Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 24 de 40

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Prazeres Violentos

Vinte e Dois

Marshall nem percebeu o desconforto da jovem.

Prosseguiu, gesticulando com a maçã na mão.

— Assim como aqueles Comunistas que estavam falando contigo querem achar a primeira oportunidade para derrubar o Secretário-Geral deles.

Kathleen reclamou, ofendida.

— Você estava escutando minha conversa?

— Estava, e daí?

As abordagens pareciam estar diminuindo agora. Havia uma linha reta dali até a porta e, então, Kathleen teria sua liberdade, escapando com a informação recém-adquirida amarrada ao peito.

Pena que, agora, os Rosas Brancas também a tinham.

— Cuide da sua vida — vociferou Kathleen.

Antes que Marshall Seo pudesse roubar mais alguma coisa, ela saiu dali.

Vinte e dois

Amanhã virou meio-dia com desânimo. Raios de luz cinzenta passavam pelas janelas sujas do cabaré.

Juliette abanou a fumaça de cigarro que serpenteava debaixo de seu nariz, fazendo uma careta e segurando a tosse.

— O aquecedor quebrou? — gritou Juliette. Sua voz alta se ouvia à distância. — Aumentem a temperatura! E tragam mais gim!

Ela já vestia um longo casaco de pele, mais grosso que os livros de contabilidade do pai. Contudo, cada vez que as portas se escancaravam, um vento frio rodopiava para dentro e esfriava ainda mais o dia gélido.

— A senhorita já acabou com a garrafa toda? — comentou uma das garçonetes. Ela tinha um pano na mão e esfregava uma mesa próxima quando torceu o nariz na direção do frasco à frente de Juliette.

Juliette pegou a garrafa vazia, examinou seus detalhes delicados e a repousou novamente em cima de um panfleto.

Ela havia encontrado aquele fino pedaço de papel na rua antes de entrar ali. Mexera tanto nele que o canto do folheto agora estava amassado.

VACINE-SE, dizia o panfleto, em grandes letras. Bem no fim do papel, havia duas linhas com um endereço que ficava na Concessão Internacional de Xangai.

— Pare com esse julgamento, antes que eu te demita —

retrucou Juliette, com uma ameaça não muito convicta.

Então, cutucou um ajudante de cozinha que passava por perto — Vamos! Outra garrafa!

O ajudante correu para atendê-la. O público do cabaré durante o dia era escasso e, para os gangsteres que apareciam ali por aquelas horas, não havia nada a fazer senão vadiar e assistir à apresentação diurna e menos pomposa de Rosalind. À noite, todos os limites eram ultrapassados e Rosalind mergulhava na extravagância com muito can-can e chá-chá-chá. As luzes brilhariam em potência máxima e o movimento da pista seria suficiente para acender os candelabros, que reluziam a ouro contra o teto vermelho e nebuloso. Mas, enquanto o sol estava lá fora e eram poucas as pessoas dispersas nas mesas redondas, era como se o local estivesse hibernando.

Rosalind normalmente trabalhava duas horas durante o dia e evidentemente as odiava, como era possível perceber pela incapacidade de se concentrar. Do palco, ela erguera uma

sobrancelha

para

Juliette,

silenciosamente

perguntando por que a prima estava ralhando na plateia e, com isso, perdendo as primeiras notas da próxima canção.

— Bebendo à uma da tarde? — comentou Rosalind quando foi até Juliette, uma hora depois de ter finalmente encerrado seu número. Após sair de seu figurino chamativo e vestir um qipao verde-escuro, ela se deixou tombar na cadeira em frente a Juliette, mesclando-se ao verde forte do assento.

Apenas seus olhos negros se destacavam na luz branda.

Todo o resto era estranho e cinza.

— Bom, estou tentando.

Com destreza, Juliette encheu um copo até a metade e o ofereceu a Rosalind.

Rosalind tomou um gole. Fez uma careta tão feia que seu queixo, normalmente pontudo, tornou-se triplo.

— Isto é horrível — tossiu, limpando a boca. Então ela olhou em volta, observando as mesas vazias. — Você vai encontrar alguém aqui de novo?

Um comerciante, Rosalind palpitava, ou talvez um diplomata estrangeiro, um executivo — pessoas poderosas com as quais Juliette devia manter contato. Porém, desde Walter Dexter, que fora uma peste mais do que qualquer coisa, seu pai não mandara que se encontrasse com mais ninguém. Ela tinha apenas uma missão: descobrir por que o povo de Xangai estava morrendo.

— Todas as vezes que bato na porta de meu pai para perguntar se há alguém importante para bajular, ele me enxota assim — Juliette imitou com exagero a expressão ocupada do pai, agitando o pulso rapidamente no ar como se sua mão fosse de alface.

Rosalind segurou uma risada.

— Então você não tem coisa melhor para fazer?

— Eu estou apenas passando um tempo absorta em seu talento — respondeu Juliette. — Estou tão entediada dessas pessoas comuns que não sabem a diferença entre um dropkick e um flat kick…

Rosalind fechou a cara.

— Nem eu sei a diferença. Estou quase certa de que você acabou de inventar esses termos.

Juliette deu de ombros e então entornou o resto de sua bebida. A resposta que deu era verdadeira. Ela apenas precisava ser vista no cabaré por tempo o bastante para não levantar suspeitas quando o crepúsculo viesse e ela saísse para encontrar Roma às escondidas.

Ela sentiu um calafrio. Encontrar Roma às escondidas. Era muito nostálgico. Uma ferida tão antiga, mas ainda aberta e dolorida.

— Você está bem?

Rosalind tomou um susto.

— Por que não estaria?

A maquiagem estava bem aplicada, mas Juliette também passava um bom tempo toda manhã mexendo em seus potes e frascos. Sem que fosse preciso olhar mais de perto, ela conseguia dizer onde Rosalind havia emplastrado mais cremes e pó e traçar a linha exata onde sua pele de verdade acabava e uma camada falsa começava a cobrir as sombras e olheiras.

— Eu fico preocupada por você não estar dormindo —

respondeu Juliette.

Elas ouviram um barulho alto à esquerda. A garçonete que estava limpando a mesa derrubara um castiçal.

Rosalind balançou a cabeça negativamente — poderia ter sido um gesto tanto de desaprovação à garçonete quanto em resposta a Juliette.

— Eu estou dormindo, mas não direito. Fico tendo sonhos com esses insetos — ela sentiu um calafrio e então se inclinou para a frente. — Juliette, eu me sinto impotente por estar parada enquanto a cidade desmorona. Deve haver algo que eu possa fazer…

— Relaxe — disse Juliette, gentilmente. — Não é o seu trabalho.

Rosalind pôs as duas mãos na mesa e cerrou a mandíbula.

— Eu quero ajudar.

— Me ajude dormindo bem — Juliette tentou dar um sorriso. — Nos ajude dançando com todo o seu lindo

resplendor para que possamos esquecer, mesmo que por alguns minutos, que as pessoas estão saqueando lojas e ateando fogo nas ruas.

Para que pudessem esquecer que a insanidade golpeava cada canto da cidade, que aquilo não era uma força que policiais, gangsteres ou poderes colonialistas podiam enfrentar.

Rosalind não respondeu por um longo período. Então, para choque de Juliette, indagou:

— É só para isso que sirvo?

Juliette sobressaltou-se.

— Como é?

— Devem estar dizendo por aí que eu nem mesmo sirvo para ser uma Escarlate — lamentou Rosalind. Sua voz era quase irreconhecível, atravessada por um caco de vidro. —

Tudo o que sou é isso, uma dançarina.

— Rosalind — Juliette também se inclinou para a frente, estreitando os olhos. De onde veio isso? — Você é uma dançarina, sim. Mas uma do círculo interno Escarlate, a par de reuniões e correspondências nas quais nem mesmo seu próprio pai pode meter o nariz. Como você pode duvidar se é ou não uma Escarlate?

Todavia, os olhos de Rosalind estavam assombrados. A amargura deu lugar à angústia, e a angústia devorou seu semblante até que ela estivesse com o olhar fixo à sua frente, derrotada. Deparar-se com o monstro a afetara mais do que ela deixara transparecer. A visão lhe causara longas noites e crises, e agora ela questionava tudo aquilo em que sua vida se fundara, o que era perigoso para alguém como Rosalind, cuja mente já era um eterno sepulcro.

— É que às vezes me parece injusto — disse Rosalind, em voz baixa — que você possa ser dessa família e isso lhe dá uma cadeira cativa na Sociedade Escarlate, mas eu sou uma dançarina ou não sou nada.

Juliette piscou, atônita. Não havia nada que pudesse dizer àquilo. Nada além de:

— Eu… sinto muito — Juliette estendeu a mão, repousando-a sobre a da prima. — Quer que eu fale com meu pai?

Rosalind rapidamente balançou a cabeça, recusando, e riu uma risada quebradiça.

— Por favor, não se incomode — disse Rosalind — Eu só…

eu não sei. Não sei o que há de errado comigo. Preciso dormir mais — ela ficou de pé, apertando forte a mão de Juliette antes de soltá-la. — Preciso ir para casa agora e descansar se quiser ficar bem para o turno da noite. Você vem?

Ela não viria, mas também não queria deixar Rosalind partir quando ainda parecia haver um conflito ali — um conflito entre elas — que não estava resolvido. Era angustiante. Os pelos da nuca de Juliette agora estavam eriçados como se ela e a prima tivessem brigado, mas ela não conseguia dizer onde o atrito começara. Talvez tenha sido só imaginação. Os olhos de Rosalind agora estavam límpidos, injetando mais ânimo em si mesma. Talvez aquilo tenha sido apenas um breve momento de crise interna.

— Vá — respondeu Juliette, finalmente. — Eu ainda tenho um tempinho para matar.

Anuindo com a cabeça, Rosalind sorriu novamente. Ela saiu pela porta e outra corrente de ar frio entrou, desta vez fazendo Juliette tremer tão forte que ela enfiou todo o

pescoço dentro do casaco, tornando-se uma garota engolida pela pele. Agora não havia nem mesmo uma apresentação para mantê-la entretida. Não tinha escolha senão ficar de olho em seus Escarlates.

— Há quanto tempo você está esfregando essa mesa? —

indagou Juliette.

A garçonete olhou para ela, suspirando.

— Xiǎojiě, as manchas são persistentes.

Juliette ficou de pé em um pulo e bateu os saltos no chão.

Estendeu a mão para o pano de limpeza.

A garçonete piscou os olhos, confusa.

— Senhorita Cai, não é adequado para a senhorita sujar as mãos…

— Passe para cá.

Ela passou. Juliette amassou o pano em seu punho. Em três movimentos rápidos e violentos — a mão indo à mesa com tanta força que fez barulho — a superfície estava limpa e brilhando.

Juliette deu o pano de volta.

— Force com os cotovelos. Não é difícil.

— Estava aqui pensando…

Benedikt ergueu os olhos de seu bloco de desenho, forçando a vista para focar no rosto de Marshall. Era um dia nublado, mas havia um fulgor ofuscante brilhando através das nuvens e jorrando pela sala de estar. O resultado era um céu terrivelmente deprimente sem o conforto da chuva forte.

— Sou todo ouvidos.

Marshall se jogou no grande sofá, empurrando sem cerimônia as pernas de Benedikt para o lado. Ele fingiu não

ouvir o ruído de protesto de Benedikt, não se movendo mesmo quando quase se sentou bem em cima do pé descalço do amigo.

— Você não acha que é um tanto estranho que Lorde Montagov esteja nos mandando em tantas missões Escarlate ultimamente? Como ele está conseguindo essas informações?

— Não é estranho — o foco de Benedikt voltou ao movimento do lápis em papel áspero. — Temos espiões na Sociedade Escarlate. Sempre tivemos. E eles certamente têm espiões em nossas fileiras também.

— Temos espiões, claro, mas não a esse nível — respondeu Marshall. Ele sempre parecia muito sombrio quando tentava se concentrar. Benedikt achava aquilo um pouco engraçado, para ser franco. Não combinava com Marshall; era como um bobo da corte usando um terno de três peças.

— O quê? Você acha que conseguimos nos infiltrar no círculo interno deles? — Benedikt balançou a cabeça negativamente. — Saberíamos se fosse o caso. Quer parar de se contorcer como uma minhoca?

Marshall não parou. Parecia que ele estava tentando se acomodar, mas as almofadas do sofá iriam se soltar e pular se ele continuasse fazendo aquilo. Por fim, se ajeitou e apoiou o queixo no punho.

— É que ultimamente a informação tem sido muito precisa

— disse Marshall, com uma pitada de espanto entrando em sua voz. — Ele soube o horário do baile de máscaras antes de Roma. Nessa manhã me mandou atrás de Kathleen Lang e tinha a localização exata dela. Como seu tio está fazendo isso?

Benedikt ergueu os olhos de seu desenho e depois voltou a baixá-los, fazendo o lápis mover-se em um arco veloz.

Uma linha de um maxilar encontrando o traço de um pescoço. Um borrão sombreado tornou-se uma covinha.

— Lorde Montagov o mandou ir atrás de Kathleen Lang? —

indagou ele.

Marshall se inclinou para trás.

— Bem, ele não mandaria você ou Roma a uma plenária Comunista. Você fala a língua deles, mas seu rosto não se mistura tão bem quanto o meu.

Benedikt revirou os olhos.

— Sim, disso eu sei. Mas por que estamos seguindo Kathleen Lang agora?

Marshall deu de ombros.

— Não sei. Suponho que queremos as informações que ela conseguir — disse, olhando o clima do lado de fora com atenção. Um momento de silêncio passou, sem nenhum som exceto o sombreado veloz do coto de lápis de Benedikt.

— Devemos voltar à nossa busca por uma vítima viva hoje? — perguntou Marshall.

Benedikt supunha que sim. Estavam ficando sem tempo.

Alisa contava com eles e, se ainda tinham terreno a exaurir para encontrar a cura, não deviam ao menos tentar?

Suspirando, Benedikt jogou o bloco de desenho na mesa.

— Acho que sim.

— Você pode voltar a desenhar quando falharmos e encerrarmos o expediente — prometeu Marshall. Ele esticou o pescoço para olhar o bloco de desenho. — Mas meu nariz não é tão grande assim.

Ao pôr-do-sol, Juliette se esgueirou para fora do cabaré com a cabeça baixa e o queixo enfiado no colarinho. Era tanto um esforço para não ser vista quanto para suportar o ar gélido — uma ventania que alfinetava sua pele em cada ponto de contato. Ela não sabia o que houve naquele dia que trouxe o inverno precoce com tanta força.

— Pãozinho, pãozinho quente por dois centavos! Coma agora, tá quentinho…

— Mocinha, mocinha, olha o peixe na pechincha…

— Vem ver o futuro na palma da sua mão! Xiǎojiě, você tá precisando…

Juliette fazia curvas para a direita e para a esquerda na feira, olhando para os sapatos. Ela puxou o capuz do casaco até que a maior parte de seu cabelo estivesse enterrada nas peles e a maior parte de sua face, engolida por penugem.

Não que fosse perigoso ser reconhecida — ela tinha dez mil desculpas na manga para responder aonde ia, mas não estava a fim de ficar tecendo mentiras. Aquela cidade era uma velha amiga. Ela não precisava olhar em volta para encontrar o caminho. Por aqui, por ali, por aqui e por ali, logo ela estava passando pela Avenida Eduardo VII, finalmente erguendo a cabeça e preparando o rosto para encarar o frio e procurar por Roma.

Todo o movimento ao longo daquela rua seguia em uma direção — o Grande Mundo. Não era muito justo chamar o lugar de parque de diversões, como Juliette costumava fazer. Melhor dizendo, era um complexo de entretenimento coberto, com todas as coisas da Terra. Espelhos distorcidos, acrobatas na corda bamba e barraquinhas de sorvete se juntavam em uma cacofonia de movimento que servia para drenar um dia de sua vida e todo o dinheiro de sua carteira.

A atração principal era a ópera chinesa, mas Juliette nunca gostou muito dela. Os mágicos eram os seus preferidos, mas ela não entrava no parque há anos, e agora todos os mágicos com os quais se familiarizara provavelmente saíram dali ou foram substituídos.

Suspirando, Juliette examinou os cinco ideogramas chineses gigantes que estavam diretamente acima do Grande Mundo. Ardiam contra o brilho do sol poente, iluminados por trás com a mais leve linha laranja flamejante.

Cigarros… brancos… dragão… dourado, ela traduziu, e o ato foi mais confuso do que deveria ser. Ela esqueceu por um curtíssimo instante de ler da direita para a esquerda em vez da forma ocidental com a qual se acostumara nos últimos anos.

— Foco — murmurou para si mesma.

A atenção errante de Juliette então voltou-se para o jorro de rostos indo e vindo das portas do Grande Mundo. Ela vasculhou cuidadosamente — examinando as massas na noite que caía rapidamente enquanto seguiam anúncios ruidosos que apontavam para cada vício prontamente disponível — até que seu olhar chegou à frente de uma loja de roupas. Apoiado em uma placa, Roma estava com as mãos enterradas nos bolsos, com olheiras profundas.

Juliette foi até ele, com os sapatos silenciosos sobre o cascalho, para variar. Já se preparava para brigar com ele por estar tão longe do prédio e dificultar que ela o localizasse. Apenas quando se aproximou, algo na expressão dele a interrompeu antes mesmo de começar.

— O que foi…

— Não olhe para trás — disse Roma —, mas você foi seguida.

— Não fui.

A negação veio rápida e firme, embora fosse mais um ato de rebeldia de sua parte do que certeza efetiva. Enquanto falava, seu primeiro instinto foi se virar e provar que Roma estava enganado, mas a lógica a orientou que se contivesse. Manteve-se imóvel, com todos os tendões do pescoço rígidos. Ela de fato estava perdida em pensamentos enquanto trilhava seu caminho, concentrada em manter a face oculta dos que estavam à vista, em vez de observar com a visão periférica se havia alguém à espreita. Será que fora perseguida?

— Um homem branco parou na mesma hora que você — disse Roma. — Ele tirou um jornal do bolso e começou a lê-lo no meio da rua. Não sei o que você acha, mas, para mim, parece muito suspeito.

Juliette começou a fuçar o bolso, xingando inaudivelmente.

— Ele pode não ser uma ameaça — insistiu ela. — Talvez seja um dos seus, monitorando as suas ações.

— Ele não é russo — rebateu Roma, imediatamente. — a roupa e o corte de cabelo apontam para britânico, e não temos nenhum deles em nossas fileiras.

Juliette finalmente encontrou o que procurava e puxou seu pó facial. Abriu a caixinha e o espelho que havia nela no ângulo certo para observar as ruas escurecendo sem que precisasse se virar.

— Achei — relatou Juliette. — Lenço amarelo no bolso da frente?

— Esse aí — respondeu Roma.

Ela não sabia como Roma havia identificado o perseguidor como britânico. Ele parecia um estrangeiro qualquer na rua.

Juliette olhou com mais atenção pelo espelho. Mudou o ângulo devagar, devagar…

— Roma — disse, aumentando a voz. — Ele tem uma arma.

— Todo estrangeiro nessa cidade tem uma…

— Ele está apontando para nós — cortou Juliette. —

Acabou de sacá-la por detrás do jornal.

Um silêncio tenso caiu entre ambos enquanto pensavam desesperadamente no que fariam. Ao redor deles, Xangai continuava se movendo, viva, vibrante e despreocupada.

Mas Roma e Juliette não podiam se misturar à multidão sem serem seguidos para onde quer que fossem em seguida.

Não havia esconderijo onde pudessem se ocultar e desaparecer, nem lugar algum para sacar armas sem que o britânico visse e atirasse primeiro.

— Desamarre o casaco e me abrace — disse Roma.

Juliette se engasgou com a risada repentina. Esperou o clímax da piada chegar, mas Roma estava falando sério.

— Você está de brincadeira — disse.

— Não estou, não — rebateu Roma, tranquilo. — Venha, aí eu consigo atirar nele.

O perseguidor britânico estava a mais de cem passos de distância. Havia dúzias de civis indo e vindo entre eles.

Como Roma esperava acertá-lo em meio a tudo isso enquanto abraçava Juliette?

Juliette deu um puxão na fita ao redor de sua cintura, afrouxando o casaco e erguendo o braço simultaneamente.

Na outra mão, fechava o espelho, perdendo a visão de seu perseguidor.

— Espero que saiba o que está fazendo — sussurrou. Seus pulmões estavam apertados. Seu coração, um violento tambor de guerra.

Ela passou os braços ao redor do pescoço de Roma.

Juliette ouviu-o tomar fôlego. Uma inalação breve, dificilmente perceptível se ela não estivesse tão perto.

Talvez ele não tenha considerado o fato de que pedir a Juliette para acobertar seus movimentos significava ficar tão próximo a ela. Ele certamente não esperava que o queixo dela automaticamente se encaixasse no vão em que seu ombro encontrava o pescoço, como costumava encaixar.

Os dois haviam crescido e criado espinhos. Mesmo assim, Juliette se encaixou muito facilmente — facilmente demais para o gosto dela.

— Chegue mais perto — instruiu Roma. Ela sentiu o braço dele se movendo, pegando a pistola por trás da cobertura do casaco dela enquanto a vestimenta ondulava nos flancos de ambos por causa do vento.

Juliette lembrou-se de quando Roma jurou-lhe que nunca pegaria uma arma. Ele nunca se sentira confortável ao toque de armamento automático como ela. Naqueles poucos meses que ela passara em Xangai aos 15 anos, Roma não vivera a mesma vida que ela. Enquanto ele trabalhava sob o confortável título de herdeiro dos Rosas Brancas, Juliette lutava para ser notada, agarrando-se a cada palavra de seu pai, temendo que perder uma única instrução a levasse ao obscurantismo.

Não podemos nos dar ao luxo de ter misericórdia, Juliette.

Veja esta cidade. Veja a fome que se contorce sob a camada de glamour.

A tática pedagógica favorita de seu pai era levá-la até o sótão da casa para que pudessem fitar da janela mais alta o centro da cidade no horizonte.

Impérios podem cair em questão de poucas horas. Este não é diferente. Aqui em Xangai, quem atira primeiro tem a melhor chance de sobreviver.

Juliette aprendera a lição. Parecia que Roma aprendera o mesmo nos anos em que ela esteve fora.

— Não erre — sussurrou Juliette.

— Eu nunca erro.

Um bang estourou no espaço entre eles. Juliette imediatamente deu meia-volta para ver o britânico caindo bem onde estava, com um ponto vermelho vivo florescendo em seu peito. Havia um buraco fumegante no casaco de Juliette, mas ela mal notou. Sua mente estava nos gritos que soavam ao redor dela enquanto buscavam a origem do estampido, no irromper de movimento que se iniciou sobre os paralelepípedos.

Sons de tiro eram comuns em Xangai, mas nunca em um lugar tão lotado, nunca em um lugar do qual estrangeiros gostavam de se gabar para os amigos na terra natal. Sons de tiro pertenciam a gangsteres e conflitos ao longo dos limites territoriais, nas horas em que o demônio perambulava pelas ruas e a luz do luar descia do céu. Agora o momento era reservado à calidez do pôr-do-sol. Agora o momento era de fingir que Xangai não estava dividida em duas.

Mesmo assim, em meio ao caos, havia outros três pontos de absoluta calmaria.

Juliette não fora seguida por um homem. Fora seguida por quatro.

Então eles precisavam correr agora.

— O parque — comandou Juliette. Virou-se para Roma, fechando a cara diante de sua lentidão. — Vamos. Esta é a primeira vez em que eu preciso correr de um crime que cometi.

Roma piscou os olhos arregalados e incrédulos. Ele não parecia inteiramente presente enquanto mergulhavam na multidão, trombando contra a abundância de mãos e cotovelos que surgiam por todos os lados na tentativa de acharem um lugar seguro.

— Um crime que você cometeu? — repetiu Roma, suavemente. Juliette teve que se esforçar para ouvir. —

Quem atirou fui eu.

Juliette o ridicularizou, se virando.

— Você realmente precisa levar o crédito por— a frase morreu nos lábios dela. Ela pensou que Roma a estava corrigindo, assumindo a autoria do crime, mas então viu a expressão em sua face. Ela deixava tudo à mostra.

Ele não queria atirar.

Juliette desviou o olhar rapidamente, sacudindo a cabeça como se tivesse visto algo que não devia. Ali estava ela, pensando que ele finalmente havia se adaptado à arma e, no momento seguinte, ele a surpreendia com sua atuação.

Quanto daquele exterior era fachada? Juliette não havia considerado antes daquele momento que, enquanto Roma era tomado pelos rumores sobre a crueldade dela, talvez ela mesma tenha caído nessa armadilha, acreditando nos contos sobre a frieza glacial dele, originados dentro dos próprios Rosas Brancas.

Juliette franziu o cenho, agachando-se para passar por uma brecha entre dois guarda-sóis. Quando saiu do outro

lado, seus olhos vaguearam até Roma novamente — para sua mandíbula cerrada e seu olhar calculista.

Ela nunca parecia saber distinguir o que era real e o que não era quando se tratava de Roma Montagov. Pensou que o conhecia, e então não mais. Pensou que tinha se resolvido após a traição dele, marcando-o como perverso e sanguinário, mas parecia que ele não era assim.

Talvez não houvesse verdade. Talvez nada fosse fácil como uma verdade só.

— Rápido — disse Juliette, sacudindo a cabeça para limpar a mente.

Eles conseguiram entrar no Grande Mundo, parando na entrada para checar os perseguidores. Juliette olhou de relance por cima dos ombros e viu dois dos três homens que havia identificado antes; ambos empurrando a multidão, com olhos fixos nela. Moviam-se estrategicamente, sempre atrás de um civil, sempre de cabeça baixa. Roma a puxava pelo ombro para que seguisse em frente, mas ela procurava pelo terceiro, com a mão indo ao tornozelo.

— Onde ele está? — indagou.

Roma vasculhou a multidão e, depois de uma fração de segundo, apontou para a extremidade lateral, onde corria o homem, talvez buscando uma entrada alternativa para o Grande Mundo a fim de encurralá-los lá dentro.

Juliette sacou a pistola da meia. O homem estava prestes a sumir de vista.

Mesmo que Roma não fosse o herdeiro brutal que a cidade pensava, não significava que a reputação de Juliette fosse uma inverdade.

O homem que corria desabou quando a bala de Juliette lhe cravou o pescoço. Antes que a pistola parasse de fumegar,

Juliette já se virava e se enfiava prédio adentro.

Dentro do Grande Mundo, a maioria dos clientes não ouvira os tiros, ou simplesmente pensara que eram parte de algum brinquedo ou da atmosfera do parque. Juliette teceu seu caminho pela multidão, vendo seu breve reflexo com o canto do olho enquanto tentava passar pela seção de espelhos distorcidos.

— Como vamos despistar os outros dois? — indagou Roma.

— Siga-me — respondeu Juliette.

Eles passaram aos empurrões pela parte mais densa da multidão e saíram do prédio até o pátio central a céu aberto do Grande Mundo. Uma ópera estava a pleno vapor ali, mas Juliette estava ocupada procurando por outra entrada interna nas instalações do Grande Mundo, fitando freneticamente as escadarias externas que ziguezaguevam por todos os pisos. Juliette lançou-se novamente para frente, passou à força por uma família de cinco pessoas e então trombou com uma mulher que carregava uma gaiola de pássaro, sobressaltando-se quando a gaiola foi ao chão ruidosamente e o pássaro deu um grasnado de morte.

— Juliette — alertou Roma, de trás. — Cuidado.

— Se apresse — disparou Juliette em resposta.

A cautela dele o deixava mais lento. Juliette viu em um lampejo um perseguidor passando pela seção dos espelhos.

O outro se chocou contra um exasperado escriba de cartas de amor que estava saindo dali.

— Aonde estamos indo? — bufou Roma.

Juliette apontou para as escadas largas e brancas que se assomavam à vista.

— Para cima — disse. — Rápido, rápido; não, Roma, abaixe!

No momento em que começaram a subir as escadas, se elevando sobre a multidão, os perseguidores conseguiram uma linha de tiro. Balas ricocheteavam pelo espaço amplo, fazendo Juliette subir três degraus por vez.

— Juliette, eu não estou gostando disso! — gritou Roma.

Suas passadas eram mais pesadas que as dela, então ele subia quatro degraus por vez para acompanhá-la.

— Essa também não é a minha ideia de diversão —

retrucou Juliette, também gritando, chegando aos tropeços no segundo piso e disparando novamente para o centro do edifício circular. — Vamos logo!

Aquele piso era ocupado por pessoas, não atrações: cafetões, atores e barbeiros, todos oferecendo seus serviços para quem os quisesse.

— Por aqui — disse Juliette, arfando. Ela correu pela fileira perplexa de extratores de cera e passou por duas portas vaivém.

— Aqui, aqui.

Juliette agarrou a manga de Roma, puxando-o furiosamente para dentro de araras com robes de bainha rendada.

— Vamos…? Vamos nos esconder? — sussurrou Roma.

— Por um tempo — respondeu Juliette. — Agache.

Eles se agacharam no meio das roupas, prendendo a respiração. Um instante depois, as portas se escancararam e os dois perseguidores restantes entraram, respirando ruidosamente na quietude do camarim.

— Veja aquele lado — um ordenou para o outro. Sotaque britânico. — Eu vou checar por aqui. Eles não podem ter ido longe.

Juliette viu os dois homens se dividirem, seguindo-os pelos pés, esperando até que os dois pares de sapatos estivessem separados a uma boa distância.

— Aquele é seu — sussurrou Juliette, apontando para o par de sapatos que chegava cada vez mais perto. — Mate-o.

Roma agarrou o pulso dela em um movimento rápido.

— Não — sibilou ele, baixinho. — São dois contra dois. Eles podem ser poupados sem danos.

Um ruído metálico soou pelo cômodo. Um dos homens tropeçara em uma arara de roupas.

Juliette puxou o pulso com força e então anuiu com a cabeça apenas para que não perdessem tempo discutindo.

Ela se esgueirou para frente. Enquanto o homem que ela havia designado a Roma parou perto dele, provavelmente vasculhando ao redor, o outro continuou andando e, para acompanhar seu ritmo, Juliette não teve escolha a não ser levantar e ser veloz, correndo pelas araras com as costas curvadas.

Ela não soube o que a revelou. Talvez o sapato tenha rangido, ou talvez sua mão tenha passado por um cabide que tilintou no metal, mas de repente o homem parou e deu meia-volta, atirando nas araras, e a bala passou do lado da orelha de Juliette.

Outro tiro próximo. Juliette não sabia se fora o outro homem ou Roma. Não sabia o que estava acontecendo, exceto que estava saindo em disparada das araras e mirando no homem, dependendo de um tiro certeiro em um milissegundo, antes que ele mirasse de novo.

O cano de sua arma fumegou. A bala cravou-se no ombro direito do homem e sua arma caiu no chão.

— Roma — chamou Juliette, com os olhos ainda fixos no inglês. — Pegou ele?

— Está inconsciente — respondeu Roma. Ele chegou mais perto, parando bem atrás de Juliette enquanto ela apontava a arma para a frente.

— Quem te enviou? — indagou ela ao último perseguidor.

— Eu não sei — o inglês respondeu rapidamente. Os olhos dele foram até a porta, voltaram ao cano da arma dela e novamente à porta. Ele estava a vinte passos da saída.

— Como assim, não sabe? — perguntou Roma, em tom de comando.

— Outros comerciantes espalharam um boato de que Larkspur daria uma grana para qualquer um que matasse Juliette Cai ou Roma Montagov — gaguejou o homem. —

Então nós tentamos. Por favor, só me deixem ir. Era bom demais para deixar passar, sabe? Pensamos que daria muito trabalho achar vocês separadamente, mas aí vocês apareceram juntos. A gente nem ia conseguir, mesmo…

O homem divagou. Pelo arregalar de seus olhos, parecia estar percebendo o que possuía nas mãos. Ele sabia. Sabia que Roma Montagov e Juliette Cai estavam trabalhando juntos. Vira o abraço deles. Isso era informação a ser levada para Larkspur; isso lhe dava poder.

O homem voou para a porta. Roma berrou em alerta — foi impossível saber se ele direcionou o berro ao inglês ou a Juliette — e correu enfurecido atrás dele, com uma das mãos esticada para tentar agarrar a gola do homem e jogá-lo de volta ao camarim como um saco de batatas.

Mas Juliette já havia puxado o gatilho. O homem caiu no chão, saindo do alcance de Roma em caráter definitivo.

Roma olhou para o homem morto. Por um brevíssimo instante, Juliette viu o choque marcar seus olhos arregalados, antes que piscasse uma vez e o suprimisse.

— Você não precisava matá-lo.

Juliette deu um passo para frente. Havia uma mancha de sangue de um lado da face pálida de Roma, traçando um arco que realçava a maçã de seu rosto à luz da lâmpada fraca.

— Ele teria nos matado.

— Você sabe — Roma ergueu os olhos com esforço, tirando-os do corpo — que ele foi arrastado para isso. Não teve escolha, como nós.

Certa vez, Roma e Juliette tinham inventado uma lista de regras que, se fosse seguida, tornaria a cidade algo tolerável. Não faria de Xangai gentil, apenas recuperável, porque era o melhor que podiam fazer. Gangsteres só deveriam matar outros gangsteres. Os únicos alvos justos seriam aqueles que escolheram a vida que levavam, os quais, Juliette perceberia mais tarde, incluía os funcionários

— criadas, choferes, Ama.

Lute sujo, mas lute bravamente. Não lute contra aqueles que não podem entender o significado da luta.

A Ama sabia exatamente a consequência de trabalhar para a Sociedade Escarlate. Este homem vira um leve brilho no chão, achou que era uma pepita de ouro e, em vez disso, mexeu em um vespeiro. Eles o deixariam ali, em uma poça de seu próprio sangue, e logo alguém entraria ali e o encontraria. O pobre funcionário que o descobrisse chamaria a polícia e as forças municipais iriam até ali com um suspiro cansado, olhando para o homem com menos emoção do que alguém que fita um campo de trigo morto —

insatisfeito com a perda que representava para o mundo, mas sem nenhum vínculo pessoal.

De acordo com todas aquelas velhas regras, os homens que os perseguiam deveriam ter sido poupados. Mas Juliette as descartou assim que perdeu o Roma antigo. Quando eclodiu o conflito, ela pensou em si, em sua própria segurança — não na de um homem que apontou uma arma para sua cabeça.

Mas trato ainda era trato.

— Tudo bem — disse brevemente Juliette.

— Tudo bem? — repetiu Roma.

Sem olhar direito para ele, Juliette puxou um lenço de seda do casaco e o passou adiante.

— Tudo bem — disse novamente, como se ele não tivesse ouvido da primeira vez. — Você disse para poupá-lo e, embora eu tenha concordado, mesmo assim agi em desacordo. Erro meu. Enquanto trabalharmos juntos, vamos nos ouvir.

Roma levou o lenço à face, lentamente. Ele o passou a centímetros de onde a mancha de sangue estava, limpando nada além da linha brutal de seu maxilar. Juliette achou que ele ficaria contente com suas desculpas mal elaboradas, que pelo menos assentiria com a cabeça, satisfeito. Em vez disso, seus olhos apenas ficaram mais distantes.

— Nós costumávamos ser muito bons nisso.

Um vazio formou-se no estômago de Juliette.

— O quê?

— Trabalhar juntos. Ouvir — e parou de limpar o rosto. Sua mão simplesmente ficou suspensa no ar, com a tarefa não determinada. — Costumávamos ser um time, Juliette.

Juliette caminhou para a frente e puxou o lenço da mão de Roma. Ela quase se sentiu insultada por ele ser tão estupidamente ruim em limpar uma simples mancha de sangue; em uma passada furiosa, ela sujou o branco de seu lenço com um vermelho vivo e a face dele estava novamente impecável.

— Nada daquilo — sibilou Juliette — foi real.

Havia algo horrível na distância que se encurtava entre eles — como a tensão de uma mola, ficando mais e mais comprimida. Qualquer movimento em falso poderia acabar em desastre.

— Claro — disse Roma. Seu tom era vazio. Seus olhos estavam elétricos, como se ele também estivesse se lembrando disso apenas agora. — Perdoe-me por esse descuido em particular.

Um momento tenso passou no silêncio: o lento retorno da mola à sua posição de repouso. Juliette desviou o olhar primeiro, movendo o pé de modo a não tocar na poça de sangue que se expandia pelo assoalho de madeira em putrefação. Aquela era uma cidade encoberta por sangue.

Era tolice tentar mudar isso.

— Parece que enquanto procuramos por Larkspur, o Larkspur chega mais perto de nós. — comentou ela, gesticulando na direção do morto.

— Significa que estamos indo a algum lugar — assentiu Roma, com segurança. — Estamos perto de salvar Alisa.

Juliette anuiu com a cabeça. De algum modo, parecia que o Larkspur sabia que eles estavam chegando. Contudo, se ele pensava que um punhado de comerciantes era o bastante para afugentá-los, se enganava redondamente.

— Nós precisamos achar o paradeiro dele antes que fique mais tarde.

Ela puxou o panfleto divulgando a vacinação, dobrando-o de modo que o endereço no fim da página estivesse à mostra. Distraída, ela usou a outra mão para limpar uma coisa que deixava uma sensação molhada em seu pescoço, se perguntando se uma mancha de sangue também caíra nela sem que percebesse.