Prazeres Violentos
Vinte e Seis
Roma,
também
reconhecendo o nome.
— Não, não é isso — respondeu Juliette, cansada. —
Lernicrom. É a droga que Walter Dexter estava tentando vender em grande escala para a Sociedade Escarlate — ela fechou os olhos e depois os abriu novamente. — Ele é o fornecedor de Larkspur.
Vinte e seis
Na noite seguinte, Juliette estava enterrada bem fundo em sua mente.
Todas aquelas vezes em que ela enxotou Walter Dexter poderiam ter sido utilizadas para obter informações.
E agora pareceria suspeito se ela tentasse cair de novo em suas graças. Talvez por isso aconselhavam as pessoas a não fechar portas, mesmo as que levam a um comerciante inescrupuloso.
Juliette bateu na mesa com os kuàizi, enraivecida.
Suspeito ou não, ela precisava entrar em contato com Walter Dexter novamente sem levantar desconfiança. Ao pensar como fazer isso, não importava o caminho que desenhasse, todas as estradas pareciam levar até seu filho, Paul Dexter.
Ela quis se estrangular por causa disso.
Talvez eu não tenha que ir atrás dele, pensou Juliette, sem muita convicção. Talvez eu esteja apenas perseguindo fantasmas. Quem pode afirmar que ele sequer sabe de algo?
Mas ela precisava tentar. Tudo naquele caso bizarro era circunstancial. Só porque Walter Dexter era o fornecedor de Larkspur não significava que ele sabia mais do que eles sobre sua identidade e paradeiro. Só porque Larkspur estava produzindo uma vacina não significava que ele podia levá-los à cura destes surtos malditos.
Da mesma forma, também significava que Larkspur podia ter essa informação, assim como Walter Dexter.
Droga.
— Em que planeta você está?
Com a chamada ríspida de Rosalind, Juliette tirou os olhos da comida, se interrompendo pouco antes de seus kuàizi se fecharem inconscientemente no ar.
— Bem aqui — disse ela, franzindo o cenho quando Rosalind fez uma careta, indicando que não acreditava nela.
— É mesmo? — Rosalind gesticulou com o queixo do outro lado da mesa. — Então por que você ignorou o Sr. Ping quando ele pediu sua opinião sobre as greves dos operários?
A atenção de Juliette voltou-se para o Sr. Ping, um membro do círculo interno de seu pai que costumava perguntar sobre seus estudos sempre que a via. Se não estava enganada, um de seus assuntos favoritos era a astrologia; ele sempre tinha algo a sugerir sobre o posicionamento do zodíaco ocidental, e Juliette — mesmo aos 15 anos —
sempre tinha uma tirada sarcástica sobre o destino operar através da ciência e da estatística para rebatê-lo. Agora ele fazia bico do outro lado da mesa redonda, parecendo particularmente ofendido. Juliette se encolheu.
— Foi um longo dia.
— De fato — murmurou Kathleen, em concordância, do outro lado de Rosalind, massageando a ponte do nariz.
A barulheira do espaço privado era alta o bastante para competir com o resto do restaurante, do lado de fora. Lorde Cai estava no assento ao lado dela, mas aqueles jantares não eram oportunidades para discussões de pai-e-filha. Seu pai estava sempre muito ocupado com outras conversas
para dirigir uma única palavra a ela, e sua mãe estava cuidando da segunda mesa do local, conduzindo as conversas ali. Não era ambiente para diálogos pessoais. Era o horário nobre para membros do círculo interno da Sociedade Escarlate se acotovelarem, se gabarem e competirem entre si, bebendo até não poder mais para ganhar favores.
Tyler costumava ser um dos mais barulhentos naquelas mesas. Hoje, no entanto, ele estava ausente, cobrando aluguéis, assim como estivera nos últimos dias. Quando Juliette foi encarregada de lidar com os surtos, Tyler passou a substituí-la em suas tarefas de herdeira, e ele se refestelava com isso. Juliette enrijecia a cada vez que o ouvia gritar pela casa, reunindo seu grupo para saírem — e isso estava acontecendo com frequência. Parecia que a cada minuto surgia um novo trapaceiro, uma nova conta ficando no vermelho. Tyler brandiria a arma e ameaçaria proprietários de lojas e senhorios até que soltassem o valor necessário, até que os Escarlates recuperassem o que lhes era devido. Sabia que era hipocrisia sua menosprezar Tyler por simplesmente fazer o que tecnicamente era trabalho dela, mas fazer tal trabalho em tempos como aqueles a deixava desconfortável. As pessoas não se recusavam a pagar agora porque estavam se rebelando; simplesmente não tinham dinheiro suficiente porque todos os clientes estavam morrendo.
Juliette suspirou, girando seus kuàizi. Sobre a mesa giratória de vidro, a comida dava voltas diante deles; havia patos assados, bolinhos de arroz e macarrão frito em constante exibição. Enquanto isso, Juliette automaticamente pinçava porções no centro da mesa e as levava até seu
prato, colocando a comida na boca sem a saborear de verdade. Era uma pena. Uma olhada no verde exuberante dos vegetais, no brilho das escamas dos peixes e nos reluzentes sucos que escorriam da carne já era suficiente para dar água na boca de qualquer um.
Mas Juliette já estava a divagar novamente. Percebendo que estava levando o cinzeiro à boca em vez de sua xícara de chá de cerâmica, ela voltou à realidade e captou a última sílaba que saía da boca de Rosalind — não foi nem de perto o suficiente para determinar o que a prima havia dito, mas foi o bastante para saber que fora uma pergunta e algo que precisava de uma resposta digna de Juliette, não um ruído genérico de dúvida.
— Perdão, o que foi? — disse Juliette. — Você estava falando, não estava? Sinto muito, eu estou péssima…
E estava prestes a ficar ainda pior, porque nunca saberia o que Rosalind havia perguntado. Naquele momento, seu pai pigarreava e as duas mesas do espaço privado imediatamente caíram em silêncio absoluto. Lorde Cai ergueu-se, com as mãos unidas atrás das costas rígidas.
— Espero que todos estejam bem — disse o pai. — Há algo que devo comunicar hoje.
Um mau pressentimento acometeu Juliette. Ela se preparou.
— Hoje chegou ao meu conhecimento uma prova inegável de que há um espião na Sociedade Escarlate.
O silêncio tomou conta do local — não era uma ausência de som, mas uma entidade presente, como um cobertor pesado e invisível que se assentara sobre os ombros de todos. Até os garçons ficaram imóveis — um garoto que estava servindo chá congelou no meio do movimento.
Juliette apenas piscava. Ela trocou um olhar de soslaio com Rosalind. Era de conhecimento quase geral que havia espiões na Sociedade Escarlate. Como poderia não haver?
Os Escarlates certamente possuíam pessoas infiltradas nas fileiras comuns dos Rosas Brancas. Não era difícil pensar que os Rosas Brancas haviam introduzido seus mensageiros, especialmente pela frequência com que conseguiam dar o bote na Sociedade Escarlate.
Lorde Cai prosseguiu.
— Há um espião na Sociedade Escarlate que foi convidado para este local.
Por um breve e terrível segundo, Juliette teve medo de que seu pai estivesse se referindo a ela. Poderia ele ter descoberto sobre sua associação com os Rosas Brancas —
com Roma Montagov — e entendido tudo errado?
Impossível, pensou, cerrando os punhos debaixo da mesa.
Ela não deixara nenhuma informação escapar. Certamente algo deve ter afetado os negócios para incitar uma declaração como essa de seu pai.
Ela estava certa.
— Hoje três importantes clientes em potencial desistiram de seus planos de parceria conosco. — O pai de Juliette se portava com o ar de estafa, como se estivesse farto e cansado de se digladiar com a clientela nervosa, mas Juliette enxergava por trás da aparência. Seus olhos passaram direto por ele e tracejaram as linhas tensas dos ombros enrijecidos de sua mãe no outro lado da sala. Eles estavam furiosos. Haviam sido traídos.
— Eles sabiam de nossos preços antes mesmo de serem propostos — prosseguiu Lorde Cai. — Então, foram até os Rosas Brancas.
Sem dúvida, após os Rosas Brancas os abordarem com preços menores. E como um espião saberia de uma informação tão protegida se não estivesse no círculo interno? Esse não era o trabalho de um mensageiro que tinha ideias vagas sobre pontos de entrega. Do próprio núcleo de negócios Escarlate surgira um vazamento.
— Eu conheço o histórico de todos vocês — continuou Lorde Cai. — Sei que todos são nascidos e criados em Xangai. O sangue de vocês remete há milhares de anos, a ancestrais que nos vinculam. Se há um traidor aqui, você não mudou de lado por lealdade verdadeira ou algo desse calibre, mas pela promessa de dinheiro, ou glória, ou amor fajuto, ou meramente pela emoção de brincar de espião…
— Ele retornou ao assento e pegou a chaleira. Encheu novamente sua xícara de cerâmica, com a mão completamente firme enquanto as folhas de chá iam até a borda e o líquido transbordava, derramando-se pela toalha de mesa vermelha até que a mancha escura parecesse uma flor de sangue. Se ele continuasse derramando, Juliette temia que o chá quente escorreria pela toalha de mesa e queimaria suas pernas. — Quando eu te desmascarar, as consequências que minha mão fará descer sobre você serão muito maiores que qualquer atitude que os Rosas Brancas possam tomar quando se derem conta de que você não mais atuará como traidor.
Para alívio de Juliette, Lorde Cai finalmente baixou a chaleira, logo antes do chá derramado atingir a borda da mesa. Seu pai sorria, mas seus olhos, apesar dos pés de galinha que a idade entalhara, permaneciam tão vazios quanto os de um carrasco. Naquela hora, Lorde Cai optou
por não verbalizar sua mensagem. Deixou sua expressão falar por ele.
Não havia dúvidas de qual genitor Juliette herdara seu sorriso monstruoso.
— Por favor — disse Lorde Cai, quando ninguém se moveu após o desfecho de sua ameaça —, continuemos comendo.
Lentamente, os homens poderosos e as esposas que sussurravam em seus ouvidos pegaram novamente seus kuàizi. Juliette não conseguia mais ficar parada. Ela se inclinou na direção do pai e sussurrou, dizendo que precisava correr para o banheiro. Quando Lorde Cai anuiu com a cabeça, Juliette levantou-se, indo em direção à porta.
Fora do espaço privado da Sociedade Escarlate, Juliette se apoiou na parede fria, levando um segundo para recuperar o fôlego. Ela viu os outros clientes do restaurante à sua esquerda, onde o barulho rugia — um esforço coletivo de mesinhas diferentes, cada uma lutando para ser ouvida por sobre as outras. À sua direita, havia portas distintas que davam na cozinha e no banheiro. Com um suspiro, Juliette marchou para o banheiro.
— Acalme-se — disse a si mesma, inclinando a cabeça sobre a ampla pia de metal. Ela deixou o pescoço tombar, respirando profundamente.
O que seu pai diria se soubesse que ela estava trabalhando com Roma Montagov? Será que entenderia aquilo da mesma maneira que ela, que abrir mão desse único ponto de orgulho poderia ser útil a todo seu pessoal se conseguissem erradicar os surtos? Ou ficaria preso ao núcleo essencial da traição de Juliette: o desperdício de todas as chances que teve de dar um tiro em Roma para se vingar de todo sangue que as mãos dele derramaram?
Juliette ergueu a cabeça, encarando o distorcido espelho de bronze à sua frente. Tudo o que viu foi uma estranha.
Talvez ela estivesse envolvida demais naquilo. Talvez o curso correto de ação fosse romper qualquer aliança com Roma Montagov e recorrer a seu próprio pessoal, dar um jeito de encurralar Walter Dexter com força bruta e fazê-lo falar…
Um grito perfurou seu ouvido. Juliette sobressaltou-se e identificou que ele vinha da parte principal do restaurante.
Ela saiu em disparada do banheiro. Em segundos, havia chegado à origem do grito, ofegante enquanto procurava por vítimas. Ela viu apenas um homem jogado no chão.
Seus olhos o fitaram no mesmo segundo em que as mãos do sujeito foram de encontro ao seu pescoço.
Mas ninguém foi ajudá-lo. Mesmo enquanto ele dilacerava a garganta, jogando pedaços de pele em um raio pequeno e eventualmente paralisando-se em morte, as pessoas no restaurante seguiam a vida. Apenas uma senhora nos fundos acenou para que um garçom viesse limpar aquilo.
Outros mal reagiram, agindo como se não tivessem notado o incidente, como se não reconhecer a morte a ofendesse o bastante para afugentá-la.
Civis estavam rasgando as próprias gargantas e as pessoas da cidade estavam ficando tão dessensibilizadas que continuavam suas refeições com tranquilidade, como se fosse uma terça-feira comum. Juliette supôs que era mesmo. Se a situação continuasse assim, aquela seria a norma até que a cidade entrasse em colapso. Era apenas questão de tempo até que todos os pequenos estabelecimentos de Xangai se esvaziassem porque, ou seus clientes haviam sucumbido à insanidade, ou as
pessoas não desejavam frequentar lugares onde houvesse risco de infecção. Era uma questão de tempo até que os empreendimentos assistidos pelos Escarlates devorassem todas as suas poupanças e não pudessem pagar o aluguel, mesmo com as ameaças de Tyler; até que grandes restaurantes como aquele também desmoronassem. Havia rosas vermelhas brotando porta sim, porta não, ao longo do território Escarlate. Avisos e mais avisos, mas de que serviam avisos diante dos surtos?
— Ei — vociferou Juliette quando o garçom se agachou perto do homem morto. — Não toque nele — sua entonação assustou o garçom a ponto de fazê-lo recuar, desajeitado. —
Cubra o corpo com uma toalha de mesa e chame um médico.
Nada estava garantido. Ela precisava da ajuda de Roma para consertar a cidade. Mas também precisava se mexer e parar de inventar desculpas.
Precisava dar um jeito de se aproximar de Paul Dexter.
Àquela hora, era difícil encontrar a linha no horizonte onde as águas terminavam e a terra começava, onde o Rio Huangpu sangrava para a margem oposta. Quando Benedikt se sentava perto da beira da água, contemplando a noite, era fácil esquecer a mistura de vermelho e dourado e a fumaça e as gargalhadas que havia na cidade atrás dele.
Era fácil crer que o que via era tudo que a compunha: uma terra não trabalhada, manchada com os mais tênues pontos reluzentes na outra margem.
— Sabia que ia te encontrar aqui.
Benedikt virou-se na direção da voz, deixando a perna balançar na plataforma. A luz que emoldurava a silhueta de
Marshall fez os olhos desajustados de Benedikt doerem quando ele o fitou.
— Não é como se eu fosse para outro lugar.
Marshall enfiou as mãos nos bolsos. Ele estava bem-vestido naquela noite, em um terno ocidental, o que era raro, mas não incomum, não se Lorde Montagov o tivesse mandado a algum lugar em missão.
— Você tem noção da extensão do Rio Huangpu? Você é difícil, Ben. Acho que nunca te achei no mesmo lugar duas vezes.
Abaixo deles, o rio pareceu vibrar em resposta. Ele sabia que estavam falando dele.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Benedikt.
— Você esperava que acontecesse? — retrucou Marshall, sentando-se ao lado dele.
— Algo sempre acontece.
Marshall apertou os lábios. Ele pensou por um segundo.
— Não, não aconteceu nada — disse, por fim. — Quando eu saí, Roma estava escrevendo o rascunho de uma resposta a uma mensagem de Juliette. Ele está nisso há três horas. Eu acho que ele vai romper um músculo.
Roma não fazia nada apaticamente. Sempre que visitava o leito de Alisa, ficava lá por quase metade do dia, suas outras tarefas que se danassem. A única razão pela qual Lorde Montagov permitia tamanha inatividade era porque Roma realizaria suas outras tarefas com atenção total assim que saísse do hospital.
— Melhor romper um músculo do que a própria garganta
— resmungou Benedikt. E se interrompeu. — Eu não confio nela.
— Juliette?
Benedikt anuiu com a cabeça.
— Claro que não confia — disse Marshall. — E nem deve.
Isso não significa que ela não é útil. Não significa que tem que desgostar dela — ele gesticulou em direção ao beco. —
Podemos ir para casa agora?
Benedikt suspirou, mas ele já estava se levantando e tirando a poeira das mãos.
— Você podia ter ido para casa sozinho, Mars.
— E qual é a graça disso?
Benedikt nunca entenderia a necessidade de Marshall estar cercado de pessoas. Marshall era alérgico à solidão —
ele uma vez chegou a desenvolver brotoejas porque se sentou em seu quarto e proibiu a si mesmo de sair até que terminasse de fazer o balanço em um livro de contabilidade.
Benedikt era o oposto. Pessoas o tornavam pegajoso.
Pessoas o faziam pensar duas vezes em suas palavras e transpirar quando escolhia as erradas.
— Vou supor que você não está a fim de passar em um cassino antes, não é? — perguntou Marshall quando eles começaram a andar, sorrindo. — Eu soube que…
No meio da fala, Marshall subitamente parou de andar, estendendo o braço para puxar Benedikt de volta. Benedikt precisou de alguns segundos para ver por que pararam.
Precisou de alguns a mais para entender de verdade o que via.
Uma sombra — se estendendo no pavimento diante deles.
Os dois ainda estavam no meio do beco, já dentro demais para conseguir olhar além dos prédios altos que os ladeavam e identificar o que estava projetando a sombra que aparecera. O poste de luz não estava longe; a silhueta que se formara era nítida e bem definida, não deixando dúvida alguma: chifres, membros que se arrastavam dolorosamente, um tamanho impossível para qualquer coisa natural.
Chudovishche. Monstro. O mesmo que toda Xangai vira, espreitando pelas esquinas da cidade.
— Meu bom Deus — murmurou Benedikt.
A sombra se movia na direção deles, para o mesmo beco em que estavam.
— Se esconda!
— Me esconder? — sibilou Marshall, repetindo. — Você acha que eu sei me encolher magicamente?
De fato, o beco era muito estreito para fornecer um esconderijo viável. Mas havia uma grande lona azul acima de uns caixotes descartados. Sem tempo de ficar dando instruções, Benedikt pegou a lona e deu um empurrão forte em Marshall, fazendo shh quando ele se sobressaltou, e também se meteu ali debaixo, até que estivessem encolhidos ao lado das caixas e ocultos sob a fina cobertura.
Algo pesado passou pelo beco. Fazia um ruído de esforço, como o de pés que não se formaram direito, como o de narinas que eram muito afiladas para deixar o ar passar, então expeliam apenas um chiado.
Então um splash bruto ecoou pela noite. Gotículas caíram na superfície do rio, como se houvesse começado a chover apenas em uma parte do céu.
— O que foi isso? — sibilou Marshall. — Aquilo pulou na água?
Benedikt pegou uma ponta da lona, colocando a cabeça para fora lentamente. Marshall agarrou seu ombro e tentou fazer o mesmo, até que ambos estivessem espiando de seu esconderijo, estreitando os olhos no escuro, tentando fitar o rio na outra extremidade do beco.
Uma forma flutuava na água. Sob a luz da lua, era difícil distinguir muita coisa além do brilho do que poderia ser a espinha dorsal, fileiras de protuberâncias que estavam se distorcendo e se modificando e…
Benedikt xingou, puxando Marshall para baixo.
— Se esconde, se esconde, se esconde!
Uma explosão de movimento irrompeu da água — do monstro. Pontinhos pequeninos — cuspidos no ar, mal visíveis até que aterrissaram na plataforma, mal visíveis até que começaram a se mover para a frente sob a luz da lua, como um carpete ambulante se espalhando pelo beco.
Marshall cobriu-se com a lona e Benedikt bateu o pé na borda dela, pressionando-a com força no chão para que os insetos não passassem por ela. Havia o som rastejante. O
som de milhares de perninhas contra cascalho duro, se dispersando pela cidade.
Silêncio. Um longo minuto se passou. O silêncio apenas prolongou-se.
— Acho que eles se foram — sussurrou Benedikt. — Mars?
Marshall emitiu um ruído de asfixia.
— Marshall!
Benedikt se moveu tão rápido que desestabilizou o ar em sua volta. Pôs as mãos nos dois lados da face de Marshall, apertando com força para prender sua atenção e sanidade, apertando com força para o caso de precisar impedi-lo de dilacerar a própria garganta até a morte.
Contudo, em vez de perder a sanidade, Marshall bufou de maneira cômica. Um segundo depois, uma gargalhada escapou.
— Ben, eu estava brincando.
Benedikt encarou Marshall.
— Mudak — sibilou, furioso. Quando recolheu as mãos, teve de resistir ao impulso de bater em Marshall. — Qual é o seu problema? Para que brincar com um assunto desses?
Agora Marshall parecia confuso, como se não entendesse a ira que vinha em sua direção.
— Eles nem subiram em nós — disse, lentamente. — Por que você me levou a sério?
— Por que eu não levaria? — vociferou Benedikt. — Não brinque com isso, Marshall. Eu não vou te perder!
Marshall piscou, confuso. Inclinou a cabeça curiosamente, da mesma forma que fazia quando estava tentando prever o próximo movimento de Benedikt em um treino de combate.
Em uma luta real, Benedikt sempre era melhor em prever as fintas preguiçosas de Marshall, lendo as adivinhações do amigo e fazendo o oposto.
Mas ali, tão próximos um do outro, ele nunca teria previsto que Marshall estenderia a mão e tocaria sua face — com dedos leves como penas, como se quisesse verificar se Benedikt estava mesmo ali.
Benedikt se afastou rapidamente. Tirou a lona de cima deles, ficando de pé em um movimento giratório.
— Preciso informar o que vimos a Roma — disparou. — Te vejo em casa.
E saiu apressado antes que Marshall pudesse segui-lo.
Roma finalmente enviou sua carta-resposta, cinco horas após ter começado a escrevê-la. Quando a revisou pela décima vez, não tinha nem certeza se havia grafado o próprio nome corretamente.
— Será que devia ter incluído meu patronímico? —
resmungava a si mesmo agora, passando à próxima página de seu livro sem assimilar nenhuma palavra. — Fica estranho assim?
Tudo aquilo era estranho. Há quatro anos, ele havia mandado tantas cartas de amor a Juliette que, quando se sentou para escrever esta carta — para concordar que deviam reunir o máximo possível de informações sobre Walter Dexter através de suas fontes separadas antes de se encontrarem no Grande Mundo amanhã — sua primeira reação ao redigir “Querida Juliette” foi comparar a cor do cabelo dela às penas de um corvo.
Roma suspirou e pôs o livro sobre seu peito, fechando os olhos. Ele já estava em sua cama. Pensou que poderia tirar um cochilo até que fosse hora de meter o nariz nas fábricas Rosas Brancas. Alguém de lá devia ter alguma informação sobre Walter Dexter.
No entanto, no momento em que começou a ficar sonolento, ouviu uma forte batida na porta do quarto.
Roma grunhiu.
— O que foi?
Sua porta se abriu. Benedikt entrou, acelerado.
— Você tem um momento?
— Você está interrompendo minha hora de lazer com Eugênio Onegin, mas tudo bem — Roma tirou o livro do peito e o colocou sobre o cobertor. — Ele é desnecessariamente pretensioso.
— O monstro. Os insetos. Eles são a mesma coisa.
Roma ergueu-se em um pulo e questionou:
— Como é que é?
Benedikt sentou-se à escrivaninha do primo, deixando escapar a ansiedade pelo tamborilar de seus dedos. Roma, por sua vez, levantou-se e começou a andar pelo quarto.
Havia muita tensão se acumulando em seus ossos.
— Os insetos saem do monstro — disse Benedikt, agitado.
— Nós vimos. Nós o vimos pular na água e então… — ele imitou uma explosão. — Tudo faz sentido agora. Quem falou que ver o monstro causa os surtos está certo, mas não do jeito que pensam. O monstro cria os insetos. Os insetos causam os surtos.
De repente, Roma sentia falta de ar. Não de pânico, mas de entendimento. Como se houvesse sido presenteado com uma caixa de informações, desmontadas em pedacinhos, e se ele não as montasse rápido, o presente seria tomado dele.
— Isso é colossal — disse Roma, forçando-se a reduzir a velocidade. — Se aceitarmos que Lourens estava certo quando disse que esses insetos operam de forma idêntica entre si, se presumirmos que todos são controlados por uma entidade, e que essa entidade é, na verdade, o monstro… —
Roma quase caiu de joelhos. O monstro era real. Real. Não é que ele não tivesse acreditado nas aparições até aquele momento, mas ele as aceitara da forma que aceitava os estrangeiros nas concessões — como uma inconveniência, mas não a principal ameaça. As aparições estavam fora de seu radar de preocupação, secundárias aos surtos. Mas agora…
— Se matarmos o monstro, matamos cada um desses insetos esquisitos em Xangai. Se matarmos o monstro, acabamos com os surtos.
E então os insetos cravados na cabeça de Alisa morreriam.
Então ela não mais estaria sob as garras da insanidade.
Então ela poderia acordar novamente. Era tão válido quanto uma cura.
Benedikt contraiu os lábios.
— Você fala como se fosse fácil. Você não viu a coisa.
— Bom, o que você viu?
Um silêncio carregado se instaurou no quarto. Benedikt parecia ponderar sua resposta. Ele bateu levemente com dedos na mesa algumas vezes e depois repetiu as batidas.
Por fim, balançou a cabeça uma vez com um movimento minúsculo.
— Você ouviu as histórias — respondeu Benedikt. — Elas não estão muito longe da verdade. Eu não me preocuparia com a aparência dele agora. Antes mesmo de considerar matá-lo, como encontrá-lo de novo?
Roma voltou a andar.
— Marshall disse que os Comunistas o viram saindo do apartamento de Zhang Gutai.
Se Roma estivesse prestando mais atenção, teria visto a expressão do primo murchar subitamente — não por nojo ou desdém, mas como se sentisse uma pontada de dor. Ainda bem que todos os Montagoves sabiam como trocar sua expressão para um olhar vazio em um piscar de olhos.
Quando Roma o fitou, Benedikt já havia retornado à expressão neutra, esperando que o primo prosseguisse.
— Preciso que você e Marshall vigiem o apartamento de Zhang Gutai — decidiu Roma. O plano ia tomando forma enquanto ele falava, com cada peça se encaixando logo após a anterior. — Fiquem atentos para qualquer aparição do chudovishche. Confirmem para mim que Zhang Gutai
tem culpa. Se vocês virem o monstro surgir com os próprios olhos, então saberemos que Zhang Gutai o controla para espalhar os surtos por toda Xangai. Então sabemos como encontrar o monstro e matá-lo: encontrando Zhang Gutai.
Desta vez, Benedikt sustentou a careta.
— Você quer que eu simplesmente vigie? Isso parece…
entediante.
— Eu me preocuparia com sua segurança se o trabalho fosse agitado. Quanto mais entediante, mais seguro você está.
Benedikt balançou a cabeça negativamente.
— Você nos entediou o bastante enquanto procurávamos por uma vítima viva dos surtos, e veja onde isso nos trouxe
— disse. — Por que você e Juliette não cuidam disso? Vocês já estão a cargo da investigação. Eu tenho minha própria vida para tocar, sabe?
Roma estreitou os olhos. Benedikt cruzou os braços. Será que pedi demais com essa missão? , Roma se perguntou. Por que ele está reclamando dela? É só outra chance de ficar batendo perna com Marshall, o que ele já faz todos os dias.
— Eu não vou desperdiçar a colaboração com Juliette espionando Zhang Gutai — respondeu Roma, parecendo ofendido com a sugestão.
— Eu pensei que o monstro fosse nossa maior preocupação, não Larkspur.
— Eu sei disso — rebateu Roma. Ele estava exaltado, incapaz de controlar o tom de voz. A vida de Alisa estava em jogo. Ele não tinha energia para debater assuntos tão irrelevantes. — Mas nós não podemos presumir que Zhang Gutai tem uma ligação efetiva com o monstro até que vejamos algo. Até lá, precisamos ir até o fundo sobre esse
tal de Larkspur e assim entender porque ele sabe o que sabe e usar isso para voltar a lidar com o monstro.
Mas Benedikt não queria dar o braço a torcer.
— Você não pode vigiar Zhang Gutai depois que achar Larkspur? Obviamente os dois estão ligados de alguma maneira, já que vocês encontraram correspondências entre eles.
— Benedikt — disse Roma, com firmeza. — Foi apenas uma mensagem, e do lado de Larkspur — ele balançou a cabeça.
— Olhe, você e Marshall precisam fazer isso porque não sabemos quanto tempo pode levar para o monstro aparecer.
— Você não pode mandar um gângster de ranque mais baixo?
— Benedikt.
— E, sério, você só precisa de uma pessoa nessa missão…
— Você — interrompeu Roma, com o tom repentinamente frio — é um Rosa Branca ou não é?
Aquilo o calou. Benedikt uniu os lábios, então disse:
— Claro que sou.
— Então pare de questionar minha ordem — Roma pôs as mãos atrás das costas. — Isso é tudo?
Benedikt ficou de pé. Fez uma mesura de zombaria, com a boca retorcida de amargura.
— Sim, Primo — disse ele. — Eu o deixarei com seus deveres de herdeiro agora. Assegure-se de não se exaurir muito — uma rajada de vento sucedeu sua saída veloz. A batida da porta foi alta o bastante para fazer a casa vibrar.
Deveres de herdeiro. Que fanfarrão. Benedikt sabia muito bem que Roma só podia ser ou herdeiro, ou fantasma.
Benedikt devia ser uma das únicas pessoas que realmente sabia que Roma não batalhava tanto para permanecer como
herdeiro por gostar do poder, mas porque era a única posição em que podia ter controle sobre sua segurança pessoal. Se os céus se abrissem e lhe oferecessem uma pequena casa de campo no interior do país, para onde ele pudesse se mudar com seus entes queridos e viver uma vida na obscuridade, ele imediatamente optaria por isso.
A chiadeira de Benedikt entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Seu primo podia reclamar o quanto quisesse e descontar a raiva em Roma, mas ele era muito racional para não aceitar a missão logo de cara. Ele a executaria e reclamaria dela o tempo todo, e depois se calaria quando importava. Além disso, Benedikt não remoeria aquilo por muito tempo. O que quer que tenha feito ele ficar estressado passaria em breve, e então esqueceria por que deu aquele chilique.
Roma suspirou e se jogou de volta na cama.
Ele sempre soube que estar no topo vinha com espinhos e ferrões.
Todavia, naquela cidade, onde não havia outras alternativas, isso ainda era melhor do que não ser herdeiro.
Àquela noite, mais tarde, Kathleen ouviu uma batida em sua porta que a tirou da leitura. Ela já estava aninhada nos cobertores, meio que pensando em fingir estar dormindo para não precisar se levantar, colocar o pingente e abrir a porta, quando a porta simplesmente se abriu sozinha.
— Obrigada por aguardar minha resposta — disse ela, com a voz arrastada, fitando Rosalind enquanto ela entrava.
— Você não ia abrir — respondeu a outra, conhecendo a irmã.
Kathleen fez uma careta, fechando a revista que estava lendo. Supôs que a coleção de sapatos da estação podia esperar.
— Eu podia estar dormindo.
Rosalind olhou para cima. Apontou para o pequeno candelabro e depois para as três lâmpadas douradas espalhadas pelo quarto.
— Você dorme com as luzes acesas?
— Pff. Talvez.
Revirando os olhos, Rosalind sentou-se ao pé da cama. Ela pareceu olhar para o nada por um bom tempo, antes de dobrar as pernas contra o peito e descansar o rosto delicadamente sobre a superfície plana de seus joelhos.
Kathleen franziu o cenho.
— Ça va?
— Ça va — suspirou Rosalind. — Lorde Cai me assustou hoje à noite.
— A mim também — era uma acusação muito grave insistir que um espião havia penetrado o círculo interno Escarlate, pois seu tamanho era limitado. — Já temos problemas o bastante com pessoas morrendo. Isso vai nos fragmentar ainda mais. Rosalind emitiu um ruído — podia ser de concordância; podia não ser nada além de uma necessidade de pigarrear.
Mais alguns segundos se passaram. Então, ela perguntou:
— Você não acha que é Juliette, acha?
Kathleen arregalou os olhos.
— Não! —exclamou ela. — Por que você pensaria isso?
Rosalind contraiu os lábios.
— Estou apenas pensando alto. Você ouviu os mesmos boatos que eu.
— Juliette nunca faria isso.
O ar estava ficando um pouco carregado. Kathleen não esperava aquilo, não esperava que um silêncio desconfiado sobreviesse quando buscava a concordância em vez dele.
— Você não devia confiar tanto nas pessoas o tempo todo.
— Eu não confio o tempo todo — disparou Kathleen, agora ofendida.
— Ah, é mesmo? — rebateu Rosalind. O volume de suas vozes estava aumentando. — Então por que você ficou na defensiva tão rápido? Eu apenas mencionei uma possibilidade e você já está agindo como se eu estivesse te agredindo…
— Falar é perigoso — cortou Kathleen. — Você sabe disso.
Sabe o que algumas palavras impensadas podem causar.
— Quem liga para o que palavras pode causar! Ela é Juliette!
Kathleen livrou-se de seu ninho de cobertas, chocada.
Seus ouvidos zumbiam, como se o estouro da irmã tivesse sido uma explosão, não uma exclamação. Embora ambas fossem próximas de Juliette, a relação de Rosalind com a prima era diferente da sua. Rosalind e Juliette eram muito parecidas. Ambas cobiçavam o papel principal, o direito de tomar a decisão final. Quando elas entravam em conflito, apenas uma podia estar certa.
Mas… isso não era um conflito. Era apenas…
— Meu Deus, eu sinto muito — disse subitamente Rosalind, amaciando a voz. — Eu não… eu sinto muito. Eu amo Juliette. Você sabe que eu amo. Eu só estou… estou assustada, ok? E nós não temos a mesma segurança que ela. Lorde Cai não irá parar por nada até encontrar o traidor,
e você sabe que ele suspeitará primeiro de quem é de fora, como nós.
Kathleen enrijeceu.
— Nós não somos de fora.
— Mas, no fim das contas, não somos Cais.
Por mais que Kathleen odiasse isso, sua irmã tinha razão.
Pouco importava que elas fossem mais próximas do núcleo pulsante dos Cais do que os outros primos de segundo, terceiro e quarto grau. Enquanto o último sobrenome fosse diferente, sempre haveria aquela dúvida na família sobre Rosalind e Kathleen serem, de fato, Escarlates. Elas vinham do lado de Lady Cai — o lado que fora trazido para dentro daquela casa em vez de ter sido criado nela por gerações.
— Então, acho que devemos ter cuidado — balbuciou Kathleen. — Ter certeza de que não há motivo para sermos acusadas.