Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 12 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 11

 

 

Sericicultura deveria vir com vários avisos.

Aviso um: a atividade envolve ficar frente a frente com princesas gêmeas

ultraperfeitas com as quais é impossível não se comparar.

Aviso dois: haverá fotos. A ocasião será documentada e divulgada para a

imprensa (em outras palavras: não faça nenhuma merda).

Aviso três: haverá minhocas. Minhocas. MINHOCAS. Ninguém mencionou

que sericicultura era a produção de seda por meio da criação de bichos-da-

seda.

Fico parada diante de uma mesa. Akiko e Noriko estão do outro lado, me

encarando feito gaviões. É realmente uma arte olhar com o nariz empinado

desse jeito para alguém que tem a mesma altura que você. Entre nós está

um pedaço de papel-manteiga cheio de folhas e cerca de mil corpinhos de

bichos-da-seda se contorcendo. À nossa volta estão os supervisores

imperiais: damas de companhia (a minha e as das gêmeas), camaristas,

fotógrafos e um guarda ou dois. Akio incluso. Escolhemos o silêncio como

forma de tratamento, e temos nos comunicado exclusivamente por meio de

terceiros.

Um flash irrompe. Foto número quatro.

O Japão está de péssimo humor esta manhã. Uma tempestade varreu

Tóquio na noite passada. Ventos uivantes e uma chuva forte ameaçaram arrancar os botões de cerejeiras de seus galhos e me mantiveram acordada,

revirando na cama. Agora, o ar na sala aberta paira pesado como se

estivesse fazendo cara feia. Além disso, o cheiro é azedo, como esteira de

tatame úmida.

Noriko — ou seria Akiko? — sussurra algo para a irmã. As duas têm

maçãs do rosto proeminentes, sorrisos sedutores e dentes alinhados. Franjas

muito retas emolduram os rostos perfeitos.

Seus lábios se contorcem de rir. Meu Deus, até a risada delas é bonita,

lembra o som de sinos dos templos.

— Prima — uma delas diz baixinho, de modo que só eu possa ouvir.

Outra câmera dispara. Me recomponho com um breve sorriso. Mariko

está nos observando com… preocupação? Irritação? Difícil saber. Mas,

enquanto a encaro, parece que ela pode ver através de mim.

— Só estávamos comentando como seu vestido é fofo — a outra ronrona.

Olho para baixo. Aliso o leve tecido cor-de-rosa sobre a minha barriga.

Sinto as mangas apertando meus cotovelos.

— Ah. Obrigada…

— Sim — a dupla concorda, com um tom sarcástico e esnobe. — Você

fica parecendo tão magra.

Enfio as unhas na palma da mão. Quero dar um soco no nariz delas. Será

que é muito difícil remover mancha de sangue do linho? Um milhão de

xingamentos enchem minha boca.

O criador de bichos-da-seda da casa imperial e seus assistentes entram na

sala. Estão vestidos da cabeça aos pés em roupas cáqui, feito tratadores de

um zoológico exótico, carregando cestos cheios até a borda de folhas de

amoreira.

Um dos fotógrafos imperiais sussurra algo para o sr. Fuchigami. O

camarista sorri.

— Ótima ideia. Vamos tirar uma foto das três princesas juntas.

Akiko e Noriko contornam a mesa tão sincronizadamente que dou um

pulo. Daqui para a frente vou sempre chamá-las de “Gêmeas Iluminadas”,

em homenagem à sua aura Stephen King.

Um bicho-da-seda corajoso deixou a segurança do berço de folhas de

amoreira e papel-manteiga e vem avançando lentamente na direção do meu

dedo mindinho. Esse carinha tem cor de gesso e é um pouco peludo e gordo

— seu corpo roliço lembra meu estômago no feriado de Ação de Graças.

Esqueça a GGA e o Black Bear Diner, esses otários é que sabem como viver,

se acabando de comer folhas enquanto são gentilmente aquecidos pelas

luzes.

Outro flash. As Gêmeas Iluminadas posam recatadamente para a foto,

mas a câmera pegou meu rosto virado para baixo.

— Sua Alteza — o sr. Fuchigami diz.

Levanto o queixo. As Gêmeas Iluminadas se aproximam.

— Fiquei te admirando durante o jantar — uma delas diz.

— Queria poder comer como você — a outra acrescenta.

Uau. Elas realmente abriram fogo. Ainda assim, dou um sorriso doce

para a foto. Flash. Viro ligeiramente para a esquerda. A gêmea deste lado

tem uma pintinha sob o olho, uma marca de beleza.

— Aposto que posso te fazer comer como eu — falo alto o suficiente

para que ambas me ouçam.

Finalmente, uma delas diz:

— Oh, Aki-chan, nossa prima é engraçada.

Volto o olhar para os bichos-da-seda. O fugitivo desapareceu.

— Você deve ter aprendido isso com o seu pai — Akiko diz.

Não aprendi isso com meu pai. Não poderia ter aprendido isso com meu

pai. Acabei de conhecê-lo. As Gêmeas Iluminadas estão me lembrando que sou o deslize do príncipe herdeiro. Estão aqui para dar um jeito de me

despachar. Fico pasma. Qual é a delas? Não suportam dividir os holofotes?

Estou pisando nos seus calos de salto alto? Enfim, agora tenho certeza

absoluta de que este dia vai terminar com uma garota na cadeia. E essa

garota serei eu. Eu mesma.

As cestas de folhas de amoreira são erguidas. As câmeras enlouquecem.

Este é o momento pelo qual todos esperavam — vamos colocar os galhos

em cima dos bichos-da-seda, alimentá-los e participar de um ritual de seis

mil anos de idade. Essa foto vai constatar que sou apenas um aro na roda do

vagão de um trem em perfeito funcionamento. É maravilhoso e um pouco

assustador fazer parte de algo maior do que si mesma. Esta instituição, este

título vão durar mais do que eu. Meus joelhos fraquejam. Me sinto pequena,

não estou à altura da tarefa.

Sinto cócegas no braço. Olho para baixo. É o bicho-da-seda da Ação de

Graças. Ele arqueia o corpo e se ergue como se fosse um cão de caça,

farejando o cheiro de amora. Como não encontra nada, retoma o curso pelo

meu braço. Racionalmente, sei que ele não pode me machucar.

Emocionalmente, é uma declaração de guerra. Quero ele longe de mim.

Agora.

Balanço o braço. Ação de Graças se recusa a se mover. Malditas patas

pegajosas adaptadas ao longo de décadas para escalar árvores. Neste

momento, odeio o processo de evolução mais do que tudo.

As gêmeas estão oferecendo galhos de amoreira para os bichos-da-seda,

completamente relaxadas. Calmas até demais. Fico desconfiada, mas não

tenho tempo para analisar se podem ser as responsáveis por isso (com

certeza são). Ação de Graças está tentando se enfiar embaixo da minha

manga. Ah, meu Deus. Se ele entrar no meu vestido, vou morrer. Morrer.

Lembro do acampamento de verão do sexto ano. Uma abelha entrou no

meu moletom e eu entrei em pânico. Tirei a roupa, só que não estava

usando camiseta nem sutiã por baixo. Acabei pagando peitinho para todo o

refeitório do Camp Sweeney. Agora, sinto que estou prestes a viver situação

semelhante.

Levanto a mão, pronta para dar um peteleco no precioso bicho-da-seda

Koishimaru, uma espécie rara cultivada exclusivamente pela família

imperial. Até onde sei, é ele ou eu. Não ligo se o casulo que ele tece é usado

para restaurar artefatos antigos de valor inestimável ou se é considerado um

tesouro nacional. Sayonara, bicho-da-seda.

Um corpo se coloca entre mim e Akiko. Uma mão desliza pelo meu

braço, capturando o bicho-da-seda. Olho para cima e vejo Mariko, que veio

para o resgate. Apertando os lábios, ela abre a mão e deposita o bicho-da-

seda nas folhas da amoreira. Ação de Graças desaparece entre os seus.

Mariko se mistura ao fundo novamente.

O sr. Fuchigami acena e diz algo em japonês. Os fotógrafos imperiais

abaixam as câmeras e saem da sala. Estou um milhão por cento certa de que

fiz besteira. O sr. Fuchigami confirma minha suspeita quando diz:

— Não se preocupe, Sua Alteza. Se não tivermos conseguido uma foto

boa, podemos editá-la.

Arruinei o momento cuidadosamente preparado para a foto.

As Gêmeas Iluminadas são presunçosas. Agora entendo a dinâmica de

poder aqui. Eu estou lá embaixo. O tempo passa devagar. Sinto o sangue

deixar meu rosto e se acumular na ponta dos meus dedos dos pés. Lá vêm

elas. Lágrimas quentes se acumulam em meus olhos. Como se o dia não

pudesse ficar pior, começo a chorar bem na frente das Gêmeas Iluminadas.

Durante a tarde, fico na sala de estar observando Mariko feito uma gata

enquanto ela remexe uma pilha de luvas. Recebo uma notificação. Ante o

som do alerta, Mariko me encara com um olhar astuto. Ela tem um

problema com meu apego patológico pelo celular. Meus olhos ainda estão

um pouco inchados. Chorei no carro na volta ao palácio. Mariko e o sr.

Fuchigami ficaram conversando em japonês. Aff. Desconfortável, no

mínimo. Agora, Mariko está me evitando. Eu me encolho e fico totalmente

deitada, com as pernas para fora do sofá.

Número desconhecido

Pronta para deixar os holofotes celestiais?

Eu

Quem é?

Número desconhecido

Não reconhece seu primo favorito?

Número desconhecido

Estou arrasado. Ofendido. Profundamente magoado.

 

Apesar da minha melancolia, sorrio. Yoshi.

Eu

Como conseguiu meu número?

Yoshi

O Google é o melhor amigo do homem.

Eu

Vdd?

Yoshi

Não. Eu pedi. Ninguém se opôs. É incrível o que a gente da realeza

consegue.

Yoshi

Mas um aviso: é totalmente possível encontrar qualquer coisa na

internet hoje em dia. Achando o tutorial certo no YouTube, eu poderia

até fazer uma vasectomia em mim mesmo.

Eu

Você realmente faria isso?

Yoshi

Claro que não. Privar o mundo do meu esperma de alta qualidade?

Improvável.

Yoshi

Você não respondeu minha pergunta.

Eu

Qual foi a pergunta exatamente?

Yoshi

Está pronta para deixar os holofotes celestiais?

Eu

Não sei o que isso significa.

Yoshi

Tóquio, querida. Estou falando sobre passar uma noite na cidade.

 

Olho para Mariko. Ela desapareceu e trouxe mais luvas. Meu Deus.

Eu

Não posso. Tenho que fazer uma prova de luvas.

Yoshi

Isso existe? Não importa. Não vou entrar nesse assunto agora. Nada de

bom acontece antes das nove mesmo.

Eu

Não acho que seja uma boa ideia

Yoshi

Discordo. Esta é provavelmente a melhor ideia que já tive.

Olho para a janela e penso no convite. As árvores estão balançando ao

vento, prometendo uma noite de clima agradável, mas é impossível fugir

daqui. Toda a área é coberta por uma dúzia de guardas imperiais, incluindo

Akio, e várias câmeras. Mas estou entediada e inquieta, além de um pouco

triste.

Mordo o lábio. Todos os eventos fora do palácio devem ser previamente

autorizados. Apesar de ninguém ter falado com todas as palavras, está

implícito que não posso sair sozinha. O lugar de uma princesa é em uma

torre altamente vigiada.

Eu

Supondo que eu aceite o convite, como passaria pela segurança?

Yoshi

Deixa comigo. Só vem. Vamos quebrar protocolos e partir corações.

Ter uma noite daquelas, de acordar sem saber onde está e o que rolou.

Yoshi

Topa ou não?

 

Lembro da viagem de carro do aeroporto até Tóquio, em que tive a

sensação de estar espiando por um buraco de fechadura. Yoshi está me

oferecendo a oportunidade de destrancar a porta e abri-la. Não era o que eu

queria, ver a cidade aos meus pés? Noora e eu faríamos isso juntas. Se ela

estivesse aqui, não hesitaríamos em fugir pela noite com a promessa de uma

aventura nos aguardando na esquina, então isso não é nada de outro mundo

para mim. Em nome de todas as melhores amigas de todos os lugares, sou

praticamente obrigada a aceitar. Além disso, preciso de um amigo. Digito

minha resposta, com o peito cheio de expectativa.

Eu

Topo.