Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 9 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 8

 

 

Uma pequena reunião, disseram. Um jantar de celebração em sua

homenagem. Só para familiares. Nada de mais. Aliás, não mencionamos a

conferência de imprensa? E os tocadores de sinos? E quanto ao breve

concerto da orquestra da casa imperial? Não? Desculpe, falha nossa.

A noite tranquila começou com uma festinha nada tranquila. Em outras

palavras, uma recepção de boas-vindas extremamente estressante. É um

choque para o meu sistema depois da caminhada gostosa que fiz com o meu

pai. Um repórter do Clube de Imprensa Imperial me encara. Seu crachá diz

Shigesada Inada, Gazeta do Japão. Até agora, suas perguntas são como

fiapos enrolados no algodão.

— Qual é a sua cor preferida? — Nenhum dos repórteres tem blocos de

notas ou gravadores.

É estranho. Além disso, são todos homens.

Vermelho como o sangue dos meus inimigos, penso. A verdade: estou um

pouquinho bêbada. O voo transpacífico está cobrando seu preço.

— Azul — respondo serenamente.

O sr. Fuchigami se mantém por perto. Correção: pairando sobre mim.

Ele está mais nervoso do que o Tamagotchi em um quarto cheio de

aspiradores de pó. Quando respondo de um jeito que ele aprova, um som de

satisfação emana de sua garganta. Até agora, consegui cinco barulhinhos. O repórter faz uma reverência e me agradece antes de ir embora. Do outro

lado da sala, meu pai também é entrevistado. Akio está presente, parado no

canto, como uma pintura gótica.

— Está acabando? — pergunto ao sr. Fuchigami, quando ficamos

sozinhos. — Estou tão cansada. Posso sentir o cheiro das cores. Ou talvez

seja a cocaína. — Diante de seus olhos esbugalhados, esclareço: —

Brincadeira! Estou brincando. — Só eu dou risada.

Lá em Mount Shasta, essa teria sido de matar. Noora uma vez riu tanto de

uma das minhas piadas que expeliu leite pelo nariz. De verdade.

— O sino deve anunciar o jantar em breve — ele me tranquiliza. — A

família geralmente gosta de tomar uns drinques na sala de estar em seguida,

mas você não precisa ficar.

Vejo uma caixa cloisonné com fundo de escama de peixe em um canto. É

elegante e alta, se encaixa aqui muito melhor do que eu. Estamos em um

salão de recepção com carpete cor de aipo, cercado por um piso de parquete

laqueado, e as paredes são da mesma cor da madeira. Elegante e arejado, o

salão é parte do Palácio Tōgū, mas é separado por uma série de painéis de

correr no estilo shoji. A imprensa, os tocadores de sino e a orquestra não

são permitidos além deste ponto.

Meu quarto está a três minutos a pé. Se eu pensar demais na minha cama,

vou acabar pegando no sono. Preciso mudar de assunto já.

— A imprensa foi gentil.

O sr. Fuchigami parece surpreso.

— Claro que sim. Eles são membros do Clube de Imprensa Imperial,

escolhidos a dedo pela Agência da Casa Imperial.

Um rubor de constrangimento esquenta minhas bochechas. Me jogaram

no meio de um labirinto, e as chaves para encontrar a saída dependem de

um vórtex de protocolos, tradições e regras que eu não faço a menor ideia de quais sejam. Engulo a bola gigante de estresse. Depois penso no que

fazer. A procrastinação já me foi útil no passado. Minha missão: sobreviver

a esta noite. É tão sinistro quanto parece.

O sino do jantar toca. O grupo se divide, e o bando de repórteres e

tocadores de sino desaparece pela porta.

— Por aqui. — O sr. Fuchigami me conduz até a sala de jantar. A longa

mesa está decorada com panos engomados e pratas reluzentes. Um criado

de luvas brancas puxa uma cadeira para mim. Meu coração afunda quando

vejo onde devo sentar.

— Não vou ficar ao lado do meu pai? — Olho para o sr. Fuchigami.

Ele balança a cabeça uma única vez.

— Não. Os lugares foram cuidadosamente distribuídos. Colocamos você

ao lado de sua família estendida. Dessa forma, otimizamos e dividimos seu

tempo igualmente para cada membro. — Ele escolhe as próximas palavras

com cuidado. — Como filha do príncipe herdeiro, é fundamental que você

dê atenção a cada um. Não deve ter favoritos. Agora… — Ele aponta. —

Por favor, acomode-se.

As mesas se aquietaram. Todos estão atrás de suas cadeiras e olhando

para mim. Minha família está obviamente esperando algo. Meu pai sorri.

Perto dele, estão sentadas duas gêmeas, sem dúvida Akiko e Noriko, os

brilhantes da pulseira imperial. E dá para ver por que tanto destaque. Elas

são belíssimas, com seus rostos ovais e lábios da cor de sapatilhas de balé.

São tão idênticas e perfeitas que chega a ser um pouco bizarro, como se

tivessem saído totalmente formadas de uma das tapeçarias de seda.

O pai delas é irmão do meu pai e o segundo na linha de sucessão ao

trono. Ele também está na ponta da mesa. Sua esposa está ao lado e, embora

esteja vestida impecavelmente, seu rosto está tenso, pálido e retraído.

— Desculpe — sussurro para o sr. Fuchigami. Estou tão confusa. — O

que está acontecendo?

— Eles estão esperando sua apresentação — ele diz, como se isso

explicasse tudo. Quando não faço nada, ele continua: — Fale um pouco

sobre você. — Com isso, ele faz uma reverência e vai embora. Vai embora.

Olho para os meus pés. O piso é de carpete e tem círculos estampados.

Estou de pé no meio de um deles. Sou o centro das atenções, literal e

figurativamente.

— Ah, hum. Olá. — Olho para cima. Meu corpo parece estar pegando

fogo. Aceno com a mão, então lembro que não vi ninguém fazer isso desde

que cheguei. Recolho o braço. — Konnichiwa. Meu nome é Izumi. Mas

vocês todos provavelmente já sabem disso. Eu moro em Mount Shasta,

Califórnia, e agora acho que também moro aqui. — Puxo a orelha e procuro

um terraço para me jogar. — O que mais? Tenho um cachorro chamado

Tamagotchi.

As gêmeas estreitam os olhos e cobrem a boca com as mãos para

sussurrar algo uma para a outra.

Quando alguém tem que cobrir a boca, nunca é para dizer algo bom.

Começo a me embananar.

— Ele é um ótimo cachorro. Mais ou menos. Uma vez, tentei embrulhá-

lo num pano e colocá-lo num campo de flores para fazer uma espécie de

ensaio fotográfico estilo bebê recém-nascido e ele quase arrancou minha

cara. Então acho que ele não é tão ótimo assim… — Paro. Perto de mim

estão dois garotos e uma garota que parecem ter a minha idade. Estão

sorrindo como se estivessem sendo obrigados. Pare de falar. Agora. —

Enfim. Izumi. Mount Shasta. Prazer em conhecer vocês. — Faço uma

reverência desajeitada. Desabo na cadeira, tentando desaparecer.

Há um minuto de silêncio. Todos continuam de pé, até que meu pai senta.

A conversa recomeça. Estou morrendo no poço do meu próprio

constrangimento. Meu único consolo é que Akio não está. Sem dúvida, está

espreitando de algum lugar da propriedade.

— Bem, você deu o seu melhor — o garoto ao meu lado diz. — Yoshi.

— Ele me oferece a mão. Limpo a minha discretamente no vestido antes de

cumprimentá-lo, aliviada com o gesto familiar. — Primo de segundo grau,

nome oficial Yoshihito, sétimo na linha de sucessão. Filho de Asako e

Yasuhito.

Ele acena com a cabeça em direção aos pais, que estão sentados na nossa

diagonal — um homem pequeno e de aparência afável e uma mulher

usando um colar de diamantes que parece caríssimo. Seus sorrisos são

calorosos, mas um pouco apreensivos. Entendido. Não sou a única tentando

lidar com toda essa situação de filha ilegítima do príncipe herdeiro.

— Por favor, nos chame de tia e tio — Asako fala, inclinando a cabeça.

Yasuhito assente amigavelmente, concordando. Gosto de homens que

apoiam suas esposas.

— Agora, sei o que está pensando. — Yoshi saca o guardanapo e o

deposita no colo. Uma mecha de cabelo cai sobre o olho. Ele parece uma

estrela de j-pop que abriu um alçapão e caiu na realeza. — Você está certa.

No passado, primos distantes podiam casar. Mas, hoje em dia, não pegaria

bem. — E faz um beicinho.

— Que pena — digo, inexpressiva.

Copio seu movimento com o guardanapo. Um criado de luvas brancas

segurando uma jarra de prata enche minha taça de água.

Ele desfaz o bico e troca por um sorriso.

— Ah. Você vai se sair bem. Gostei de você.

Também gostei dele — de um jeito puramente platônico, do tipo primos-

que-não-se-beijam. Não acho que seja necessário deixar isso claro. Ele me

lembra um pouco Noora. Eles têm a mesma vibe “curta o momento”, que eu

também gostaria de ter.

— Você está constrangendo nossa prima — a garota na minha frente

repreende Yoshi. Ela tem um rosto pequeno e oval, e o cabelo escuro está

preso em um meio rabo. Um diamante brilhante na mão esquerda cintila

quando ela toma um gole de água. — Não dá bola pro meu irmão. Meu

nome é Sachiko — ela se apresenta e depois apresenta o homem sentado ao

seu lado. — Meu noivo, Ryu.

— Prazer em conhecê-la — ele diz, acenando a cabeça.

— Não se preocupa, Sa-chan — Yoshi diz, virando para mim. — Decidi

te colocar sob as minhas pernas.

Levo uns bons cinco segundos para decodificar a mensagem.

— Acho que você quis dizer asas.

— Asas?

Dou um suspiro, contente por poder explicar. Finalmente, algo que eu sei.

— A expressão correta é “te colocar sob as minhas asas”.

Ele faz uma careta.

— Por que eu diria isso? Não tenho asas.

— A expressão não faz referência a humanos, meu Deus. — O cara

sentado ao meu lado bufa, irritado. Ele parece muito com Yoshi. Devem ser

irmãos. Mas tem cabelo mais curto, costas mais eretas e um semblante

tenso. Endireita os talheres e dobra o guardanapo em um triângulo

simétrico. — Surgiu da observação de pássaros, que abrigam seus filhotes

sob as asas. Obviamente.

— Meu irmão — Yoshi confirma minha suspeita. — Passou quatro anos

na Escócia estudando ornitologia e linguística. Se tiver problemas para dormir, peça para ele te contar sobre sua tese a respeito da criação do galo-

silvestre-preto em cativeiro.

Sachiko dá risada. Seu irmão não está nada satisfeito. O antagonismo

deles é uma coisa que reconheço e que me traz certo conforto — a mesma

sensação de vestir um suéter velho. Ainda assim, ele faz um aceno mal-

humorado com a cabeça.

— Masahito — ele diz.

— Achou seus aposentos aceitáveis? — tio Yasuhito pergunta, a boca se

movendo por baixo do bigode.

— Mais que aceitáveis — respondo.

Um criado me oferece uma toalhinha quente com uma pinça. Olho para

Yoshi e vejo que ele a desembrulhou e está enxugando as mãos. Depois a

joga em uma tigela de prata que outro criado segura atrás. Pego a toalha.

— O palácio foi reformado recentemente — tia Asako diz.

— Ah, sim, é tipo um sonho do Nate Berkus — digo, e então viro,

depositando a toalha na tigela de prata.

Sussurro um agradecimento, mas o criado não nota. Seu olhar está fixo

em um ponto na parede.

Tio Yasuhito franze as sobrancelhas. Confundi o pobre homem.

— Nate Berkus?

Dou um sorriso.

— É um designer de interiores famoso nos Estados Unidos. O melhor

amigo da Oprah.

Os olhos da tia Asako brilham de leve.

— Ah, sim, é como o Shoji Matsuri. Ele é designer de casas de gatos. —

Tia Asako cutuca o marido. — Lembra, ele fez um projeto para mim. Quer

o contato? — Sua voz se torna um sussurro. — Ele é muito discreto.

— Não, obrigada. Gosto mais de cachorros — respondo, sem entender

muito bem o que ela quis dizer.

Algumas coisas não devem ser entendidas.

Yoshi chama minha atenção.

— Ela tem um Warhol felino original naquela casa. — Ele revira os

olhos. — Que ironia.

A conversa diminui. Uma tigela de sopa clara é colocada na minha

frente. Legumes picados flutuam em torno de uma folha dourada coberta

de… caviar? Meus dedos se agitam acima dos vários talheres e utensílios.

Garfos, facas e colheres me assombram. Olá, Zoom Zoom. Você não sabe

usar nenhum de nós, né? Sou um peixe fora d’água — ou melhor, uma

garota fora de Mount Shasta. Meus nervos fervem e meu estômago se

revira. O resto da família percebe minha hesitação e eu me mexo,

desconfortável, me sentindo uma formiga sob uma lente de aumento.

Debaixo da mesa, um joelho toca o meu. Yoshi levanta com bastante

ênfase a colher que está ao lado das facas.

— Perna — ele murmura.

Dou um sorrisinho e mentalmente prometo nomear meu primogênito de

Yoshi. Por que ainda não estou comendo? Ponha a sopa pra dentro.

Mergulho a colher e, do outro lado da mesa, Sachiko pisca para mim. Faço

contato visual com meu pai. Sua expressão preocupada pergunta: “Tudo

bem?”. Respondo com um aceno, meu joinha versão princesa. Tudo certo.

Todos na sala de jantar parecem enfim respirar.

E assim vai.

É como se estivessem me servindo equações complicadas, e meus primos

de segundo grau tivessem assumido o papel de professores pacientes e

disfarçados. A cada novo prato, eles me mostram como usar um talher. O

jantar transcorre como um borrão da alta cozinha francesa, cheio de espumas, géis e pós. Entre o segundo e o terceiro pratos, a conversa gira em

torno do imperador e da imperatriz, que estão visitando a prefeitura de

Okinawa.

— Vocês não os veem muito? — pergunto a meus primos.

Masahito inspeciona sua taça de cristal e limpa uma mancha com o

guardanapo.

— O dever máximo de Suas Majestades Imperiais é servir o povo.

— Sim, eles são considerados os pais de todo o Japão — Yoshi diz,

baixando a voz para um sussurro. — O imperador não é um deus, mas

também não é um homem. Nós podemos viver na terra, mas ele ainda vive

acima das nuvens.

A sobremesa é servida: frutas no formato de uma flor-de-íris. Feita

especialmente para mim. Outra forma de me desejar boas-vindas. Aproveito

a homenagem. Mas o momento passa logo, percebo com espanto. Só

sobrevivi graças aos meus primos.

Depois do jantar, drinques são oferecidos na sala de estar. É a minha

deixa; o sono me chama. Minha doce cama está apenas a alguns minutos de

distância. Levantamos da mesa e dou boa-noite para o meu pai. Minhas tias,

tios e primos me observam enquanto vou embora. Não consigo evitar sentir

o peso de seus olhares em minhas costas, a força de suas ressalvas. Estão

perguntando a mesma coisa que eu: “Será que estou à altura da família

imperial?”.

FOFOCAS DE TÓQUIO

 

Japão avalia novo membro da família imperial

 

23 de março de 2021

Sua Alteza Imperial a Princesa Izumi (na foto) chegou ao Aeroporto Internacional de Narita ontem à tarde vestida casualmente, com uma calça legging e um suéter. A blogueira imperial Junko Inogashira estava presente. “A roupa certamente não seguia o protocolo. O pior é que a princesa não falou nem acenou para a multidão. Muitas pessoas a esperaram por horas e ficaram completamente ofendidas quando ela foi embora. Ouvi de um funcionário do aeroporto que, além disso, ela também foi grossa com seu guarda imperial quando eles pararam para usar o banheiro.”

Será que a princesa já está deixando seu novo título subir à cabeça? O zelador Chie Inaro não concorda. Ele a encontrou durante a pausa para o banheiro mencionada acima. Em uma entrevista exclusiva para o Fofocas de Tóquio, Inaro só tinha boas coisas a dizer sobre a princesa. “É uma garota linda, muito linda, a epítome da graça. Ela usou o meu lenço para secar as mãos”, ele se gabou, mostrando o pano branco agora emoldurado. “Quero guardá-lo, mas meu filho quer fazer um leilão. Ele acha que vamos conseguir uma fortuna.” De fato, até o momento desta reportagem, o lance atual do lenço era de dois milhões de ienes. Inaro planeja aplicar o dinheiro para a aposentadoria.

Desde que chegou no aeroporto, a princesa não saiu das propriedades imperiais. A Agência da Casa Imperial se recusou a comentar como ela está se saindo. Não podemos deixar de nos perguntar por que essa princesa está sendo tão escondida…