Prazeres Violentos
Trinta e Oito
Mas ele estava vivo.
Juliette o puxou com força, travando ambos em um abraço.
— O monstro está morto — sussurrou ela.
Então por que ela ainda se sentia vazia? Por que sentia que o trabalho deles não havia acabado?
— Paul te machucou? — perguntou Roma. Ele afastou Juliette e passou os olhos por ela para ver se estava ferida, como se suas próprias mãos não estivessem mais cobertas de sangue.
Juliette sacudiu a cabeça negativamente e Roma suspirou de alívio. Ele olhou para a água, onde o corpo de Paul flutuava naquelas ondas verde-acinzentadas.
— Ele achava que te amava.
— Não era amor — sussurrou Juliette.
Roma deu um beijo em sua têmpora, fechando os olhos contra os cabelos molhados da jovem.
— Vamos — disse ele. — Vamos despertar Alisa.
Trinta e oito
Um por um, os insetos se desprenderam de Alisa
Montagova.
Eles se contorceram e chiaram quando o
hospedeiro-mãe sangrou até a morte, rangendo os dentes microscópicos. Quando o coração que dava vida a todos parou de bater, eles também foram forçados à morte agonizante, soltando-se dos tecidos a que se agarravam, desprendendo as mandíbulas dos nervos que haviam selecionado. Em seus últimos momentos, começaram a emergir. Ao contrário de seu único objetivo, que outrora fora se enterrar bem fundo, os insetos agora tentavam se desentocar desesperadamente, debatendo-se sem parar em um emaranhado de cabelo loiro e fino, antes de, por fim, morrerem e caírem sobre o tecido branco das roupas de cama do hospital.
Com um arquejo, Alisa despertou. Ela se levantou em um salto, ofegante, ansiando por ar fresco — tossindo e tossindo até que o tubo que lhe dava suporte vital foi expelido com força de sua garganta. Ela se erguera de forma a espalhar para todo lado a dúzia de carcaças de artrópodes que estava na fronha, já murchando em morte.
Ela não ousou se mover mais do que aquilo. Inspirou intensamente e prendeu a respiração nos pulmões desta vez, com olhos quase vesgos na tentativa de fitar o cano da arma que estava apontada para sua testa.
— Está tudo bem, Alisa — sibilou alguém no canto da sala.
Ela dirigiu o olhar na direção da voz. Isso aumentou seu pânico ao invés de acalmá-la: ela viu Benedikt, seu primo, com as mãos para o alto e duas armas apontadas para ele, e Marshall Seo em um apuro similar perto da porta.
— Bem-vinda de volta ao mundo, Alisa Montagova — disse Tyler Cai. Ele pressionou a boca da arma em sua pele. —
Sinto muito que tenha de ser dessa forma.
As ruas da cidade permaneciam um barulhento desfile de desordem enquanto Roma e Juliette passavam. Para todo lugar que Juliette olhava, via os cadáveres de quem estava no rastro de destruição do monstro. Ela viu caos político —
manifestantes ainda tentavam se fazer ouvir, mesmo quando seus camaradas proletários jaziam mortos nas ruas.
Em sua pressa, ela perdeu a conta de quantas vezes colidiu com um manifestante, de quantas vezes quase foi atingida por suas tochas flamejantes ou faixas de protesto soprando ao vento.
Entretanto, quando Roma e Juliette correram até a divisa de Nanshi, estava tudo silencioso.
— Nós pegamos o caminho errado? — sussurrou Juliette.
— Não — disse Roma. — É aqui mesmo.
As grandes fábricas haviam assumido uma forma muda, discreta. As estradas estavam vazias, sem puxadores de riquixás, sem vendedores, sem nem mesmo os fracos ruídos de crianças correndo a esmo.
Aquilo era esperado — mas, na ausência do barulho habitual, eles esperavam um pandemônio, não quietude.
— Os protestos ainda não começaram aqui?
— Suponho que, se não começaram, é bom para nós —
disse Juliette, hesitante. — Onde fica o hospital?
Roma apontou. Eles correram. No hospital, enquanto subia apressada as escadas com passos firmes de seus saltos, Juliette sentia as panturrilhas latejando e os dentes batendo.
A ansiedade que percorria seus membros não tinha outro lugar para ir.
— Olá? — chamou Roma, abrindo as portas duplas. Não havia ninguém na recepção. Nenhum enfermeiro, nenhum médico.
— Escute, Roma — sussurrou Juliette. Eles ficaram imóveis, sob a pintura descascada de um arco que dava no corredor estreito. Um rangido de sapato. Um murmúrio baixinho.
Um grito de raiva.
— Me solte…
— É o Marshall — disse Roma. Ele desatou a correr. —
Marshall!
— Espere, Roma — disparou Juliette. — Roma!
Ela correu atrás dele, segurando a pistola, com o dedo no gatilho. Contudo, no instante em que chegou, com a arma em riste e mirada, era tarde demais para conseguir uma vantagem. Roma já havia derrapado para dentro do cômodo e caído em uma emboscada, forçado a colocar as mãos na cabeça enquanto três Escarlates apontavam suas armas para ele.
— Veja só isso — Tyler estalou a língua. Alisa choramingou.
— De uma vez só, todos os peixes grandes vieram nadando.
— Tyler — sibilou Juliette.
Tyler balançou a cabeça negativamente antes que ela pudesse dizer algo mais. Cada movimento que dele emanava era um lento instante de fúria cuidadosamente
contida — exceto por seu braço, mais firme do que nunca enquanto mantinha sua arma apontada para Alisa.
— Diga-me, tángjiě. Em quem você está mirando agora?
Juliette não sabia. Ela apontou a arma por apontar, para ter algo a fazer se as coisas dessem errado, mas ela supôs que já haviam dado, e estavam dando errado há muito, muito tempo. Lentamente, Juliette abaixou a arma, com as mãos trêmulas.
Os Escarlates no quarto a fitavam com desdém. Ela entendeu o que houvera. Tyler havia descoberto a verdade sobre sua aliança com os Rosas Brancas e veio concretizar sua vingança. Ele havia colocado os Escarlates contra ela, pintado uma gravura de sua traição. Os olhos daqueles homens oscilavam entre ela e Roma e, naquele momento, com clareza surpreendente, Juliette percebeu seu erro. Fora sua culpa, por acreditar. Por ter esperança.
Um amor como o deles nunca sobreviveria em uma cidade dividida pelo ódio.
Aquilo seria a morte de todos eles.
A menos que Juliette pudesse salvá-los.
Respire. Ela não era simplesmente a herdeira que voltara do Ocidente, uma caricatura perfeita para seus rumores, perfeita para ser pintada como facilmente influenciável, facilmente manipulável, com as cordas do coração abertas para serem puxadas a qualquer instante.
Sorria. Ela era um monstro por mérito próprio.
— O que você pensa que está fazendo? — indagou Juliette.
Sua voz saiu normalmente, beirando a indiferença.
— Punindo sua falta de discernimento. Você nos traiu, Juliette. Nos fez retroceder quilômetros nesta disputa —
Tyler balançou negativamente a cabeça. — Eu vou consertar isso. Não se preocupe.
Seu dedo retesou-se no gatilho.
— Pare — disparou Juliette. — Seu completo idiota. Você acha que eu o traí? Acha que está nos fazendo um favor matando todos os Montagoves? É um truque, Tyler. Tudo o que você convocará com suas mortes é retaliação sobre nossa família.
Tyler deu uma gargalhada ríspida.
— Não tente sair dessa me enganando…
— Eu falo a verdade…
— Mas você sempre foi uma mentirosa.
Então, um tiro súbito ecoou pela sala, extraindo um grito apavorado da garganta de Juliette. Mas não partira da arma de Tyler. Partira da pistola que Marshall repentinamente tomou do Escarlate mais próximo de si, virando-a contra seu dono. O Escarlate foi ao chão. Marshall projetou-se para a frente — na esperança de salvar Alisa, na esperança de que um tiro desesperado tirasse Tyler do caminho.
E então Tyler apontou a pistola e atirou primeiro. Marshall tombou. Suas mãos foram às costelas, onde floresceu uma mancha de sangue.
— Mars! — rugiu Benedikt.
— Não ouse — vociferou um Escarlate imediatamente. Ele enfiou a arma com força na têmpora de Benedikt. Isso o deixou completamente paralisado, incapaz de dar um passo sequer na direção de Marshall, sob risco de levar um tiro. Os Escarlates achariam qualquer motivo para atirar. Juliette sabia que sim.
— Vocês são todos loucos — disse Marshall no chão, com dificuldade. E se encolheu. O sangue começou a escorrer
por seus dedos, fazendo uma sujeira que gotejava sem parar sobre o chão. — Vocês são todos amaldiçoados.
Montagoves e Cais. Há uma praga sobre suas duas malditas casas.
Tyler ergueu a arma novamente.
— Parem — ordenou Juliette. — Parem…
Outro tiro. Este veio de Roma. Ele evitou um dos homens e conseguiu dar um tiro no tempo que levaram para subjugá-lo novamente. Sua bala passou de raspão no ombro de Tyler, fazendo-o recuar um passo, chiando de dor.
— PAREM!
O quarto ficou em silêncio absoluto. Armas e armas e armas. Sempre seria assim.
— Estão escutando isso? — sibilou Juliette. Ela mantinha um dedo próximo à orelha, ordenando que os homens no quarto escutassem. O estardalhaço da fusão de ruídos. A fusão do estampido de pés e do brado de lemas políticos, inicialmente longe, mas chegando cada vez mais perto.
— Quando eles chegarem aqui — disse Juliette, furiosa —, matarão todos nós. Rosas Brancas ou Sociedade Escarlate, pouco importa. Eles têm metralhadoras e facões, e o que nós temos? Dinheiro?
Ela se voltou para seu flanco. O gângster Escarlate em que Marshall havia atirado estava morto no chão. A bala estava em seu pescoço. Seus olhos estavam vidrados, fitando o teto. Ela sequer sabia seu nome.
O tronco de Marshall também estava encharcado em vermelho. Tyler não permitiria que os Rosas Brancas saíssem a tempo de salvar Marshall. Ele não era bondoso a esse ponto. Ele precisava contemplar pelo menos um sacrifício para ficar satisfeito.
Um sacrifício precisava ser feito para que os Rosas Brancas escapassem. Para que Alisa sobrevivesse.
Com um nó na garganta, Juliette enfiou a mão no bolso.
Desejou que houvesse algo em sua manga que neutralizasse a situação, mas não havia nada. Apenas a disputa sangrenta.
— Precisamos partir antes que seja tarde demais.
— Onde está sua honra? — vociferou Tyler.
— Honra? — repetiu Juliette, ríspida. Sua voz saiu tremenda no silêncio reverberante do quarto de hospital. —
Quem se importa com honra se estaremos mortos se ficarmos aqui por mais tempo?
— Eu não serei o primeiro a deixar este quarto, Juliette —
disse Tyler, com frieza. — Eu não desejo levar um tiro pelas costas…
— Então eles saem primeiro — propôs Juliette, girando os ombros. — Lex talionis, Tyler. Olho por olho. É assim que essa disputa funciona — ela apontou um dedo para Marshall. Fez força para não tremer. — Desista de seu plano delirante de vingança. Mataremos apenas ele, pela baixa de nosso Escarlate. Os outros serão libertos.
— Não — dispararam Roma e Benedikt, em uníssono.
O estômago de Juliette estava frio como gelo quando olhou Roma nos olhos.
— Você não está em condição de barganhar agora.
— Não vai funcionar, Juliette — disse Roma, com firmeza.
— Se Tyler quer uma luta justa, deixe-nos ter uma luta justa.
Não minta para que fujamos.
Ele não via que ela o estava salvando? Ele não via que um levante armado acontecia do lado de fora, turbas atrás de turbas buscando matar a todos que reconheciam como
parte da elite? Ele não via que cortar os laços entre eles era o único jeito de saírem todos vivos, que se Tyler tivesse a mais leve suspeita de que os dois estavam juntos, ele já estaria na metade do caminho para a cova?
Ele sabe, sussurrou uma voz. Ele quer ficar por você. Não vai se afastar de você. Não por uma segunda vez. Ele prefere a morte.
Juliette supôs que era sua vez de se afastar. A apaixonada e o mentiroso, a mentirosa e o apaixonado. Eles revezavam papéis como se fosse um jogo.
— Estou dizendo a verdade — disse novamente Juliette.
Cada palavra era uma lâmina que fatiava sua língua, cortando-a duas vezes mais profundamente do que o dano que ela causou ao mundo. — Acorde. Todo esse nosso namorico entre a gente foi apenas para coletar informações.
— Juliette, não diga esse tipo de…
— Rodovia Mybergh — interrompeu Juliette.
Roma parou. Simplesmente… parou. Ele conhecia aquele endereço. Era o esconderijo de sua mãe. Do qual ninguém mais sabia.
A disputa de sangue é a disputa de sangue. Não pense muito nisso. Não se atormente. Não é culpa sua.
Ah, mas era. Era.
Lady Montagova morrera duas semanas após Juliette partir de Xangai. Duas semanas após o ataque à casa Escarlate que matou todos os empregados.
Porque, depois do ataque, Juliette perdera a cabeça com os dois homens que a escoltavam até o barco para Nova York. Seus pais estavam ocupados demais até mesmo para se despedirem. Os Escarlates achavam que aquele trabalho era muito inferior a eles; um deles a mandou calar a boca,
dizendo que ela era apenas uma criança que não sabia nada sobre a cidade, que não era necessária ali.
Porque, naquele dia, Juliette batera o pé em uma birra enraivecida e infantil e, para provar seu valor, contou aos dois Escarlates tudo o que sabia sobre os Rosas Brancas de uma só vez, inclusive a localização do esconderijo de Lady Montagova. Ela soube do endereço por acaso, em uma tarde preguiçosa, quando entrou no território Rosa Branca para fazer uma surpresa a Roma e o ouviu falando com o pai.
Os homens Escarlates não a questionaram sobre como conseguira aquela informação. Eles a enxotaram. Ela pensou que eles não lhe haviam levado a sério. Sentiu-se nauseada quando embarcou no navio, mas disse a si mesma que Roma a traíra primeiro. Que a Sociedade Escarlate podia fazer o que quisesse com a informação que havia lhes dado e aquilo seria bem feito.
Ela jamais poderia imaginar que eles iriam atrás da mãe dele.
— Eu sabia — disse Juliette. — Eu sempre soube. Eu sou a responsável pela morte de sua mãe.
Na cama, Alisa começou a tremer. Estava fitando Juliette com olhos muito, muito arregalados.
— Não — Roma mal conseguiu proferir a palavra. — Você não fez isso.
Lá fora, o barulho dos protestos dos proletários se aproximava. Metal batia no lado externo das paredes do hospital em frenesi e histeria.
Roma estava com dificuldade para respirar. De súbito, não conseguia enxergar claramente, via apenas borrões
coloridos, vagas impressões de formas, o reluzir fraquíssimo de uma pessoa que abriu a boca e disse:
— Fui criada no ódio, Roma. Eu nunca poderia ser seu amor, apenas sua morte.
Juliette Cai avançou, parando diretamente à frente de Marshall. Ela se ajoelhou com frieza, tirou a mão dele de cima da ferida, inspecionando-o como se não fosse nada além de um pedaço de lixo jogado a seus pés.
— Olho por olho — disse Juliette.
Ela golpeou com força a face de Marshall. Seu corpo saiu rolando, colidindo com o chão duro e frio. Seus dois braços envolviam a cabeça, com a mão na frente do rosto como se fosse protegê-lo. Sangue. Havia muito sangue debaixo dele.
Juliette segurou a arma com as duas mãos. Girou a pistola, firmando a empunhadura. Então:
— Uma vida por uma vida.
Bang.
— Não! — rugiu Benedikt.
A cabeça de Marshall pendeu para trás. Ele estava imóvel.
Imóvel.
Roma não conseguia respirar.
— Marshall, levante — disparou Benedikt. — Levante!
Juliette deu um aceno petulante aos Escarlates que mantinham Benedikt cativo.
—Soltem-no — disse ela. — Deixem que ele mesmo veja.
E os Escarlates obedeceram. Relaxaram as armas o bastante para que Benedikt pudesse se afastar, mas não a ponto de não conseguirem atirar caso ele atacasse de repente. Juliette estava de volta ao topo. Posicionada acima de Tyler, e lá permaneceria, enquanto se mantivesse implacável.
Benedikt
caminhou
até
Marshall.
Parecendo
completamente esvaziado de tudo, ele pôs a mão no pescoço de Marshall e a manteve ali, esperando.
Seu primo emitiu um ruído terrível. Roma ouviria aquele som em sua cabeça para sempre.
— Acorde — ordenou Benedikt, com rispidez. Ele sacudiu Marshall pelos ombros. Marshall não reagiu. Era apenas um cadáver, mole como uma marionete. — Acorde!
Ele não acordaria.
Juliette não reagiu à cena diante de si. Olhou para o corpo e para o homem que o velava como se não significassem nada para ela — e Roma supôs que não significavam.
— Vá — disse-lhe Juliette. E apontou a arma para Alisa. —
Vá, antes que matemos todos vocês.
Roma não tinha escolha. Ele foi cambaleando até Alisa e estendeu a mão para que ela a pegasse.
E os Rosas Brancas bateram em retirada.
Juliette os observou sair. Gravou a fogo a imagem dentro de sua mente, gravou a fogo o alívio que inundou suas veias e tinha um sabor doce em sua língua. Forçou-se a lembrar-se daquele momento. Isto era o que a monstruosidade causava. Talvez Paul Dexter tivesse descoberto algo, no fim das contas. Talvez houvesse propósito no horror e na mentira.