Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 11
Sericicultura deveria vir com vários avisos.
Aviso um: a atividade envolve ficar frente a frente com princesas gêmeas
ultraperfeitas com as quais é impossível não se comparar.
Aviso dois: haverá fotos. A ocasião será documentada e divulgada para a
imprensa (em outras palavras: não faça nenhuma merda).
Aviso três: haverá minhocas. Minhocas. MINHOCAS. Ninguém mencionou
que sericicultura era a produção de seda por meio da criação de bichos-da-
seda.
Fico parada diante de uma mesa. Akiko e Noriko estão do outro lado, me
encarando feito gaviões. É realmente uma arte olhar com o nariz empinado
desse jeito para alguém que tem a mesma altura que você. Entre nós está
um pedaço de papel-manteiga cheio de folhas e cerca de mil corpinhos de
bichos-da-seda se contorcendo. À nossa volta estão os supervisores
imperiais: damas de companhia (a minha e as das gêmeas), camaristas,
fotógrafos e um guarda ou dois. Akio incluso. Escolhemos o silêncio como
forma de tratamento, e temos nos comunicado exclusivamente por meio de
terceiros.
Um flash irrompe. Foto número quatro.
O Japão está de péssimo humor esta manhã. Uma tempestade varreu
Tóquio na noite passada. Ventos uivantes e uma chuva forte ameaçaram arrancar os botões de cerejeiras de seus galhos e me mantiveram acordada,
revirando na cama. Agora, o ar na sala aberta paira pesado como se
estivesse fazendo cara feia. Além disso, o cheiro é azedo, como esteira de
tatame úmida.
Noriko — ou seria Akiko? — sussurra algo para a irmã. As duas têm
maçãs do rosto proeminentes, sorrisos sedutores e dentes alinhados. Franjas
muito retas emolduram os rostos perfeitos.
Seus lábios se contorcem de rir. Meu Deus, até a risada delas é bonita,
lembra o som de sinos dos templos.
— Prima — uma delas diz baixinho, de modo que só eu possa ouvir.
Outra câmera dispara. Me recomponho com um breve sorriso. Mariko
está nos observando com… preocupação? Irritação? Difícil saber. Mas,
enquanto a encaro, parece que ela pode ver através de mim.
— Só estávamos comentando como seu vestido é fofo — a outra ronrona.
Olho para baixo. Aliso o leve tecido cor-de-rosa sobre a minha barriga.
Sinto as mangas apertando meus cotovelos.
— Ah. Obrigada…
— Sim — a dupla concorda, com um tom sarcástico e esnobe. — Você
fica parecendo tão magra.
Enfio as unhas na palma da mão. Quero dar um soco no nariz delas. Será
que é muito difícil remover mancha de sangue do linho? Um milhão de
xingamentos enchem minha boca.
O criador de bichos-da-seda da casa imperial e seus assistentes entram na
sala. Estão vestidos da cabeça aos pés em roupas cáqui, feito tratadores de
um zoológico exótico, carregando cestos cheios até a borda de folhas de
amoreira.
Um dos fotógrafos imperiais sussurra algo para o sr. Fuchigami. O
camarista sorri.
— Ótima ideia. Vamos tirar uma foto das três princesas juntas.
Akiko e Noriko contornam a mesa tão sincronizadamente que dou um
pulo. Daqui para a frente vou sempre chamá-las de “Gêmeas Iluminadas”,
em homenagem à sua aura Stephen King.
Um bicho-da-seda corajoso deixou a segurança do berço de folhas de
amoreira e papel-manteiga e vem avançando lentamente na direção do meu
dedo mindinho. Esse carinha tem cor de gesso e é um pouco peludo e gordo
— seu corpo roliço lembra meu estômago no feriado de Ação de Graças.
Esqueça a GGA e o Black Bear Diner, esses otários é que sabem como viver,
se acabando de comer folhas enquanto são gentilmente aquecidos pelas
luzes.
Outro flash. As Gêmeas Iluminadas posam recatadamente para a foto,
mas a câmera pegou meu rosto virado para baixo.
— Sua Alteza — o sr. Fuchigami diz.
Levanto o queixo. As Gêmeas Iluminadas se aproximam.
— Fiquei te admirando durante o jantar — uma delas diz.
— Queria poder comer como você — a outra acrescenta.
Uau. Elas realmente abriram fogo. Ainda assim, dou um sorriso doce
para a foto. Flash. Viro ligeiramente para a esquerda. A gêmea deste lado
tem uma pintinha sob o olho, uma marca de beleza.
— Aposto que posso te fazer comer como eu — falo alto o suficiente
para que ambas me ouçam.
Finalmente, uma delas diz:
— Oh, Aki-chan, nossa prima é engraçada.
Volto o olhar para os bichos-da-seda. O fugitivo desapareceu.
— Você deve ter aprendido isso com o seu pai — Akiko diz.
Não aprendi isso com meu pai. Não poderia ter aprendido isso com meu
pai. Acabei de conhecê-lo. As Gêmeas Iluminadas estão me lembrando que sou o deslize do príncipe herdeiro. Estão aqui para dar um jeito de me
despachar. Fico pasma. Qual é a delas? Não suportam dividir os holofotes?
Estou pisando nos seus calos de salto alto? Enfim, agora tenho certeza
absoluta de que este dia vai terminar com uma garota na cadeia. E essa
garota serei eu. Eu mesma.
As cestas de folhas de amoreira são erguidas. As câmeras enlouquecem.
Este é o momento pelo qual todos esperavam — vamos colocar os galhos
em cima dos bichos-da-seda, alimentá-los e participar de um ritual de seis
mil anos de idade. Essa foto vai constatar que sou apenas um aro na roda do
vagão de um trem em perfeito funcionamento. É maravilhoso e um pouco
assustador fazer parte de algo maior do que si mesma. Esta instituição, este
título vão durar mais do que eu. Meus joelhos fraquejam. Me sinto pequena,
não estou à altura da tarefa.
Sinto cócegas no braço. Olho para baixo. É o bicho-da-seda da Ação de
Graças. Ele arqueia o corpo e se ergue como se fosse um cão de caça,
farejando o cheiro de amora. Como não encontra nada, retoma o curso pelo
meu braço. Racionalmente, sei que ele não pode me machucar.
Emocionalmente, é uma declaração de guerra. Quero ele longe de mim.
Agora.
Balanço o braço. Ação de Graças se recusa a se mover. Malditas patas
pegajosas adaptadas ao longo de décadas para escalar árvores. Neste
momento, odeio o processo de evolução mais do que tudo.
As gêmeas estão oferecendo galhos de amoreira para os bichos-da-seda,
completamente relaxadas. Calmas até demais. Fico desconfiada, mas não
tenho tempo para analisar se podem ser as responsáveis por isso (com
certeza são). Ação de Graças está tentando se enfiar embaixo da minha
manga. Ah, meu Deus. Se ele entrar no meu vestido, vou morrer. Morrer.
Lembro do acampamento de verão do sexto ano. Uma abelha entrou no
meu moletom e eu entrei em pânico. Tirei a roupa, só que não estava
usando camiseta nem sutiã por baixo. Acabei pagando peitinho para todo o
refeitório do Camp Sweeney. Agora, sinto que estou prestes a viver situação
semelhante.
Levanto a mão, pronta para dar um peteleco no precioso bicho-da-seda
Koishimaru, uma espécie rara cultivada exclusivamente pela família
imperial. Até onde sei, é ele ou eu. Não ligo se o casulo que ele tece é usado
para restaurar artefatos antigos de valor inestimável ou se é considerado um
tesouro nacional. Sayonara, bicho-da-seda.
Um corpo se coloca entre mim e Akiko. Uma mão desliza pelo meu
braço, capturando o bicho-da-seda. Olho para cima e vejo Mariko, que veio
para o resgate. Apertando os lábios, ela abre a mão e deposita o bicho-da-
seda nas folhas da amoreira. Ação de Graças desaparece entre os seus.
Mariko se mistura ao fundo novamente.
O sr. Fuchigami acena e diz algo em japonês. Os fotógrafos imperiais
abaixam as câmeras e saem da sala. Estou um milhão por cento certa de que
fiz besteira. O sr. Fuchigami confirma minha suspeita quando diz:
— Não se preocupe, Sua Alteza. Se não tivermos conseguido uma foto
boa, podemos editá-la.
Arruinei o momento cuidadosamente preparado para a foto.
As Gêmeas Iluminadas são presunçosas. Agora entendo a dinâmica de
poder aqui. Eu estou lá embaixo. O tempo passa devagar. Sinto o sangue
deixar meu rosto e se acumular na ponta dos meus dedos dos pés. Lá vêm
elas. Lágrimas quentes se acumulam em meus olhos. Como se o dia não
pudesse ficar pior, começo a chorar bem na frente das Gêmeas Iluminadas.
Durante a tarde, fico na sala de estar observando Mariko feito uma gata
enquanto ela remexe uma pilha de luvas. Recebo uma notificação. Ante o
som do alerta, Mariko me encara com um olhar astuto. Ela tem um
problema com meu apego patológico pelo celular. Meus olhos ainda estão
um pouco inchados. Chorei no carro na volta ao palácio. Mariko e o sr.
Fuchigami ficaram conversando em japonês. Aff. Desconfortável, no
mínimo. Agora, Mariko está me evitando. Eu me encolho e fico totalmente
deitada, com as pernas para fora do sofá.
Número desconhecido
Pronta para deixar os holofotes celestiais?
Eu
Quem é?
Número desconhecido
Não reconhece seu primo favorito?
Número desconhecido
Estou arrasado. Ofendido. Profundamente magoado.
Apesar da minha melancolia, sorrio. Yoshi.
Eu
Como conseguiu meu número?
Yoshi
O Google é o melhor amigo do homem.
Eu
Vdd?
Yoshi
Não. Eu pedi. Ninguém se opôs. É incrível o que a gente da realeza
consegue.
Yoshi
Mas um aviso: é totalmente possível encontrar qualquer coisa na
internet hoje em dia. Achando o tutorial certo no YouTube, eu poderia
até fazer uma vasectomia em mim mesmo.
Eu
Você realmente faria isso?
Yoshi
Claro que não. Privar o mundo do meu esperma de alta qualidade?
Improvável.
Yoshi
Você não respondeu minha pergunta.
Eu
Qual foi a pergunta exatamente?
Yoshi
Está pronta para deixar os holofotes celestiais?
Eu
Não sei o que isso significa.
Yoshi
Tóquio, querida. Estou falando sobre passar uma noite na cidade.
Olho para Mariko. Ela desapareceu e trouxe mais luvas. Meu Deus.
Eu
Não posso. Tenho que fazer uma prova de luvas.
Yoshi
Isso existe? Não importa. Não vou entrar nesse assunto agora. Nada de
bom acontece antes das nove mesmo.
Eu
Não acho que seja uma boa ideia
Yoshi
Discordo. Esta é provavelmente a melhor ideia que já tive.
Olho para a janela e penso no convite. As árvores estão balançando ao
vento, prometendo uma noite de clima agradável, mas é impossível fugir
daqui. Toda a área é coberta por uma dúzia de guardas imperiais, incluindo
Akio, e várias câmeras. Mas estou entediada e inquieta, além de um pouco
triste.
Mordo o lábio. Todos os eventos fora do palácio devem ser previamente
autorizados. Apesar de ninguém ter falado com todas as palavras, está
implícito que não posso sair sozinha. O lugar de uma princesa é em uma
torre altamente vigiada.
Eu
Supondo que eu aceite o convite, como passaria pela segurança?
Yoshi
Deixa comigo. Só vem. Vamos quebrar protocolos e partir corações.
Ter uma noite daquelas, de acordar sem saber onde está e o que rolou.
Yoshi
Topa ou não?
Lembro da viagem de carro do aeroporto até Tóquio, em que tive a
sensação de estar espiando por um buraco de fechadura. Yoshi está me
oferecendo a oportunidade de destrancar a porta e abri-la. Não era o que eu
queria, ver a cidade aos meus pés? Noora e eu faríamos isso juntas. Se ela
estivesse aqui, não hesitaríamos em fugir pela noite com a promessa de uma
aventura nos aguardando na esquina, então isso não é nada de outro mundo
para mim. Em nome de todas as melhores amigas de todos os lugares, sou
praticamente obrigada a aceitar. Além disso, preciso de um amigo. Digito
minha resposta, com o peito cheio de expectativa.
Eu
Topo.