Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 8 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 7

 

 

As paredes do escritório do meu pai são de um cedro reluzente de tão

envernizado, e cada nervura da madeira se destaca. No momento, estou

sozinha. O sr. Fuchigami me deixou aqui e fechou as portas. Eu entendo. O

príncipe herdeiro não espera por ninguém. Isso é bom, porque tenho a

chance de bisbilhotar.

Assim como o meu quarto, este cômodo é escassamente mobiliado. Sei o

motivo. Uma coisa é ter dinheiro, outra é ostentar riqueza. Estou certa de

que entrei no coração sombrio do segundo caso. Os itens da estante são bem

espaçados. As luzes embutidas e os raios de sol ressaltam as peças — um

vaso chinês de porcelana azul-cobalto, uma caixa de prata de tabaco

espanhol, uma espécie de espada com um dragão dourado serpenteando o

cabo. Tudo é antigo, raro. Precioso. Aqui, as famílias não são medidas por

cifrões, mas por peças históricas e proveniência. E o que eu tenho? Tudo na

minha vida de repente parece sem valor.

Também há fotos. Emolduradas com simplicidade entre duas folhas de

vidro estão imagens do meu pai, todas em preto e branco. Em uma está ele

menino na frente de um painel shoji e a ponta dos dedos em teclas de piano.

Em outra, mais velho, posa enérgico e combativo em um uniforme de

botões de bronze. Também há fotos espontâneas. Ele abraçando um coala

na frente de um eucalipto. Bebendo cerveja com o irmão em um pub. Há uma foto do casamento da imperatriz e do imperador vestidos em seus

trajes imperiais, um quimono e um hakama.

As portas se abrem e eu me ajeito, alisando a saia do vestido. Meu

coração bate forte. Ele está emoldurado na porta, formando uma figura

imponente em sua camisa branca com botões de madrepérola e calças

pretas.

Ele inclina a cabeça e fala em japonês com o homem atrás de si. As

portas são fechadas. Estamos sozinhos. Podemos

 

a) nos abraçar;

b) dar um aperto de mãos; ou

c) sorrir genuinamente.

 

Mas escolhemos

 

d) nenhuma das opções anteriores — ficamos apenas nos olhando,

desconfortáveis.

 

Lá fora, as nuvens cinzentas se foram e o sol está se pondo. A luz é

diferente aqui — pensei que tons queimados de laranja e dourado só

pudessem ser criados por um grande artista. Sombras brincam pelo

ambiente e fazem os músculos tensos do rosto do meu pai ficarem em

relevo. Ele está indiferente. Eu estou desorientada.

— Você parece sua mãe — ele finalmente solta.

É como se eu tivesse levado um golpe. Será que interpretei seu tom

direito? Isso foi mesmo uma acusação? Fecho e abro as mãos. Meus piores

medos podem estar se tornando realidade. Ele não me quer. Isto foi um erro.

Estou pronta para explodir tudo.

— A primeira vez que vi uma foto sua, me achei muito parecida com

você.

— É, sim. É o nariz. A família imperial é conhecida por esse calombinho.

Toco no meu nariz e contorno a pequena crista no dorso.

— Você também parece com a imperatriz, minha mãe. — Seu tom fica

mais caloroso. — Tem queixo de elfa e olhos grandes. Ela era linda quando

jovem. Ainda bem que você não parece muito comigo. Sua mãe uma vez

me disse que eu quase sempre parecia ter acabado de comer uvas azedas.

Dou risada. Explosão cancelada, por enquanto.

Ele tensiona a mandíbula.

— Nunca me importei com os coloquialismos dela.

Fico séria.

Caímos em um silêncio constrangedor. O que eu estava pensando? Que

sairíamos correndo para os braços um do outro? Que nosso DNA

compartilhado funcionaria como ímã? Ele não é um pai retornando de uma

missão. Eu não sou uma criança aguardando ansiosamente a sua chegada.

Não temos lembranças para ancorar nossa relação. Ele não me colocou para

dormir, não me abraçou enquanto eu queimava de febre nem torceu por

mim quando eu fazia um home run jogando softball. Todos esses momentos

perdidos se estendem entre nós. Não quero culpá-lo por sua ausência, mas

acabo culpando um pouco. Tudo isto é tão injusto.

— Eu… — ele começa a dizer, mas para.

Ele não tem nada. Eu também não. O tempo se alonga. Somos estranhos.

Por que eu esperava que fosse diferente?

Ele sorri, hesitante.

— Estive frente a frente com touros na Espanha e não fiquei tão

assustado quanto estou agora. Minhas mãos estão trêmulas. — Ele me

mostra.

Seus dedos grossos tremem de leve.

Aliviada, consigo dar um sorrisinho.

— Nunca encarei um touro, mas colei a bunda do Tommy Steven na

cadeira no segundo ano do fundamental depois que ele roubou meus lápis

de cor. Fiquei com tanto medo de ser pega que confessei logo em seguida.

Seus olhos brilham de orgulho.

— Você tem senso de justiça.

Meus joelhos destravam e respondo com um sorriso radiante.

— Talvez a gente devesse começar de novo. — Ele estica a mão. —

Estou feliz que você esteja aqui. Estou ansioso para te conhecer.

Aperto a mão dele. Seu aperto é firme e reconfortante, não familiar.

Apagamos o xis na alternativa “d” e ficamos com a “b”: aperto de mãos.

Não é muita coisa, mas é um começo, e me ajuda a lembrar do que vim

fazer aqui. Conhecer meu pai. Entender quem sou, por que tenho este rosto,

as origens da minha teimosia.

— Os jardins ficam lindos nesta época do ano — ele diz quando soltamos

as mãos.

Fico animada.

— É mesmo?

— Quer ver?

Penso por um momento. Ar fresco faz tudo ficar melhor.

— Claro. Vai na frente.

 

Sinto o ar frio e úmido nas bochechas. Cascalhos do tamanho de ervilhas

estalam sob os meus pés. Meu pai caminha ao meu lado de cabeça baixa e

ombros relaxados — o retrato de um príncipe desconstruído. Um arrepio

percorre meus braços.

— Você está com frio. — Ele fixa o olhar em algum lugar e, com uma

ordem silenciosa, um funcionário da casa se materializa.

Eu gostaria de aprender esse truque.

Meu pai fala em japonês, o rapaz faz uma reverência e desaparece.

Sombras de ombros largos se movem por entre as árvores — seguranças.

Vejo Akio entre eles. Vou demorar um pouco para me acostumar com isso.

Nem quando estamos sozinhos ficamos realmente sozinhos. O empregado

reaparece, e fico impressionada com sua agilidade. O suor brilha em sua

testa, mas ele não está ofegante. Faz uma reverência e oferece a meu pai um

xale de caxemira marfim. Meu pai pega e coloca ao redor dos meus ombros.

— Melhor?

— Muito. Obrigada. — Eu abraço o xale em torno do corpo.

Nunca pensei que fosse o tipo de garota que gosta de lã fina, mas pelo

visto isso poderia mudar rapidinho.

— Podemos continuar? — Ele segue em frente.

Caímos em um silêncio amigável. O som do vento e do trânsito de

Tóquio se instala entre nós. Meu pai aponta espécies de árvores. A bétula-

branca é seu símbolo pessoal. A trilha se abre, expandindo-se, e contorna o

lago. Paramos perto de um pinheiro-negro. Do outro lado da água, o sr.

Fuchigami e um grupo de camaristas estão parados, fingindo que não estão

observando esse grande momento.

O sorriso do meu pai é triste.

— O sr. Fuchigami provavelmente está chateado porque saímos. Não

estava no itinerário.

Aperto mais o xale.

— Já vi isso acontecer. Pensei que a cabeça de Akio fosse explodir

quando pedi para ir ao banheiro no aeroporto.

O sol está mais baixo. Os criados acendem luminárias de pedra. O jardim

agora tem um brilho amarelo e difuso. Meu pai murmura:

— Ah, o sr. Kobayashi. Eu mesmo o escolhi. Pensei que você ficaria

mais confortável com alguém da sua idade. — Assinto, sem querer parecer ingrata.

Bum. Levo um susto. Fogos de artifício cintilam no céu noturno feito

confeitos de açúcar. Um rosa reluzente, roxos profundos, azuis selvagens.

Ao longe, as luzes de Tóquio piscam para mim.

Meu pai se mexe, olhando para o céu.

— Que lindo! — exclamo, maravilhada.

As centelhas refletem em seus olhos escuros.

— É para você. Tóquio está dando as boas-vindas à sua nova princesa.

Para mim? Engulo em seco e faço o possível para não deixar isso subir à

minha cabeça.

Um criado se aproxima carregando uma bandeja de prata que contém

drinques em cristais pesados. Meu pai pega o menor, cheio de um líquido

âmbar. Eu pego a taça cheia de algo borbulhante. Bebo um gole e sorrio. É

sidra espumante. Delícia.

Ele faz uma reverência com sua sobrancelha imperial para mim (piadinha

infame).

— Sidra espumante. O principal caminho para conquistar meu coração é

me dando qualquer coisa com açúcar. — Ou abraços. Muitos e muitos

abraços.

Ele bebe o líquido âmbar.

— Acho que isso não estava na sua lista de preferências. — Verdade.

Mas eu listei várias sobremesas com as quais considero ter um

relacionamento sério. Ele olha para o líquido em seu copo, franzindo a

testa. — Um pai não deveria ter que ler sobre as preferências da filha. —

Ele parece melancólico e um pouco desolado. Será que está bravo com a

minha mãe? — Prefiro saber suas respostas por você mesma. Quais são

seus hobbies?

Será que assistir a Real Housewives conta como hobby?

— Eu me interesso por várias coisas, mas nada chamou minha atenção

ainda. Exceto confeitaria. Sou uma ótima confeiteira. — Minha cobertura

de creme com cream cheese é de matar.

— Suas primas Akiko e Noriko têm bichos-da-seda — ele diz. Nas

biografias da família real, hobbies são listados sempre em primeiro lugar

para as mulheres. — Sachiko gosta de escalar. A Agência da Casa Imperial

teve um chilique por causa disso, imagine só uma princesa de calças cargo.

Vanguardista demais. — Ele sorri por cima do copo, como se isso fosse

uma piada interna nossa. — E na escola, como você se sai?

Medíocre, no máximo. Mas meu pai é o príncipe herdeiro, então dou uma

dourada na pílula.

— Muito bem. — Até agora, só garanti admissão em duas faculdades

comunitárias. Dou um gole na minha bebida para não ter que elaborar.

— Seu quarto é bagunçado? — Ele gira o líquido do copo.

Tanto que poderia te dar pesadelos aterrorizantes de ser soterrado pela

bagunça.

— Sou bastante organizada, acho.

Todas as perguntas dele me levam a uma única conclusão: sou

extraordinariamente ordinária.

Seu peito infla de orgulho.

— Você me puxou. Quando novo, eu era muito organizado. — Ele me

observa por um momento.

Percebo que também estou sedenta para conhecê-lo melhor. Perguntas

surgem aos montes. Como ele era quando criança? Será que era muito

levado? Por favor, tenha sido muito levado. Mas ele pergunta antes de mim,

quase a contragosto:

— E sua mãe? Como ela está?

Fecho as mãos na taça.

— Está bem. Ainda solteira. — Olho para ele depressa. Nenhuma reação.

Acho que meu plano de um remake do clássico Operação cupido não vai

pra frente. Devo confessar, eu tinha uma esperançazinha de conseguir juntar

meus pais, fazê-los se apaixonarem loucamente de novo e então se casarem.

Sonhar não é proibido, é?

— Ela ainda coleciona canecas?

— Sim — digo calorosamente. — Sua favorita diz: “O Papai Noel

também não acredita em você”.

— E aquela outra que diz: “Odeio plantas falsas, sou raiz”?

— Não existe mais. Quebrei quando tinha sete anos.

Lembro nos mínimos detalhes. Minha mãe tinha feito chocolate quente.

A caneca estava pelando e eu soltei. Ela chorou e depois disse que era uma

boba por isso.

— Eu que dei essa caneca. — Meu pai relaxa a postura. — Ela riu feito

uma hiena.

Paro, de repente entendendo a reação da minha mãe. A caneca a ligava a

outra vida. Ao meu pai.

— Ela ainda é professora?

— Sim. Vive se autodepreciando por causa disso. Você conhece aquele

ditado que diz: “Quem não sabe fazer ensina”?

— Não conheço, mas entendo.

— Os alunos a amam e os outros professores são loucos por ela. Minha

mãe realizou tantas coisas incríveis.

— E criou você.

Depois de falar isso, ele me dá um tempo para digerir a frase. A

compreensão vem devagar, mas quando bate, um calor se espalha da ponta

dos dedos do meu pé até as orelhas. Ele bate seu copo no meu. Um brinde a

isso.

— Ela sempre quis ser professora. — Sua voz tem um tom suave,

carregado de algo que lembra estima e respeito. Sua expressão parece

saudosa. — Você… teve uma infância feliz?

— Sim. A melhor — respondo automaticamente.

Me jogo nas minhas histórias favoritas de quando era criança, como a vez

em que me vesti de pirata durante quase o ano todo no ensino fundamental.

Minha mãe embarcou totalmente nessa empreitada, pintando meus dentes

de preto todas as manhãs e botando limão na comida para que eu não

pegasse, sabe, escorbuto. Bons tempos. Conto sobre minhas amigas, sobre

como Noora é mandona, Hansani, agressivamente fofa, e Glory, implacável.

Deixo de fora a parte sobre viver em uma cidade com bandeiras

confederadas duelando com bandeiras de arco-íris. E a caixa de cartões do

Dia dos Pais sem destinatário ao lado do meu estoque de romances.

Ele solta um suspiro alto.

— Sua vida teria sido muito diferente se você tivesse sido criada aqui.

— Como?

— Bem, para começar, você teria recebido dois nomes muito específicos.

O primeiro terminaria com “nomiya”, que significa “membro da família

imperial”. — Certo. Nomes. O dele é Makotonomiya. — O segundo seria

um nome pessoal. Estudiosos fariam uma lista de opções. Eu teria escolhido

uma, que seria enviada para o imperador. Para aprovação, claro.

— Claro.

— O imperador teria ungido seus nomes em papel washi e os depositado

em uma caixa de cipreste laqueada, com o emblema de crisântemo dourado.

A caixa teria sido enviada para o palácio, depois para o hospital para ser

colocada sobre o seu travesseiro, bem ao lado da sua cabeça — diz ele com

uma voz baixa e calorosa. — Após o ritual de nomeação, você teria sido

banhada em uma banheira de cedro.

— Parece legal.

Ele volta a girar o líquido no copo.

— Um emblema floral teria sido escolhido para você.

Meu hálito forma pequenas nuvens no ar. Os fogos de artifício

terminaram. Perto do lago, vaga-lumes surgem, dançando sobre a água em

círculos concêntricos. Está frio. Mesmo assim, ainda não estou pronta para

entrar.

— Que flor você teria escolhido para mim? — Meus olhos estão

arregalados. Meu coração, aberto. Quero tanto que isso dê certo. Quero que

minha vida seja diferente. Melhor. Mais completa. Épica como a de uma

super-heroína.

— Eu teria escolhido flor-de-íris roxa.

O vaso no meu quarto. Uma única íris. Ele pensou em mim. Ele se

importa. Meus olhos ardem. Pisco, lutando contra as lágrimas. Se meu pai

perguntar, vou dizer que é o vento.

— A íris roxa representa pureza e sabedoria.

Fico mais emocionada. Como não sou muito boa em disfarçar, acabo

falando:

— Minha mãe me disse que não te contou porque sabia que você não ia

querer sair do Japão. Você seria como uma árvore longe da luz do sol. — E

ela não queria a vida da realeza, penso. Esse impasse levou à separação

deles. Era a única solução. Eu entendo, mas ainda é difícil aceitar.

Ele assente.

— Tenho deveres no Japão.

Esfrego o nariz.

— Entendo. Já vi todos os filmes do Homem-Aranha. — Graças à Glory.

Ela é louca pela Marvel. — Poder e responsabilidade, essas coisas.

O vento agita seu cabelo. Ele toma o resto da bebida.

— Eu não tinha intenção de morar nos Estados Unidos permanentemente.

Nunca foi uma opção.

Faço que sim e engulo em seco. Se eu não ficar remoendo isso, suas

palavras não vão doer tanto. Ele brinca com o copo vazio nas mãos,

contornando a borda com os polegares.

— Mas se eu soubesse que tinha uma filha, teria encontrado uma

solução. — Ele me observa e espera até que nossos olhares se encontrem.

— Eu teria nadado oceanos, escalado montanhas, atravessado desertos.

Teria dado um jeito.

Meu estômago para de se contorcer. A esperança sobe até meu peito. Tem

alguma coisa aí. Mais que eu esperava.

Um começo.