Prazeres Violentos
Vinte e Cinco
Seu pouso ocorreu em câmera lenta aos olhos de Juliette, mas Roma já estava em movimento. No instante em que ela assimilou o terror do que significava ver aqueles dois pontinhos pretos desaparecerem nos tufos brancos, Roma já tinha uma faca nas mãos. No instante em que ela ainda estava pensando em dar um alerta, Roma passou a faca na barba de Lourens o mais rente que pôde, quase acertando sua pele, fazendo os pelos brancos caírem no chão.
Eles aguardaram.
As máquinas entraram em repouso. Agora o laboratório estava apenas preenchido por respirações pesadas.
Eles aguardaram.
Dois insetos brotaram do chumaço de pelos no chão. Roma pisou neles com força, esmagando-os sem piedade. Uma centena de outros insetos foi libertada na noite quando saíram em disparada pela fresta debaixo da porta do laboratório antes que alguém pudesse impedi-los, mas matar dois deles já era melhor que matar nenhum.
Lourens tocou o queixo nu. Seus olhos enrugados estavam atipicamente arregalados.
— Bem — disse o cientista —, obrigado, Roma. Vejamos a vacina que você trouxe, então?
Vinte e cinco
-Bem — disse Roma —, devo alertá-la para não falar sobre esse laboratório?
Eles agora aguardavam no primeiro andar, sentados nas cadeiras de metal dispersas ao longo da parede. Em algum momento teriam que se livrar do cadáver que jazia diante deles, mas até então ele permanecia ali — com a face contorcida e desesperada, imóvel na morte, enquanto Lourens punha a vacina em pequenos tubos de ensaio, aplicando vários reagentes químicos em alguns e depositando outros nos aparelhos barulhentos do segundo andar, cantarolando baixinho à medida que trabalhava neles.
— Como se esse débil aviso fosse adiantar — retrucou Juliette. — Você devia saber disso.
Roma relaxou o corpo no assento, pendendo a cabeça no espaldar da cadeira.
— Eu devia ter te vendado?
Juliette fez uma cara de escárnio. Bateu rapidamente um sapato no outro, levando o salto de um lado para o outro como um limpador de para-brisa, enquanto seus olhos faziam o mesmo, trocando de pontos focais.
— Mesmo se eu quisesse brincar de espiã — disse —, essa informação seria inútil — ela observou uma coisa particularmente afiada e prateada que pendia no alto como uma estalactite. Era parte de um aparato preso onde o teto do primeiro andar se unia com o parapeito do segundo.
— Inútil? — repetiu Roma, incrédulo. Seu tom áspero atraiu a atenção dos dois amigos, que até então fitavam o vazio, sentados em cadeiras situadas ao longo da parede perpendicular.
— Classificada como desnecessária — corrigiu Juliette. Ela não sabia ao certo por que prosseguia com aquela conversa. Não devia satisfação alguma a ele, mas ainda assim parecia não haver problema em explicar. — A Sociedade Escarlate continua na era das ervas tradicionais.
Talvez uma ou duas máquinas de metal. Não estamos nem perto — acenou em volta — disso.
Seus pais não se importariam com aqueles dados se ela fosse contá-los. Se pudesse ao menos conseguir a atenção deles por um breve minuto, prefeririam perguntar por que ela esteve em instalações Rosas Brancas e não teve a ideia de incendiá-las.
Roma cruzou os braços.
— Interessante.
Juliette estreitou os olhos.
— E você, vai relatar essa informação?
— Por que eu faria isso? — Roma tinha um sorriso meio que irônico brincando nos lábios, um que ele não estava deixando escapar completamente. — Nós já sabíamos disso.
Juliette tentou pisar no pé dele em uma demonstração de raiva fingida, mas Roma era muito rápido. Ele afastou o pé e tudo o que Juliette conseguiu foi o impacto forte em seu tornozelo, que latejou. Ela deixou escapar um grunhido que indicava que achara aquilo genuinamente engraçado. Era o reconhecimento de que fora vencida naquela questão menor, de que retornara a seus velhos truquezinhos e esquecera que Roma os conhecia bem.
— Não pode pisar em mim — disse Roma.
— Senão você me devolve a pisada — completou Juliette.
De uma vez, seus sorrisos se apagaram. De uma vez, estavam se lembrando das vezes em que Juliette rira da superstição de Roma, das vezes em que ele a fizera ficar parada depois de pisar no pé dele e gentilmente — muito gentilmente — pisava também no dela.
— Nós estaremos fadados a brigar se eu não retribuir o gesto — repreendera Roma na primeira vez ao ver uma Juliette confusa. — Ei, pare de rir!
Ele rira também. Rira porque a ideia de uma briga que os afastasse parecia um absurdo imenso quando ambos estavam lutando contra as forças das famílias para ficarem juntos.
Olhe o ponto em que estavam agora. Separados por um quilômetro de sangue derramado.
Juliette desviou o olhar. Eles voltaram ao silêncio, permitindo que o barulho do maquinário reverberasse e fluísse como preferia. Ocasionalmente, Juliette ouvia um raro pio lá fora e inclinava a cabeça em qualquer direção onde houvesse barulho, tentando identificar se era uma coruja, um cachorro ou o monstro nas ruas de Xangai.
Por fim, Juliette não aguentou o tédio. Ficou de pé e começou a perambular pelo laboratório, pegando coisas a esmo e colocando-as de volta no lugar após inspecioná-las: os béqueres alinhados ao longo do andar, as colherezinhas metálicas
acumuladas
nos
cantos,
os
arquivos
cuidadosamente organizados na ponta das mesas…
A mão de alguém tirou os arquivos de perto dela.
— Isso não é para seus olhos intrometidos, amada — disse Marshall.
Juliette franziu o cenho.
— Eu não estava espiando — rebateu. — E, se estivesse, você não saberia.
— É mesmo, é? — Marshall pôs os arquivos na mesa e afastou-os dela assim mesmo. Ela ficou ofendida com a atitude. Tinha colocado o pescoço na reta para trabalhar com Roma. Em que mundo correria o risco de ser uma traidora?
— Marshall, sente-se — mandou Roma, do outro lado da sala. Benedikt Montagov nem se deu ao trabalho de tirar os olhos do bloco de desenho que havia retirado de sua bolsa.
Lourens, por sua vez, lançou um olhar preocupado do segundo andar. Se a direção de seu olhar dizia alguma coisa, ele não temia que irrompesse uma briga, mas sim que qualquer baboseira rude danificasse os béqueres de vidro espalhados pelo laboratório.
— Por que eu não lhes mostro algumas de minhas invenções? — tentou intervir Lourens, berrando. — Podem ser as coisas mais inovadoras que Xangai há de ver.
Nem Juliette, nem Marshall lhe deram atenção alguma.
Juliette deu um passo à frente. Marshall fez o mesmo.
— Está tentando insinuar alguma coisa? — questionou Juliette.
— Não só insinuando — Marshall agarrou o pulso dela.
Puxou Juliette em sua direção e então agarrou a barra da manga da camisa de Juliette, de onde puxou a lâmina que ela escondia ali. — Estou acusando. Por que trouxe armas, Senhorita Cai?
Juliette emitiu um ruído de incredulidade. Ela agarrou o outro pulso de Marshall com a mão livre e o torceu.
— Seria ainda mais estranho se eu não trouxesse armas, seu— ai!
Ele bateu nela.
Honestamente, certamente fora um reflexo — uma sacudidela de seu cotovelo em resposta à pressão que ela exercia sobre seu braço — mas Juliette cambaleou para trás, com o queixo dolorido pelo choque de osso contra osso.
De seu assento, Roma saltou e gritou — Mars! —, mas Juliette já estava empurrando Marshall para trás; seu maxilar latejante deu lugar à ira e a ira intensificou a dor pulsante que subia até seu lábio. Assim era a guerra de sangue: um pequeno deslize e então uma retaliação não pensada, socos furiosos e golpes mais rápidos do que a mente poderia captar. Sem racionalidade, apenas instinto.
Marshall novamente agarrou o braço de Juliette, desta vez torcendo-o com força até que estivesse completamente dobrado contra as costas dela. A luta poderia ter acabado ali, mas Marshall ainda tinha a faca de Juliette em suas mãos, e o primeiro instinto dela era temer por isso. Em trégua ou não, ela não tinha razão para confiar nele. Mas tinha todas as razões para chutar a mesa ali perto e usar isso como impulso, a fim de usar o aperto que Marshall exercia sobre seu braço para rolar por cima do ombro dele, girando sobre o rapaz e aterrissando com os dois pés emitindo um baque seco. A manobra aplicou tanta pressão no braço de Marshall que o mandou direto para o chão; seu crânio chocou-se com o piso de linóleo, fazendo-o grunhir desorientado com o movimento brutal de Juliette.
Rapidamente, Juliette pegou a faca que ele havia derrubado. Naquele momento, ela não sabia nem mesmo se tinha intenção de matá-lo. Tudo o que sabia era que tinha a
mente vazia quando lutava; apenas distinguia aliado de oponente. Sabia apenas manter-se em movimento, levantar a faca no embalo do gesto que fazia para recuperá-la, erguê-la bem alto, até que estivesse iluminada, prestes a traçar um arco que teria fim quando a lâmina se enterrasse no peito de Marshall Seo.
Até que Marshall começou a gargalhar. Somente aquele som a tirou de seu transe. Freou Juliette no meio do caminho, fazendo-a afrouxar a pressão na faca e dissipando a tensão em seus braços. Quando Roma e Benedikt chegaram perto o bastante para acabar com a briga, Juliette já estendia uma das mãos na direção de Marshall, ajudando-o a ficar de pé.
— Ufa. Quanto tempo você treinou para aprender esse golpe? — perguntou Marshall, tirando a poeira dos ombros.
Ele apoiou o pé na quina da mesa, assim como Juliette, e testou seu peso. — Você desafiou a gravidade por um segundo, sério.
— Você é muito alto para isso, então nem tente —
respondeu Juliette.
Roma e Benedikt piscavam, totalmente confusos. Estavam sem palavras. Seus rostos diziam tudo.
Marshall ergueu a cabeça, chamando Lourens.
— Ainda podemos ver as invenções?
Lourens abriu e fechou a boca. A animosidade no local agora cedia todo o seu lugar à curiosidade, e parecia que o cientista não sabia muito bem o que fazer com ela. Sem dizer palavra, ele pôde apenas deixar seus aparelhos vibrando e descer as escadas. Convidou os jovens para os fundos do primeiro andar com um aceno, fitando Juliette e Marshall, que o seguiam animadamente, enquanto Roma e
Benedikt caminhavam com mais relutância, observando os dois como se tivessem medo de que aquela paz fosse apenas parte de uma briga maior.
— Estas geringonças não foram criadas com fundos dos Rosas Brancas e não guardam relação alguma com essa baboseira de máfia, então não vá abrir o bico para seu pai, Roma — disse Lourens. Ele pegou um pote de sais azuis e o abriu. — Dê uma fungada.
Juliette inclinou-se sobre o pote.
— Cheira bem.
Lourens sorriu. O gesto parecia um tanto engraçado com o espaço calvo recém-aberto no meio de seu queixo.
— Isso induz convulsões em pássaros. Costumo salpicar isso no gramado dos fundos do prédio.
Ele seguiu até um pó cinza, trazendo-o para Marshall ver.
Marshall passou-o para Benedikt, que o passou para Roma, que o devolveu. Os dois últimos olharam o pote por menos de um segundo.
— Este cria uma explosão súbita e veloz no ar quando misturado com água — explicou Lourens quando o pote voltou às suas mãos. — Eu costumo jogar isso no Rio Huangpu quando estou passeando e os pássaros tentam ficar me seguindo. Isso os assusta bastante.
— Começo a perceber um padrão — disse Juliette.
Lourens fez uma careta, fazendo suas características idosas murcharem.
— Pássaros — resmungou. — Demônios em miniatura.
Juliette tentou não rir, olhando mais etiquetas na estante.
Seu holandês era mais de conversação, então era difícil entender o que estava escrito nas etiquetas de cada pote.
Quando sua inspeção se fixou em um potinho nos fundos,
ela não tinha certeza sobre o que havia despertado seu interesse — se fora a inscrição DOODSKUS impressa sobre ele, ou se fora o líquido mais branco e opaco que já havia visto. A substância a fez lembrar do branco de seus olhos: sólido, impenetrável.
— O que tem naquele? — perguntou Juliette, apontando.
— Ah, aquele é novo — Lourens praticamente ficou na ponta dos pés de tanta euforia quando se esticou para pegá-lo. O cientista manuseava o pote aninhado na palma da mão com cuidado especial, abrindo lentamente a tampa.
Juliette sentiu um aroma que parecia um jardim de rosas.
Era doce e cheiroso e a fez lembrar-se dos dias de outrora em que corria pelo quintal com as mãos sujas de terra.
— É capaz de parar o coração de um organismo —
explicou Lourens solenemente. — Eu ainda não o aperfeiçoei, mas a ingestão desta substância deve criar um estado de morte aparente por três horas. Quando o efeito passar… — e estalou os dedos. O som saiu com atraso, consequência de suas juntas envelhecidas e enrijecidas — O
organismo desperta, como se nunca tivesse morrido.
Naquele momento, um alto tin! ecoou pelo laboratório, e Lourens exclamou que o aparelho havia finalizado seu trabalho, devolvendo o frasco a seu ponto original e subindo apressado as escadas de volta à sua mesa. Roma e Benedikt logo o seguiram, falando exaltados sobre as hipóteses que tinham sobre os resultados. Juliette, enquanto isso, estendeu a mão para a estante. Antes que Lourens pudesse se virar e vê-la, sua mão envolveu o frasco com o material branco opaco e o deslizou por baixo da manga. Foi rápida o suficiente para evitar os olhos de Lourens, mas não
os de Marshall. Juliette olhou bem para ele, desafiando o rapaz a dizer algo.
Marshall apenas torceu o lábio e deu meia-volta, correndo para alcançar os outros. Pareceu condizente com ele sentir-se desrespeitado por ela estar bisbilhotando os relatórios do laboratório e logo depois achar aquele furto algo divertido.
— Vejamos — dizia Lourens quando Juliette finalmente se juntou a eles. Ele levantou a tampa de um aparelho e extraiu uma tira fina de papel com linhas pretas que atravessavam todo seu comprimento. Emitindo um ruído baixinho, que Juliette não conseguiu entender muito bem, Lourens se dirigiu a outro aparelho, verificando sua tela preta e fitando novamente a tira de papel. Após isto, sua última parada foram os livros em sua escrivaninha.
— Bem — disse Lourens, finalmente, após ter folheado os livros e mantido todos mergulhados em completo silêncio por cinco minutos. Ele parou o dedo no fim de uma página amarelada, batendo duas vezes em uma lista de fórmulas que ele havia escrito à mão, como se aquilo significasse algo. — Com nosso ponto de partida limitado, não posso concluir se é uma vacina verdadeira como alegam. Não tenho nenhum material que possa servir de comparativo. —
Lourens olhou com atenção para o papel novamente. —
Mas, de fato, é uma solução com alguma utilidade. A substância primária é um opiáceo, que eu acredito ter sido introduzido nas ruas como algo chamado lernicrom.
Juliette congelou. Sentiu um tremor abalar sua espinha, uma revelação que desabou dos céus diretamente sobre seus ombros.
— Tā mā de — xingou ela, suavemente. — Eu conheço essa droga.
— Bom, nós dois começamos a vendê-la, ainda que em quantidades
pequenas
—
disse