Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 8
Uma pequena reunião, disseram. Um jantar de celebração em sua
homenagem. Só para familiares. Nada de mais. Aliás, não mencionamos a
conferência de imprensa? E os tocadores de sinos? E quanto ao breve
concerto da orquestra da casa imperial? Não? Desculpe, falha nossa.
A noite tranquila começou com uma festinha nada tranquila. Em outras
palavras, uma recepção de boas-vindas extremamente estressante. É um
choque para o meu sistema depois da caminhada gostosa que fiz com o meu
pai. Um repórter do Clube de Imprensa Imperial me encara. Seu crachá diz
Shigesada Inada, Gazeta do Japão. Até agora, suas perguntas são como
fiapos enrolados no algodão.
— Qual é a sua cor preferida? — Nenhum dos repórteres tem blocos de
notas ou gravadores.
É estranho. Além disso, são todos homens.
Vermelho como o sangue dos meus inimigos, penso. A verdade: estou um
pouquinho bêbada. O voo transpacífico está cobrando seu preço.
— Azul — respondo serenamente.
O sr. Fuchigami se mantém por perto. Correção: pairando sobre mim.
Ele está mais nervoso do que o Tamagotchi em um quarto cheio de
aspiradores de pó. Quando respondo de um jeito que ele aprova, um som de
satisfação emana de sua garganta. Até agora, consegui cinco barulhinhos. O repórter faz uma reverência e me agradece antes de ir embora. Do outro
lado da sala, meu pai também é entrevistado. Akio está presente, parado no
canto, como uma pintura gótica.
— Está acabando? — pergunto ao sr. Fuchigami, quando ficamos
sozinhos. — Estou tão cansada. Posso sentir o cheiro das cores. Ou talvez
seja a cocaína. — Diante de seus olhos esbugalhados, esclareço: —
Brincadeira! Estou brincando. — Só eu dou risada.
Lá em Mount Shasta, essa teria sido de matar. Noora uma vez riu tanto de
uma das minhas piadas que expeliu leite pelo nariz. De verdade.
— O sino deve anunciar o jantar em breve — ele me tranquiliza. — A
família geralmente gosta de tomar uns drinques na sala de estar em seguida,
mas você não precisa ficar.
Vejo uma caixa cloisonné com fundo de escama de peixe em um canto. É
elegante e alta, se encaixa aqui muito melhor do que eu. Estamos em um
salão de recepção com carpete cor de aipo, cercado por um piso de parquete
laqueado, e as paredes são da mesma cor da madeira. Elegante e arejado, o
salão é parte do Palácio Tōgū, mas é separado por uma série de painéis de
correr no estilo shoji. A imprensa, os tocadores de sino e a orquestra não
são permitidos além deste ponto.
Meu quarto está a três minutos a pé. Se eu pensar demais na minha cama,
vou acabar pegando no sono. Preciso mudar de assunto já.
— A imprensa foi gentil.
O sr. Fuchigami parece surpreso.
— Claro que sim. Eles são membros do Clube de Imprensa Imperial,
escolhidos a dedo pela Agência da Casa Imperial.
Um rubor de constrangimento esquenta minhas bochechas. Me jogaram
no meio de um labirinto, e as chaves para encontrar a saída dependem de
um vórtex de protocolos, tradições e regras que eu não faço a menor ideia de quais sejam. Engulo a bola gigante de estresse. Depois penso no que
fazer. A procrastinação já me foi útil no passado. Minha missão: sobreviver
a esta noite. É tão sinistro quanto parece.
O sino do jantar toca. O grupo se divide, e o bando de repórteres e
tocadores de sino desaparece pela porta.
— Por aqui. — O sr. Fuchigami me conduz até a sala de jantar. A longa
mesa está decorada com panos engomados e pratas reluzentes. Um criado
de luvas brancas puxa uma cadeira para mim. Meu coração afunda quando
vejo onde devo sentar.
— Não vou ficar ao lado do meu pai? — Olho para o sr. Fuchigami.
Ele balança a cabeça uma única vez.
— Não. Os lugares foram cuidadosamente distribuídos. Colocamos você
ao lado de sua família estendida. Dessa forma, otimizamos e dividimos seu
tempo igualmente para cada membro. — Ele escolhe as próximas palavras
com cuidado. — Como filha do príncipe herdeiro, é fundamental que você
dê atenção a cada um. Não deve ter favoritos. Agora… — Ele aponta. —
Por favor, acomode-se.
As mesas se aquietaram. Todos estão atrás de suas cadeiras e olhando
para mim. Minha família está obviamente esperando algo. Meu pai sorri.
Perto dele, estão sentadas duas gêmeas, sem dúvida Akiko e Noriko, os
brilhantes da pulseira imperial. E dá para ver por que tanto destaque. Elas
são belíssimas, com seus rostos ovais e lábios da cor de sapatilhas de balé.
São tão idênticas e perfeitas que chega a ser um pouco bizarro, como se
tivessem saído totalmente formadas de uma das tapeçarias de seda.
O pai delas é irmão do meu pai e o segundo na linha de sucessão ao
trono. Ele também está na ponta da mesa. Sua esposa está ao lado e, embora
esteja vestida impecavelmente, seu rosto está tenso, pálido e retraído.
— Desculpe — sussurro para o sr. Fuchigami. Estou tão confusa. — O
que está acontecendo?
— Eles estão esperando sua apresentação — ele diz, como se isso
explicasse tudo. Quando não faço nada, ele continua: — Fale um pouco
sobre você. — Com isso, ele faz uma reverência e vai embora. Vai embora.
Olho para os meus pés. O piso é de carpete e tem círculos estampados.
Estou de pé no meio de um deles. Sou o centro das atenções, literal e
figurativamente.
— Ah, hum. Olá. — Olho para cima. Meu corpo parece estar pegando
fogo. Aceno com a mão, então lembro que não vi ninguém fazer isso desde
que cheguei. Recolho o braço. — Konnichiwa. Meu nome é Izumi. Mas
vocês todos provavelmente já sabem disso. Eu moro em Mount Shasta,
Califórnia, e agora acho que também moro aqui. — Puxo a orelha e procuro
um terraço para me jogar. — O que mais? Tenho um cachorro chamado
Tamagotchi.
As gêmeas estreitam os olhos e cobrem a boca com as mãos para
sussurrar algo uma para a outra.
Quando alguém tem que cobrir a boca, nunca é para dizer algo bom.
Começo a me embananar.
— Ele é um ótimo cachorro. Mais ou menos. Uma vez, tentei embrulhá-
lo num pano e colocá-lo num campo de flores para fazer uma espécie de
ensaio fotográfico estilo bebê recém-nascido e ele quase arrancou minha
cara. Então acho que ele não é tão ótimo assim… — Paro. Perto de mim
estão dois garotos e uma garota que parecem ter a minha idade. Estão
sorrindo como se estivessem sendo obrigados. Pare de falar. Agora. —
Enfim. Izumi. Mount Shasta. Prazer em conhecer vocês. — Faço uma
reverência desajeitada. Desabo na cadeira, tentando desaparecer.
Há um minuto de silêncio. Todos continuam de pé, até que meu pai senta.
A conversa recomeça. Estou morrendo no poço do meu próprio
constrangimento. Meu único consolo é que Akio não está. Sem dúvida, está
espreitando de algum lugar da propriedade.
— Bem, você deu o seu melhor — o garoto ao meu lado diz. — Yoshi.
— Ele me oferece a mão. Limpo a minha discretamente no vestido antes de
cumprimentá-lo, aliviada com o gesto familiar. — Primo de segundo grau,
nome oficial Yoshihito, sétimo na linha de sucessão. Filho de Asako e
Yasuhito.
Ele acena com a cabeça em direção aos pais, que estão sentados na nossa
diagonal — um homem pequeno e de aparência afável e uma mulher
usando um colar de diamantes que parece caríssimo. Seus sorrisos são
calorosos, mas um pouco apreensivos. Entendido. Não sou a única tentando
lidar com toda essa situação de filha ilegítima do príncipe herdeiro.
— Por favor, nos chame de tia e tio — Asako fala, inclinando a cabeça.
Yasuhito assente amigavelmente, concordando. Gosto de homens que
apoiam suas esposas.
— Agora, sei o que está pensando. — Yoshi saca o guardanapo e o
deposita no colo. Uma mecha de cabelo cai sobre o olho. Ele parece uma
estrela de j-pop que abriu um alçapão e caiu na realeza. — Você está certa.
No passado, primos distantes podiam casar. Mas, hoje em dia, não pegaria
bem. — E faz um beicinho.
— Que pena — digo, inexpressiva.
Copio seu movimento com o guardanapo. Um criado de luvas brancas
segurando uma jarra de prata enche minha taça de água.
Ele desfaz o bico e troca por um sorriso.
— Ah. Você vai se sair bem. Gostei de você.
Também gostei dele — de um jeito puramente platônico, do tipo primos-
que-não-se-beijam. Não acho que seja necessário deixar isso claro. Ele me
lembra um pouco Noora. Eles têm a mesma vibe “curta o momento”, que eu
também gostaria de ter.
— Você está constrangendo nossa prima — a garota na minha frente
repreende Yoshi. Ela tem um rosto pequeno e oval, e o cabelo escuro está
preso em um meio rabo. Um diamante brilhante na mão esquerda cintila
quando ela toma um gole de água. — Não dá bola pro meu irmão. Meu
nome é Sachiko — ela se apresenta e depois apresenta o homem sentado ao
seu lado. — Meu noivo, Ryu.
— Prazer em conhecê-la — ele diz, acenando a cabeça.
— Não se preocupa, Sa-chan — Yoshi diz, virando para mim. — Decidi
te colocar sob as minhas pernas.
Levo uns bons cinco segundos para decodificar a mensagem.
— Acho que você quis dizer asas.
— Asas?
Dou um suspiro, contente por poder explicar. Finalmente, algo que eu sei.
— A expressão correta é “te colocar sob as minhas asas”.
Ele faz uma careta.
— Por que eu diria isso? Não tenho asas.
— A expressão não faz referência a humanos, meu Deus. — O cara
sentado ao meu lado bufa, irritado. Ele parece muito com Yoshi. Devem ser
irmãos. Mas tem cabelo mais curto, costas mais eretas e um semblante
tenso. Endireita os talheres e dobra o guardanapo em um triângulo
simétrico. — Surgiu da observação de pássaros, que abrigam seus filhotes
sob as asas. Obviamente.
— Meu irmão — Yoshi confirma minha suspeita. — Passou quatro anos
na Escócia estudando ornitologia e linguística. Se tiver problemas para dormir, peça para ele te contar sobre sua tese a respeito da criação do galo-
silvestre-preto em cativeiro.
Sachiko dá risada. Seu irmão não está nada satisfeito. O antagonismo
deles é uma coisa que reconheço e que me traz certo conforto — a mesma
sensação de vestir um suéter velho. Ainda assim, ele faz um aceno mal-
humorado com a cabeça.
— Masahito — ele diz.
— Achou seus aposentos aceitáveis? — tio Yasuhito pergunta, a boca se
movendo por baixo do bigode.
— Mais que aceitáveis — respondo.
Um criado me oferece uma toalhinha quente com uma pinça. Olho para
Yoshi e vejo que ele a desembrulhou e está enxugando as mãos. Depois a
joga em uma tigela de prata que outro criado segura atrás. Pego a toalha.
— O palácio foi reformado recentemente — tia Asako diz.
— Ah, sim, é tipo um sonho do Nate Berkus — digo, e então viro,
depositando a toalha na tigela de prata.
Sussurro um agradecimento, mas o criado não nota. Seu olhar está fixo
em um ponto na parede.
Tio Yasuhito franze as sobrancelhas. Confundi o pobre homem.
— Nate Berkus?
Dou um sorriso.
— É um designer de interiores famoso nos Estados Unidos. O melhor
amigo da Oprah.
Os olhos da tia Asako brilham de leve.
— Ah, sim, é como o Shoji Matsuri. Ele é designer de casas de gatos. —
Tia Asako cutuca o marido. — Lembra, ele fez um projeto para mim. Quer
o contato? — Sua voz se torna um sussurro. — Ele é muito discreto.
— Não, obrigada. Gosto mais de cachorros — respondo, sem entender
muito bem o que ela quis dizer.
Algumas coisas não devem ser entendidas.
Yoshi chama minha atenção.
— Ela tem um Warhol felino original naquela casa. — Ele revira os
olhos. — Que ironia.
A conversa diminui. Uma tigela de sopa clara é colocada na minha
frente. Legumes picados flutuam em torno de uma folha dourada coberta
de… caviar? Meus dedos se agitam acima dos vários talheres e utensílios.
Garfos, facas e colheres me assombram. Olá, Zoom Zoom. Você não sabe
usar nenhum de nós, né? Sou um peixe fora d’água — ou melhor, uma
garota fora de Mount Shasta. Meus nervos fervem e meu estômago se
revira. O resto da família percebe minha hesitação e eu me mexo,
desconfortável, me sentindo uma formiga sob uma lente de aumento.
Debaixo da mesa, um joelho toca o meu. Yoshi levanta com bastante
ênfase a colher que está ao lado das facas.
— Perna — ele murmura.
Dou um sorrisinho e mentalmente prometo nomear meu primogênito de
Yoshi. Por que ainda não estou comendo? Ponha a sopa pra dentro.
Mergulho a colher e, do outro lado da mesa, Sachiko pisca para mim. Faço
contato visual com meu pai. Sua expressão preocupada pergunta: “Tudo
bem?”. Respondo com um aceno, meu joinha versão princesa. Tudo certo.
Todos na sala de jantar parecem enfim respirar.
E assim vai.
É como se estivessem me servindo equações complicadas, e meus primos
de segundo grau tivessem assumido o papel de professores pacientes e
disfarçados. A cada novo prato, eles me mostram como usar um talher. O
jantar transcorre como um borrão da alta cozinha francesa, cheio de espumas, géis e pós. Entre o segundo e o terceiro pratos, a conversa gira em
torno do imperador e da imperatriz, que estão visitando a prefeitura de
Okinawa.
— Vocês não os veem muito? — pergunto a meus primos.
Masahito inspeciona sua taça de cristal e limpa uma mancha com o
guardanapo.
— O dever máximo de Suas Majestades Imperiais é servir o povo.
— Sim, eles são considerados os pais de todo o Japão — Yoshi diz,
baixando a voz para um sussurro. — O imperador não é um deus, mas
também não é um homem. Nós podemos viver na terra, mas ele ainda vive
acima das nuvens.
A sobremesa é servida: frutas no formato de uma flor-de-íris. Feita
especialmente para mim. Outra forma de me desejar boas-vindas. Aproveito
a homenagem. Mas o momento passa logo, percebo com espanto. Só
sobrevivi graças aos meus primos.
Depois do jantar, drinques são oferecidos na sala de estar. É a minha
deixa; o sono me chama. Minha doce cama está apenas a alguns minutos de
distância. Levantamos da mesa e dou boa-noite para o meu pai. Minhas tias,
tios e primos me observam enquanto vou embora. Não consigo evitar sentir
o peso de seus olhares em minhas costas, a força de suas ressalvas. Estão
perguntando a mesma coisa que eu: “Será que estou à altura da família
imperial?”.
FOFOCAS DE TÓQUIO
Japão avalia novo membro da família imperial
23 de março de 2021
Sua Alteza Imperial a Princesa Izumi (na foto) chegou ao Aeroporto Internacional de Narita ontem à tarde vestida casualmente, com uma calça legging e um suéter. A blogueira imperial Junko Inogashira estava presente. “A roupa certamente não seguia o protocolo. O pior é que a princesa não falou nem acenou para a multidão. Muitas pessoas a esperaram por horas e ficaram completamente ofendidas quando ela foi embora. Ouvi de um funcionário do aeroporto que, além disso, ela também foi grossa com seu guarda imperial quando eles pararam para usar o banheiro.”
Será que a princesa já está deixando seu novo título subir à cabeça? O zelador Chie Inaro não concorda. Ele a encontrou durante a pausa para o banheiro mencionada acima. Em uma entrevista exclusiva para o Fofocas de Tóquio, Inaro só tinha boas coisas a dizer sobre a princesa. “É uma garota linda, muito linda, a epítome da graça. Ela usou o meu lenço para secar as mãos”, ele se gabou, mostrando o pano branco agora emoldurado. “Quero guardá-lo, mas meu filho quer fazer um leilão. Ele acha que vamos conseguir uma fortuna.” De fato, até o momento desta reportagem, o lance atual do lenço era de dois milhões de ienes. Inaro planeja aplicar o dinheiro para a aposentadoria.
Desde que chegou no aeroporto, a princesa não saiu das propriedades imperiais. A Agência da Casa Imperial se recusou a comentar como ela está se saindo. Não podemos deixar de nos perguntar por que essa princesa está sendo tão escondida…