Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 33 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 32

 

O sorriso dele é fácil, afetuoso. Ele inclina a cabeça.

— Izumi-chan. Encontrei você.

— O que… você está fazendo aqui?

Tamagotchi fareja os sapatos dele e morde a barra da sua calça.

Pego um osso no chão e o atiro no corredor. Tamagotchi corre atrás dele.

— Você me convidou — ele diz com simplicidade.

— Ah, meu Deus — Noora diz. — Vou fazer uma chamada de vídeo com

as meninas.

— Olá. — Meu pai inclina a cabeça, espiando Noora atrás de mim. —

Sou Makoto, Mak para facilitar. Pai da Izumi-chan. — Ele estende a mão.

Noora coloca o telefone no bolso e me empurra para o lado, o que é fácil,

já que todos os meus membros-barra-defesas estão inválidos e molengas no

momento. Ela cumprimenta meu pai.

— Noora. Farzad. Nenhuma relação com a família Farzad da empresa de

lavagem a seco. Sou amiga da Izumi. Ela me falou tanto de você. — Noora

dá uma risadinha. Muitas risadinhas, na verdade.

Ela não solta a mão dele. Certo. Hora de dar um jeito nisso. Eu os separo,

então bato meu quadril nela. Menos, garota.

— Não estava esperando você.

De repente, percebo que meu pijama xadrez está abotoado errado. Acho

que meu pai nunca me viu malvestida. Como estou? Boa pergunta. A única

resposta é: uma bela porcaria… Basicamente, um lixo. Puro lixo.

— Não estava? — Ele está perplexo, fingindo que nada aconteceu. Como

se eu não o tivesse envergonhado com meu suposto caso tórrido e depois

ido embora sem me despedir. — Acho que estou um pouco adiantado para a

sua formatura. De qualquer forma, aqui estou.

Não sei o que falar. As palavras me fogem.

Noora me cutuca, dizendo pelo canto da boca:

— Aqui está ele.

— Você não deveria, não pode… — digo, apressada. O que estou

tentando dizer? — Não pensei que você viria… e a sua agenda? Você não

pode simplesmente tirar uns dias de folga. Seu lugar não é aqui. — Dizer

isso soa tão ruim quanto parece, mas eu separei minhas vidas em

compartimentos diferentes. Há uma linha no centro: uma metade é o Japão

e a outra, os Estados Unidos. As duas metades jamais devem se encontrar.

— Claro que meu lugar é aqui. Você está aqui — ele diz, como se fizesse

todo o sentido do mundo. — Trouxe um presente. — Em sua mão, está uma

caixinha amarela de Tokyo Bananas. Os bolos recheados de creme podem

ser encontrados por todo o aeroporto. Ele oferece para mim com as duas

mãos

Trazer um omiyage, uma lembrancinha de viagem, é tradição. Não posso

recusar. Pego a caixa e agradeço. Então dou um passo para trás, jogo-a na

mesa e fecho o punho em volta da maçaneta. Talvez eu bata a porta na cara

dele. Meu pai deve pressentir minhas intenções, porque coloca um pé na

soleira.

— Izumi, você foi embora sem se despedir.

Abaixo a cabeça.

— Foi melhor assim. Pensei…

— O quê? Que eu ficaria bravo, que viraria as costas para você?

— Sim. — Para tudo. Noora coloca a mão no meu ombro. — Você disse

que, como membro da família imperial, era esperado que eu fosse

irrepreensível.

Ele franze a sobrancelha.

— Eu disse, mas estava me referindo aos tabloides. A mídia mantém a

família imperial em um padrão tão alto que é praticamente impossível

alcançá-lo. Mas ninguém é isento de falhas. Eu jamais culparia você por

cometer erros. Foi isso que pensou?

— Você ficou furioso com a possibilidade de um escândalo. — Cruzo os

braços para depois descruzá-los.

— Não — ele diz devagar. — Fiquei furioso por você, com a

possibilidade dos tabloides a machucarem com reportagens cruéis. Estava

tentando protegê-la. — Seu pé ainda está na porta. — Tudo isso é minha

culpa. Quis que você fosse para o Japão para me conhecer, conhecer a sua

família, mas acabamos não passando tempo suficiente juntos. Não

aproveitei em sua totalidade o presente que recebi, o motivo que levou você

até lá. Fui formal demais ao manter compromissos agendados. Nosso tempo

juntos não deveria ter sido tão rígido. — Ele abre as mãos, sorrindo. —

Então aqui estou. Você passou semanas no Japão aprendendo minha origem.

Agora, vou aprender a sua.

Fico parada, congelada. O aperto em meu coração começa a aliviar.

Minha cabeça está girando. Ele estava tentando me proteger… estava bravo

por mim…

Noora me cutuca de novo.

— O que está esperando? Deixa o homem entrar, Zoom. — E acrescenta

para ele: — Ela está surpresa. — Seu comportamento padrão é me dar cobertura. Passamos tantos anos inventando desculpas para os nossos pais

que virou uma coisa automática. — Ela só precisa de alguns minutos.

Podemos dar uma volta. Eu ficaria feliz de te mostrar Mount Shasta. Sabe,

posso te levar pra ver todos os locais assombrados. Se estiver interessado

em criação de cabras…

Minha mãe entra na sala.

— Zoom, você encheu a lavadora de novo…

— Hanako — meu pai diz e uau, não é que seu rosto se ilumina todo? É

como a força de mil sóis felizes.

Ela para de repente e se apoia nas costas de uma cadeira. Seu rosto perde

a cor.

— Makoto.

Ele tenta se aproximar, mas Noora e eu o bloqueamos. Ele fala por cima

da gente:

— Desculpe me intrometer assim… — Para e balança a cabeça como se

estivesse atordoado. — Me perdoe. Você não mudou nada.

Como se fôssemos uma só pessoa, Noora e eu viramos para avaliar o

estado da minha mãe. Ela mexe os pés, passando a mão no cabelo.

— Oh… eu… hum… ainda nem me troquei. — Para mim, ela está ótima

em seu traje usual de fim de semana: jeans, pés descalços e uma de suas

camisetas feministas. A de hoje diz: “Leia mulheres”. — Estava fazendo

faxina.

Meu pai passa por nós.

— Você está linda.

Noora aperta minha mão.

— Está vendo o que estou vendo? Eles estão se comendo com os olhos.

— Cala a boca — sussurro. — Tem adultos na sala.

Meu pai para na frente da minha mãe. Não consigo vê-la. Ele é tão alto

que a cobre completamente.

— O que você está fazendo aqui? — ela pergunta, assim como eu.

— Estou aqui para consertar as coisas.

Ouvimos uma sirene ao longe. O som vai ficando cada vez mais próximo

e parece aumentar. Luzes vermelhas e azuis iluminam nossas vidraças. A

polícia de Mount Shasta, acompanhada de carros escuros, entra na garagem

e estaciona esmagando o cascalho. Meu pai se afasta da minha mãe.

— Ah. Acho que eu deveria informá-la de que não contei a ninguém que

estava vindo para cá. Parece que a polícia chegou. Acho que fui descoberto.

— Ele não parece arrependido. Nem um pouco. Então, faz algo que eu

nunca o vi fazer. Nunquinha.

Dá risada.

 

Obrigo Noora a ir para casa.

Depois, precisamos de boas duas horas para resolver a bagunça do meu

pai. Policiais estão aqui. O embaixador do Japão está aqui. Até o presidente

liga e convida meu pai para jantar na Casa Branca. A Agência da Casa

Imperial está a caminho. Os camaristas e guardas imperiais do meu pai

chegarão amanhã de manhã. Até lá, quatro viaturas e alguns agentes do

serviço secreto ficarão de vigia do lado de fora da nossa casa. Como

nenhum dos hotéis foi examinado pela equipe de segurança, não temos

escolha a não ser hospedá-lo.

Meu pai parece muito satisfeito. Completamente inabalável. Minha mãe

está toda desgrenhada, oscilando entre olhar surpresa para ele e ficar com os

nervos à flor da pele. Eu nunca a vi assim. Ela derramou um copo cheio de

água enquanto arrumava a mesa para o jantar, queimou o ravióli e depois

ficou se desculpando copiosamente.

— Tenho certeza de que você não está acostumado com isso… — ela diz,

avaliando a mesa: o macarrão está em uma tigela rachada, os talheres são

cada um de um jogo diferente, e o conjunto de jantar é de segunda mão. Ela

colocou um de seus cardigans de trabalho por cima da camiseta.

— Está tudo maravilhoso. — Meu pai parece genuinamente feliz.

Desabotoa os punhos da camisa com movimentos fluidos e arregaça as

mangas. Um homem pronto para começar os trabalhos.

Quanto a mim, ainda não sei bem como estou lidando com tudo isso. As

coisas certamente tomaram um caminho interessante.

— Quer cerveja? Você ainda gosta de cerveja, certo? — minha mãe

pergunta. — Eu não tenho nada aqui, mas tenho certeza de que Jones tem.

Lembra quando ele passou por aquela fase de querer ser cervejeiro? — Ela

olha para mim.

Caramba. Para de falar, mãe.

— Quem é Jones? — meu pai pergunta, colocando um guardanapo no

colo.

Nunca vi um guardanapo de papel no palácio. Eram todos de linho ou

algodão, perfeitamente passados e dobrados. Os talheres de prata estavam

sempre aquecidos ou frios, de acordo com a comida que fosse servida. Os

nossos acabaram de sair da lava-louça, ainda molhados e tudo.

— O stalker da minha mãe.

Meu pai engasga com um gole de água.

— Zoom — ela me repreende. — É o nosso vizinho. Uma ótima pessoa.

— Ele é apaixonado por ela.

— É só uma paixonite. Nada de mais.

Meu pai franze as sobrancelhas, olhando para o prato. Será que não está

gostando dos arranhões no garfo?

— Os sentimentos dele não são correspondidos? — ele pergunta.

— Não sei — respondo. — Minha mãe e ele ficaram bem próximos

enquanto eu estava no Japão. Sabe, noites solitárias de primavera em frente

à fogueira…

Meu pai não vê a encarada questionadora que minha mãe me dá.

Confiem em mim. Estou fazendo um favor a ela. Nos meus romances,

sempre funciona. E se está nos livros é pelo menos meia-verdade.

Depois do jantar, ela lava a louça e eu mostro a casa para ele. O tour dura

cinco minutos no total. Passamos a maior parte do tempo no meu quarto. A

cama ainda está sem lençol.

Ele dá uma volta pelo cômodo. Fiz o mesmo no quarto de infância de

Akio, bisbilhotando e absorvendo tudo. Preciso parar de pensar nele. Queria

poder contar tudo o que aconteceu para ele. Meu pai apareceu do nada.

Será que veio por mim? Pela minha mãe? Por nós duas? Será que viu o

memorando antes de ir embora? A princesa Izumi fugiu.

Meu pai para e observa o pôster do musical Hedwig: Rock, amor e

traição — cortesia de Noora — com pisca-pisca em volta.

— Bem diferente do seu quarto no palácio — ele observa.

Estou pegando montanhas de roupas e enfiando-as no armário. Assopro a

franja do rosto. Será que ele lembra de ter perguntado sobre o meu quarto

na minha primeira noite no Japão?

— Pois é, não repara a bagunça. Não tive tempo de arrumar. — Muito

menos vontade.

Ele segue em frente, então para diante dos porta-retratos na minha

cômoda. Todos mostram Glory, Noora, Hansani e eu. As duas fotos mais

mortificantes são: uma que Noora tirou de mim rindo enquanto Tamagotchi

me lambia de um jeito que parece que a língua dele está na minha boca, e a

outra é da GGA completa no quinto ano vestindo jeans da cabeça aos pés.

Nada mais a declarar.

Estou tentando ler a expressão do meu pai. Será que está decepcionado?

Ele muda o foco. Pega o porta-retrato de cima. É uma foto ainda mais

constrangedora de Forest — ou melhor, o que sobrou dela. Pintei seus olhos

de preto e desenhei chifres demoníacos na sua cabeça. Confissão: a foto de

Akio não foi a primeira que rabisquei. Pelo menos não tem nenhum pênis

nesta aqui. Esta é a fase pré-pênis de Izzy, que ocorreu por volta do segundo

ano do ensino médio — um período solitário e raivoso.

— Forest, ex-namorado — esclareço.

Ele estuda a foto e depois olha para mim.

— Nunca falamos sobre namorados.

— Não tenho muito o que falar.

— O guarda imperial…

— Acabou. — Apesar de eu ainda estar na fossa por amá-lo. E na fossa

por não amá-lo. Que paradoxo.

Meu pai se aproxima de mim.

— Provavelmente foi melhor assim.

— Você não aprovaria? — pergunto, séria.

Ele franze as sobrancelhas.

— Minha aprovação não importa. Mas espero que você escolha alguém

que ame você tanto quanto eu amo… — A sua mãe. Ele com certeza ia

dizer “a sua mãe”. — Alguém um pouco mais corajoso, talvez. Se esse

guarda não conseguiu resistir aos ataques da imprensa, é melhor que tenha

terminado assim. É necessário coragem para namorar um membro da

família imperial.

— Como você sabe que não fui eu quem o deixou?

— Você fugiu do Japão. Tenho certa experiência com amor e fugas. —

Ele pisca para mim. — Portanto, suponho que tenha ido embora por causa

de um coração partido.

Isso, entre outras coisas. Ele pode até não estar bravo comigo, mas isso

não muda muita coisa. Como posso explicar? Foi por causa de Akio, mas

também pela imprensa. As Gêmeas Iluminadas. Toda a família imperial. Eu

poderia passar a vida toda aprendendo os costumes, embarcando na cultura

do Japão, mas nunca vou me encaixar. Sou tipo aqueles bolinhos amarelos

por fora e brancos por dentro. Odeio isso. Significa que me odeio? Não. Só

odeio essa divisão.

— Mesmo se ele quisesse ficar comigo, nunca daria certo, não é? Um

plebeu com uma princesa? — reproduzo a opinião de Yoshi.

— A vida é cheia de possibilidades, Izumi. Mas as coisas não acontecem

num passe de mágica. Relacionamentos dão trabalho. Eu tinha o mesmo

medo quando conheci sua mãe. Estava focado demais em mim mesmo e no

meu papel. Se eu estiver errado e essa coisa com o guarda imperial for

séria…

— Não é — interrompo. — Eu queria que fosse. Mas acho que ele não

estava pronto.

— Como pensei. — Meu pai fica reflexivo. — Quer que ele seja

removido da cidade? Há nove milhões e meio de pessoas em Tóquio, então

as chances de você trombar com esse jovem são baixas. Mas eu poderia

bani-lo.

Dou um sorrisinho com o canto da boca.

— Você pode mesmo fazer isso?

— Não. — Ele sorri. — Tenho quase certeza de que isso violaria todo

tipo de lei. Mas eu faria qualquer coisa para amenizar seu sofrimento. —

Seu sorriso aumenta. — Volte para o Japão, Izumi-chan.

Fico séria no mesmo instante.

— Não. Não posso.

Até quando pensei que estava me dando bem, na verdade não estava. Há

tanto para aprender, mais do que eu poderia absorver em uma vida inteira.

Não adianta caminhar adiante quando alguém está cavando um buraco bem

na sua frente.

— Certo. — Ele olha para seu relógio de ouro. — Meus camaristas vão

aparecer amanhã. Mas vou deixar claro que vou ficar até a sua formatura.

Parece que tenho três dias para te convencer.

— Sinta-se livre para tentar. — Sorrio para suavizar o golpe.

Aprendi minha lição. A Terra do Sol Nascente e eu não somos

compatíveis.

Mesmo assim, estou feliz por uma pequena parte do Japão estar aqui

comigo.