Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 3 de 40

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Prazeres Violentos

Um

SETEMBRO, 1926

No coração do território da Sociedade Escarlate, um cabaré era o lugar do momento.

O calendário se aproximava cada vez mais do fim da estação, e as páginas correspondentes a cada dia se soltavam e voavam para longe mais rápido que as folhas secas. O tempo era simultaneamente apressado e lento, os dias passando rápido e, ainda assim, se arrastando demais.

Trabalhadores estavam sempre com pressa de ir a algum lugar, não importando se de fato tinham algum destino.

Havia sempre um apito ao fundo, havia sempre o barulho ininterrupto dos bondes que se arrastavam ao longo dos gastos trilhos sulcados nas ruas; havia sempre o fedor de ressentimento poluindo os bairros e se impregnando profundamente nas roupas que balançam com o vento nos varais, como as faixas de lojas nas janelas apertadas de apartamentos.

Hoje era uma exceção.

O relógio pausara no Festival do Meio do Outono: dia 21

daquele mês, segundo os métodos ocidentais de contar os dias. Houve um tempo em que era costumeiro acender lanternas de papel e sussurrar contos trágicos para louvar o que os ancestrais veneravam, com a luz da lua na palma das mãos. Agora era uma nova era — uma que se pensava superior à de seus ancestrais. Independentemente do território que ocupava, o povo de Xangai estava animado

com o espírito da celebração moderna desde o amanhecer e, agora, no momento em que os sinos soaram nove vezes, as festividades estavam apenas começando.

Juliette Cai estava monitorando a boate, olhos buscando os primeiros sinais de confusão. O local estava pouco iluminado, apesar da abundância de candelabros reluzentes pendurados no teto, e a atmosfera estava sombria, úmida e densa. Um aroma estranho e molhado chegava ao nariz de Juliette em ondas, mas a reforma malfeita parecia não perturbar o humor das pessoas sentadas nas várias mesas redondas

dispersas

pelo

salão.

Elas

dificilmente

perceberiam um pequeno vazamento em um canto da boate, com o movimento constante que lhes consumia toda a atenção. Casais sussurravam sobre baralhos de tarô, homens sacudiam uns aos outros vigorosamente e mulheres inclinavam suas cabeças, espantando-se e soltando gritinhos ao ouvirem as histórias contadas à tremeluzente iluminação a gás.

— Você parece a tristeza em pessoa.

Juliette não se virou de imediato para identificar a voz. Não precisava. Para começar, havia pouquíssimas pessoas que a abordariam falando inglês, muito menos um inglês com tons de um falante nativo de chinês e o sotaque de uma educação francesa.

— Pareço. Estou perpetuamente cheia de tristeza. —

Somente então ela inclinou a cabeça, curvando os lábios para cima e focando o olhar na prima. — Você não devia ser a próxima a subir no palco?

Rosalind Lang deu de ombros e cruzou os braços, fazendo as pulseiras de jade em seu pulso esguio e marrom tilintarem.

— Eles não podem começar o show sem mim — Rosalind zombou —, então não estou preocupada.

Juliette fez outra varredura na multidão, desta vez com um alvo em mente. Ela avistou Kathleen, a gêmea não idêntica de Rosalind e sua prima mais próxima, ao lado de uma mesa nos fundos do cabaré. Ela estava pacientemente equilibrando uma bandeja cheia de pratos e encarando um comerciante britânico enquanto ele tentava pedir uma bebida, gesticulando de maneira exagerada. Rosalind foi contratada para dançar; Kathleen aparecia como garçonete quando estava entediada e recebia um pequeno pagamento pela diversão.

Suspirando, Juliette sacou um isqueiro para manter as mãos ocupadas, acendendo e apagando a chama no ritmo da música que deslizava pela sala. Ela sacudiu o pequeno retângulo de prata debaixo do nariz da prima.

— Fogo?

Rosalind, em resposta, puxou um cigarro que estava dentro das dobras de sua roupa.

— Você nem fuma… — disse, enquanto Juliette inclinava o isqueiro em sua direção. — Por que carrega essa coisa por aí?

Com a face impávida, Juliette respondeu:

— Você me conhece. Eu ando por aí. Vivendo a vida, causando incêndios.

Rosalind deu o primeiro trago e revirou os olhos.

— Ah, claro.

Um mistério mais interessante era o local onde Juliette guardava o isqueiro: a maioria das mulheres na boate burlesca — dançarinas ou clientes — se vestia como Rosalind: com o elegante qipao, que varria Xangai como

labaredas. Com uma ultrajante fenda lateral que exibe as pernas do tornozelo à coxa e o colarinho alto que envolve o pescoço, o design era uma mistura da extravagância ocidental com as raízes asiáticas e, em uma cidade de mundos divididos, as mulheres eram metáforas ambulantes.

Mas Juliette – Juliette se transformara por completo; as pequenas contas de seu vestido melindroso sem bolsos chacoalhavam a cada movimento. Ela se destacava ali, certamente. Uma estrela brilhante e ardente, uma figura simbólica da vitalidade da Sociedade Escarlate.

Juliette e Rosalind voltaram a atenção silenciosamente ao palco, onde uma mulher cantava uma canção em um idioma que nenhuma das duas conhecia. A voz da cantora era adorável e seu vestido brilhava em contraste com sua pele negra, mas este não era o tipo de apresentação pelo qual este tipo de cabaré era conhecido, então ninguém, exceto as duas mulheres ao fundo, prestava atenção.

— Você não me disse que estaria aqui hoje — comentou Rosalind, após um momento, e a fumaça escapou de sua boca em uma breve baforada. Havia mágoa em sua voz, como se a omissão de informação fosse atípica. A Juliette que retornara semana passada não era a mesma da qual suas primas se despediram há quatro anos, mas as duas também mudaram. Ao retornar, antes mesmo que pusesse os pés em casa, Juliette ouvira falar do charme falso e da elegância inata de Rosalind. Após quatro anos fora, as memórias que Juliette possuía das pessoas que deixara para trás não mais se alinhavam com quem elas se tornaram.

Nada de sua memória sobrevivera ao tempo. A cidade reformulara-se e todos que nela estavam seguiram em frente sem ela, especialmente Rosalind.

— Foi de última hora. — Nos fundos do cabaré, o comerciante britânico começou a fazer mímicas para Kathleen. Juliette apontou com o queixo para a cena. —

Bàba está ficando cansado da insistência de um tal de Walter Dexter, um comerciante, para ter uma reunião com ele, então eu vim para ver o que ele quer.

— Parece chato — Rosalind entoou. A prima sempre teve certa acidez nas palavras, mesmo quando falava com a mais seca das entonações. Um sorrisinho brotou nos lábios de Juliette. Ainda que Rosalind parecesse uma completa estranha para ela — mesmo sendo familiar — a prima sempre soaria da mesma forma. Juliette poderia fechar os olhos e fingir que eram crianças novamente, se alfinetando com os assuntos mais ofensivos possíveis.

Juliette inspirou arrogantemente, fingindo estar ofendida.

— Nem todos podemos ser dançarinas treinadas em Paris.

— Vamos fazer o seguinte, você fica com a minha apresentação e eu fico sendo herdeira do império subterrâneo desta cidade.

Juliette soltou uma risada, curta e alta. Sua prima estava diferente. Tudo estava diferente. Mas Juliette aprendia as coisas rápido.

Com um leve suspiro, Juliette se afastou da parede em que estava apoiada.

— Tudo bem. — disse, com os olhos travados em Kathleen.

— O dever chama. Vejo você em casa.

Rosalind deixou-a sair com um aceno, jogando o cigarro no chão e o esmagando com seu sapato de salto alto. Juliette teria lhe dado uma bronca por isso, mas o chão já estava imundo, então de que adiantava? Desde o momento em que pôs os pés no recinto, provavelmente cinco tipos diferentes de ópio mancharam a sola de seus sapatos. Tudo que ela podia fazer era caminhar o mais cautelosamente possível pela boate, torcendo para que as criadas não danificassem o couro de seus sapatos quando os limpassem mais tarde.

— Eu assumo daqui.

Kathleen ergueu seu queixo, surpresa, e o pingente de jade em sua garganta brilhou sob a luz. Rosalind costumava dizer que alguém roubaria uma pedra tão preciosa como aquela se ela a ostentasse daquela forma, mas Kathleen gostava dela ali. Se as pessoas encarassem seu pescoço, ela preferia que o fizessem por causa do pingente, não por causa do pomo-de-adão que ele ocultava.

Sua expressão espantada rapidamente suavizou-se em um sorriso ao perceber que era Juliette quem estava deslizando para o assento de frente para o comerciante britânico.

— Se eu puder trazer algo para o senhor, basta falar —

Kathleen disse com doçura, em perfeito inglês com sotaque francês.

Enquanto ela se afastava, o queixo de Walter Dexter caía por completo.

— Ela conseguia me entender esse tempo todo?

— Você aprenderá, Sr. Dexter — Juliette iniciou, pegando o candelabro do centro da mesa e sentindo o aroma da cera perfumada — que, quando se presume automaticamente que alguém não sabe falar inglês, essa pessoa tende a zombar de você.

Walter piscou os olhos para ela e ergueu a cabeça. Nesse breve momento assimilou o vestido, o sotaque norte-americano e o fato de ela saber o seu nome.

— Juliette Cai — disse. — Eu estava esperando seu pai.

A Sociedade Escarlate se autointitulava um negócio familiar, mas não era apenas isso. Os Cais eram o coração pulsante, mas a organização em si era uma rede de gangsteres, contrabandistas, comerciantes e intermediários de todos os tipos, cada um deles subordinado a Lorde Cai.

Estrangeiros menos entusiasmados diriam que os Escarlates eram uma sociedade secreta.

— Meu pai não tem tempo para comerciantes sem um histórico confiável — Juliette replicou. — Se for importante, eu encaminharei o recado.

Infelizmente, parecia que Walter Dexter estava muito mais interessado em conversa fiada do que em negócios propriamente ditos.

— Até onde soube, a senhorita havia se mudado para Nova York.

Juliette devolveu o candelabro à mesa. A chama tremeluziu, projetando sombras fantasmagóricas sobre o comerciante de meia-idade. A iluminação apenas realçou as rugas em sua testa perpetuamente enrugada.

— Fui enviada ao Ocidente apenas para fins educacionais, infelizmente — disse Juliette, reclinando-se em seu assento curvado. — Agora tenho idade suficiente para começar a contribuir com o negócio da família, então me arrastaram de volta, mesmo comigo berrando e esperneando.

O comerciante não riu com a anedota como Juliette havia pretendido. Em vez disso, deu tapinhas na própria têmpora, bagunçando ligeiramente o cabelo grisalho.

— A senhorita também não esteve de volta há uns anos, por um período curto?

Juliette enrijeceu e seu sorriso vacilou. Clientes de uma mesa atrás dela irromperam em gargalhadas por causa de

um comentário interno. O som espetara sua nuca, fazendo-a transpirar. Ela esperou o ruído morrer, usando a pausa para pensar rápido e organizar bem as palavras.

— Uma vez, apenas — Juliette respondeu cautelosamente.

— Nova York não era muito segura durante a Grande Guerra. Minha família ficou preocupada.

Mesmo assim, o comerciante não desistiu do assunto. Ele fez uma pequena pausa.

— A guerra acabou há oito anos. A senhorita esteve aqui há apenas quatro.

O sorriso de Juliette então desapareceu por completo. Ela passou a mão por seu cabelo com corte Chanel, jogando-o para trás.

— Sr. Dexter, estamos aqui para discutir seu extensivo conhecimento sobre minha vida pessoal ou esta reunião possui uma finalidade real?

Walter ficou pálido.

— Me perdoe, Senhorita Cai. Meu filho tem a sua idade, então acabei sabendo…

Ele interrompeu a si mesmo quando percebeu que Juliette o encarava, pigarreando em seguida.

— Eu solicitei uma reunião com seu pai em virtude de um novo produto.

Apesar da escolha vaga de palavras, ficou bem claro a que Walter Dexter se referia. A Sociedade Escarlate era, acima de tudo, uma rede de gangsteres, e eram raras as vezes em que eles não se envolviam em peso com o mercado clandestino. Se os Escarlates dominavam Xangai, não era surpresa alguma que dominassem também o comércio clandestino — que decidissem sobre as idas e vindas, sobre os homens que poderiam prosperar e os homens que

deveriam cair mortos. Nas partes da cidade que ainda pertenciam aos chineses, a Sociedade Escarlate não estava apenas acima da lei; ela era a lei. Sem os gangsteres, os comerciantes estavam desprotegidos. Sem os comerciantes, os gangsteres teriam pouca serventia ou trabalho. Era uma parceria ideal — uma constantemente ameaçada pelo poder ascendente dos Rosas Brancas, a única outra organização de Xangai que de fato tinha chance de derrotar os Escarlates no monopólio do mercado clandestino. Afinal, eles têm tentado isso há gerações.

— Um produto, é? — Juliette repetiu, revirando os olhos com desinteresse. Os artistas que estavam no palco haviam saído e os holofotes diminuíram de intensidade enquanto um saxofone tocava as notas de uma introdução. Usando um figurino novo e cintilante, Rosalind entrou no palco com um andar sedutor. — Lembra-se do que houve na última vez que os britânicos quiseram introduzir um novo produto em Xangai?

Walter franziu o cenho.

— Está se referindo às Guerras do Ópio?

Juliette examinou as próprias unhas.

— Estou?

— A senhorita não pode me culpar por algo que foi obra de meu país.

— Ah, não é assim que funciona?

Agora foi a vez de Walter mostrar desinteresse. Ele juntou as mãos enquanto saias balançavam no palco às suas costas, exibindo pernas nuas de relance.

— De todo modo, solicito o auxílio da Sociedade Escarlate.

Tenho que me livrar de uma carga enorme de lernicrom e estou certo de que será o opiáceo mais desejado no

mercado — Walter pigarreou. — Creio que a senhorita, no momento, esteja em busca de uma vantagem.

Juliette inclinou-se para frente. Naquele movimento súbito, as contas de seu vestido tilintaram freneticamente, em dissonância com o melodioso jazz ao fundo.

— E o senhor crê que pode nos dar uma vantagem?

O embate constante entre a Sociedade Escarlate e os Rosas Brancas não era segredo. Longe disso, na verdade, porque a contenda de sangue não era algo que inflamava apenas quem possuía os sobrenomes Cai e Montagov; era uma causa que simples membros leais às respectivas facções tornavam pessoal, com um fervor que quase poderia ser sobrenatural. Estrangeiros que desembarcavam em Xangai para fazer negócios pela primeira vez recebiam um aviso antes de qualquer outro: escolha um lado e escolha rápido. Se negociassem primeiro com Escarlates, tornavam-se um deles para valer. Seriam acolhidos no território Escarlate e mortos se transitassem nas áreas onde reinavam Rosas Brancas.

— Me parece — disse Walker, de forma branda — que a Sociedade Escarlate está perdendo o controle da própria cidade.

Juliette recostou-se no assento. Sob a mesa, ela cerrou os punhos ao ponto de ficarem pálidos. Há quatro anos, ela contemplara Xangai com brilho nos olhos, olhos que fitavam a Sociedade Escarlate cheios de esperança. Ela não compreendera que Xangai era uma cidade estrangeira em seu próprio país. Agora compreendia. Os britânicos controlavam uma porção. Os franceses, outra. Os Rosas Brancas, russos, estavam tomando as únicas partes que tecnicamente continuavam sob o domínio dos chineses.

Esta perda de controle era questão de tempo, mas Juliette preferia arrancar a própria língua a admitir isso a um comerciante que de nada sabia.

— Entraremos em contato a respeito de seu produto, Sr.

Dexter — disse, após uma longa pausa, lançando um sorriso fácil. Ela expirou imperceptivelmente, soltando a tensão que se acumulara em seu estômago a ponto de fazê-lo doer. —

Agora, se me dá licença…

A boate inteira caiu em silêncio e, de repente, Juliette estava falando muito alto. Os olhos de Walter ficaram atônitos, fixos em algo que estava atrás dela.

— Mas que surpresa! — exclamou. — Veja só, se não é um dos Bolches.

Ao ouvir as palavras do comerciante, Juliette sentiu seu corpo gelar. Lentamente, muito lentamente, virou-se na direção para a qual Walter Dexter olhava, buscando em meio à fumaça e às sombras que dançavam no corredor de entrada do cabaré.

Por favor, que não seja ele, ela suplicou. Qualquer um, menos…

A visão de Juliette ficou enevoada. Por um terrível segundo, o mundo perdeu o eixo e Juliette mal conseguia se agarrar à sua beirada, prestes a cair. Então o chão se alinhou e ela pôde respirar novamente. Firmou a postura e pigarreou, concentrando todas as suas forças para parecer a mais plena possível quando afirmou:

— Os Montagoves emigraram muito antes da Revolução Bolchevique, Sr. Dexter.

Antes que qualquer um pudesse notá-la, Juliette fundiu-se às sombras, onde as paredes escuras obscureciam o reluzir de seu vestido e o assoalho úmido abafava o barulho de

seus saltos. Sua precaução fora desnecessária; todos os olhares estavam firmemente fixos em Roma Montagov enquanto ele abria caminho pelo cabaré. Pela primeira vez, Rosalind conduzia uma apresentação à qual nenhuma alma viva prestava atenção.

À primeira vista, podia parecer que o choque que emanava das mesas redondas se devia ao fato de um estrangeiro ter entrado ali. Mas esta boate tinha muitos deles dispersos na multidão, e Roma, com seu cabelo e olhos negros e pele alva, se mesclava aos chineses como uma rosa branca tingida de vermelho em meio a papoulas. Não se tratava de Roma Montagov ser um estrangeiro. Era o fato do herdeiro dos Rosas Brancas estar totalmente reconhecível como inimigo no território da Sociedade Escarlate. Pelo canto dos olhos, Juliette já percebia a movimentação: armas eram sacadas dos bolsos e facas estavam sendo apontadas. Os corpos se agitavam com a animosidade.

Juliette saiu das sombras e ergueu a mão à mesa mais próxima. O gesto era simples: esperem.

Os gangsteres ficaram imóveis e todos foram seguindo o mesmo exemplo. Aguardaram, fingindo retomar as conversas enquanto Roma Montagov passava mesa após mesa, com os olhos estreitos e atentos.

Juliette começou a se aproximar lentamente. Apertou a garganta com a mão e engoliu em seco, forçando sua respiração a se estabilizar até que não estivesse à beira do pânico, até que pudesse botar um sorriso deslumbrante no rosto. No passado, Roma teria sido capaz de perceber a verdade. Mas quatro anos haviam se passado. Ele mudara.

Ela também.

Juliette estendeu a mão e tocou as costas do paletó de Roma.

— Olá, sumido.

Roma virou-se. Por um instante, pareceu que ele não havia captado bem o que viu; ele a fitou, com um olhar vazio como vidro transparente, totalmente perdido.

E então a visão da herdeira Escarlate caiu sobre ele como um balde de água fria. Roma deixou sair um leve sopro por entre os lábios.

Na última vez que a vira, tinham 15 anos de idade.

— Juliette — exclamou, automaticamente. Mas eles não eram mais íntimos o bastante para se chamarem pelo primeiro nome. Não o eram há muito.

Roma pigarreou:

— Senhorita Cai. Quando retornou a Xangai?

Eu nunca fui embora, ela quis dizer, mas não era verdade

— sua mente permanecera aqui, seus pensamentos constantemente orbitavam o caos, a injustiça e a fúria ardente que ferviam naquelas ruas — mas seu corpo físico fora enviado ao outro lado do oceano uma segunda vez por questões de segurança. Ela odiara aquilo, odiara estar longe com tanta intensidade que sentia a força daquele ódio queimá-la como febre cada vez que saía das festas e dos bares clandestinos. O peso de Xangai era uma coroa de aço pregada à sua cabeça. Em outro mundo, se lhe tivessem dado uma escolha, talvez ela tivesse se afastado de tudo, rejeitado ser herdeira de um império de mafiosos e mercadores. Mas ela nunca teve escolha. Esta era a sua vida, esta era a sua cidade, este era o seu povo e, por seu amor a eles, há muito tempo jurou a si mesma que faria um trabalho muito bem feito sendo quem era, pois não podia ser mais ninguém.

A culpa é toda sua, ela quis dizer. Você é a razão pela qual fui afastada à força de minha cidade. De meu povo. De meu sangue.

— Voltei há um tempo. — Juliette mentiu com facilidade, recostando seu quadril na mesa vaga à sua esquerda. — Sr.

Montagov, me perdoe a pergunta, mas o que o senhor está fazendo aqui?

Juliette viu Roma mover a mão tão suavemente que pensou que ele estivesse verificando suas armas ocultas.

Observou-o assimilar a presença dela por completo, formando lentamente as palavras. Ela teve tempo para se preparar: sete dias e sete noites para entrar na cidade e limpar a mente de tudo que ocorrera entre eles. No entanto, dentre todas as coisas que Roma esperava encontrar na boate aquela noite, Juliette definitivamente não era uma delas.

— Preciso falar com Lorde Cai. — Roma finalmente disse, colocando as mãos para trás. — É importante.

Juliette deu um passo para frente. Seus dedos novamente alcançaram o isqueiro nas dobras de seu vestido, brincando com a chama enquanto cantarolava em pensamento. Roma pronunciou Cai da mesma forma que os comerciantes estrangeiros: como se escreve. Os chineses e os russos empregavam os mesmos fonemas para o nome: tsai, como o som de um fósforo sendo riscado. A pronúncia errada fora intencional, para ler a ocasião. Ela era fluente em russo e ele, fluente no dialeto ímpar de Xangai. Mesmo assim, aqui estavam eles, falando inglês com sotaques distintos, tal qual dois comerciantes comuns. Optar pelo uso da língua

nativa seria como escolher um lado, então optaram pelo meio-termo. — Suponho que seja, já que o senhor veio até aqui. —

Juliette disse, dando de ombros. — Em vez disso, fale comigo, e eu encaminharei o recado. De um herdeiro para o outro, Sr. Montagov. O senhor confia em mim, não?

A indagação era risível. Suas palavras diziam uma coisa; seu olhar, frio e impassível, outra — um passo em falso enquanto estiver no meu território e eu o mato com minhas próprias mãos. Ela era a última pessoa em quem ele confiaria, e a recíproca era verdadeira.

Mas qualquer que fosse a necessidade de Roma, devia ser séria. Ele não discutiu.

— Poderíamos…?

Ele gesticulou para a lateral, em direção à penumbra e aos cantos mal iluminados, para os quais a plateia não se voltaria, como se ambos fossem um segundo espetáculo, esperando pelo momento em que Juliette se afastasse para que pudessem dar o bote. Estreitando os lábios, Juliette virou-se e, em vez de ir para onde ele apontou, conduziu-o para os fundos do cabaré. Ele a seguiu rapidamente, com passos compassados se aproximando a ponto das contas do vestido de Juliette tilintarem raivosamente com a agitação.

Ela não sabia por que se dera ao trabalho. Deveria tê-lo jogado aos Escarlates, deixar que cuidassem dele.

Não, decidira. Quem vai cuidar dele sou eu. Quem vai destruí-lo sou eu.

Juliette parou. Agora estavam apenas ela e Roma Montagov nas sombras, os demais ruídos abafados e as luzes fracas. Ela esfregou seu pulso, ordenando que sua

pulsação ficasse mais lenta, como se aquilo estivesse sob seu controle.

— Vamos, fale. — disse ela.

Roma olhou em volta. Abaixou a cabeça e o tom de voz antes de falar, de modo que Juliette precisou se esforçar para ouvi-lo. E ela de fato se esforçou, pois recusava-se a chegar mais perto dele do que o necessário.

— Noite passada, cinco Rosas Brancas morreram nos portos. Suas gargantas foram dilaceradas.

Juliette piscou os olhos.

— E…?

Ela não quis parecer indiferente, mas os membros de ambas as facções se matavam toda semana. A própria Juliette já contribuíra para o aumento no número de mortos.

Se ele pretendia jogar a culpa em seus Escarlates, estava perdendo seu tempo.

— E — Roma retrucou secamente, claramente suprimindo um se você me deixar concluir — um dos seus. Assim como um policial do município. Britânico.

Com essa alegação, Juliette franziu ligeiramente o cenho, tentando lembrar se ouvira alguém de seu clã falando a respeito da morte de algum Escarlate. A presença de vítimas de ambas as facções na cena de um crime era algo estranho, considerando que os assassinatos em maior escala normalmente ocorriam em emboscadas, e era ainda mais estranho um policial estar entre elas, mas ela não iria tão longe a ponto de afirmar que era um caso bizarro.

Apenas

ergueu

uma

sobrancelha

para

Roma,

desinteressada.

Até que, prosseguindo, ele disse:

— Todos os ferimentos foram autoinfligidos. Não foi uma disputa de território.

Juliette balançou repetidamente a cabeça para um lado, certificando-se de que ouvira direito. Quando confirmou que seus ouvidos não estavam obstruídos, exclamou:

— Sete mortos por lesões autoinfligidas?

Roma assentiu com a cabeça. Ele deu outra olhada por sobre os ombros, como se ficar de olho nos gangsteres às mesas fosse impedi-los de atacar. Ou talvez ele não se importasse nem um pouco com eles; talvez estivesse apenas evitando olhar Juliette nos olhos.

— Vim aqui em busca de explicações. Seu pai sabe algo sobre isso?

Juliette soltou um riso de escárnio, um ruído profundo e ressentido. Ele acabara de dizer que cinco Rosas Brancas, um Escarlate e um policial se encontraram nos portos e cortaram as próprias gargantas? Parecia uma piada de muito mau gosto e sem graça nenhuma.

— Não podemos ajudar — afirmou.

— Qualquer informação pode ser crucial para desvendar o que houve, Senhorita Cai — Roma insistiu. Uma pequena marca em forma de lua crescente sempre aparecia entre suas sobrancelhas quando ele estava irritado. E lá estava ela. Havia algo por trás dessas mortes que Roma omitira: ele não ficaria tão transtornado por causa de uma simples tocaia. — Entre os mortos havia um dos seus—

— Não cooperaremos com Rosas Brancas. — Juliette o interrompeu. Qualquer traço de simpatia falsa em seu semblante desaparecera há muito tempo. — Vou deixar bem claro antes que o senhor continue. Não importa se meu pai sabe ou não de algo sobre as mortes da noite passada; não

vamos partilhar coisa nenhuma e não faremos nenhum contato

que

possa

prejudicar

nossos

próprios

empreendimentos. Então, senhor, passar bem.

Roma fora dispensado com todas as letras, mas ficou parado no mesmo lugar, encarando-a como se tivesse um gosto amargo na boca. Ela já se virava, preparando-se para sair, quando ouviu Roma sussurrar ferozmente:

— O que aconteceu com você?

Ela poderia ter retrucado com qualquer coisa. Poderia ter escolhido palavras mergulhadas no veneno mortal que acumulara nos anos em que esteve fora e despejado tudo em cima dele. Poderia lembrá-lo do que fizera há quatro anos, empurrar mais fundo a lâmina da culpa até que ele sangrasse. Mas antes de ela abrir a boca, um grito atravessou a boate, interrompendo todo e qualquer ruído, como se operasse em outra frequência.

Os dançarinos ficaram estáticos no palco; a música parou.

— O que está havendo? — Juliette murmurou. Assim que se moveu para averiguar o ocorrido, Roma emitiu um sibilo agudo e agarrou seu cotovelo.

— Juliette, não.

Seu toque fazia a pele dela arder como uma dolorosa queimadura. Juliette soltou bruscamente o braço, mais rápido do que se estivesse realmente em chamas, e seus olhos flamejavam. Ele não tinha o direito de tocá-la, pois abriu mão do direito de, algum dia, protegê-la, nem fingir que o fazia.

Juliette correu em direção ao grito, ignorando Roma, que a seguia. Estrondos de pânico vibravam cada vez mais alto, embora ela não pudesse entender o que estava causando

tamanha reação, até que, aos empurrões, abriu caminho pela multidão que se acotovelara.

Então viu o homem no chão, se debatendo e afundando os próprios dedos em seu pescoço grosso.

— O que ele está fazendo? — Juliette gritou, se projetando para a frente. — Alguém faça ele parar!

Todavia, a maioria de suas unhas já estava profundamente enterrada no músculo. Ele cavava com um vigor animalesco

— como se houvesse alguma coisa lá dentro, algo que ninguém podia ver, rastejando sob sua pele. Cada vez mais profundamente, até que seus dedos estivessem totalmente imersos e ele começasse a puxar tendões, veias e artérias.

No instante seguinte, a boate estava em completo silêncio.

Nada se ouvia, exceto a respiração ofegante do homem baixo e corpulento que colapsara no chão, com a garganta dilacerada e as mãos cobertas de sangue.