Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 3
Mensagens
17h26
Eu
É real, a ideia de confrontar minha mãe é o melhor laxante de todos.
Noora
Você consegue.
Noora
É tipo um episódio de Law & Order. Chegou a hora dela pagar pelos
crimes. Vc é o promotor corajoso que faz justiça.
Eu
Prefiro ser a Mariska Hargitay. Ela é foda. Além disso, o parceiro dela é o Ice-T.
Eu
Vou lá, minha mãe chegou.
Noora
Lembra do martelo da justiça!
Com um suspiro, coloco o celular no silencioso. Abro os ombros. Estou
decidida. Sinto um frio na barriga que não passa. Aguento firme, sigo pelo
corredor e entro na cozinha. Minha mãe já está a toda, abrindo e fechando
armários, despejando óleo em uma wok gigante. Vai rolar stir-fry hoje. Tento controlar o tremor nas minhas mãos. Mantenha a calma. Aja
naturalmente. Não vai ser difícil. É praticamente minha função diária ficar
na cozinha a partir das seis horas perguntando de dez em dez minutos
quando o jantar vai ficar pronto.
Me aproximo da bancada e sento em um dos bancos. Há várias canecas
penduradas no armário — minha mãe coleciona. Suas favoritas têm frases
peculiares. “Geologia é do cascalho” está na minha linha de visão direta.
Ela coloca uma tábua, uma faca e pimentões multicoloridos na minha
frente.
— Pique, pique — diz ela.
Obedeço, cortando um pimentão laranja.
— Mãe?
— Hum? — Ela envolve o tofu em um pano.
Vejo que tirou o blazer, mas ainda está usando o resto de seu “uniforme
escolar”: camisa com mangas dobradas até os cotovelos e uma saia lápis
elegante.
— Me conta de novo sobre meu pai, o doador de esperma.
Nosso relacionamento era tão franco. Eu poderia resumi-lo em uma única
sentença: mãe solo e filha única, nós duas contra o mundo. Agora, tudo
parece complicado demais. Tudo mudou. Mas ela não percebeu ainda. O
mesmo aconteceu quando os pais de Glory se divorciaram. A mãe começou
a namorar o dentista enquanto o pai planejava o aniversário de vinte anos de
casamento. Mentiras estragam tudo.
Minha mãe fecha os olhos. Ah, ela está na vibe tive-um-longo-dia-e-
estou-sem-tempo-para-isso.
— Já pedi pra você não usar esse termo.
— Desculpa. Eu sou da escola pública. Temos aula de educação sexual.
Estou bem informada demais.
Ela desembrulha o tofu, corta em cubinhos e joga na wok. Ele chia e o
som é estranhamente satisfatório, como voltar para casa.
— Pode ser em outra hora? Estou fazendo o jantar.
Aperto a faca, enquanto uma onda de determinação percorre meu corpo.
A resposta dela não me deixa nem um pouco furiosa. Não mesmo.
— Ah, não. Me conta agora.
Ela para e vira para mim, um brilho desconfiado no olhar.
— Por que isso? Está sentindo falta de ter um pai?
Ah, a expressão em seu rosto… é de partir o coração. Minha
determinação entra em modo defensivo. O que posso dizer? Sim. Estou.
Mais ainda, estou sentindo falta de ter um passado. Não tenho parentes
maternos. Ela é sansei, ou seja, neta de japoneses. Seus avós emigraram nos
anos trinta. Não falavam inglês e embarcaram em um navio para a América
apenas com a esperança de uma vida melhor. Depois da Segunda Guerra,
enfiaram seus velhos quimonos debaixo da cama, montaram árvores de
Natal em dezembro e passaram a falar exclusivamente inglês.
Mas algumas tradições se recusam a desaparecer. Se infiltram nas
rachaduras e se juntam às fundações da casa: retirar os sapatos antes de
entrar, sempre levar um presente quando for visitar alguém pela primeira
vez, celebrar o Ano-Novo comendo Toshikoshi soba e mochi. Queria
conhecer melhor essas tradições. Queria me entender. Queria colocar as
mãos na terra e arrancar as raízes.
Mas não posso falar nada disso para ela. Não posso falar que quando as
pessoas me perguntam sobre a minha história — quem eu sou, de onde
venho —, acabo respondendo em tom de desculpas. Não, não falo japonês.
Não, nunca fui para o Japão. Não, não gosto de sushi. Sempre fica claro
em seus olhares decepcionados: não sou o suficiente.
Tudo isso magoaria minha mãe.
Então, deixo que o silêncio fale por mim.
Seu suspiro é longo e doloroso. Ela olha para o teto. Senhor, dê-lhe
paciência.
— Eu o conheci no último ano da faculdade, em uma festa. Dormimos
juntos. Descobri que estava grávida de você depois que me formei. Mas
então já era tarde demais pra ir atrás dele.
— Você nunca soube o nome dele?
Ela evita meu olhar.
— Não.
— Não sabia onde ele morava?
— Não.
— Mas e os amigos dele? Você não tentou encontrar ele através dos
amigos?
— Não tínhamos amigos em comum.
— Hum.
— Está satisfeita agora? Terminou a redação sobre As aventuras de
Huckleberry Finn?
Encaro a pergunta como uma ofensa pessoal.
— Claro que terminei. — A verdade: não terminei. Mas consegui uma
semana extra. Um viva à desculpa da menstruação. Ela não precisa saber
disso. — E não, ainda não estou satisfeita.
O tofu estala na wok. Ela adiciona uma cebola.
— Izumi.
Adoro como minha mãe diz o meu nome, alongando o I, suavizando o
zumi, com um punhado de amor por trás de cada sílaba. Mas hoje há uma
pitada de irritação.
— Então ele nunca te disse que se chamava Makotonomiya Toshihito? —
Digo o nome baixinho, mas ele cai como uma pedra no nosso piso de linóleo.
E, neste momento, sei que minha mãe mentiu sobre tudo. Ela engole em
seco, abre a boca e me encara com seus olhos escuros. Culpada. Culpada.
Culpada.
— Como você sabe esse nome? — pergunta, com a voz aguda.
Largo a faca e o pimentão.
— Vi naquele livro da sua mesinha de cabeceira. Quer dizer, só o nome
Makoto. Noora e eu descobrimos o resto.
— Você mexeu nas minhas coisas? — Fios de cabelo escaparam de seu
rabo de cavalo baixo.
— Não. — Tecnicamente Noora é quem mexeu nas coisas dela. — Não
estava bisbilhotando. Encontrei o livro por acaso.
Ela franze as sobrancelhas. Não acredita em mim. Mas a questão não é
essa. A questão é…
— Você mentiu pra mim. Você disse que não sabia o nome dele. Você
disse que ele não era ninguém. E ele é, sim, alguém.
A desonestidade dela está escancarada agora. O chão parece tremer. Um
abismo nos separa. Cruzo os braços. Ainda falta cortar dois pimentões. Que
se danem os pimentões e o jantar.
Minha mãe fecha a cara e vira de lado. Fico olhando seu perfil.
— Eu sabia quem ele era, e daí? — ela pergunta, mexendo o tofu e a
cebola com uma colher de pau. — Era tão clichê. Uma garota pobre se
apaixona por um príncipe. Coisas assim não acontecem na vida real. E se
acontecem, não terminam com um “felizes para sempre”.
— Mãe? — Seus movimentos são mecânicos. Misturar. Temperar.
Saltear. — Mãe! — Isso chama sua atenção. Nos encaramos. Várias coisas
não ditas passam entre nós. — Por que você mentiu pra mim?
Ela dá de ombros, lava e pica o brócolis.
— A vida dele já estava toda planejada. A minha estava só começando.
Quando descobri que estava grávida, contei para uma amiga. Eu estava
meio familiarizada com a vida na corte, mas ela me esclareceu mais sobre o
assunto. Teria sido sufocante. Você nem imagina como era em Harvard.
Sempre tinha alguém com ele, um mordomo, um pajem, um guarda
imperial ou a polícia. A gente dava um ou outro beijo rápido nos corredores
e se escondia em hotéis. Ele não tinha privacidade nenhuma. — Ela para
por um momento, enxugando as mãos em um pano de prato. Depois se
volta para mim. — As mulheres da realeza são minuciosamente avaliadas.
Tudo é colocado sob uma lupa. São criticadas por suas causas, seus vestidos
e seus filhos. Eu vi seu pai tendo que fazer escolhas como se fosse um bebê.
Você pode ter isso ou aquilo, mas nunca tudo. Sua vida teria sido
determinada pela sua família, e eu não queria isso para você. Para nós.
— E ele concordou com isso?
Ela vira o rosto.
— Eu não contei para ele.
Cerro os punhos. Tenho dezoito anos e meu pai não sabe que eu existo.
— Você deveria ter contado. Ele… talvez ele tivesse ficado nos Estados
Unidos.
Seu sorriso contém toda a tristeza do mundo.
— Ele disse mais de uma vez que, se ficasse aqui, seria como uma árvore
longe da luz do sol. Como eu poderia pedir isso?
— Você deveria ter me contado. Eu merecia saber a verdade.
— Tem razão. — Ela desliga o fogo, retira a wok do fogão, se debruça na
bancada e segura meu rosto com as duas mãos. Seus dedos estão gelados.
— Mesmo assim, tivemos uma vida legal juntas, não é? Acho que só o que
posso dizer é que fiz tudo pensando no seu bem.
Suponho que proteger os filhos seja uma espécie de instinto materno.
Mas suas boas intenções são ofuscadas pela minha raiva e pelo sentimento
de traição — combinação perigosa. Disparo:
— E no seu próprio bem.
Ela se afasta.
— O quê?
— Você também fez tudo pensando no seu próprio bem. — Exponho seu
egoísmo. Não tenho como justificar meu péssimo comportamento. Mas, às
vezes, quando se está na merda, não dá para evitar arrastar os outros com a
gente. É solitário demais na sarjeta. — Você não queria ter uma vida com o
meu pai, então escolheu outra coisa. Mas eu nunca tive a chance de
escolher.
Minha mãe respira fundo. Acertei bem no seu ponto fraco.
— Izumi…
Levanto do banco. Baixei a guarda com ela. Grande erro. Nunca imaginei
que minha mãe pudesse me magoar. O mundo é mesmo um lugar cruel e
hostil. As coisas vão ficar feias. Um complicado colapso emocional me
aguarda no horizonte.
Muito devagar, vou para o meu quarto, para lamber minhas feridas
sozinha.
Minha mãe me dá espaço. Enquanto choro, Tamagotchi dorme. Ele não é
lá um animal de estimação muito bom em oferecer apoio emocional. Nossa
relação é nitidamente unilateral. Eu dou petiscos, e ele arrota na minha cara.
É a vida.
Noora me manda um gif de um chihuahua dançando em duas patas.
Noora
Morrendo aqui. O que sua mãe disse?
Viro a tela do celular para baixo. Ainda estou tentando entender minhas
emoções, cutucando a casquinha da minha raiva. Remoendo.
Ouço uma batida na porta.
— Zoom Zoom?
Minha mãe entra, trazendo uma tigela de arroz e stir-fry. Coloca o jantar
na cômoda e senta ao meu lado na cama. Como ainda estou irritada, olho
para a janela. Ela pega minha mão. Seu toque quente e seco me conforta,
apesar de tudo.
— Isto é o que eu deveria ter feito anos atrás. — Sua voz é calma,
controlada e fácil, sem o peso da mentira. — O nome do seu pai é
Makotonomiya Toshihito. Ele é o príncipe herdeiro do Japão. Um dia, vai
ser imperador. As pessoas faziam reverências para ele, mas ele nunca me
pediu isso. Eu o chamava de Mak. E por uma curta temporada, ele foi meu.
O sol muda de posição, descendo no céu. A grama alta em nosso quintal
balança.
Logo, fico sabendo de tudo. Meus pais se conheceram em uma festa. Não
foi amor à primeira vista, mas rolou uma conexão. A conexão levou a
telefonemas, que levaram a encontros, que levaram a pernoites. Eles
concordaram em manter a relação em segredo. Minha mãe não queria
chamar atenção.
— Trabalhei tanto para chegar ali. Não podia arriscar tudo por um cara.
Ele respeitou minhas vontades. A gente se divertiu. Mas nós dois sabíamos
que não ia durar. Nossos mundos eram muito diferentes. — Ela dá risada.
— Mak não sabia passar nem lavar roupa, nem mesmo fazer uma sopa.
Tomava todas e adorava cerveja artesanal. Era engraçado. Tinha um senso
de humor peculiar e sarcástico. Você não percebia que estava sendo alvo de
suas farpas até que estivesse sangrando e ele tivesse ido embora.
Meus olhos enrugam nos cantos.
— Você guardou o livro que ele te deu por todos esses anos?
Ela olha para as pernas.
— É uma edição rara. Esqueci que o poema estava lá.
Nós duas sabemos que ela está mentindo. Está na cara que ainda gosta do
meu pai. Mas é um segredo seu.
Minha mãe levanta e pega um papelzinho do bolso.
— Não faço ideia de como entrar em contato com ele agora, mas a gente
tinha amigos em comum, sim. David Meier é professor de química na
Universidade de Estocolmo. Ele e seu pai eram próximos. Talvez ainda se
falem. — Ela coloca o papelzinho perto de mim e toca meu ombro, então
minha bochecha. — Tente comer um pouco.
Quando ela já está fechando a porta, eu digo:
— Desculpa… pelo que falei.
— Desculpa também. Pelo que nunca falei.
Uma ponte surge sobre o abismo entre nós. Apesar de frágil, é
transitável. Vai ficar tudo bem.
Estou me coçando para pegar o papel.
— Mais uma coisa — digo. — Você realmente não se importa se eu
tentar falar com ele?
Se eu for atrás dele, vamos atrair holofotes. Nossa vida pode nunca mais
ser a mesma.
Ela hesita. A apreensão pesa nos seus ombros. Ela assente uma única vez
e estufa o peito. Sempre faz isso quando está se preparando para algo
difícil. Como no meu primeiro dia na escolinha, em que me agarrei em suas
pernas e chorei enquanto ela tentava a todo custo me soltar. Ou quando ela
cortou o dedo fazendo um sanduíche para mim. Espirrou sangue para todo
lado. Ela enrolou a mão em uma toalha e fomos para o pronto-socorro, mas não sem antes pegar meu lanche e uns livros. Minha mãe sempre me coloca
em primeiro lugar.
— Não, não ligo. — Sua voz é tão gentil e compreensiva que quero
explodir em lágrimas de novo. — Consegui tudo o que queria e muito mais.
Nossa vida é pequena em comparação com a dele. Mas sou feliz.
Ela sai e eu pego o papel. Há um e-mail, davidmeier@ue.com. Clico no
ícone de envelope no meu celular.
Querido sr. Meier,
Meu nome é Izumi Tanaka. Minha mãe, Hanako, se formou em Harvard em 2003. Ela acha
que talvez você ainda tenha contato com meu pai, Makotonomiya Toshihito. Seria possível
me ajudar a falar com ele? Quem sabe poderia encaminhar a mensagem a seguir.
Obrigada,
Izumi
Respiro fundo e começo a escrever uma espécie de carta para o meu pai.
Querido Mak,
Você não me conhece, mas eu te conheço.
Aff. Muito psicopata. E casual. Apago e começo de novo.
Querido Príncipe Herdeiro Toshihito,
Acho que sou sua filha…