Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 7
As paredes do escritório do meu pai são de um cedro reluzente de tão
envernizado, e cada nervura da madeira se destaca. No momento, estou
sozinha. O sr. Fuchigami me deixou aqui e fechou as portas. Eu entendo. O
príncipe herdeiro não espera por ninguém. Isso é bom, porque tenho a
chance de bisbilhotar.
Assim como o meu quarto, este cômodo é escassamente mobiliado. Sei o
motivo. Uma coisa é ter dinheiro, outra é ostentar riqueza. Estou certa de
que entrei no coração sombrio do segundo caso. Os itens da estante são bem
espaçados. As luzes embutidas e os raios de sol ressaltam as peças — um
vaso chinês de porcelana azul-cobalto, uma caixa de prata de tabaco
espanhol, uma espécie de espada com um dragão dourado serpenteando o
cabo. Tudo é antigo, raro. Precioso. Aqui, as famílias não são medidas por
cifrões, mas por peças históricas e proveniência. E o que eu tenho? Tudo na
minha vida de repente parece sem valor.
Também há fotos. Emolduradas com simplicidade entre duas folhas de
vidro estão imagens do meu pai, todas em preto e branco. Em uma está ele
menino na frente de um painel shoji e a ponta dos dedos em teclas de piano.
Em outra, mais velho, posa enérgico e combativo em um uniforme de
botões de bronze. Também há fotos espontâneas. Ele abraçando um coala
na frente de um eucalipto. Bebendo cerveja com o irmão em um pub. Há uma foto do casamento da imperatriz e do imperador vestidos em seus
trajes imperiais, um quimono e um hakama.
As portas se abrem e eu me ajeito, alisando a saia do vestido. Meu
coração bate forte. Ele está emoldurado na porta, formando uma figura
imponente em sua camisa branca com botões de madrepérola e calças
pretas.
Ele inclina a cabeça e fala em japonês com o homem atrás de si. As
portas são fechadas. Estamos sozinhos. Podemos
a) nos abraçar;
b) dar um aperto de mãos; ou
c) sorrir genuinamente.
Mas escolhemos
d) nenhuma das opções anteriores — ficamos apenas nos olhando,
desconfortáveis.
Lá fora, as nuvens cinzentas se foram e o sol está se pondo. A luz é
diferente aqui — pensei que tons queimados de laranja e dourado só
pudessem ser criados por um grande artista. Sombras brincam pelo
ambiente e fazem os músculos tensos do rosto do meu pai ficarem em
relevo. Ele está indiferente. Eu estou desorientada.
— Você parece sua mãe — ele finalmente solta.
É como se eu tivesse levado um golpe. Será que interpretei seu tom
direito? Isso foi mesmo uma acusação? Fecho e abro as mãos. Meus piores
medos podem estar se tornando realidade. Ele não me quer. Isto foi um erro.
Estou pronta para explodir tudo.
— A primeira vez que vi uma foto sua, me achei muito parecida com
você.
— É, sim. É o nariz. A família imperial é conhecida por esse calombinho.
Toco no meu nariz e contorno a pequena crista no dorso.
— Você também parece com a imperatriz, minha mãe. — Seu tom fica
mais caloroso. — Tem queixo de elfa e olhos grandes. Ela era linda quando
jovem. Ainda bem que você não parece muito comigo. Sua mãe uma vez
me disse que eu quase sempre parecia ter acabado de comer uvas azedas.
Dou risada. Explosão cancelada, por enquanto.
Ele tensiona a mandíbula.
— Nunca me importei com os coloquialismos dela.
Fico séria.
Caímos em um silêncio constrangedor. O que eu estava pensando? Que
sairíamos correndo para os braços um do outro? Que nosso DNA
compartilhado funcionaria como ímã? Ele não é um pai retornando de uma
missão. Eu não sou uma criança aguardando ansiosamente a sua chegada.
Não temos lembranças para ancorar nossa relação. Ele não me colocou para
dormir, não me abraçou enquanto eu queimava de febre nem torceu por
mim quando eu fazia um home run jogando softball. Todos esses momentos
perdidos se estendem entre nós. Não quero culpá-lo por sua ausência, mas
acabo culpando um pouco. Tudo isto é tão injusto.
— Eu… — ele começa a dizer, mas para.
Ele não tem nada. Eu também não. O tempo se alonga. Somos estranhos.
Por que eu esperava que fosse diferente?
Ele sorri, hesitante.
— Estive frente a frente com touros na Espanha e não fiquei tão
assustado quanto estou agora. Minhas mãos estão trêmulas. — Ele me
mostra.
Seus dedos grossos tremem de leve.
Aliviada, consigo dar um sorrisinho.
— Nunca encarei um touro, mas colei a bunda do Tommy Steven na
cadeira no segundo ano do fundamental depois que ele roubou meus lápis
de cor. Fiquei com tanto medo de ser pega que confessei logo em seguida.
Seus olhos brilham de orgulho.
— Você tem senso de justiça.
Meus joelhos destravam e respondo com um sorriso radiante.
— Talvez a gente devesse começar de novo. — Ele estica a mão. —
Estou feliz que você esteja aqui. Estou ansioso para te conhecer.
Aperto a mão dele. Seu aperto é firme e reconfortante, não familiar.
Apagamos o xis na alternativa “d” e ficamos com a “b”: aperto de mãos.
Não é muita coisa, mas é um começo, e me ajuda a lembrar do que vim
fazer aqui. Conhecer meu pai. Entender quem sou, por que tenho este rosto,
as origens da minha teimosia.
— Os jardins ficam lindos nesta época do ano — ele diz quando soltamos
as mãos.
Fico animada.
— É mesmo?
— Quer ver?
Penso por um momento. Ar fresco faz tudo ficar melhor.
— Claro. Vai na frente.
Sinto o ar frio e úmido nas bochechas. Cascalhos do tamanho de ervilhas
estalam sob os meus pés. Meu pai caminha ao meu lado de cabeça baixa e
ombros relaxados — o retrato de um príncipe desconstruído. Um arrepio
percorre meus braços.
— Você está com frio. — Ele fixa o olhar em algum lugar e, com uma
ordem silenciosa, um funcionário da casa se materializa.
Eu gostaria de aprender esse truque.
Meu pai fala em japonês, o rapaz faz uma reverência e desaparece.
Sombras de ombros largos se movem por entre as árvores — seguranças.
Vejo Akio entre eles. Vou demorar um pouco para me acostumar com isso.
Nem quando estamos sozinhos ficamos realmente sozinhos. O empregado
reaparece, e fico impressionada com sua agilidade. O suor brilha em sua
testa, mas ele não está ofegante. Faz uma reverência e oferece a meu pai um
xale de caxemira marfim. Meu pai pega e coloca ao redor dos meus ombros.
— Melhor?
— Muito. Obrigada. — Eu abraço o xale em torno do corpo.
Nunca pensei que fosse o tipo de garota que gosta de lã fina, mas pelo
visto isso poderia mudar rapidinho.
— Podemos continuar? — Ele segue em frente.
Caímos em um silêncio amigável. O som do vento e do trânsito de
Tóquio se instala entre nós. Meu pai aponta espécies de árvores. A bétula-
branca é seu símbolo pessoal. A trilha se abre, expandindo-se, e contorna o
lago. Paramos perto de um pinheiro-negro. Do outro lado da água, o sr.
Fuchigami e um grupo de camaristas estão parados, fingindo que não estão
observando esse grande momento.
O sorriso do meu pai é triste.
— O sr. Fuchigami provavelmente está chateado porque saímos. Não
estava no itinerário.
Aperto mais o xale.
— Já vi isso acontecer. Pensei que a cabeça de Akio fosse explodir
quando pedi para ir ao banheiro no aeroporto.
O sol está mais baixo. Os criados acendem luminárias de pedra. O jardim
agora tem um brilho amarelo e difuso. Meu pai murmura:
— Ah, o sr. Kobayashi. Eu mesmo o escolhi. Pensei que você ficaria
mais confortável com alguém da sua idade. — Assinto, sem querer parecer ingrata.
Bum. Levo um susto. Fogos de artifício cintilam no céu noturno feito
confeitos de açúcar. Um rosa reluzente, roxos profundos, azuis selvagens.
Ao longe, as luzes de Tóquio piscam para mim.
Meu pai se mexe, olhando para o céu.
— Que lindo! — exclamo, maravilhada.
As centelhas refletem em seus olhos escuros.
— É para você. Tóquio está dando as boas-vindas à sua nova princesa.
Para mim? Engulo em seco e faço o possível para não deixar isso subir à
minha cabeça.
Um criado se aproxima carregando uma bandeja de prata que contém
drinques em cristais pesados. Meu pai pega o menor, cheio de um líquido
âmbar. Eu pego a taça cheia de algo borbulhante. Bebo um gole e sorrio. É
sidra espumante. Delícia.
Ele faz uma reverência com sua sobrancelha imperial para mim (piadinha
infame).
— Sidra espumante. O principal caminho para conquistar meu coração é
me dando qualquer coisa com açúcar. — Ou abraços. Muitos e muitos
abraços.
Ele bebe o líquido âmbar.
— Acho que isso não estava na sua lista de preferências. — Verdade.
Mas eu listei várias sobremesas com as quais considero ter um
relacionamento sério. Ele olha para o líquido em seu copo, franzindo a
testa. — Um pai não deveria ter que ler sobre as preferências da filha. —
Ele parece melancólico e um pouco desolado. Será que está bravo com a
minha mãe? — Prefiro saber suas respostas por você mesma. Quais são
seus hobbies?
Será que assistir a Real Housewives conta como hobby?
— Eu me interesso por várias coisas, mas nada chamou minha atenção
ainda. Exceto confeitaria. Sou uma ótima confeiteira. — Minha cobertura
de creme com cream cheese é de matar.
— Suas primas Akiko e Noriko têm bichos-da-seda — ele diz. Nas
biografias da família real, hobbies são listados sempre em primeiro lugar
para as mulheres. — Sachiko gosta de escalar. A Agência da Casa Imperial
teve um chilique por causa disso, imagine só uma princesa de calças cargo.
Vanguardista demais. — Ele sorri por cima do copo, como se isso fosse
uma piada interna nossa. — E na escola, como você se sai?
Medíocre, no máximo. Mas meu pai é o príncipe herdeiro, então dou uma
dourada na pílula.
— Muito bem. — Até agora, só garanti admissão em duas faculdades
comunitárias. Dou um gole na minha bebida para não ter que elaborar.
— Seu quarto é bagunçado? — Ele gira o líquido do copo.
Tanto que poderia te dar pesadelos aterrorizantes de ser soterrado pela
bagunça.
— Sou bastante organizada, acho.
Todas as perguntas dele me levam a uma única conclusão: sou
extraordinariamente ordinária.
Seu peito infla de orgulho.
— Você me puxou. Quando novo, eu era muito organizado. — Ele me
observa por um momento.
Percebo que também estou sedenta para conhecê-lo melhor. Perguntas
surgem aos montes. Como ele era quando criança? Será que era muito
levado? Por favor, tenha sido muito levado. Mas ele pergunta antes de mim,
quase a contragosto:
— E sua mãe? Como ela está?
Fecho as mãos na taça.
— Está bem. Ainda solteira. — Olho para ele depressa. Nenhuma reação.
Acho que meu plano de um remake do clássico Operação cupido não vai
pra frente. Devo confessar, eu tinha uma esperançazinha de conseguir juntar
meus pais, fazê-los se apaixonarem loucamente de novo e então se casarem.
Sonhar não é proibido, é?
— Ela ainda coleciona canecas?
— Sim — digo calorosamente. — Sua favorita diz: “O Papai Noel
também não acredita em você”.
— E aquela outra que diz: “Odeio plantas falsas, sou raiz”?
— Não existe mais. Quebrei quando tinha sete anos.
Lembro nos mínimos detalhes. Minha mãe tinha feito chocolate quente.
A caneca estava pelando e eu soltei. Ela chorou e depois disse que era uma
boba por isso.
— Eu que dei essa caneca. — Meu pai relaxa a postura. — Ela riu feito
uma hiena.
Paro, de repente entendendo a reação da minha mãe. A caneca a ligava a
outra vida. Ao meu pai.
— Ela ainda é professora?
— Sim. Vive se autodepreciando por causa disso. Você conhece aquele
ditado que diz: “Quem não sabe fazer ensina”?
— Não conheço, mas entendo.
— Os alunos a amam e os outros professores são loucos por ela. Minha
mãe realizou tantas coisas incríveis.
— E criou você.
Depois de falar isso, ele me dá um tempo para digerir a frase. A
compreensão vem devagar, mas quando bate, um calor se espalha da ponta
dos dedos do meu pé até as orelhas. Ele bate seu copo no meu. Um brinde a
isso.
— Ela sempre quis ser professora. — Sua voz tem um tom suave,
carregado de algo que lembra estima e respeito. Sua expressão parece
saudosa. — Você… teve uma infância feliz?
— Sim. A melhor — respondo automaticamente.
Me jogo nas minhas histórias favoritas de quando era criança, como a vez
em que me vesti de pirata durante quase o ano todo no ensino fundamental.
Minha mãe embarcou totalmente nessa empreitada, pintando meus dentes
de preto todas as manhãs e botando limão na comida para que eu não
pegasse, sabe, escorbuto. Bons tempos. Conto sobre minhas amigas, sobre
como Noora é mandona, Hansani, agressivamente fofa, e Glory, implacável.
Deixo de fora a parte sobre viver em uma cidade com bandeiras
confederadas duelando com bandeiras de arco-íris. E a caixa de cartões do
Dia dos Pais sem destinatário ao lado do meu estoque de romances.
Ele solta um suspiro alto.
— Sua vida teria sido muito diferente se você tivesse sido criada aqui.
— Como?
— Bem, para começar, você teria recebido dois nomes muito específicos.
O primeiro terminaria com “nomiya”, que significa “membro da família
imperial”. — Certo. Nomes. O dele é Makotonomiya. — O segundo seria
um nome pessoal. Estudiosos fariam uma lista de opções. Eu teria escolhido
uma, que seria enviada para o imperador. Para aprovação, claro.
— Claro.
— O imperador teria ungido seus nomes em papel washi e os depositado
em uma caixa de cipreste laqueada, com o emblema de crisântemo dourado.
A caixa teria sido enviada para o palácio, depois para o hospital para ser
colocada sobre o seu travesseiro, bem ao lado da sua cabeça — diz ele com
uma voz baixa e calorosa. — Após o ritual de nomeação, você teria sido
banhada em uma banheira de cedro.
— Parece legal.
Ele volta a girar o líquido no copo.
— Um emblema floral teria sido escolhido para você.
Meu hálito forma pequenas nuvens no ar. Os fogos de artifício
terminaram. Perto do lago, vaga-lumes surgem, dançando sobre a água em
círculos concêntricos. Está frio. Mesmo assim, ainda não estou pronta para
entrar.
— Que flor você teria escolhido para mim? — Meus olhos estão
arregalados. Meu coração, aberto. Quero tanto que isso dê certo. Quero que
minha vida seja diferente. Melhor. Mais completa. Épica como a de uma
super-heroína.
— Eu teria escolhido flor-de-íris roxa.
O vaso no meu quarto. Uma única íris. Ele pensou em mim. Ele se
importa. Meus olhos ardem. Pisco, lutando contra as lágrimas. Se meu pai
perguntar, vou dizer que é o vento.
— A íris roxa representa pureza e sabedoria.
Fico mais emocionada. Como não sou muito boa em disfarçar, acabo
falando:
— Minha mãe me disse que não te contou porque sabia que você não ia
querer sair do Japão. Você seria como uma árvore longe da luz do sol. — E
ela não queria a vida da realeza, penso. Esse impasse levou à separação
deles. Era a única solução. Eu entendo, mas ainda é difícil aceitar.
Ele assente.
— Tenho deveres no Japão.
Esfrego o nariz.
— Entendo. Já vi todos os filmes do Homem-Aranha. — Graças à Glory.
Ela é louca pela Marvel. — Poder e responsabilidade, essas coisas.
O vento agita seu cabelo. Ele toma o resto da bebida.
— Eu não tinha intenção de morar nos Estados Unidos permanentemente.
Nunca foi uma opção.
Faço que sim e engulo em seco. Se eu não ficar remoendo isso, suas
palavras não vão doer tanto. Ele brinca com o copo vazio nas mãos,
contornando a borda com os polegares.
— Mas se eu soubesse que tinha uma filha, teria encontrado uma
solução. — Ele me observa e espera até que nossos olhares se encontrem.
— Eu teria nadado oceanos, escalado montanhas, atravessado desertos.
Teria dado um jeito.
Meu estômago para de se contorcer. A esperança sobe até meu peito. Tem
alguma coisa aí. Mais que eu esperava.
Um começo.