Prazeres Violentos
Dez
O bicho veio à luz com veias, vasos e capilares presos a seu ventre. Era como se o inseto fosse uma entidade autônoma e o morto fosse sua cria, quando, na verdade, as linhas brancas e rosadas, finas como papel, que brotavam do inseto estavam sendo puxadas do cérebro do homem.
As veias tremularam quando uma rajada de vento repentina soprou da orla.
— Quem diria — disse Benedikt. — Acho que descobrimos a causa dos surtos.
Dez
Alguns dias depois, Juliette estava em uma campanha de guerra atrás de provas.
— Fique atenta — alertou a Rosalind e Kathleen, em voz baixa, em frente a uma casa de ópio situada em um prédio atarracado. Do outro lado da rua, havia duas portas com rosas vermelhas afixadas — um cartão de visita Escarlate, na teoria; uma alta e clara ameaça, na prática.
Diziam as más línguas que os Escarlates passaram a usar rosas vermelhas apenas para zombar dos Rosas Brancas, que punham flores brancas quaisquer nos prédios que tomavam nas disputas de território. Mas o uso da rosa vermelha começara há tanto tempo que Juliette não sabia se havia verdade no boato. O que sabia com certeza era que, se havia uma rosa vermelha colada à porta de alguém, era um último aviso: pague, ceda, passe o dinheiro, ou faça qualquer coisa que a Sociedade Escarlate mandar, sob pena de arcar com as consequências.
A rua inteira estava sob domínio dos Escarlates, mas todo território tem suas áreas problemáticas.
— Fiquem perto de mim — prosseguiu Juliette, acenando para as primas seguirem em frente. No momento em que entraram na casa de ópio e pisaram no assoalho úmido e irregular, as três mulheres instintivamente mantiveram as mãos coladas à linha dos quadris ou à fita em suas cinturas, aliviadas apenas pelas armas que estavam ocultas no
luxuoso tecido de suas roupas. — Pode ser que haja assassinos em atividade aqui.
— Assassinos? — repetiu Kathleen, com voz alta e estridente. — Achei que estivéssemos aqui para cobrar o aluguel para seu pai.
— E estamos — Juliette repartiu a cortina de contas, passando pela divisória e entrando na sala principal, onde o cheiro de histórias distorcidas e vícios forçados flutuava livremente. Os odores que serpenteavam por seu nariz lembravam o de uma rosa em chamas, perfume misturado com gasolina, o fogo a consumindo até que as cinzas pudessem ser usadas como cosméticos densos e inebriantes —, mas um passarinho Escarlate me contou que aqui também é um ponto de encontro dos Comunistas.
Elas pararam no meio da casa. Os resquícios da antiga China eram fortes ali, em meio a muita parafernália —
cachimbos e lamparinas a óleo — que foram parar ali antes da virada do século. A decoração também era antiquada, pois os candelabros no teto, por exemplo, pareciam os que se erguiam, dourados e brilhantes, em cada cabaré de Xangai, com lâmpadas de aparência oleosa cobertas por uma camada fina de sujeira.
— Tenham cuidado — avisou Juliette. Ela olhava para os corpos jogados contra as paredes do antro. — Duvido que essas pessoas sejam tão dóceis quanto parecem.
Há alguns séculos, quando o lugar ainda era domicílio de um nobre ou general, deveria ser opulento e luxuoso. Agora era um prédio descascado, com piso faltando e um teto envergado devido a seu próprio peso. Agora os sofás tinham furos onde os clientes esticavam as pernas e os braços estavam gastos nos locais em que eles esfregavam as mãos
após largarem alguns centavos e saírem apressados — isto é, se antes não fossem seduzidos para os quartos do fundo.
Enquanto Juliette esticava o pescoço e procurava pela madame que comandava o recinto, ouviu risadinhas ecoarem nos corredores. Alguns poucos segundos depois, passou um grupo de jovens mulheres, cada uma delas vestida com um hanfu diferente em tons pastéis, que Juliette supôs ser uma tentativa de evocar a nostalgia de antigas eras da China. Se ao menos as saias dos hanfu não estivessem incrustadas de sujeira e os grampos em seus cabelos não estivessem a um movimento brusco de cair. Se ao menos suas risadinhas não fossem inacreditavelmente forçadas, mesmo para um ouvido destreinado, com sorrisos vermelhos vivazes, mas olhos sem brilho.
Juliette suspirou. Em Xangai, era mais fácil contar os estabelecimentos que não eram também bordéis dos que não o fossem.
— Em que posso ajudar?
Juliette virou-se, procurando pela voz que falara animadamente atrás dela. Madame, como se autointitulava, estava inclinada sobre um dos sofás, com uma lamparina acesa a seu lado e um cachimbo largado desleixadamente em seu colo. Quando Juliette retorceu o nariz, Madame se levantou, inspecionando a jovem de tão perto quanto Juliette inspecionava as manchas negras nas mãos da mulher.
— Que surpresa — disse Madame. — Juliette Cai. Eu não a vejo desde que tinha quatro anos.
Juliette ergueu uma sobrancelha.
— Eu não sabia que chegamos a nos conhecer.
Madame contraiu os lábios pálidos.
— Você não se lembra, naturalmente. Em minha mente, você sempre será uma coisinha fofa passeando pelos jardins, alheia a todo o resto.
— Aham — disse Juliette, dando de ombros com petulância. — Meu pai não chegou a me contar isso.
Os olhos de Madame permaneceram iguais, mas os ombros deram uma leve travada, um levíssimo sinal de que se ofendera.
— Eu fui uma boa amiga de sua mãe por um tempinho —
disse, pigarreando. — Até que… bem, eu tenho certeza de que você soube que alguém me acusou de ser muito amigável com os Rosas Brancas há uma década. Era tudo besteira, claro. Você sabe que eu os odeio tanto quanto você.
— Eu não odeio os Rosas Brancas — retrucou Juliette imediatamente. — Odeio quem machuca as pessoas que amo. Frequentemente, são Rosas Brancas. Há uma diferença.
Madame fungou. A cada tentativa de criar laços com Juliette, era rebatida. Juliette poderia fazer aquilo o dia todo.
Ela amava encontrar falhas em outras pessoas.
— De fato, mas não deixe que lhe ouçam dizendo isso —
murmurou Madame. Então, ela tirou o foco de Juliette, mudando de estratégia, e agarrou o pulso de Rosalind dizendo, melodiosa. — Ah, eu conheço você. Rosalind Lang.
Conheci seu pai também, claro. Que crianças preciosas.
Fiquei tão chateada quando lhe mandaram para a França…
Você não acredita o quanto seu pai tagarelava sobre a excelência de uma educação ocidental. Os olhos dela voltaram-se para Kathleen. Uma breve pausa.
Juliette limpou a garganta.
— Bàba nos enviou para a coleta — explicou, esperando chamar a atenção de Madame para si. — Você nos deve…
— Mas quem é você? — indagou Madame, interrompendo Juliette para se dirigir à Kathleen.
Kathleen estreitou os olhos. Bem direta, respondeu:
— Sou Kathleen.
Madame fez uma cena de quem se esforça para vasculhar a memória.
— Ah, Kathleen. Eu me recordo agora — disse, cuspindo as palavras, estalando os dedos. — Você era tão rude, sempre ficava me mostrando a língua.
— Eu era uma criança , então peço que me perdoe pela má conduta do passado — respondeu Kathleen com secura.
Madame apontou para a testa de Kathleen.
— Você também tem a marca de nascença da constelação de Sagitário. Eu me lembro de…
— Quem? —interrompeu Kathleen. Soava como um desafio. — Se lembra de alguém que tinha a marca?
— Bem — disse Madame, agora envergonhada —, havia três irmãos Lang, certo? Você tinha um irmão.
Juliette contraiu os lábios. Rosalind sibilou por entre os dentes. Mas Kathleen — Kathleen apenas encarou Madame com o mais pleno dos olhares e disse:
— Nosso irmão está morto. Estou certa de que soube.
— Sim, bem, eu sinto muito — disse Madame, sem soar nem um pouco comovida. — Eu também perdi um irmão. Às vezes penso que…
— Basta — interrompeu Juliette. Aquilo estava indo longe demais. — Podemos falar em outro local?
Madame cruzou os braços com força e se virou. Ela não pediu que as três Escarlates a acompanhassem, mas elas o
fizeram assim mesmo, trotando e se espremendo contra as paredes quando tinham que passar pelas mulheres em pastel andando de um lado para outro nos corredores estreitos. Madame as conduziu até um quarto decorado em vários tons de vermelho. Havia outra porta ali, uma que dava direto para as ruas. Juliette se perguntou se era uma rota de fuga ou de entrada facilitada.
— Eu tenho o dinheiro do aluguel — elas observaram Madame passar pelas roupas jogadas no chão, enfiando o braço debaixo de um pedaço de colchão que ela chamava de cama a fim de pegar seu dinheiro. Murmurando, Madame contou as moedas, e cada um de seus tilintares ressoava à melodia dos rangidos das vigas do teto.
Madame estendeu a mão, oferecendo o dinheiro em seu punho para Juliette.
— Pensando melhor… — Juliette fechou a mão por cima da de Madame e empurrou de volta o dinheiro. — Guarde-o. Há outro pagamento que eu prefiro.
A expressão gentil de Madame vacilou. Seus olhos moveram-se para a lateral, na direção da outra porta.
— E qual seria?
Juliette sorriu.
— Informação. Quero o que você sabe a respeito dos Comunistas.
A expressão gentil no rosto de Madame desapareceu por inteiro.
— Como é?
— Eu sei que você permite que eles frequentem este lugar e se reúnam aqui — Juliette ergueu a cabeça, voltando-se uma vez para Kathleen e uma vez para Rosalind. As irmãs saíram de suas posições, nos flancos de Juliette, andaram
pelo quarto e ficaram plantadas, cada uma em uma saída.
— Eu sei que em um destes quartos não há uma mulher oferecendo um passeio ao prazer eterno; contém uma mesa e uma lareira para manter os membros do Partido Comunista da China aquecidos. Sendo assim, me diga, o que você sabe sobre o envolvimento deles nos surtos que estão varrendo a cidade?
Madame soltou uma gargalhada repentina, com a boca bem aberta. Juliette podia ver a grande fenda entre seus dois dentes da frente.
— Não tenho ideia do que você está insinuando — disse Madame. — Eu fico longe dos negócios deles.
É medo ou lealdade o que a impede de falar? Juliette se perguntou. Madame era associada aos Escarlates, mas não era um gângster; era leal à causa, mas não estava disposta a morrer por ela.
— É claro, que grosseria a minha pensar isso — disse Juliette. Levou as mãos ao bolso e deu um sorriso mais brilhante que o fino colar de diamantes que retirou de lá, agora pendendo por entre seus dedos. — Você aceita um presente meu em compensação pela insolência?
Juliette moveu-se rapidamente para trás de Madame antes que ela pudesse retrucar e a anfitriã também não se moveu; afinal, qual seria o problema em aceitar um colar de diamantes?
Não era um colar de diamantes.
Madame ganiu quando Juliette puxou com força o fio do garrote, e seus dedos foram lépidos para cima para tatear contra a pressão sobre sua pele. Naquele instante o fio já estava enrolado em seu pescoço, e as microlâminas o perfuravam.
— Pessoas leais à Sociedade Escarlate estão morrendo aos montes — sibilou Juliette. — Pessoas que sujam as mãos por nós estão sendo vitimadas pela insanidade, enquanto pessoas como você ficam de bico fechado, incapazes de decidir se sangram escarlate ou se lutam pelos trapos vermelhos do proletariado. — Pequenas gotas de sangue borbulhavam à superfície da pele macia de Madame, o bastante para macular os matizes de seu pescoço. Se Juliette puxasse o fio adicionando a mais ínfima força, as lâminas entrariam fundo o bastante para deixar uma cicatriz. — Você sangra em que tom, Madame? Escarlate ou vermelho?
— Pare, pare! — respondeu, esganiçada. — Eu falo! Eu falo!
Juliette afrouxou o fio uma minúscula fração.
— Então fale. Qual é o papel dos Comunistas nos surtos?
— Eles não assumem a autoria dos surtos — disse Madame, com esforço. — Enquanto grupo, eles se mantêm irredutíveis de que isto não é fruto de seus atos políticos.
Em privado, no entanto, especulam.
— Sobre o quê? — demandou Juliette.
— Eles acreditam que um gênio dentro do Partido arquitetou isso — Madame tentou novamente agarrar os fios, mas eram tão finos que não podiam ser pegos com firmeza. Tudo que conseguiu foi se arranhar, com as unhas raspando a pele como se ela zombasse da loucura das vítimas. — Eles sussurram sobre terem visto anotações de um homem planejando tudo.
— Quem?
Quando Madame pareceu hesitar, com a língua saltando para fora, Juliette puxou novamente o fio em ameaça. À
porta, Rosalind pigarreou, um conselho não dito para que Juliette mantivesse a calma e o cuidado, mas ela não recuou. Apenas disse, com a voz tão calma quanto a maré matinal:
— Eu quero um nome.
— Zhang Gutai — revelou Madame. — O Secretário-Geral dos Comunistas.
Imediatamente, Juliette soltou o fio, levando-o de volta ao flanco e dando-lhe uma sacudidela. Puxou um lenço do bolso e esfregou a correntinha até que estivesse brilhante e prateada novamente. Quando pôs o fio no bolso, ofereceu o lenço à Madame com o mesmo sorriso brilhante que reservava para festas de melindrosas e homens velhos e charmosos.
Madame estava pálida e trêmula. Não reclamou quando Juliette amarrou o lenço ao redor de seu pescoço, ajustando cuidadosamente o tecido até que absorvesse todo o fio de sangue.
— Peço perdão pelo transtorno — disse Juliette. — Isso ficará entre nós, não é?
Madame concordou, com expressão neutra. Ela não se moveu quando Juliette convocou Rosalind e Kathleen de volta para seu lado; nem reclamou quando a herdeira Escarlate largou todo o dinheiro que tinha no bolso sobre a mesa para tardiamente pagar Madame pela informação.
Juliette marchou para fora do quarto, com os saltos ecoando alto enquanto saía da casa de ópio com as primas.
Ela já estava se esquecendo da firmeza de seu aperto no fio, de como estava disposta a ferir Madame para conseguir a informação que queria. Somente conseguia pensar no
nome que obtivera — Zhang Gutai — e no que faria em seguida.
No carro, Kathleen a observou durante toda a viagem de volta. Juliette podia sentir isso como se fosse uma camada de graxa em sua testa: algo que incomodava sem causar dano algum.
— O que foi? — perguntou finalmente Juliette quando o carro parou para que Rosalind saltasse. Assim que a prima bateu a porta, encolhendo os ombros por baixo da manta de pele e desfilando em direção ao cabaré para fazer o turno da noite, Juliette deslizou pelo banco de trás até que estivesse diretamente de frente para Kathleen, que estava relaxada no assento, encarando a prima. — Por que você fica me olhando esquisito?
Kathleen piscou.
— Ah, não vi que você notou.
Juliette revirou os olhos, erguendo as pernas para descansá-las na almofada macia ao lado de Kathleen. O
carro deu partida novamente, sobre o som alto do cascalho triturado abaixo de suas rodas.
— Biǎojiě, você subestima os olhos que tenho — ela gesticulou por cima do rosto. — Por toda a parte. Eu te ofendi?
— Não, é claro que não — disse Kathleen, rapidamente.
Lentamente, ela corrigiu a postura e gesticulou para as mãos de Juliette, que olhou para baixo. Havia uma mancha de sangue que ela não havia conseguido limpar no espaço macio entre o polegar e o indicador. — Eu acho que esperava que você fosse apontar uma arma ou algo parecido. Não pensei que fosse ameaçá-la de verdade.
Kathleen sempre foi a pacifista. Nas cartas que ela e Rosalind enviaram aos Estados Unidos quando Juliette estava lá — sempre juntas no mesmo envelope — Juliette conseguia distinguir imediatamente as duas irmãs. Havia a caligrafia, obviamente. As letras redondas e grandes de Rosalind quando escrevia em inglês ou francês e os ideogramas chineses largos e espaçados, como se tentassem fugir uns dos outros. Kathleen, por outro lado, sempre escrevia como se lhe faltasse espaço. Ela espremia as letras e os traços até que se sobrepusessem, às vezes entalhando no ideograma anterior a maior parte do seguinte. Mas, além disso, mesmo que as cartas fossem datilografadas, Juliette conseguiria diferenciá-las. Rosalind tratava da conjuntura de Xangai como ninguém na cidade conseguiria. Ela era brilhante e inteligente devido aos anos de aulas de literatura clássica. A doçura de suas palavras gotejava na folha de papel enquanto ela lamentava a ausência de Juliette e lhe dizia que morreria de rir se tivesse visto o Sr. Ping semana passada, quando suas calças se rasgaram no meio. Não que Kathleen não fosse bem letrada
— apenas era introspectiva. Ela nunca escreveria um resumo sobre a última vítima da disputa sangrenta para depois citar uma sábia expressão sobre a natureza cíclica da violência. Ela elaboraria um guia passo a passo para impedir brutalidades futuras a fim de que pudessem viver em paz, e então se perguntaria por que ninguém na Sociedade Escarlate parecia capaz de fazer o mesmo.
Juliette sempre soube a resposta. Mas nunca teve coragem de dizer a Kathleen.
Porque não queriam.
— Madame lida com a ralé diariamente — Juliette apoiou o queixo em uma das mãos. — Você acha que ela se assustaria com o mero vislumbre de uma arma?
Kathleen suspirou irritada, alisando o cabelo.
— Mesmo assim, Juliette, não é como se…
— Você foi a algumas reuniões de negócios de meu pai, não foi? — interrompeu Juliette. — Eu ouvi Māma dizer que Jiùjiu levou você e Rosalind juntas há alguns anos, antes de vocês não terem mais estômago para isso.
— Só Rosalind não tinha mais estômago — rebateu Kathleen, calmamente —, mas sim, nosso pai nos levou em algumas negociações.
— Negociações — zombou Juliette, se recostando no espaldar do assento. Sua voz saiu com desprezo, mas não era direcionado a Kathleen. Era direcionado à maneira como a Sociedade Escarlate distorcia sua própria linguagem, como se ninguém soubesse do que falavam. Eles deveriam começar a chamar aquilo pelo que realmente era: extorsão, chantagem.
Chegando ao destino das moças, o carro reduziu a velocidade até parar em frente aos portões da mansão, com o motor roncando. Eram portões novos, instalados logo que Juliette partiu. Eles eram uma dor de cabeça para os homens a postos na frente deles sempre que parentes chegavam de cinco em cinco minutos querendo entrar, e agora os dois que estavam de serviço se apressavam para abrir as pesadas trancas metálicas antes que Juliette ralhasse com eles pela lentidão.
Mas esse era o preço da segurança face ao perigo constante.
— Você se lembra, não? — perguntou Juliette. — Dos métodos de meu pai? — ela vira muitos deles durante os poucos meses em que esteve de volta pela primeira vez.
Mesmo antes disso, quando Juliette era apenas uma criança, algumas de suas memórias mais antigas eram de levantar os braços para ir ao colo e sentir o cheiro de sangue emanando de seu pai quando ele a pegava.
A Sociedade Escarlate não tolerava fraqueza.
— Sim — respondeu Kathleen.
— Portanto, se ele pode fazer isso — prosseguiu Juliette —, por que eu não posso?
Kathleen não tinha nada a dizer em resposta. Apenas suspirou levemente e baixou as mãos, derrotada.
O carro parou completamente. Uma criada já estava aguardando para abrir a porta, e embora Juliette tenha aceitado sua ajuda para sair, foi apenas por cortesia; trajada com seu vestido de contas, era fácil saltar do carro e descer do patamar elevado. Kathleen, no entanto, precisava de alguns segundos para uma saída digna, pois o confinamento do qipao lhe atrasava. No momento em que os sapatos de Kathleen tocaram a entrada da mansão, Juliette já estava indo em direção à porta, inclinando a cabeça na direção da luz do sol para aquecer sua face fria.
Tudo se encaixaria. Ela não precisava se preocupar. Ela tinha um nome. A primeira coisa que faria na manhã seguinte era aparecer no local de trabalho desse tal Zhang Gutai e confrontá-lo. De um jeito ou de outro, Juliette acabaria com aquela sandice de surtos antes que seu povo sofresse.
Então um grito estridente disparou pelos jardins:
— Ali, o que há com você?
Juliette deu meia-volta, reagindo rápido ao pânico que ecoava pelos jardins. Seu coração perdeu o ritmo, aterrorizado.
Tarde demais.
A insanidade veio bater à sua porta.
— Não, não, não — sibilou Juliette, correndo em direção aos canteiros de flores. Ali estava voltando para dentro da casa com um cesto cheio de roupas apoiado no quadril. Só que agora o cesto estava jogado sobre as rosas; pilhas de roupas dobradas as esmagavam sem misericórdia.
E Ali estava dilacerando a própria garganta.
— Deite-a no chão — Juliette berrou para o jardineiro que estava por perto, o mesmo que chamara a atenção de Juliette com o grito. — Kathleen, busque ajuda!
Juliette agarrou um dos ombros de Ali. O jardineiro agarrou o outro. Juntos, tentaram ao máximo forçar a criada no chão, mas, quando a cabeça de Ali bateu contra o solo macio das roseiras, seus dedos já estavam totalmente inseridos nos músculos e tendões de seu pescoço. Houve um ruído terrível, úmido, rasgado — uma sensação de encharcamento enquanto o sangue jorrava para fora aos borbotões — e Juliette vislumbrara o osso, via claramente cada relevo branco-marfim, todos ordenadamente afixados por trás do vermelho-róseo do pescoço de Ali.
Os olhos de Ali vidraram-se. As mãos afrouxaram, os pedaços de carne arrancada escorregaram dos dedos e caíram no chão.
Juliette teve ânsia de vômito. O sangue da garganta de Ali jorrava e jorrava, penetrando o solo até que a terra se tornasse uma mancha escura, até que a mancha escura fosse grande o suficiente para chegar a menos de um metro
de distância do terreno onde ficava a antiga casa dos criados, onde a Ama também encontrara seu fim.
É por isso, Juliette pensou, dormente. É por isso que não devemos amar mais que o necessário. A morte vem para todos no fim…
Um grito de terror agora vinha da casa principal.
Kathleen.
Juliette levantou-se em um pulo.
— Kathleen! — rugiu. — Kathleen, onde está você?
— Juliette, venha logo!
Juliette escancarou a porta da frente e atravessou a sala de estar, correndo a toda velocidade, arrancando arquejos de preocupação das poucas tias desorientadas que pararam de fofocar nos sofás. Freneticamente, derrapou até a cozinha e encontrou Kathleen parada no longo balcão, corpo congelado pelo horror, mãos pressionando a boca, abafando suas palavras em uma tentativa de não gritar.
Um cozinheiro se contorcia no chão, com sangue já descendo por seus antebraços. A cerca de um metro de distância, sob a passagem para o corredor principal, outra criada estava começando a sucumbir, apoiando-se no batente da porta e batendo em si mesma para resistir ao surto.
— Para trás…
A criada caiu. O primeiro arco de sangue laríngeo voou longe, manchando os entalhes intrincados da passagem e pintando uma figura abstrata na parede bege. Em choque, Juliette imaginava se eles seriam capazes de remover uma mancha daquelas, ou se ela ficaria na casa para sempre.
Mesmo oculta por tinta ou violentamente esfregada, sua
presença permaneceria, empesteando o cômodo com o fedor do fracasso Escarlate em proteger os seus.
A criada ficou estática. Aparentemente isso finalmente trouxe Kathleen de volta a si, pois ela se projetou para a frente com um arquejo sufocado. Seus cabelos longos balançavam por sua face em virtude da pressa.