monstro também renasce.

Ignorantes a isso, as pessoas desta cidade dividida seguem suas vidas. Dois homens saem cambaleando pelas portas de seu bordel favorito, com risadas estridentes e altas. O silêncio da madrugada faz um contraste repentino com a atividade barulhenta da qual acabaram de sair, e seus ouvidos lutam para se ajustar, zumbindo alto com a mudança.

Um deles é baixo e corpulento; talvez pudesse se deitar no chão e rolar pela calçada como uma bola de gude; o outro é alto e desajeitado, com braços e pernas angulares. Apoiados nos ombros um do outro, eles cambaleiam até a orla, em direção ao rio que vem do mar, onde comerciantes chegam com produtos, dia após dia.

Os dois conhecem bem estes portos: afinal, quando não estão frequentando clubes de jazz ou entornando os mais recentes carregamentos de vinho oriundos de um país qualquer,

eles

transmitem

mensagens,

protegem comerciantes e transportam cargas de lá para cá, tudo nesse lugar — tudo para a Sociedade Escarlate. Eles conhecem estas docas como a palma de suas mãos, mesmo quando estão quietas como agora, sem os costumeiros gritos em milhares de idiomas diferentes urrados sob milhares de bandeiras diferentes.

A esta hora, ouve-se somente a música abafada de bares próximos e os grandes toldos das lojas balançando a cada

rajada de vento.

E os cinco Rosas Brancas conversando animadamente em russo.

Os Escarlates deveriam ter ouvido com antecedência a barulheira, mas seus cérebros estão encharcados de álcool e seus sentidos prazerosamente anestesiados. No momento em que os Rosas Brancas entram em seu campo de visão, na hora em que os homens avistam seus rivais parados em um dos portos, passando garrafas de mão em mão, trombando de ombros com as gargalhadas, nenhum dos grupos pode recuar sem ter sua reputação manchada.

Os Rosas Brancas se endireitam, um grupo de cabeças se inclinando ao vento.

— Nós deveríamos continuar andando — sussurra o Escarlate baixinho ao seu companheiro. — Você sabe o que Lorde Cai disse sobre entrar em outra briga com os Rosas Brancas.

O desajeitado apenas morde a parte interna das bochechas, chupando seu rosto para dentro até ficar parecido com um morto-vivo bêbado e marrento.

— Ele disse que não devemos começar nada, mas nunca disse que não podemos entrar em brigas.

Os Escarlates falam no dialeto de sua cidade, com a língua reta e sons comprimidos. Mesmo enquanto elevam suas vozes com a confiança de estarem em casa, sentem-se apreensivos, porque atualmente é raro que um Rosa Branca não saiba seu idioma — em alguns casos, não se pode dizer que o sotaque deles é diferente do de um nativo de Xangai.

Fato que se confirma quando um dos Rosas Brancas, abrindo um sorriso maléfico, berra:

— E aí, vocês estão a fim de briga?

O Escarlate mais alto emite um ruído baixo na base da garganta e mira um cuspe nos Rosas Brancas, que cai perto do sapato do que está mais próximo deles.

Em um piscar de olhos: armas e mais armas, braços erguidos e firmes e gatilhos nervosos, prontos para disparar.

Essa é uma cena que não choca mais nenhuma alma; essa é uma cena mais comum na estonteante Xangai do que a fumaça do ópio saindo de um grosso cachimbo.

— Ei! Ei!

Um estridente apito soa no breve silêncio. O policial que corre até o local expressa apenas irritação com o impasse à sua frente. Ele viu essa exata cena três vezes ao longo da semana. Colocou rivais na mesma cela e chamou a limpeza quando eles mataram uns aos outros, seus corpos crivados de balas. Cansado do dia, tudo o que ele deseja é ir para casa, mergulhar os pés em água quente e comer a refeição que sua esposa teria deixado sobre a mesa, já fria. Sua mão já está coçando para pegar o cassetete, coçando para colocar bom senso na cabeça daqueles homens na base da pancada, coçando para lembrar essas pessoas que elas não têm nenhum rancor pessoal umas com as outras. Seu combustível é a lealdade infundada e inconsequente aos Cais e aos Montagoves, e isto as levará à ruína.

— Vamos acabar com isso e ir para casa? — pergunta o policial, cansado. — Ou vocês vêm comigo e…

Ele se interrompe abruptamente.

Um rugido ecoa das águas.

O alerta que se origina de um som como este não é uma sensação que pode ser ignorada. Não é aquela paranoia de quando se pensa estar sendo perseguido em um local abandonado, nem aquele medo que vem quando um

assoalho range em uma casa que se pensava estar vazia. A sensação é sólida, tangível — ela quase exala umidade no ar, um peso que pressiona a pele nua. Uma ameaça tão óbvia quanto uma arma apontada para a cabeça e, apesar disso, há um momento de inércia, um momento de hesitação. O Escarlate baixinho e corpulento é o primeiro a vacilar, lançando os olhos para a beira das docas. Ele abaixa a cabeça, olhando fixamente para as profundezas escuras e turvas, forçando a vista para seguir o movimento instável e contínuo das pequenas ondas na água.

O baixinho está na altura exata para que seu companheiro, gritando, o derrube com uma cotovelada brutal na têmpora quando algo irrompe do rio.

Pequenos respingos negros.

Enquanto o homem baixo vai ao chão, tombando com força, o mundo chove sobre ele em pontinhos — coisas estranhas que ele não consegue ver enquanto sua visão gira e a náusea sobe por sua garganta. Ele sente apenas alfinetadas caindo sobre si, fazendo seus braços, pernas e pescoço coçarem; ouve seu parceiro gritando, os Rosas Brancas esbravejando entre si em um russo indecifrável e então, finalmente, o policial ganindo desesperado, em inglês — Tira isso daqui! Tira essas coisas daqui!

O coração do homem no chão palpita com força, como um trovão. Com a testa colada na terra, incapaz de observar o que quer que esteja causando estes uivos terríveis, sua própria pulsação o consome. Ela domina todos os seus sentidos e somente quando algo espesso e molhado borrifa sua perna é que ele se levanta, contorcendo-se de horror, debatendo-se tão vigorosamente que seu sapato sai voando e ele não se dá ao trabalho de recuperá-lo.

Ele não olha para trás enquanto corre. Se esfrega para se livrar da sujeira que choveu sobre ele, soluçando com o desespero para respirar, respirar e respirar.

Ele não olha para trás para verificar o que estava espreitando nas águas. Ele não olha para trás para ver se seu parceiro precisa de ajuda, e certamente não olha para trás para averiguar o que caiu em sua perna e causou aquela sensação viscosa, pegajosa. O homem apenas corre, corre e corre, passando pelo encanto neon das casas de show quando suas últimas luzes se apagam, passando pelos sussurros que rastejam sob as portas dos bordéis, passando pelos doces sonhos dos comerciantes que dormem com pilhas de dinheiro sob seus colchões.

E se fora há muito quando restam somente mortos nos portos de Xangai, com gargantas dilaceradas e olhos fixos no céu noturno, vidrados com o reflexo da lua.