Prazeres Violentos
Quatorze
Com cuidado e controle, ela soltou a prima e pôs a mão no casaco, retirando de lá o desenho que furtara. Ela desdobrou a folha gasta, desamassando os traços de tinta que a manchavam.
— Rosalind — disse Juliette, lentamente. — Veja este desenho.
Rosalind pegou o fino pedaço de papel. Seus dedos o apertaram. Seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Foi isso que você viu? — sussurrou Juliette.
Muito lentamente, Rosalind anuiu.
Quatorze
Se qualquer pessoa perguntasse a Benedikt Montagov o que ele mais desejava na vida, ele teria uma resposta muito simples: pintar a esfera perfeita.
Se a mesma pergunta fosse feita a qualquer outro Rosa Branca, haveria uma variedade de respostas. Dinheiro, amor, vingança — tudo isso e mais, Benedikt também queria. Mas essas coisas se esmaeciam quando ele estava pintando, com mais nada na mente além do movimento em seu pulso e o arco do pincel. Um trabalho tão cuidadoso, tão monótono, tão lindo.
Ele queria tanto conjurar a esfera perfeita que era quase uma obsessão. Um daqueles delírios que ele preservara desde a infância, um que pareceu ter amadurecido por completo em sua mente sem origem aparente e, se houvesse uma, talvez tenha ocorrido tão cedo em sua vida que ele simplesmente não conseguia mais se lembrar dela.
Enfim, era irracional, uma crença de que, se ele atingisse um feito impossível, então talvez todas as outras coisas impossíveis de sua vida se ajustassem, independentemente de serem verdadeiramente correlatas ou não.
Quando Benedikt tinha 5 anos de idade, pensava que, se conseguisse terminar de recitar a Bíblia inteira de trás para frente, seu pai sobreviveria à doença. Morreu, no fim das contas, e sua mãe também, seis meses depois, devido a uma bala perdida no peito.
Quando Benedikt tinha 8 anos, convenceu a si mesmo de que precisava correr de seu quarto até a porta da frente da casa em 10 segundos, toda manhã, ou então teria um dia ruim. Isso quando ele ainda vivia dentro do quartel central, no cômodo vizinho ao de Roma, no quarto andar. Aqueles dias sempre eram terríveis e difíceis — mas ele não sabia se eram assim por causa das vezes em que ele não correra rápido o bastante.
Ele tinha 19 anos de idade agora e os hábitos não haviam sumido; simplesmente foram filtrados e se condensaram na bola mais maciça de todas, deixando para trás apenas um único desejo, que jazia no topo da pirâmide sobre os outros, igualmente impossíveis.
— Droga — resmungou Benedikt. — Droga, droga — ele rasgou a folha de papel no cavalete e a amassou, jogando-a com força na parede de seu ateliê. O sentimento de imprestabilidade se embrenhou profundamente nele, esmurrando suas têmporas e invadindo seus olhos secos e cansados. Em algum lugar, bem fundo nas alcovas de sua racionalidade, sabia que o que desejava fazer não era possível. O que era uma esfera? Era um círculo tridimensional, e círculos não existem. Um círculo tem todos os seus pontos equidistantes do centro e, para que eles assim o fossem, seria necessário alcançar a mais exata das precisões. Quão longe Benedikt iria para alcançar a perfeição? Pinceladas? Partículas? Átomos? Se um círculo verdadeiro não existia em seu próprio universo, como ele conseguiria pintar um?
Benedikt abaixou o pincel, esfregando os cabelos enquanto saía do ateliê.
Ele parou no corredor assim que uma voz veio flutuando do quarto adjacente, entediada, desconfiada e baixa.
— Por que raios você está xingando?
Agora ele e Marshall dividiam o prédio mal-acabado que ficava a um quarteirão de distância do principal domicílio Montagov, embora o nome de Benedikt fosse o único que constava na papelada. Tecnicamente, Marshall vivia ali como um inquilino clandestino, mas Benedikt não se importava. Marshall era completamente imprevisível, mas também um excelente cozinheiro e melhor do que qualquer outro para consertar um cano estourado, talvez por causa de sua experiência colocando seus ossos quebrados no lugar; talvez por ter passado os primeiros anos de vida vagando pelas ruas e lutando para viver antes dos Rosas Brancas o acolherem. Até hoje, nenhum dos Montagoves sabia exatamente o que havia acontecido com a família de Marshall. Benedikt sabia de uma coisa apenas: estavam todos mortos.
Marshall saiu de seu quarto, com a calça de pijama larga, roída por traças, na altura dos quadris. Quando ergueu os braços para cruzá-los na altura do peito, sua camisa encardida subiu e deixou à mostra cicatrizes de cortes de faca que cruzavam seu abdômen.
Benedikt estava olhando. Sentiu sua pulsação saltar quando percebeu que olhava, e saltou de novo quando pensou que poderia ser pego.
— Você está com mais cicatrizes — disfarçou rapidamente, mal gaguejando, mesmo que estivesse ficando vermelho.
Ele provavelmente lembraria da situação enquanto estivesse tentando dormir, então teria tanta vergonha que enterraria a cabeça no travesseiro, como um avestruz.
Pigarreando, Benedikt prosseguiu. — De onde elas estão brotando? — Essa cidade é perigosa — Marshall respondeu sem responder nada, abrindo ainda mais o sorriso.
Ele parecia estar provocando, se gabando da própria coragem, mas Benedikt começou a franzir o cenho. Sempre havia cinco mil pensamentos diferentes borbulhando em sua mente, querendo sua atenção, e quando um tomava a frente fazendo um barulho particular, ele lhe concedia atenção. Enquanto Marshall descia pelo corredor, desaparecendo na cozinha para vasculhar os armários, Benedikt permaneceu fora de seu ateliê, pensativo.
— Mas isso não é curioso?
— Você ainda está falando comigo?
Benedikt revirou os olhos, se apressando para juntar-se a Marshall na cozinha. Marshall estava colocando potes e panelas para fora, com um talo de aipo na boca. Benedikt nem quis perguntar o porquê. Supunha que Marshall era do tipo que mastigava aipo cru sem razão alguma.
— Com quem mais eu estaria falando? — retrucou Benedikt, sentando-se no balcão da cozinha. — A cidade.
Ela está ficando mais perigosa, não está?
Marshall tirou o aipo da boca e o balançou na direção de Benedikt. Quando ele retribuiu com apenas uma olhada, sem vontade de abrir a boca e dar uma mordida no talo, Marshall deu de ombros e jogou o aipo na lixeira.
— Ben, Ben, tesouro meu, eu só estava brincando —
Marshall acendeu um fósforo para o fogão. Ele ganhou vida entre seus dedos: uma estrela quente, ardente, em miniatura. — Esta cidade sempre foi perigosa. É a essência da falha humana, o pulso da…
— Mas recentemente — cortou Benedikt, inclinando-se sobre o balcão, com as duas mãos lhe escorando contra o granito duro — você não tem notado o público nos cabarés?
A frequência com a qual os homens têm pulado no palco para assediar as dançarinas? Os gritos nas ruas quando não há riquixás suficientes para todos os clientes? Era de se esperar que os números nas boates ficariam cada vez menores com os surtos. Mas os estabelecimentos noturnos devem ser os únicos lugares que não atrasaram o aluguel para meu tio.
Pela primeira vez, Marshall precisou de um momento para responder; não havia nada na ponta da língua quando chegou sua deixa. Ele tinha um ligeiro sorriso nos lábios, mas expressava dor, como se estivesse triste.
— Ben — disse novamente. Pausou. Parecia estar com dificuldade para achar a palavra certa em russo, começando a falar e parando algumas vezes, sem coerência, então voltou à língua nativa. — Não é que a cidade tenha ficado mais perigosa. É que ela está mudada.
— Mudou? — repetiu Benedikt, também passando ao coreano. Ele não fez todas aquelas aulas por nada. Tinha um sotaque terrível, mas pelo menos era fluente.
— A insanidade varre todos os lugares — Marshall pegou um talinho de coentro da bolsa em seus pés e começou a mastigá-lo também. — Se move como a peste: os primeiros incidentes foram perto do rio, depois se espalharam cidade adentro, nas concessões, e agora mansões e mais mansões nos arredores estão mandando vítimas para o necrotério.
Pense nisso. Quem quiser se proteger ficará trancado, bloqueará as portas, selará as janelas. Quem não se importa, quem é violento, quem se delicia com a maldade
— Marshall deu de ombros, movendo as mãos enquanto escolhia as palavras exatas — floresce. Vai para as ruas. A cidade não ficou mais violenta. As pessoas nela é que estão mudando.
Como em uma cena combinada, o som de vidro quebrando tomou o apartamento, assustando Marshall o bastante para que ele se encolhesse, enquanto Benedikt simplesmente deu meia-volta, fazendo uma careta. Ambos pararam para escutar, atentos para o caso de haver perigo. Quando ouviram gritos sobre o pagamento de um aluguel vindos do beco que ladeava o prédio, ficou claro que não precisavam se preocupar.
Benedikt saltou do balcão da cozinha e arregaçou as mangas enquanto entrava novamente no corredor, fazendo a curva para o quarto de Marshall a fim de pegar as primeiras roupas que visse.
— Beleza, vamos lá — comandou quando voltou para a cozinha.
— O quê?! — exclamou Marshall. — Estou fazendo comida!
— Eu te pago comida de alguma barraquinha — Benedikt jogou a jaqueta para Marshall. — Temos uma vítima viva para encontrar hoje.
Marshall e Benedikt perambularam por horas pelo território Rosa Branca, sem sucesso. Eles sabiam que becos eram lugares comuns para proliferação dos surtos, então escolheram passar apenas por aqueles pequenos trajetos da cidade — dando voltas em um labirinto que lhes era bastante familiar. No entanto, em pouco tempo perceberam que não importava se fossem lentos ou cautelosos, parando nas bocas dos becos quando ouviam o mais suave farfalhar,
acompanhado de um cheiro inegavelmente metálico. Eles já haviam corrido duas vezes para dentro, já planejando um ataque, apenas para descobrir que o farfalhar vinha de ratos em volta de um cadáver ensanguentado, morto há muito.
Se não havia cadáver, havia silêncio. Becos que jaziam estáticos, gravuras incólumes, todas fedendo a lixo transbordante e caixas quebradas, pois as pessoas estavam assustadas demais para fazer o descarte apropriado de seus resíduos. Benedikt estava quase aliviado quando finalmente voltaram a uma rua principal, reingressando em um mundo no qual pedaços e retalhos de conversas entre vendedores e clientes flutuavam a seu lado enquanto andava. Aquela era a parte real da cidade. Aqueles becos se tornaram versões assombradas de Xangai: um baixo ventre metamorfoseado em casca murcha.
— Então foi perda de tempo — comentou Marshall. Ele checou seu relógio de bolso. — Você gostaria de contar a Roma sobre nosso fracasso colossal, ou conto eu?
Benedikt fechou a cara, baforando ar quente nas mãos rígidas. O clima ainda não exigia o uso de luvas, mas o friozinho daquela tarde estava mordendo com força, o bastante para doer.
— Afinal, onde está Roma? — perguntou ele. — Esse trabalho também deveria ser dele.
— Ele é o herdeiro dos Rosas Brancas — Marshall guardou o relógio. — Ele pode fazer o que quiser.
— Você sabe que isso não é verdade.
As sobrancelhas de Marshall saltaram para cima, desaparecendo por baixo das mechas escuras de cabelo
que lhe caíam sobre a testa. Ambos ficaram em silêncio por um instante, encarando-se em um raro momento de dúvida.
— Quer dizer — Benedikt apressou-se a corrigir —, ele ainda tem de responder ao pai.
— Ah — disse brevemente Marshall. Ele estava com uma expressão atípica, desconfortável, que fez com que Benedikt também sentisse um mal-estar. Aquela cara deu a Benedikt um súbito vazio no estômago, uma vontade de pegar as palavras que ele acabara de dizer em pleno ar e enfiá-las de volta na boca de Marshall para que ele voltasse à sua postura de sempre, relaxada.
— Ah? — repetiu Benedikt, em indagação.
Marshall balançou a cabeça, rindo. O ruído imediatamente aliviou o estômago de Benedikt.
— Por um segundo achei que você quis dizer que ele não era o herdeiro.
Benedikt olhou para as nuvens cinzas.
— Não — disse —, não foi isso que eu quis dizer.
Mas, no fundo, ambos sabiam. Benedikt Montagov e Marshall Seo eram alguns dos únicos Rosas Brancas que publicamente declararam lealdade a Roma. O resto estava em silêncio, esperando para ver se Roma sairia vitorioso e exerceria seu direito de nascença, ou seria jogado para escanteio por qualquer pessoa a quem Lorde Montagov decidisse dar sua bênção.
— Você quer ir para casa agora?
Benedikt suspirou e concordou.
— Vamos.
Na rua seguinte, enquanto Benedikt e Marshall se apressavam em direção ao sul, Kathleen movia-se para o
norte, entrando e saindo dos bancos ao longo do Bund.
O Bund, pensou, distraída. Que tradução estranha. Em chinês era wàitān, que deveria ser traduzido como a outra margem. Era isso: uma faixa de terra que tocava parte do Rio Huangpu na extremidade a jusante. Chamar o local de Bund, em vez disso, transformava-o num aterro. Um lugar para ir e vir, com navios se amontoando para conseguir beliscar a vida dentro das margens, um lugar de entrepostos comerciais e consulados estrangeiros que emanavam poder.
Era aqui que a riqueza se acumulava mais densamente, em meio aos prédios decadentes em estilo Beaux-Arts custeados pelo Ocidente, que somente geravam mais riqueza em um ciclo autossustentado. Muitas das estruturas ainda não estavam finalizadas, permitindo que a brisa do mar soprasse por entre vigas abertas e andaimes. O clangor dos construtores trabalhando intensamente era frenético, mesmo naquela hora, tão tarde. A eles não era permitido construir para cima ao longo do Bund, que tinha restrições de altura, então somente podiam construir bem.
Mesmo parcialmente construído, tudo ali era lindo. Parecia que cada projeto competia para ofuscar o anterior. O
preferido de Kathleen era o edifício HSBC — uma coisa gigantesca, neoclássica, de seis andares, que abrigava a Hong Kong and Shanghai Banking Corporation, cintilante tanto por fora, quanto por dentro. Era difícil de acreditar que um apanhado tão colossal de mármore e Monel conseguiu se unir daquela forma: em colunas, treliças e um único e enorme domo. Ele fazia toda a construção parecer um templo da Grécia Antiga, em vez de ser o epicentro da era financeira de ouro de Xangai.
Pena que as pessoas que trabalhavam em prédios tão convidativos eram tão convidativas quanto arroz mofado.
Kathleen saiu do edifício HSBC mal-humorada, soltando um longo e baixo grunhido. Cansada até os ossos, se recostou em um dos arcos exteriores, parando um minuto para ponderar seus próximos passos.
Eu não faço ideia do que você está falando era a frase número um que haviam lhe arremessado hoje, e Kathleen detestava fracassar em suas missões. Assim que os banqueiros percebiam que Kathleen não viera consultar sua conta corrente, mas perguntar se eles viram algum monstro no trajeto para o trabalho, fechavam-se imediatamente, revirando os olhos e pedindo para que ela se retirasse da fila, por gentileza. Dentro daquelas paredes de granito e cofres grossos e enormes, ela supôs que as pessoas que passavam o dia a dia ali pensavam estar a salvo dos surtos e dos boatos sobre o monstro que os trazia.
Kathleen sabia disso. Estava no paciente acenar de mãos enquanto gesticulavam para o próximo cliente, na maneira despreocupada com que ignoravam a pergunta de Kathleen, dando de ombros, como se a questão simplesmente lhes fosse inferior. Os ricos e os estrangeiros não acreditavam de verdade naquilo. Para eles, os surtos que varriam a cidade eram nada além de disparates chineses — que só afetavam os mais pobres, só tocavam quem era fiel, preso às tradições. Pensavam que seu mármore brilhante poderia bloquear o contágio, porque o contágio não era nada além de histeria dos selvagens.
Quando a insanidade atravessar estas colunas, pensou Kathleen consigo mesma, as pessoas daqui não saberão o que as atingiu.
E então, cruelmente, ela quase pensou: Que bom.
— Você, aí! Xiǎo gūniáng!
Kathleen se virou em direção à voz, com o coração esperançoso de que um banqueiro tivesse saído para lhe dizer que se lembraram de algo. Só que, quando ela completou a volta, seus olhos aterrissaram em uma senhora de idade com a cabeça cheia de cabelos brancos espessos, de andar arrastado, segurando uma bolsa grande com ambas as mãos.
— Pois não? — perguntou Kathleen.
A senhora parou à sua frente, com os olhos vasculhando o pingente de jade que pressionava a garganta da jovem. Os braços de Kathleen pinicaram, com os pelos arrepiados. Ela resistiu ao impulso de passar a mão no cabelo.
— Eu ouvi você perguntando — a senhora se inclinou, e sua voz tinha um tom de teoria da conspiração — sobre um monstro?
Kathleen fez uma careta, expirando levemente para afugentar o arrepio.
— Sinto muito — respondeu. — Também não tenho informação nenhuma…
— Ah, mas eu tenho — interrompeu a anciã. — Você não vai chegar a lugar algum com esses banqueiros. Eles mal tiram os olhos dos livros e das escrivaninhas. Mas eu estava aqui há três dias. Eu vi.
— A senhora… — Kathleen olhou para trás, e então se inclinou para frente, baixando o tom de voz. — A senhora o viu aqui? Com seus próprios olhos?
A mulher acenou para que Kathleen a seguisse, e ela o fez, olhando para os dois lados antes de atravessarem a rua.
Andaram até as margens, até o cais que se projetava para o
rio. Quando a anciã parou, pôs a bolsa no chão e usou os dois braços para gesticular.
— Bem aqui — disse. — Eu estava saindo do banco com meu filho. Um docinho, ele… mas um completo bèndàn quando se trata de finanças. Enfim, quando ele foi chamar um riquixá, fiquei parada na frente do banco para esperá-lo, e lá da rua — ela moveu os braços para apontar em direção a uma das estradas que davam para a cidade — essa coisa… veio correndo.
— Coisa — repetiu Kathleen. — A senhora está falando do monstro?
— Sim… — a mulher divagou. Ela havia começado a contar a história com entusiasmo, com aquela energia que prende e arrebata a audiência. Agora o ânimo se fora; repentinamente, a mulher sentiu o baque do que havia realmente visto. — O monstro. Coisa horrível, um morto-vivo.
— Mas a senhora tem certeza? — insistiu Kathleen. Uma parte dela queria voltar correndo para casa com aquela informação imediatamente, contar a Juliette para que a prima pudesse reunir as forças Escarlates e seus ancinhos.
Outra parte, a racional, sabia que aquilo não era suficiente.
Eles precisavam de mais. — A senhora tem certeza de que era o monstro, não uma sombra ou…
— Tenho certeza — retrucou a mulher, com firmeza. —
Tenho certeza porque um pescador atracando seu barco tentou
atirar
nele
enquanto
a
coisa
caminhava
pesadamente neste mesmo cais — ela apontou para a frente, para o cais que se estendia pelo largo, largo rio, que no momento pulsava com a agitação nos navios ancorados.
— Tenho certeza porque as balas simplesmente
ricochetearam em suas costas e caíram tilintando no chão como se não fosse uma criatura ali parada, mas um deus.
Era um monstro. Tenho certeza.
— O que aconteceu? — sussurrou Kathleen. Um calafrio subiu por seu pescoço e desceu para os braços. Ela não achou que foi causado pela brisa do mar. Era algo muito mais fantasmagórico. — O que aconteceu depois?
A mulher piscou algumas vezes. Parecia sair de um leve atordoamento, como se não tivesse percebido bem o quanto ficara perdida em suas próprias memórias.
— Bem, esse é o problema — retrucou ela, franzindo o cenho. — Minha vista, sabe. Não é das melhores. Eu vi o bicho pular na água e aí…
Kathleen se inclinou mais para a frente.
— E aí…?
A velha balançou a cabeça.
— Eu não sei. Tudo ficou meio turvo. Pensei ter ouvido um barulho de coisas rastejando. Parecia que a escuridão ali —
e estendeu o braço — estava se mexendo. Como coisinhas sendo arremessadas no escuro — ela balançou a cabeça novamente, agora com mais força. Não pareceu funcionar, pois a voz da mulher perdeu toda a energia inicial. — Nessa hora meu filho já havia voltado com o riquixá. Eu falei para ele ver o que era. Disse que achei ter visto um monstro na água. Ele correu pelo cais para pegá-lo.
Kathleen arquejou.
— E… ele pegou?
— Não — a mulher franziu o cenho, com o olhar lançado ao Rio Huangpu. — Disse que eu estava falando besteira. Que só viu um homem, nadando para longe. Estava convencido de que era um pescador que caiu do barco.