Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 38 de 40

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Prazeres Violentos

Trinta e Seis

Mas os insetos, mesmo enquanto pousavam sobre ela, deslizavam para fora em questão de segundos. Os insetos caíam junto à água e planavam logo para fora dos braços que Juliette e Paul levantaram para se proteger, pois a vacina corria azul em suas veias, repelindo o ataque.

O final da erupção atingiu o chão. O ar ficou limpo. Os insetos foram embora pela calçada.

Juliette, com um arquejo desesperado, abaixou os braços.

— Roma — gritou.

Trinta e seis

Roma lançou as mãos ao pescoço.

Trinta e sete

Ainsanidade não acometia tão rápido as vítimas comuns, infectadas por apenas um inseto. Um se tornaria dez com o tempo, e dez se tornariam cem, até que um número suficiente tivesse se multiplicado dentro da vítima e assumido o controle. Mas Roma — Roma recebia todos de uma vez só, e de uma vez só eles estavam sobrepujando seus nervos, comandando-o a jorrar sangue.

Juliette tirou furiosamente uns poucos insetos teimosos de seu braço e empunhou firmemente sua pistola. Havia apenas um jeito de salvá-lo, apenas um jeito de acabar com tudo aquilo. Ela correu até o final do cais e procurou pelo monstro, não pensando em mais nada além de encontrar a coisa desgraçada e…

Ela devia ter prestado mais atenção ao perigo na retaguarda.

Sua cabeça colidiu com as placas de madeira do cais.

— Eu realmente não posso deixar você fazer isso, Juliette

— grunhiu Paul. — Por que nós simplesmente não…

Antes que Juliette pudesse recolher suas coisas, pudesse ao menos pensar em se levantar e mirar novamente, Paul deu um chute forte em seu estômago. Juliette caiu do cais principal, e seu corpo inteiro bateu na plataforma menor abaixo, que flutuava logo acima da água. Seus pulmões se agitaram. Com um esforço absurdo, ela tentou erguer sua arma, tentou lutar contra a tontura, mas então Paul saltou e

aterrissou de pé ao seu lado, chutando a arma de suas mãos e fazendo-a baquear de um modo patético.

— Sinto muito, Juliette.

Ele agarrou um punhado do cabelo dela e enfiou sua cabeça na água.

Juliette quase arquejou, mas abrir a boca faria com que engolisse a água suja, então manteve os lábios cerrados firmemente. Lutou para se desvencilhar de Paul, fazendo força para manter os olhos abertos mesmo quando a água rodopiava com o horrendo tom preto dos insetos submersos.

Paul era muito mais forte do que sua fisionomia esguia transparecia. Os dedos em sua cabeça eram garras de aço.

— É por uma boa causa — Juliette mal conseguia ouvi-lo, embora ele estivesse ajoelhado a seu lado. Seus ouvidos estavam obstruídos pela água, com insetos impiedosos. —

Eu não quero te machucar, Juliette, mas você não me deu outra escolha. Eu tentei te salvar, Juliette. Tentei mesmo.

Juliette se debatia e dava coices, cada vez mais fortes, sem efeito. Ela devia ter atirado em Paul quando teve a chance. Ele não apenas tentava matá-la agora, mas tentava fazê-lo lentamente, para que ela morresse sabendo que Roma podia ter sido salvo. Para que ela morresse sabendo que falhou. Roma era forte, mas não conseguiria se controlar para sempre.

Talvez ele tenha sucumbido, cravando os dedos no pescoço. Talvez ele já estivesse morto.

Seu esforço era inútil. A ampola azul de Paul a salvara da morte pela insanidade. Agora, Paul decidiu que ela deveria mesmo ser descartada, em uma cova aquática.

A ampola azul, Juliette lembrou-se repentinamente. Paul tinha outra no bolso de seu casaco. E se ele tinha uma

ampola azul ali, será que havia chance de ele ter, também, outra seringa?

Juliette esticou a mão, tateando às cegas em busca da barra do casaco de Paul. A facilidade com que ela a encontrou era quase risível — a facilidade com que sua mão entrou bem na grande cavidade de seu bolso.

Frenética, no último fôlego dos pulmões, Juliette puxou a seringa para fora e a espetou no pulso de Paul.

Com um rugido, Paul afrouxou a mão, flexionando-a com a dor. Juliette sentou-se rapidamente, puxando o ar aos arquejos, mal parando para se recompor, mal parando para olhar para o cais e chorar por ver Roma lutando contra as próprias mãos enquanto elas se enterravam em sua garganta. Ela estava se erguendo sobre os joelhos com dificuldade, mergulhando sobre Paul antes que ele pudesse recuperar sua arma, prendendo-o pela cintura e jogando ambos na água.

O rio a atingiu com força, mas agora era Juliette quem estava no controle. Era Juliette quem estava por cima de Paul enquanto ambos afundavam, com um de seus braços ao redor da cintura dele, o outro segurando firme seu pulso.

Enquanto a espuma ao redor deles se dissipava, enquanto os olhos de Paul se abriam bruscamente para enxergar Juliette diante de si como um semideus vingativo, ela tomou a arma de sua mão.

Não, ele pensou. Havia completo horror em sua expressão.

Juliette.

Ela chutou o peito dele; ele recuou, agitando-se. Ela envolveu a arma com as duas mãos, apontou para a testa dele e, à queima-roupa, puxou o gatilho.

A água abafou a maior parte do barulho. A água não abafou o sangue.

Paul Dexter encontrou a morte com três olhos abertos — o terceiro era um choroso buraco de bala. A água ficou vermelha e Juliette nadou para cima, tossindo quando chegou à superfície, com olhar feroz enquanto procurava o próximo alvo do dia.

Ela encontrou o monstro imediatamente, porque ele já havia retornado ao cais principal.

Todavia, não era mais um monstro. Estava voltando à forma original; o processo estava incompleto. Seu rosto já havia voltado, mas a metade inferior de seu corpo ainda estava estranha, modificada e verde, e, quando o velho se ajoelhou ali, parecia que já havia desistido.

Juliette subiu na plataforma menor. Então, com a pistola nas mãos, voltou ao cais.

— Qi, Ren — chamou ela.

O monstro apático de Xangai virou-se para encará-la. O

velho também tinha o horror maculando seu semblante cansado, mas um tipo diferente daquele que paralisara Paul em seus momentos finais. Aquele era um horror a si mesmo

— a tudo que fora forçado a fazer e a tudo do que queria se livrar. Ele assentiu com a cabeça para ela. Juliette apontou a pistola. Suas mãos tremiam.

— Sinto muito — disse ela.

Novamente, puxou o gatilho.

A bala acertou seu coração. O tiro foi tão alto quanto a explosão do fim do mundo.

Em contrapartida, o suspiro de Qi Ren foi suave. Sua mão foi cuidadosamente ao peito, como se a bala não fosse nada além de uma saudação sincera. Filetes de vermelho

escorriam por seus dedos até o cais, tingindo seu entorno com uma coloração intensa.

Juliette chegou mais perto. Qi Ren havia ficado imóvel, mas não tombou. Algo estava acontecendo dentro dele.

Algo estava se movendo.

Uma protuberância apareceu em seu pulso esquerdo.

Juliette a viu migrar das veias para o antebraço do velho, até o espaço rígido entre o pescoço e o ombro. De repente, seu pomo-de-adão ficou do tamanho de uma maçã, forçando passagem contra a pele fina, cheia de vasos capilares.

A garganta de Qi Ren se abriu no meio. Simples assim, como se uma faca tivesse feito uma incisão, as abas de sua pele se escancararam e deflagraram um caos de sangue rubro enegrecido. Qi Ren caiu imediatamente. De sua garganta, um inseto tão grande quando o punho de Juliette voou para fora, se desprendendo das veias e dos tendões dos quais dependia.

Gritando, Juliette atirou — uma, duas, três vezes. Sua mente estava entrando em parafuso, seus instintos mais básicos tremiam violentamente. Ela errou duas de suas balas; uma acertou o inseto de raspão, fazendo-o cair de cabeça no cais. Por um instante, seu corpo circular e achatado correu pela superfície de madeira atrás de alguma coisa — qualquer coisa — em que pudesse se prender, dúzias de pequenas patas que lembravam cabelos microscópicos desesperados para encontrar um corpo.

Então, o inseto ficou imóvel e, quando finalmente parou de se contorcer, os outros insetos na água fizeram o mesmo.

Ela conseguia sentir a mudança. Parecia que o véu da morte havia sido retirado da cidade.

— Acabou — sussurrou Juliette. — Finalmente acabou.

Ela se virou lentamente. Procurou por um sinal de vida na outra ponta do cais.

— Roma?

Ela estava com muito medo de que ele não respondesse, com muito medo de se deparar apenas com o silêncio. Ela estava com muito medo de não o encontrar em lugar nenhum, de que ele tivesse sido levado há muito pelas águas que pintaram a cidade de vermelho.

Mas então seus olhos pousaram onde ele havia estado, o encontraram em posição fetal contra um carro parado no meio da larga estrada. Lentamente, ele retirou as mãos da garganta. Sangue escorria de seu pescoço.

Ela correu até ele, jogando a pistola fora. Ela mal podia respirar, mesmo quando suas mãos encontraram os ombros dele, agarrando-o com força para se assegurar de que ele era real, de que aquilo diante dela era a verdade, não a alucinação de uma mente quebrada.

— Estou bem — disse Roma, com a voz trêmula.

Ele quase chegou às vias de fato. Dez punções marcavam seu pescoço, profundas o bastante para deixar à mostra seu interior vermelho.