Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 13 de 40

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Prazeres Violentos

Onze

Esses surtos — podem ser contagiosos.

— Pare! — gritou Juliette.

Kathleen parou de andar na hora. O único ruído audível no silêncio súbito era a respiração pesada de Juliette.

Ela deu meia-volta, encarando as duas tias que cautelosamente adentraram a cozinha. As senhoras levaram as mãos à boca, apavoradas, mas Juliette não permitiu que ficassem.

— Tragam alguns homens da frente para fazer a limpeza —

ordenou. — Diga para usarem luvas.

Onze

Juliette bateu o porta-malas do carro com tanta força que o veículo balançou sobre os pneus.

— Pronto — ela avisou ao motorista. — Vamos.

Pelo retrovisor, o motorista assentiu com a cabeça, sério.

O carro começou a se afastar da entrada de cascalhos, movendo-se na direção do portão principal a caminho do hospital mais próximo. Os mortos no porta-malas estariam, então, fora das mãos de Juliette. Ela esperava que o hospital apreciasse

o

quão

delicadamente

os

Escarlates

embrulharam os cadáveres em lençóis espessos.

— Senhorita Cai.

Juliette virou-se e viu um mensageiro vindo em sua direção.

— Pois não?

O mensageiro gesticulou em direção à casa.

— Seus pais desceram. Querem saber do ocorrido.

— Ah, agora eles descem — Juliette resmungou baixinho.

Não quando houve gritos nos corredores. Não quando Juliette gritava palavrões para que os homens se apressassem atrás de mais lençóis e as criadas fossem pegar água para que os serviçais pudessem tentar limpar as manchas no piso.

Eles precisariam contratar um excelente serviço de limpeza.

— Irei falar com meus pais — suspirou Juliette. Ela passou caminhando pelo mensageiro, com os ombros pesados de

ansiedade. Seus pais podiam estar em reunião no andar de cima, mas dúzias de parentes testemunharam as terríveis mortes, e as notícias naquela casa se espalhavam rápido.

Entretanto, quando Juliette voltou à sala de estar, teve que olhar duas vezes, pois parecia estar diante da família inteira.

— Estão dando uma festa e não me convidaram? — Juliette gracejou, parando no batente da porta. Ainda havia manchas de sangue na cozinha, e os parentes mesmo assim se reuniram em massa? Eles queriam se infectar e morrer?

Lorde Cai levantou-se, silenciando qualquer burburinho eventual dos parentes ali reunidos.

— Juliette — disse, erguendo o queixo para cima em direção à escadaria. Havia algo em suas mãos. Pedaços de papel branco-marfim. Papel caro. — Venha.

Era um aviso claro para que todo o resto do clã se retirasse. Enquanto todos se dispersavam, no entanto, Tyler permaneceu no sofá, com as mãos na parte de trás da cabeça como se tivesse todo o tempo do mundo. Ele levantou a cabeça, fingindo ignorar o olhar mortal que Juliette lhe lançou.

Juliette mordeu a língua. Subiu rápido as escadas, indo atrás de seu pai.

— O que vamos fazer a respeito dessas manchas? —

indagou ela enquanto seguiam para o escritório. Sua mãe já estava lá, sentada ao lado oposto da mesa do pai, folheando relatórios.

— Vamos mandar alguém limpar — replicou Lady Cai, erguendo o olhar e tirando um grão invisível de poeira da manga de seu qipao. — Agora, estou mais preocupada com

o motivo das pessoas rasgarem as próprias gargantas nesta casa…

— São os surtos — Juliette interrompeu. — Chegaram até aqui e pode ser um contágio viral. Precisamos perguntar às outras criadas quem esteve em contato com as vítimas para que fiquem isolados em seus quartos por alguns dias.

O pai se acomodou em sua grande cadeira e repousou as mãos cruzadas sobre o estômago. A mãe inclinou a cabeça, intrigada.

— E como você sabe que é contagioso? — perguntou Lorde Cai. Embora Juliette tenha congelado após a pergunta, percebendo tardiamente que deixara escapar um detalhe que soube por intermédio de Roma, seu pai não aparentou suspeitar disso. Ele apenas a questionara diretamente como fazia em qualquer conversa cotidiana. Disse a si mesma para manter a calma. Se o pai suspeitava de algo, deixaria isso claro, sem rodeios.

— É o que dizem por aí — respondeu Juliette. — A coisa deve ficar pior daqui em diante.

Lady Cai pressionou a ponte do nariz e balançou a cabeça, afastando aquela ideia.

— Três mortos neste clã não se comparam aos milhares que estão sendo carregados pela maré política.

— Mas, Māma…

— Você não está curiosa para saber por que todos estavam reunidos lá embaixo, tão deslumbrados? —

interpelou Lorde Cai. Ele colocou os papéis que estavam em suas mãos sobre a mesa, virando-os para que Juliette os pudesse ver bem. Assim, a conversa avançava; para eles, os surtos eram apenas um desdobramento da política.

Certo, pensou Juliette. Se ela era a única pessoa com as prioridades corretas, então resolveria essa coisa toda sozinha.

Juliette pegou o menor pedaço de papel, imediatamente atraída pela visão de seu nome ali escrito.

Senhorita Cai, eu adoraria ver você lá. — Paul

— O que é isso? — Juliette exigiu saber.

— Um convite — explicou Lady Cai — para um baile de máscaras na Concessão Francesa semana que vem.

Juliette se inclinou para ler o maior pedaço de papel, fazendo sons baixinhos de reprovação. Ela não estava gostando do rumo daquilo. Estrangeiros estendendo mãos convidativas só poderia significar demandas e expectativas.

— São os franceses que estão nos convocando? — indagou ela.

— A confraternização é uma realização conjunta das diferentes potências estrangeiras — respondeu seu pai, tranquilamente. Com um tom zombeteiro, complementou:

— Franceses, britânicos, norte-americanos e os demais desejam unir-se e celebrar as forças nativas de Xangai —, recitando o texto enquanto Juliette acompanhava a leitura no papel.

Nossa hospitalidade se estende a todos sob a proteção de Lorde Cai, estava escrito. A festa contava com a presença de todos os membros da Sociedade Escarlate.

Lady Cai ridicularizou:

— Se os estrangeiros querem nos homenagear, deveriam começar lembrando que este país é nosso, não deles.

Juliette voltou-se para a mãe, curiosa. O desgosto contaminava as rugas da face de Lady Cai, aprofundando-

lhe os sulcos que passava toda a manhã cobrindo com uma camada de pó fino.

— Todavia — prosseguiu Lorde Cai, como se a esposa não tivesse acabado de fazer um comentário ácido —, são os franceses que desejam se reunir conosco. Há outro cartão em algum lugar por aqui.

Depois de alguns segundos de busca confusa, Juliette ergueu uma grande folha de papel e achou o terceiro e último cartão, que tinha o mesmo tamanho do que Paul enviara. Este era para seu pai, do Cônsul-Geral da França em Xangai. Havia apenas duas linhas escritas. Ele solicitava uma reunião na festa para discutir a situação em Xangai, o que quer que isso significasse.

— Bom — disse Juliette —, quer dizer que temos problemas?

— Talvez não — Lorde Cai deu de ombros. — Vamos ter que descobrir.

Juliette estreitou os olhos. Não gostava da forma como seus pais caíram em um silêncio de suspense, que esperava por algo… por algo…

— Eu espero, de verdade, que o senhor e a senhora não me façam ir a este baile — adivinhou Juliette, com desprezo.

— Eu não a farei ir, como um tirano — retrucou o pai. —

Porém, eu preferiria imensamente que você fosse comigo.

— Bàba — reclamou Juliette. — Eu fui a tantas festas em Nova York que já estou escaldada. Os franceses podem dizer o quanto quiserem que pretendem discutir a conjuntura de Xangai, mas nós sabemos que eles são inúteis.

— Juliette — repreendeu a mãe.

— O que foi? — retrucou Juliette, cheia de razão.

— Não, não, ela está certa — disse Lorde Cai. — Os franceses querem nos encontrar apenas para discutir a milícia Escarlate. Querem saber quantas pessoas tenho sob meu controle e anseiam por minha cooperação na possibilidade de uma revolta Comunista. Isso tudo é verdade.

O pai se inclinou para frente e, então, travou o olhar na filha. Juliette, de súbito, se arrependeu da reclamação, pois sentia-se agora como uma criança levando bronca após fazer pirraça para não ir mais cedo para a cama.

— Mas ainda precisamos de aliados. Precisamos de poder, precisamos de clientes e precisamos do apoio deles. E eu preciso da minha pequena tradutora quando eles murmurarem entre si em francês, achando que eu não consigo compreendê-los.

Juliette emitiu um ruído de desaprovação.

— Pois bem — disse. Pegou a carta-convite e a enfiou no bolso para analisá-la depois, no seu tempo. — Eu vou, mais ce n’est pas de bon gré!

Caminhou até a porta, dispensando a si mesma. Ela quase conseguiu — uma de suas mãos já estava na maçaneta e seu corpo quase fora — quando sua mãe a chamou.

— Espere.

Juliette parou.

— Esse… Paul — disse Lady Cai. — Por que ele está atrás de você?

Lady Cai disse o nome do rapaz como se fosse um feitiço de conjuração. Como se nele houvesse uma grande importância, em vez de ser um monossílabo irritante e enfadonho.

— Ele é filho de Walter Dexter — respondeu Juliette. — Eles ainda estão tentando nos contratar como intermediários de seu comércio de drogas.

Lady Cai matutou sobre aquilo por um longo período.

Então disse:

— Ele é bonito?

— Ora, francamente— Juliette seguiu em frente. — Ele está me usando, Māma. Simples assim. Por favor, me deem licença. Tenho trabalho a— o que você está fazendo?

Essa última parte referia-se a Tyler, que estava espreitando tão perto da porta que Juliette acertou seu ombro quando ela abriu.

— Acalme-se — disse Tyler. — Estou indo ao banheiro.

Ambos sabiam que era uma mentira grande e deslavada

— tão deslavada quanto o sorriso monstruoso de Tyler e tão grande quanto sua lista de crimes.

Juliette fechou a porta do escritório do pai atrás de si com um baque forte. Encarou o primo, esperando, e ele apenas a encarou de volta. A bochecha de Tyler exibia o corte vivo, que ainda não cicatrizara por completo.

— Você tem alguma coisa para me dizer, Tyler? — indagou Juliette.

— Apenas uma — retrucou Tyler. Seus olhos moveram-se rapidamente para cima, sabendo que os pais dela poderiam ouvir aquela conversa. — Estou muito empolgado para ir a essa festa. Le moment où tu n’es plus utile, je serai prêt à prendre ta place.

Juliette endureceu. Satisfeito com a reação que causara, Tyler sorriu novamente e deu meia-volta, contente, caminhando pelo corredor com as mãos no bolso e assobiando baixo.

No momento em que você não tiver mais utilidade, estarei pronto para ocupar seu lugar.

— Va te faire foutre — rosnou Juliette. Ela desceu as escadas, dois degraus por vez, fitando os parentes que ainda papeavam nos sofás, e então seguiu diretamente até a cozinha. Lá, encontrou Kathleen, que ainda olhava para as manchas nos ladrilhos do piso. Ela também estava comendo uma maçã, embora Juliette não pudesse entender como a prima conseguia ter apetite.

— Algum progresso? — perguntou Juliette.

— Ah, eu desisti de limpar as manchas há dez minutos — replicou Kathleen. — Estou olhando para aquela só porque parece um gato.

Juliette piscou os olhos.

Kathleen deu outra mordida na maçã.

— Muito cedo para piadas?

— Demais — respondeu. — Você está ocupada agora?

Preciso de seus laços com os Comunistas.

— Pela última vez — Kathleen jogou o miolo da maçã na lixeira —, saber quem são nossos espiões no Partido não faz de mim uma Comunista. O que eu preciso descobrir?

Juliette pôs as mãos nos quadris.

— O endereço da casa de Zhang Gutai.

Kathleen franziu a sobrancelha, tentando lembrar do nome.

— Você não consegue descobrir onde ele trabalha? Ele é o editor daquele jornal, não é?

— Posso dar uma espiada no lugar onde ele trabalha também — concordou Juliette —, mas quero alternativas.

Chamar aquilo de alternativas chegava a ser engraçado.

Juliette queria o endereço da residência dele para invadi-la e

fuçar seus pertences, se as respostas que ele desse em pessoa fossem insuficientes.

Mas ela não precisava explicar isso para a prima. Ela sabia. Kathleen prestou uma continência zombeteira, entreabrindo a boca: — Missão aceita.

— Piolhos?! — repetiu Roma, horrorizado.

— Parecem piolhos — enfatizou Lourens. A correção veio acompanhada de um suspiro. Ele apontou para a tira de pele que removera do cadáver, onde as espessas membranas estavam inchadas com montinhos de insetos mortos. Benedikt estava meio esverdeado e Marshall tampava a boca com as mãos.

— Eles pulam de hospedeiro a hospedeiro pelos cabelos e se entocam no couro cabeludo — continuou Lourens. Ele pressionou um inseto com o dedo. Ali perto, um dos cientistas estava pálido com a cena, incapaz de afastar sua curiosidade da autópsia não convencional que acontecia bem em cima da mesa. Não importava; os Rosas Brancas já haviam visto coisas mais estranhas.

— Meu bom Deus — murmurou Marshall. — Podíamos ter nos infectado.

Benedikt emitiu um ruído, ofendido.

— Eles já estavam mortos — respondeu, gesticulando à frente.

— E ainda assim você me fez puxar um para fora —

retrucou Marshall. Ele sentiu um calafrio e seu corpo todo tremeu com o movimento. — É revoltante…

Roma tamborilou os dedos na mesa. O laboratório não tinha o mínimo de ar fresco e ele mal dormira na noite

anterior. Sua cabeça estava começando a latejar ferozmente.

— Cavalheiros — ele pediu, tentando redirecionar a atenção de Benedikt e Marshall para Lourens. Não funcionou.

— Você será agradecido pelo bem-estar futuro dos Rosas Brancas. — Ah, sem essa! Quem ficará sabendo do meu heroísmo?

Roma trocou um olhar com Lourens e balançou a cabeça negativamente. Não adiantava tentar intervir quando Benedikt e Marshall ficavam assim. Quando não estavam planejando coisas juntos, estavam implicando um com o outro, quase sempre por causa das coisas mais sem noção, que com certeza não exigiam uma hora de discussão, mas ainda assim os dois amigos de Roma entravam nelas, às vezes até ficarem vermelhos de raiva. Roma não sabia ao certo se Benedikt e Marshall estavam fadados a se matarem ou a se beijarem.

— De todo modo — disse Lourens, pigarreando quando houve a mais breve pausa no debate —, com os recursos que temos aqui, podemos estar à frente dos hospitais de Xangai. Eu gostaria de tentar descobrir um jeito de projetar uma cura, se isso lhe agradar.

— Sim — Roma quase suplicou. — Isso seria incrível.

Obrigado, Lourens.

— Não me agradeça ainda — avisou Lourens. — Eu não consigo encontrar uma cura para essa infestação estranha sem a ajuda de vocês, meus jovens.

Marshall ergueu uma sobrancelha. Benedikt deu uma cotovelada nas costelas dele para cortar qualquer comentário sarcástico sobre sua juventude.

— Qualquer coisa — prometeu Roma.

— Eu preciso fazer experimentos — disse Lourens, balançando a cabeça para si mesmo. — Vocês precisam me arranjar uma vítima viva.

— Viva…

Desta vez foi Roma que bateu com o cotovelo no flanco de Marshall. — Pode deixar — disse ele, rapidamente. — Obrigado, Lourens. De verdade.

Quando Lourens anuiu, aceitando com relutância tamanha gratidão, Roma se afastou da mesa, gesticulando para que Benedikt e Marshall o seguissem, e os três partiram. Roma estava muito impressionado por Marshall conseguir ficar em silêncio até passarem pelas portas da frente. Apenas quando estavam na calçada, sob as nuvens densas da cidade, Marshall finalmente soltou:

— Como diabos você acha que vamos trazer uma vítima viva para ele?

Roma suspirou, enfiando as mãos nos bolsos. Tomou o trajeto de volta para o quartel-general Rosa Branca com o primo logo atrás. Marshall, no entanto, era uma pilha carregada; pulava na frente deles, andando de costas.

— Você vai tropeçar em uma pedra — alertou Benedikt.

— Você está me deixando com dor de cabeça —

complementou Roma.

— Não sabemos quem é vítima do surto até que a pessoa sucumba a ele — prosseguiu Marshall, ignorando ambos. —

Assim que a pessoa está sucumbindo, como mantê-la viva por tempo o bastante até chegar ao laboratório?

Roma fechou os olhos momentaneamente. Quando os abriu novamente, pareciam pesar mil toneladas.

— Eu não sei.

O latejar em sua cabeça só piorava. Roma mal contribuiu para a conversa enquanto iam para casa; quando a curva que dava no prédio principal surgiu, ele abaixou a cabeça murmurando um adeus, e Benedikt e Marshall o acompanharam com os olhos antes de irem para seus aposentos. Seus amigos o perdoariam. Roma ficava em silêncio quando precisava refletir, quando a cidade ficava muito barulhenta e ele mal podia ouvir seus próprios pensamentos.

Roma destrancou a fechadura da porta da frente. Tudo o que precisava agora era de um momento de quietude.

Assim, poderia dedicar um bom tempo tentando bolar um plano para Lourens…

— Roma.

O jovem ergueu a cabeça, com o pé fixo no primeiro degrau das escadas. Do segundo andar, seu pai o fitava.

— Sim?

Sem qualquer prelúdio, Lorde Montagov simplesmente estendeu a mão, segurando um pedaço de papel entre os dedos. Roma pensou que o pai o encontraria no meio do caminho enquanto ele subia as escadas, mas Lorde Montagov ficou onde estava, forçando Roma a se apressar para não o deixar esperando, e ele quase ofegava quando chegou perto o bastante para pegar o papel.

Nele estavam um nome e um endereço, escritos em garranchos.

— Encontre-o —, sorriu zombeteiramente Lorde Montagov quando Roma fitou o pai como quem pede maiores detalhes. — Minhas fontes dizem que os Comunistas podem ser a causa desse surto irrelevante.

Roma apertou o papel.

— O quê?! — exclamou. — Os Comunistas vêm pedindo nossa ajuda por anos…

— E já que nós seguimos recusando — cortou o pai —, estão mudando a estratégia. Farão a revolução esmagando nosso poder antes que possamos contra-atacar. Impeça-os.

Será que a razão disso tudo era simplesmente política?

Matar os gangsteres para que não houvesse oposição.

Infectar os trabalhadores para que ficassem revoltados e desesperados o bastante para aceitar qualquer brado revolucionário em seus ouvidos. Moleza.

— Como eu vou impedir uma facção política inteira? —

murmurou Roma, deliberando sozinho. — Como eu vou…

Uma forte pancada desceu sobre seu crânio. Roma se encolheu, afastando-se dos punhos do pai para evitar um segundo golpe. Ele deveria saber que não podia devanear ao lado dele.

— Eu lhe dei um endereço, não dei? — disparou Lorde Montagov. — Vá. Veja se as alegações são verídicas.

Com isso, seu pai deu meia-volta e sumiu escritório adentro, batendo a porta. Roma foi deixado nas escadas, segurando o pedaço de papel, com a cabeça latejando ainda mais.

— Muito bem — rosnou, amargurado.

Kathleen caminhava pela orla com passos lentos contra o granito duro. Era quase silencioso naquele ponto mais ao leste, onde a gritaria costumeira do Bund era substituída pelo clangor de galpões de estaleiros e madeireiras encerrando o dia útil aos estrondos. Quase silencioso, mas

dificilmente pacífico. Não havia local algum em Xangai que pudesse ser chamado de pacífico.

— É melhor se apressar — ela resmungou para si mesma, checando o relógio de bolso na manga. O sol logo iria se pôr, e o clima esfriava nas redondezas do Rio Huangpu.

Kathleen apertou o passo até a fábrica de algodão, entrando não pela porta da frente, mas por uma janela nos fundos, que dava bem na sala de descanso dos operários.

Aqueles trabalhadores não tinham muitas folgas, mas, à medida que se aproximava o fim do expediente, um número maior deles aparecia para dar uma espairecida. Quando Kathleen pulou delicadamente a janela, jogando suas pernas para dentro, havia uma mulher ali sentada, comendo arroz em um pote.

A mulher quase soltou arroz pelo nariz.

— Desculpe, desculpe, não quis te assustar! — disse Kathleen, rapidamente. — Você poderia chamar o Da Nao para mim? Assunto Escarlate importante. O chefe não vai se importar.

— Assunto Escarlate? — repetiu a mulher, deixando de lado o pote. Ela usava um bracelete vermelho, então era ligada aos Escarlates, mas sua voz continuava cética.

Quando se levantou, ficou parada, examinando Kathleen por um momento.

Instintivamente, Kathleen levou a mão aos cabelos para se assegurar de que as mechas de sua franja estavam logo acima das sobrancelhas arqueadas que cuidadosamente delineara. Ela sempre tomava cuidado para não tocar demais sua face — gastava muito tempo todas as manhãs com seus cosméticos até que a pele de seu rosto estivesse

macia e seu queixo, pontudo, e pretendia não arruinar a maquiagem ao longo do dia.

Um longo período passou. Finalmente, a mulher anuiu e disse:

— Um momento.

Kathleen soltou o ar, aliviada, assim que a funcionária saiu sem perceber o quão tensa ela estava, esperando que a mulher, externando o que pensava, perguntasse quem lhe havia dado o direito de estar ali, metendo o nariz em assuntos Escarlates. Mas, no fim das contas, era Kathleen quem usava o qipao de seda e aquela mulher, um uniforme de algodão, que provavelmente não era substituído há anos.

A operária não ousaria.

A única pessoa que questionara seu direito de existir foi seu próprio pai.

— Não pense nisso — Kathleen murmurou para si mesma.

— Pare de pensar nisso.

Já estava pensando nisso. A primeira discussão que tiveram quando seu pai chegou a Paris, convocado porque um de seus três filhos havia ficado doente.

É gripe, disseram os médicos. Talvez ela não melhore.

O temperamento do pai já estava no limite; seu francês era muito básico para que compreendesse os médicos.

Quando Kathleen tentou ajudar, puxando-o para fora do corredor a fim de lhe explicar quais eram as alternativas depois que os médicos saíram…

— Eu não consigo nem olhar na sua cara — vociferou o pai. Ele a olhou de cima a baixo, inspecionando seu vestido, destilando puro desgosto. — Não até você parar de usar algo tão…

— Não — interrompeu Kathleen.

O pai recuou bruscamente. Talvez a interrupção tenha sido ofensiva demais. Talvez o tom de ordem, determinado, firme.

— O que os tutores estão lhe ensinando? — disparou ele.

— Você não vai me responder…

— Ou o que, Bàba? — disse ela, tranquilamente — O que você vai fazer?

Por milhares de anos, o pior crime na China era a falta de piedade filial. Ter filhos sem xiàoshùn era um destino pior que a morte. Significava ser esquecido no pós-vida, tornar-se um fantasma errante condenado a passar fome já que nenhuma oferenda vinha de filhos desrespeitosos.

Mas foi o pai quem enviara os três para lá, quem afinou a corda que a China havia amarrado em seus pulsos. Ele os enviara ao Ocidente, onde aprenderiam sobre coisas diferentes, sobre um além distinto, que nada tinha a ver com queimar dinheiro falso. O Ocidente os corrompera — e de quem era a culpa?

Seu pai não tinha mais nada a dizer.

— Vá — disparou. — Volte para o quarto e fique com suas irmãs. Eu falo com os médicos.

Kathleen não rebateu. Ela se perguntava, naquele instante, olhando para trás enquanto seu pai estava ali, se ele amaldiçoava o universo por ter levado sua esposa no parto, se ele se ressentia por perdê-la em troca de três estranhas. Kathleen, Rosalind e Celia.

Uma menina que passou a vida inteira doente.

Uma menina que estava treinando para ser a estrela mais brilhante de Xangai.

E uma menina que só queria ser deixada em paz e viver sendo ela mesma.

Kathleen cerrou os punhos e rangeu os dentes, afugentando as memórias. Seu pai a teria forçado a viver escondida se tivesse conseguido o que queria. Ele preferia deserdá-la a deixá-la retornar a Xangai usando um qipao, e Kathleen preferia fazer as malas e atravessar a Europa por conta própria a seguir sendo o filho pródigo de seu pai.

A jovem supunha ter sido sorte que Kathleen Lang — a Kathleen verdadeira — tenha falecido devido à gripe, duas semanas após ficar doente. Quatorze anos de idade interrompidos, sem amigos, distante das duas irmãs por toda a vida. Como se lamenta a morte de alguém que nunca se conheceu de fato? Na cremação, havia somente expressões vazias sob véus negros e olhares frios. Mesmo os laços de sangue criados no ventre se enfraquecem com a distância.

— Eu não te chamarei de Celia — o pai disse no porto, carregando as malas. — Não é o nome que lhe dei ao nascer

— lançou um olhar de soslaio à filha. — Mas te chamarei de Kathleen. E, salvo por Rosalind, não comente isso com ninguém. É para sua própria segurança. Entenda.

Ela entendeu. Ela lutou muito, por toda sua vida, para ser chamada de Celia, e agora seu pai queria lhe dar um nome diferente e… ela podia aceitar aquilo. As trigêmeas Lang ficaram longe de Xangai por tanto tempo que nenhuma alma viva questionou a mudança de fisionomia de Kathleen quando finalmente voltaram. Exceto Juliette — Juliette percebera tudo, mas rapidamente seguiu o coreto, trocando Celia por Kathleen tão rápido quanto trocara para Celia anteriormente.

Agora Kathleen usava este nome como seu, como se fosse o único nome que teve na vida, e isso a reconfortava,

mesmo que fosse diferente.

— Olá.

Kathleen deu um salto com a aparição repentina de Da Nao na sala de descanso, levando a mão ao coração num instante.

— Você está bem? — perguntou Da Nao.

— Perfeitamente bem — disse Kathleen, ofegante. Ela ajeitou os ombros, voltando ao modo negócios. — Preciso de um favor. Estou atrás do endereço pessoal de Zhang Gutai.

Embora sua prima não soubesse, Juliette conhecia Da Nao

— cujo nome era traduzido literalmente como Grande Cérebro. Ele passava algumas horas trabalhando na fábrica de algodão e algumas como pescador no Bund, levando carregamentos de peixe fresco para a Sociedade Escarlate.

Ele estivera por perto durante a infância delas e passara na residência Escarlate pelo menos três vezes desde o retorno de Juliette. A Sociedade Escarlate gostava de peixes bem frescos. Mas ninguém precisava saber que seu fornecedor principal também era seus olhos e ouvidos dentro do Partido.

— Zhang Gutai — repetiu Da Nao. — Você quer… o endereço pessoal do Secretário-Geral?

— Isso.

Da Nao estava com uma expressão que dizia “Para que raios você precisa disso?”. Mas não falou nada, e Kathleen também não contou, então o pescador passou a mão no queixo, pensativo, e disse:

— Eu posso conseguir para você. Mas nosso próximo encontro não será antes de sábado. Precisa esperar até lá.

Kathleen consentiu.

— Está bem. Obrigada.