Prazeres Violentos
Quinze
Um homem. Como poderia haver um homem na água se o monstro estava ali? Como ele sobreviveu?
A menos que…
Com respiração vacilante, a mulher pegou sua bolsa e pareceu pensar duas vezes, estendendo a mão para pegar a de Kathleen.
— Eu te conheço, você é membro dos Escarlates — disse ela em voz baixa. — Tem alguma coisa viva se agitando nas águas. Tem alguma coisa viva se agitando em muitos lugares que não podemos ver. — Os dedos da mulher se fecharam com tanta força na mão de Kathleen que ela não podia mais sentir o sangue circular em sua palma.
— Por favor — sussurrou a mulher. — Nos proteja.
Quinze
Dias depois, Juliette não conseguia pensar em nada além dos surtos. Ela mal reagia quando chamavam seu nome. Somente tinha ouvidos para o som dos gritos, e cada vez que eles ecoavam pelas ruas, ela se encolhia, desejando — ansiando — poder fazer algo a respeito.
Um monstro, pensou Juliette, com a mente em loop eterno enquanto se recostava na escadaria, esperando. Há um monstro espalhando insanidade nas ruas de Xangai.
— Pronta para irmos? — Lorde Cai a chamou, parando no topo das escadas para ajeitar o colarinho de seu paletó.
Juliette fez força para voltar ao presente. Suspirando, girando a bolsinha clutch em suas mãos.
— Mais pronta, impossível.
Lorde Cai desceu o resto da escada e parou na frente da filha, com a expressão fechada. Juliette olhou para si mesma, tentando descobrir o que causou a desaprovação do pai. Ela estava novamente usando um de seus vestidos norte-americanos, este um pouco mais chique, atendendo à ocasião, com feixes de tule nos braços que formavam mangas. Será que o decote era muito baixo? Seria esta —
pela primeira vez — uma preocupação paterna comum, que não tinha a ver com o fato de ela conseguir matar um homem sem pestanejar?
— Onde está sua máscara?
Quase. Essa crítica eu aceito de bom grado.
— Por quê? — suspirou Juliette. — O senhor não está usando uma.
Lorde Cai esfregou os olhos. Juliette não sabia dizer se foi por causa do cansaço geral que a preparação para lidar com os franceses causara ou se ele estava exasperado com o comportamento infantil da filha.
— Sim, porque eu sou um homem de 50 anos —
respondeu o pai. — Ficaria ridículo.
Juliette deu de ombros e se dirigiu à porta da frente.
— É o senhor quem está dizendo.
A noite estava um pouco fria quando eles saíram para a calçada, e Juliette sentiu um leve calafrio, esfregando as mãos nos braços nus. Já era. Não havia tempo para voltar e pegar um casaco. Ela entrou no carro com o auxílio do chofer e deslizou pelo assento para dar espaço ao pai. A maioria dos outros membros da família que iam ao baile de máscaras já havia saído de casa. Juliette não queria ir, então esperou Lorde Cai finalizar seu expediente. Ele só declarou que era hora de ir quando o céu ficou rosa e o sol ardente e laranja começou a pincelar o horizonte.
Lorde Cai entrou no carro. Assim que se ajeitou no assento, descansou as mãos em seu colo e deu uma olhada para Juliette. Sua expressão fechou-se novamente. Desta vez, mirava o colar apertado na garganta da filha.
— Isso não é um colar, é?
— Não é não, Bàba.
— Isso é um garrote, não é?
— É sim, Bàba.
— Quantas outras armas você escondeu em si mesma?
— Cinco, Bàba.
Lorde Cai apertou a ponte do nariz e resmungou:
— Wǒde māyā, tenha misericórdia de minha alma.
Juliette sorriu como se tivesse sido elogiada.
O carro deu partida e foi roncando suavemente, passando pelas estradas rurais, mais tranquilas, e adentrando a cidade, buzinando a cada três segundos para que trabalhadores e homens puxando riquixás saíssem da frente. Juliette normalmente tinha o hábito de não olhar pela janela, para que não fizesse contato visual e fosse abordada por um pedinte. Mas, por algum motivo inexplicável, naquela noite ela olhou para fora.
No momento certo para ver uma mulher berrando na calçada, abraçada a um corpo.
O corpo estava todo ensanguentado, com as mãos manchadas de vermelho e o pescoço tão destruído que a cabeça estava dependurada apenas pela força da coluna vertebral. A mulher que chorava acariciava o rosto sem vida, com a bochecha pressionada na face alva de morte.
O carro começou a se mover novamente. Juliette voltou a olhar para a frente, para o borrão de movimento do para-brisa, e engoliu em seco.
Por que isso está acontecendo? Pensou, desesperada. Esta cidade cometeu pecados tão terríveis a ponto de merecermos isso?
A resposta era: sim. Mas não era inteiramente culpa deles.
Os chineses haviam construído o fosso, juntado a madeira e acendido o fósforo, mas foram os estrangeiros que vieram e derramaram gasolina sobre cada superfície, deixando Xangai se enfurecer em um indomável incêndio florestal de perversão.
— Aqui estamos — disse o chofer, freando.
Com mandíbula cerrada, Juliette saiu do carro. Na Concessão Francesa, tudo era um tantinho cintilante, até mesmo a grama debaixo de seus pés. Aqueles jardins normalmente ficavam com os portões fechados, mas naquela
noite
estavam
completamente
abertos,
especificamente para a ocasião. Quando Juliette cruzou os portões, era como se tivesse entrado em outro mundo —
um que ficava longe das ruas sujas e dos becos apertados e sobrepostos pelos quais haviam acabado de passar. Ali havia verde, videiras e intenções escusas, pequenos gazebos situados em locais peculiares e a escuridão que se aproximava e atraia as sombras dos altos portões de ferro fundido que encerravam aqueles jardins para bem dentro da grama, crescendo a cada segundo do pôr-do-sol violeta.
Apesar do frio, Juliette suava um pouco enquanto passava pelas pequenas aglomerações de pessoas dispersas pelos jardins delicadamente cuidados. Sua primeira tarefa era identificar onde cada parente se posicionara. Ela encontrou a maioria com facilidade, espalhados e socializando. Talvez ela tivesse se excedido ao trazer tantas armas. A faca amarrada em sua lombar fazia o vestido ficar muito apertado na cintura, e a malha branca em seus joelhos subia a cada passo. Mas Juliette não pôde evitar. Ao trazer as armas, ela se enganava, achando que poderia tomar alguma atitude se acontecesse um desastre.
Ela tentou não admitir que havia alguns desastres que não podia combater com suas facas. Os estrangeiros presentes certamente não se importavam. Enquanto andava, ouviu mais de uma risadinha sobre os boatos dos surtos, homens britânicos e mulheres francesas igualmente brindando em comemoração à sua imensa inteligência por ficarem
distantes do desespero local. Eles agiam como se fosse uma escolha.
— Venha, Juliette — convocou Lorde Cai, à frente, alisando as mangas.
Juliette o seguiu obedientemente, mas seus olhos permaneceram em outro lugar. Sob um delicado pavilhão de mármore, um quarteto tocava uma música suave; o som flutuava em direção a uma clareira onde alguns comerciantes estrangeiros e suas esposas dançavam. Havia uma proporção igual de Escarlates e estrangeiros convidados — comerciantes e oficiais — e alguns chegaram a ponto de conversar entre si no crepúsculo que findava. Ela avistou Tyler em um daqueles grupos, conversando com uma francesa. Quando ele reparou que a prima o observava, acenou, com alegria. A boca de Juliette se contraiu em um fino traço.
Ali perto, as lâmpadas penduradas em fios nas coberturas dos gazebos vieram à vida com um súbito wush. Os jardins reluziam em dourado, espantando as trevas que teriam tomado o lugar quando o sol se escondesse no mar por completo.
— Juliette — Lorde Cai a chamou novamente. Sem perceber, Juliette reduzira seu caminhar a passos de caramujo. Com má vontade, apertou o passo. Notou que a maioria dos presentes ficava em grupos com quem tinham mais afinidade. Britânicas que se mudaram para lá com seus maridos diplomatas riam, com suas luvas de renda segurando guarda-sóis em tons pasteis. Oficiais franceses davam tapinhas nas costas uns dos outros, gargalhando alto de qualquer piada sem graça que um de seus superiores acabava de contar. Embora dispersos em partes diferentes
do jardim, três pessoas solitárias permaneciam isoladas, apesar de seus esforços para parecerem entretidos com seus assuntos.
Juliette parou novamente. Ela virou a cabeça na direção de um deles: o que examinava intensamente o prato em suas mãos.
— Bàba, aquele rapaz não lhe parece coreano?
Lorde Cai nem mesmo seguiu o olhar da filha. Pôs as mãos sobre os ombros dela e a empurrou levemente para a direção em que estavam indo.
— Foco, Juliette.
Era uma ordem questionável. Juliette não precisou de foco algum quando eles se aproximaram do Cônsul-Geral da França, porque, quando os homens começaram a falar, ela simplesmente foi para o plano de fundo. Era pouco mais que um adorno decorando o lugar. A jovem concentrou-se e logo se distraiu do assunto principal, não captando nem mesmo o nome do Cônsul Geral. Sua atenção estava nos dois homens em estado de alerta atrás dele.
— Você quer comer um sanduíche quando sairmos daqui?
— o primeiro homem sussurrou para o segundo, em francês.
— Eu odeio esse bufê. Eles estão fazendo o maior esforço para agradar aquele país sem graça do outro lado da vala.
— Leu minha mente — respondeu o segundo, em voz baixa. — Olhe só para eles. Um bando de plebeus sem classe.
Juliette ficou tensa, mas, com o comentário sobre a vala, ficou claro que estavam se referindo aos britânicos, não à Sociedade Escarlate.
— Os britânicos bebem chá e acham que o inventaram —
prosseguiu o segundo homem. — Achou errado, otário. Os
chineses já produziam chá antes de vocês sequer terem um rei.
Juliette fungou, de repente — a pequeneza da conversa a pegara de surpresa — e depois tossiu para disfarçar o ruído.
Lorde Cai não tinha com o que se preocupar; trazê-la para cá foi uma precaução desnecessária. Ela voltou a atenção para o diálogo de seu pai.
— Eles estão tensos, meu lorde — dizia o Cônsul Geral.
Juliette presumiu que ele falava de seus executivos franceses. — A garde municipale mantém a Concessão Francesa segura por enquanto, mas, se surgirem quaisquer problemas, preciso saber que posso contar com o apoio da Sociedade Escarlate.
Se houvesse uma revolta do povo chinês, dos operários com salário atrasado que decidissem que o Comunismo era a melhor solução, os franceses precisariam achar um jeito de manter o controle sobre Xangai. Pensavam que poderiam obtê-lo com as armas e os recursos da Sociedade Escarlate.
Eles não haviam compreendido que, se houvesse uma revolução, não sobraria ninguém para fazer negócios.
Mas Lorde Cai não verbalizou nada disso. Concordou com tranquilidade, sob condição de que a Sociedade Escarlate ainda detivesse jurisdição para executar seus negócios na Concessão Francesa. O Cônsul Geral da França exclamou, em uma tentativa de misturar seu inglês britânico com o dialeto norte-americano:
— Why, old friend, of course! Isto é mais do que certo! —
quando os dois homens apertaram as mãos, parecia que tudo estava resolvido.
Juliette achou tudo aquilo teatral e ridículo. Achou um ultraje seu pai ter que pedir permissão para fazer negócios
nas terras em que seus ancestrais viveram e morreram a homens que simplesmente atracaram seus barcos ali e decidiram que gostariam de ficar no comando.
O Cônsul Geral da França, como se pudesse detectar a hostilidade dos pensamentos de Juliette, voltou-lhe o olhar.
— E como está você, Senhorita Juliette?
Juliette exibiu um largo sorriso.
— Você não deveria ter voz aqui — disse, antes que o pai pudesse impedi-la; suas palavras saíram tão doces que pareciam admiração. — Mesmo que sejamos falhos, que lutemos uns contra os outros, este país não é o quintal de pessoas como você.
A expressão alegre do Cônsul Geral vacilou, mas apenas ligeiramente, incapaz de determinar se Juliette o insultava ou fazia um comentário inocente. Suas palavras foram afiadas, mas seus olhos, amistosos, e suas mãos estavam unidas, como se estivesse falando de coisas triviais.
— Passar bem — cortou Lorde Cai, antes que qualquer um dos franceses pudesse formular uma resposta. Ele conduziu Juliette para fora dali, segurando-a pelo ombro com firmeza.
— Juliette — sibilou Lorde Cai, assim que se afastaram o bastante para não serem ouvidos. — Eu não achava que precisava te ensinar isso, mas você não pode dizer coisas como aquela a pessoas poderosas. Pode ser a sua morte.
Juliette desvencilhou os ombros do aperto do pai.
— Certamente não — rebateu. — Ele é poderoso, mas não tem poder para me matar.
—Veja bem — disse Lorde Cai, com firmeza —, pode ser que ele não a mate…
— Então por que não posso falar livremente?
O pai suspirou. Inspirou, e expirou, procurando a resposta.
— Porque — disse, finalmente — isso fere os sentimentos dele, Juliette.
Juliette cruzou os braços.— Ficamos calados diante da injustiça disso tudo simplesmente porque isso fere os sentimentos dele?
Lorde Cai balançou a cabeça negativamente. Pegou a filha pelo cotovelo para conduzi-la ainda mais longe, dando uma boa olhada para trás. Quando estavam próximos a um dos gazebos, ele a soltou e juntou as mãos.
— Hoje em dia, Juliette — sussurrou cautelosamente —, as pessoas mais perigosas são os homens brancos poderosos que se sentem diminuídos.
Juliette sabia daquilo. Sabia daquilo melhor que pessoas como seu pai e sua mãe, que apenas viram o que os estrangeiros são capazes de fazer depois que singravam os mares com seus navios até as águas chinesas. Mas Juliette — seus pais a enviaram para os Estados Unidos a estudo, afinal. Ela crescera com um olho atento à fachada de todo estabelecimento a que ia, checando se havia placas segregacionistas que proibiam sua entrada. Ela aprendera a sair da frente sempre que uma dama branca de salto alto cruzava a calçada com suas pérolas; aprendera a fingir fraqueza e abaixar a cabeça para o caso de o marido da dama branca perceber o mais leve revirar de olhos de Juliette e gritar com ela, exigindo saber por que estava em seu país e se ela tinha perdido a noção.
Ela não precisava fazer nada ofensivo. Era o privilégio que movia aqueles homens. O privilégio que encorajava suas esposas a levar um delicado lenço ao nariz e fungar sutilmente, acreditando com todo o coração que mereciam
o abuso. Acreditavam ser os donos do mundo — da terra roubada na América, da terra roubada em Xangai.
Aonde quer que fossem — privilegiados.
E Juliette estava farta daquilo.
— Todos ficam magoados — disse, com amargura. —
Enquanto ele estiver aqui, pode ter esse gostinho pelo menos uma vez na vida. Ele não merece o poder. Não é dele por direito.
— Eu sei — disse Lorde Cai, simplesmente. — Toda a China sabe. Mas o mundo funciona assim agora. Enquanto ele tiver poder, precisamos dele. Enquanto ele possuir mais armas, detém o poder.
— Não é como se nós não tivéssemos armas — Juliette resmungou mesmo assim. — Não é como se Xangai não tivesse ficado sob nossas mãos de ferro pelo último século, por meio de nossas armas.
— Um dia, isso bastou — retrucou Lorde Cai. — Hoje, não mais.
Os franceses precisavam deles, mas a Sociedade Escarlate não precisava dos franceses na mesma medida. O que seu pai queria dizer, na verdade, era que eles precisavam do poder francês — precisavam se manter bem vistos por eles.
Se a Sociedade Escarlate declarasse guerra e tomasse de volta a Concessão, transformando-a novamente em território chinês, seriam destruídos em questão de horas.
Lealdade e hierarquia de máfia de nada valiam contra navios de guerra e torpedos. As Guerras do Ópio provaram isso.
Juliette emitiu um ruído de nojo. Observando a expressão austera de seu pai, suspirou e mudou de assunto, voltando ao que era importante.
— Não importa. Não ouvi nada de relevante destes homens.
Lorde Cai anuiu.
— Isto é oportuno. Significa que teremos menos problemas. Vá se divertir.
— Claro — disse Juliette. Com isso, quis dizer “vou comer e ir embora” . Ela avistara Paul Dexter passando pelos portões.
O rapaz procurava por alguém em meio as pessoas. —
Ficarei escondida — Juliette tossiu. — Perdão. Ficarei perto daquela árvore.
Infelizmente, apesar da velocidade em que Juliette caminhava, ela não foi rápida o bastante.
— Senhorita Cai, que surpresa agradável.
Chegando à mesa do bufê, Juliette pôs a clutch sobre ela e, com elegância, pegou um pastel de nata. Deu uma mordida pequena e virou-se, encarando o pão dormido em forma humana.
— Como vai? — perguntou Paul. Ele uniu as mãos nas costas, esticando o tecido azul de seu terno sob medida. Ele também não usava máscara. Seus olhos verdes piscavam sem parar para ela, refletindo as luzes douradas sobre ambos.
Juliette deu de ombros.
— Bem.
— Excelente, excelente — grasnou Paul. Ela não entendia por que ele reagia com tanto entusiasmo à sua réplica indiferente. — Permita-me dizer, é com muita…
— O que você quer, Paul? — interrompeu Juliette. — Eu já disse que não quero negócios com vocês.
Inabalável, Paul apenas aumentou seu empenho e pegou Juliette pelo cotovelo para afastá-la da comida. No fundo de
sua mente, ela pensou em atirar nele, mas, como estava em uma festa com centenas de estrangeiros ricos se misturando, decidiu que essa provavelmente não era a melhor coisa a se fazer. Ela tensionou o braço, mas deixou que Paul a levasse.
— Apenas conversar — disse ele. — Levamos nosso empreendimento a outros comerciantes. Não se preocupe.
Não tenho mais intenções de incomodar a Sociedade Escarlate.
Juliette sorriu com doçura. Seus dentes rangiam com força.
— Então, se esse é o caso, por que você está me incomodando?
Paul sorriu docemente de volta, mas sua expressão pareceu genuína.
— Talvez eu queira o seu afeto, lindeza.
Eca. Ela apostaria todas as economias que acumulara na vida que ele apenas a achava bonita por ser aceitável aos padrões ocidentais. Sua beleza feminina era um conceito tão efêmero quanto o poder. Se ela se bronzeasse, ganhasse peso e deixasse algumas décadas passarem, os artistas de rua não mais usariam sua face como modelo para vender cremes. Tanto os padrões de beleza chineses quanto os norte-americanos eram coisas arbitrárias, patéticas. Mas Juliette ainda precisava manter-se na linha, forçar-se a segui-los para que as pessoas a admirassem.
Sem sua aparência, a cidade se viraria contra ela. Diria que ela não era tão competente assim. Os homens, por sua vez, podiam ter a pele mais escura, ser mais gordos, ou tão velhos quanto quisessem. Isso não influenciava em nada o que as pessoas achavam deles.
Juliette desvencilhou o braço de Paul, se virando para voltar ao bufê.
— Não, obrigada. Meu afeto não pode ser conquistado por alguém tão tacanho.
Um passa-fora completo. Juliette pensou que seria deixada em paz quando pegou um drinque. Mas Paul era persistente. Ela já ouvia sua voz atrás de si outra vez.
— Como está seu pai?
— Está bem — retrucou Juliette, mal conseguindo conter a irritação que queria escalar por suas palavras. Por traquejo social, perguntou, com voz leve. — E o seu?
Juliette era a rainha das socialites. Ela tinha muita prática nisso. Se quisesse, poderia ter feito seu ligeiro e polido sorriso adquirir megawatts de potência, cruzando o rosto de orelha a orelha. Mas ela não acreditava que Paul tinha alguma informação, e se vincular a ele parecia sem sentido.
Talvez Paul soubesse disso. Talvez fosse mais esperto do que Juliette pensava. Talvez ele tivesse de fato detectado o desconforto dos dedos tamborilantes da jovem, bem como seu pescoço se movendo incessantemente para outras direções.
Então ele se fez útil.
— Meu pai e eu começamos a trabalhar para o Larkspur —
disse Paul. — A senhorita já ouviu falar dele?
O Larkspur. Ela interrompeu o tamborilar de seus dedos no meio do movimento. Lā-gespu. Larkspur. Era isso que o velho no Chenghuangmiao estava tentando dizer. Ouvir um lunático gritar sobre uma figura misteriosa, alegando que havia recebido a cura para os surtos, não era fato digno de atenção. Ouvir menções à mesma figura misteriosa duas vezes em alguns dias era estranho. Ela focou os olhos
adequadamente no galanteador britânico à sua frente, pela primeira vez constantes.
— Ouvi algumas coisas por aí — respondeu Juliette, vagamente. Ela inclinou a cabeça. — O que vocês fazem?
— Afazeres simples, na maior parte das vezes.
Agora quem estava sendo deliberadamente vago era Paul.
Juliette via as linhas de seu sorriso esnobe, os arcos de suas sobrancelhas se aproximando, e o leu completamente. Ele queria atenção por seu envolvimento com o Larkspur, mas não podia dar informações. Ficaria dando migalhas do que sabia, mas não revelaria nada somente pelo prazer das fofocas.
— Afazeres simples? — repetiu Juliette. — Não consigo imaginar que haja muito a fazer.
— Ah, é aí que a senhorita se engana — disse Paul, inflando o peito. — Larkspur criou uma vacina para os surtos. Há comerciantes aos montes correndo para adquiri-la, e a logística de uma realização tão grande requer um exército de operários.
— Seu salário deve ser fantástico — disse Juliette, notando a corrente de um relógio de bolso de ouro encoberto por uma de suas botoeiras.
— Larkspur está sentado em pilhas e pilhas de dinheiro —
confirmou Paul.
Então esse tal de Larkspur está tirando proveito do pânico que os surtos estão causando? — ponderou Juliette — Ou ele realmente tem uma vacina que vale o dinheiro desses comerciantes?
Juliette poderia ter verbalizado seus pensamentos, mas Paul estava muito à vontade para lhe dar uma resposta verdadeira. Ela apenas perguntou, sem rodeios:
— E Larkspur tem um nome?
Paul deu de ombros.
— Se tem, eu não sei qual é. Se a senhorita quiser, posso arranjar uma reunião com ele.
Com a proposta, Juliette ajeitou a postura, fitando-o por baixo de seus cílios maquiados, esperando a contrapartida.
— Embora eu deva dizer — prosseguiu Paul, apologético —
que ainda não estou em um escalão muito alto. A senhorita teria que ficar por perto um tempinho enquanto eu subo de posto…
Juliette mal conteve a revirada de olhos. Paul ainda tagarelava, mas ela parou de dar ouvidos. Ele estava apenas atrás da sensação de poder. Não era útil, afinal.
— Excusez-moi, mademoiselle.
Paul calou-se bruscamente enquanto a voz falava atrás de Juliette, dando a ela alguns maravilhosos segundos sem o seu blá-blá-blá. Ela agradeceu silenciosamente ao intruso francês, e então se arrependeu no momento em que se virou e encarou o loiro mascarado que estava diante de si.
Que inferno.
— Voulez-vous danser?
Embora Juliette pudesse sentir uma veia em sua testa latejar perigosamente, pulsando ao ritmo da raiva, aproveitou a oportunidade para escapar.
— Bien sûr — disse, brevemente. — À plus tard, Paul.
Juliette agarrou a manga de Roma e o arrastou para longe.
Seus dedos apertavam o tecido com tanta força que sua mão direita ficou dormente. O rapaz pensou que ela não o reconheceria só porque usava uma peruca loira e máscara?
— Você tem um último desejo? — sibilou Juliette, voltando ao inglês assim que Paul estava fora de alcance. Então,
percebendo todos os ministros e comerciantes britânicos à sua volta, mudou para o russo. — Eu deveria te matar agora. Que audácia!
— Você não ousaria — replicou Roma, com um russo rápido e agressivo. — Quer correr o risco de fazer a Sociedade Escarlate ficar conhecida como trogloditas violentos na frente destes estrangeiros apenas para se livrar de mim? O preço a pagar é muito alto.
— Eu — Juliette cerrou os lábios, engolindo em seco tudo que estava na ponta da língua. Eles pararam no meio da pista de dança, em meio a um grupo de casais que aumentava constantemente com a mudança da música. Os instrumentos de corda do quarteto estavam acelerando; a melodia era mais alegre, o ritmo, envolvente. Roma tinha razão. Juliette não ousaria, mas os estrangeiros eram a última coisa com que se preocupava. Juliette não ousaria porque não importava o quanto seu discurso era inflamado, ela ainda não conseguia separar o ódio fervente em seu estômago do repentino pico de adrenalina que vinha à tona quando ele estava próximo. Se seu corpo se recusava a esquecer o que Roma lhe representara no passado, como ela poderia fazer estes mesmos braços se rebelarem contra sua natureza e destruí-lo?
— No que você está pensando?
Quando Roma voltou a falar em inglês, Juliette olhou para cima. Os olhos de ambos se encontraram. Ela sentiu um arrepio nas costas de suas mãos. Em meio a tantas saias esvoaçantes, a paralisia de ambos começava a levantar suspeitas. Na verdade, Juliette pensava em como Roma conseguia não parecer suspeito aonde quer que fosse. Ele se movia muito bem. Se há quatro anos alguém lhe tivesse
dito que ele era um deus em forma humana, ela teria acreditado.
— Você não vale nada — respondeu Juliette, por fim.
Relutantemente, deu um passo à frente e ergueu a mão; Roma fez o mesmo. Não precisavam falar para fazer a saudação inicial. Eles sempre previam o que outro estava para fazer.
— Não mesmo, mas sou bom adivinho. Posso dar um palpite?
A música aumentou de volume, incentivando os casais à sua volta a se moverem com mais animação. Roma e Juliette foram forçados a girar juntos, com mãos estendidas, mas sem se tocarem, pairando, inconstantes; dançando, porque se misturar era necessário, mas desejando não fazer contato físico, desejando não fingir ser mais do que eram.
— O que você está fazendo aqui, Roma? — disse Juliette, direta. Ela não tinha forças para entrar na conversinha dele.
A uma distância tão íntima, ela mal conseguia manter a respiração uniforme, mal conseguia esconder o tremor que ameaçava balançar a mão estendida. — Creio que você não está arriscando sua vida apenas por causa desta dancinha.
— Não — respondeu ele, com segurança. — Meu pai me enviou — uma breve pausa. Somente então pareceu que Roma fazia esforço para proferir as próximas palavras. —
Ele propõe que a Sociedade Escarlate e os Rosas Brancas trabalhem juntos.
Juliette quase riu da cara dele. Ela se preocupava com o crescente número de mortos causados pela insanidade, sim, e temia outra explosão de surtos dentro de sua própria casa
— desta vez atingindo os de seu sangue, os que conhecia bem e guardava no coração. Mas isso ainda não acontecera,
e não aconteceria se Juliette conseguisse agir rápido o bastante — sozinha. Não importava se era muito mais eficiente com as duas organizações trabalhando juntas, fazendo uma cidade dividida se unir; ela não tinha a menor vontade de aceitar a proposta de Roma, e ele parecia pensar o mesmo.
As palavras que saíam da boca do rapaz eram uma coisa, mas sua expressão era outra. Seu coração também não queria
aquilo.
Mesmo
que,
trabalhando
juntos,
conseguissem unir os territórios, mesmo que isso trouxesse uma paz momentânea à disputa a fim de que descobrissem por que seus membros estavam sendo mortos, um por um, não era o bastante. Não era o bastante para aplacar o ódio e o sangue, para dar fim à fúria que Juliette vinha nutrindo em seu coração há quatro anos.
Além disso, por que Lorde Montagov, dentre todas as pessoas, proporia uma aliança? Ele era o mais odioso de todos. Juliette conseguiu imaginar apenas uma resposta, a mais provável: era um teste. Se Roma, que ele enviou para cá, retornasse com o aceite da Sociedade Escarlate, então Lorde Montagov saberia a dimensão do seu desespero. Os Rosas Brancas não queriam, verdadeiramente, trabalhar juntos. Só queriam saber o quão violento fora o golpe que a Sociedade Escarlate levou, e usar essa informação para dar um golpe ainda mais violento.
— Nunca — sibilou Juliette. — Volte correndo para casa e mande seu pai se danar.
Juliette se virou e rompeu a meia dança, mas então a música tornou-se uma valsa, e Roma a pegou pelo braço, puxando-a de volta até que a outra mão da jovem pousasse no ombro do herdeiro Rosa Branca, e a dele, a seu turno,
fosse parar em sua cintura. Antes que ela pudesse fazer algo, ele a conduziu à postura adequada, e estavam dançando, de peito colado.
Foi como estar em um transe. Por um momento ela se permitiu crer que tinham 15 anos de novo, girando no telhado do lugar em que gostavam de se esconder, dançando ao som do clube de jazz que vibrava sob seus pés. Memórias são criaturazinhas bestiais, afinal —
aparecem assim que farejam o alimento.
Ela odiava a maneira como se inclinava sobre ele, instintivamente. Odiava ter seu corpo seguindo a condução dele sem resistência. No passado, eram invencíveis. Quando estavam juntos, nada temiam; não quando estavam escondidos nos fundos de uma boate barulhenta, jogando baralho, nem quando inventaram a missão de se esgueirar por cada parque particular de Xangai, com Roma carregando debaixo do braço uma garrafa de uma bebida qualquer que Juliette roubara do bar de sua casa, dando risadinhas como uma dupla de idiotas.
Aquilo era muito nostálgico. O toque de Roma em sua cintura, sua mão envolvendo a dele — tão graciosas, mas ela sabia muito bem que as linhas da palma da mão de Roma estavam completamente encharcadas de sangue.
Linhas que aparentavam conter um texto sagrado, mas, na verdade, eram pura profanação.
— Isto não é certo — entoou Juliette.
— Você não me deu escolha — retrucou Roma. Sua voz estava tensa. — Eu preciso de sua cooperação.
A música ficou mais aguda e rápida e, enquanto Roma a girava, com a saia tilintando à melodia, a resistência de Juliette começou a retornar. Quando ela voltou para perto
dele, viu-se insatisfeita por deixar Roma conduzi-la. Apesar da postura, dos movimentos, dos passos, do ângulo das mãos — apesar de tudo na valsa que determinava que ela fosse o par subserviente, Juliette começou a ditar os passos.
— Por que você não dança com meu pai, então? —
perguntou ela, puxando uma lufada profunda de ar na iminência do próximo giro. — Ele é a voz da organização.
Roma resistia de volta. Apertava com firmeza a mão dela, os dedos da mão na cintura pressionando como se quisessem deixar impressões digitais no vestido. Se ela tivesse ouvido somente a voz dele, não teria percebido a pressão que ele sofria. Seu tom era manso, casual.
— Receio que seu pai me daria um tiro na cara.
— Ah, e você não acha que eu faria o mesmo? Parece que minha reputação não me precede.
— Juliette — disse Roma —, você tem o poder.
A música parou de repente.
E eles pararam também, do jeito que estavam — olho no olho, coração contra coração. Enquanto as pessoas em volta se separavam com leves risadas, trocando de par antes que a música recomeçasse, Roma e Juliette simplesmente ficaram ali, estáticos, ofegantes, peito subindo e descendo, como se tivessem se engalfinhado em combate corpo a corpo, não dançado uma valsa.
Afaste-se, Juliette disse a si mesma.
A dor foi quase física. Os anos os desgastaram, os envelheceram
em
monstros
de
faces
humanas,
irreconhecíveis perante fotos antigas. Mesmo assim, não importava o quanto desejava esquecer; para ela, era como se não houvesse passado tempo algum. Ela o fitava e ainda se lembrava do vazio terrível em seu estômago quando a
explosão aconteceu; podia ainda sentir o aperto na garganta que antecipava o massacre de lágrimas, ficando cada vez pior, até que ela desmoronasse contra a parede exterior de sua casa, segurando o grito com nada além da palma de sua mão envolta em uma luva de seda.
— Você precisa pensar a respeito — disse Roma, em voz baixa, como se qualquer ruído alto pudesse perturbar a bolha que se formara ao redor deles, pudesse pisotear aquele momento de estranheza e fazê-los voltar fervendo à superfície. — Dou minha palavra de que não é uma emboscada. É para prevenir o caos nas ruas.
Em uma ocasião, há muito tempo, nos fundos de uma biblioteca, com uma tempestade furiosa do lado de fora, Juliette perguntara a Roma:
— Você imagina como a vida seria se tivesse um sobrenome diferente?
— O tempo todo. Você não?
Juliette refletiu.
— Só às vezes. Então penso em tudo que perderia sem ele. O que eu seria se não fosse uma Cai?
Roma se apoiou nos cotovelos.
— Você poderia ser uma Montagov.
— Não seja ridículo.
— Muito bem — Roma se inclinou para tão perto que ela podia ver o brilho em seus olhos escuros, tão perto que podia ver sua face enrubescendo no reflexo de seu olhar. —
Ou então podíamos apagar os dois nomes e deixar toda essa besteira de Cai-Montagov para trás.
Agora ela queria despedaçar as memórias, lançá-las em um cuspe bem na cara de Roma.
Você dá sua palavra, mas sempre foi um mentiroso.
Ela abriu a boca, com as palavras que enxotariam Roma na ponta de sua língua. Então seu olhar foi parar em um borrão de movimento que se aproximava dele rapidamente e ela ficou lívida, cerrando firme a mandíbula.
Roma ficou completamente congelado quando sentiu a arma que Tyler apontava para sua cabeça.
— Juliette — disse Tyler; juntas às mangas frouxas de sua camisa, que tremulavam com o vento leve, suas mãos estavam perfeitamente firmes, sem o menor sinal de oscilação na empunhadura firme da arma —, afaste-se.
Juliette ponderou a situação. Seus olhos alvejaram um pequeno grupo de estrangeiros ao redor deles, escandalizados, com olhos arregalados e confusos.
Ela precisava controlar a situação imediatamente.
— Perdeu a noção? — vociferou Juliette, fingindo ultraje enquanto se afastava.
Tyler franziu o cenho.
— O que…
— Abaixe essa arma e peça desculpas a este gentil cavalheiro francês — prosseguiu ela. Pôs as mãos na cintura, como se fosse uma tia irritada de Tyler, em vez de uma jovem com o coração batendo tão forte que ameaçava arrebentar as costelas.
A expressão de Tyler foi de furiosa a perplexa, e depois furiosa de novo. Ele estava caindo no truque. Estava funcionando.
— Tyler — ordenou Lorde Cai, de longe. — Abaixe a arma.
Agora.
— Este é Roma Montagov — disparou Tyler. Um casal de britânicos que estava atrás dele arquejou de espanto. — Eu tenho certeza. Conheço a voz dele.
— Não nos envergonhe agindo desta forma — alertou Juliette, em voz baixa.
Tyler respondeu forçando ainda mais o cano da arma no pescoço de Roma.
— Eu não vou tolerar um Montagov desfilando em nosso território. O desrespeito…
Então duas figuras saíram das sombras, já apontando as armas para Tyler, roubando-lhe o resto das palavras.
Benedikt Montagov e Marshall Seo nem se deram ao trabalho de usar disfarces. Se não foram reconhecidos, problema da Sociedade Escarlate. Afinal de contas, Juliette sabia que eles podiam aparecer. Sabia que Roma roubara o convite, que os Rosas Brancas saberiam da confraternização mesmo sem ele. E talvez também tenha sido culpa dela.
Talvez alguma parte traiçoeira de si quisesse que Roma aparecesse apenas para vê-lo. Esta parte de si — que sonhara com um mundo melhor, que amara sem cautela —
deveria estar morta.
Assim como monstros deveriam ser meras lendas. Assim como a cidade e todo seu brilho, tecnologia e inovação deveriam estar a salvo da insanidade.
— Parem — disse Juliette, inaudível até para si mesma.
Aquilo acabaria em um banho de sangue. — Parem…
Um grito ecoou pela noite.
Os ruídos confusos começaram imediatamente. Da confusão veio o pânico, e do pânico, o caos. Tyler não teve escolha a não ser abaixar a arma quando a britânica que estava a meio metro dele foi ao chão. Não teve escolha a não ser recuar rápido e dar espaço quando a mulher lançou as mãos ao pescoço alvo e delicado e o dilacerou.
Todos em volta.
Um, por um, por um, por um.
Eles caíram — Escarlates e comerciantes e estrangeiros.
Quem não foi infectado tentou correr. Alguns conseguiram chegar aos portões. Alguns sucumbiram assim que derraparam no pavimento fora dos jardins, surtos que começaram atrasados.
Os pulmões de Juliette estavam novamente retesados. Por que isso estava se espalhando tão rápido?
— Não — chorou Juliette, correndo até uma figura familiar no chão. Ela chegou ao Sr. Li antes que ele pusesse as mãos na garganta, prendendo o pulso dele com o joelho na esperança de impedi-lo.
A insanidade era forte demais. O Sr. Li tirou o braço debaixo dela com força e Juliette tombou, com o cotovelo escorregando na grama.
— Não! Não! — gritou ela, se projetando para a frente na tentativa de pará-lo novamente. Desta vez, as mãos dele fizeram contato com o pescoço antes que ela o alcançasse.
Desta vez, antes que ela pudesse se jogar em cima de seu tio favorito e forçá-lo a parar, alguém a segurou, mãos fortes que levaram Juliette de volta ao chão.
Juliette tentou, atrapalhada, puxar a faca oculta em suas costas, num instinto imediato de se defender.
Então, ouviu:
— Juliette, pare. Não estou te atacando.
Sua mão congelou e o choro ficou preso na garganta. Um arco de sangue voou alto pela noite, gotas caindo em seu tornozelo e seus pulsos, pontilhando sua pele como mórbidas joias carmesins. O Sr. Li parou de se mexer. Sua face paralisou-se em sua última expressão — terror — tão distante da gentileza a qual Juliette se acostumara.
— Eu podia tê-lo salvado — sussurrou.
— Não podia — disparou Roma imediatamente. — Você apenas teria se infectado tentando.
Juliette soltou uma pequena lufada de ar, surpresa. Fechou os punhos para esconder o tremor.
— Como assim?
— Insetos, Juliette — disse Roma. Ele engoliu em seco quando uma sequência de gritos aumentou de volume. — É
assim que os surtos se espalham: como piolhos, através dos cabelos.
Em um brevíssimo instante, os olhos de Juliette se arregalaram, e a teia de fatos em sua mente finalmente se conectou, traços tênues ligando ponto a ponto. Então, ela riu com amargura e levou uma das mãos à cabeça. Bateu na cabeça com ela, e um ruído seco, estalado, veio de seu cabelo, um som que fez parecer que ela batera em papelão.