Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 11 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 10

 

 

Tenho um almoço com meu pai no palácio, só nós dois. Minha conversa

com Akio ressoa em minha mente como um miasma, mas, apesar de tudo, o

clima é bom. Casual. O jogo de jantar é informal, sendo o ohashi o único

utensílio. Me animo e relaxo um pouco. Prepararam uma surpresa: ayu, um

peixe parecido com truta, pescado no rio Nagara, na região de Gifu. É

servido inteiro sobre uma cama de arroz, o cereal que antes era moeda de

troca e agora é sagrado.

— Está fresquinho — o chef avisa com um sorriso orgulhoso. — Foi

pescado esta manhã.

— É considerado uma iguaria — meu pai diz quando o chef sai.

Ainda não provei. Estou observando como meu pai vai comer o peixe.

Ele traz a tigela para perto do rosto, depois usa o ohashi para pegar o

peixe e dar uma mordida, começando pela cabeça. Fico olhando a cena.

Entendi. Então é assim que se come. Pego meu ohashi e copio seus gestos.

Cravo o dente no peixe. Espero a ânsia de vômito aparecer, mas não

aparece. A pele é crocante e salgada, mas o interior é macio e doce, e tem

gosto de melancia. Minhas glândulas salivares entram em ação. E assim,

como num passe de mágica, estou dentro. Se ayu estiver no cardápio, vou

querer dois.

Mandamos ver.

Meu pai explica como é realizada a pescaria, transformando suas

palavras em uma pintura. A tela tem tons de roxo e azul, as marcas da noite.

Um único fogo de artifício se eleva sobre o rio, sinalizando o início da

pesca noturna. Neste momento, as torres do Castelo de Gifu ficam em

relevo. Os pescadores usam saias de palha, túnicas índigo e chapéus

pontudos. Em cestos de bambu especiais, levam corvos-marinhos, pássaros

de penas escuras e bicos em forma de gancho, em uma espécie de coleira.

Eles deslizam pela água em longos barcos de madeira, com tochas acesas na

proa. Os pássaros mergulham para pescar e depois armazenam os peixes na

garganta, mas não conseguem engolir por causa da coleira.

— A relação entre o corvo-marinho e o pescador é muito importante —

meu pai diz. — Para os tratadores, os pássaros são como família. Na

natureza, eles vivem de sete a oito anos, mas, com os pescadores, podem

viver muito mais. O recorde é trinta anos.

Minha tigela está vazia. Meu estômago, cheio. Minha alma deseja poder

estar nas margens do rio Nagara à noite. Limpo a boca com o guardanapo.

— Gostaria de ver isso um dia.

— A alta temporada é no verão. Vou pedir para o sr. Fuchigami

programar… — Ele para de falar de repente.

Então nós dois nos damos conta ao mesmo tempo: eu não vou estar aqui.

Em duas semanas, já terei partido.

 

Depois do almoço, saímos para caminhar um pouco. O sol aquece minha

cabeça. Cabelo escuro é o pior. O cascalho sob meus pés ainda está

molhado e pequenas poças reluzem no gramado. O clima do Japão é tão

inconstante. Tipo, se decide, né? Uma temperatura por vez.

— Está dando tudo certo com sua dama de companhia? As aulas estão

indo bem?

Abandonando o paletó e a gravata, meu pai arregaçou as mangas. Ele fica

mais relaxado ao ar livre. Lembro que adora montanhas, trilhas e coisas

assim. Este é seu lugar favorito.

— Sim — digo.

A verdadeira questão é: será que eu estou indo bem? Fico pensando nisso

enquanto lambo um resquício de Nutella que ficou no meu polegar, a última

gota da minha mais nova obsessão. Depois do almoço de ontem, o chef

serviu dorayaki: Nutella entre duas panquecas bem fofinhas. Bum.

Explosão de sabor. No instante em que provei um pedaço, ascendi para um

plano superior. Desde então, o chef tem me abastecido com frequência, e eu

o amo por isso.

— Foi assim que você foi criado? Sabe… os professores vinham até o

palácio e você tinha aulas de etiqueta como as que estou tendo?

— Não. Eu frequentei a Escola Gakushūin. Meus colegas de classe, todos

os cinco, foram criteriosamente escolhidos. — Fico me perguntando como

deve ter sido saber que todas as pessoas da sua idade que te rodeiam foram

escolhidas especificamente para isso. Ele espera um pouco, então diz: —

Dei uma olhada na sua agenda. O sr. Fuchigami está mantendo você bem

ocupada. Espero que não esteja sendo rigoroso demais.

A luz desaparece sob as árvores arqueadas, nos deixando na sombra.

Minha cabeça quente suspira de alívio.

— Sou muito grata pela oportunidade de aprender. — Às vezes, quando

estou falando com meu pai, não pareço eu mesma. Não uso o mesmo tom

que usaria com a minha mãe. Se eu estivesse com ela, estaríamos nos

acabando em piadas escatológicas. Pelo menos eu estaria. Mas sei que no

fundo ela adora. Ela vive uma vida dupla. Bem, é meio que necessário,

sendo vizinha de Jones.

O caminho fica mais largo e o cascalho se abre em um círculo. Chegamos

a uma clareira. Um prédio reluz ao sol, coberto de vidro por todos os lados.

— Suponho que compartilhe do apreço da sua mãe por plantas. Pensei

que gostaria de ver a estufa. — Sim, sim, sim! Diante do meu sorriso, ele

estica a mão e diz: — Por favor, vá na frente.

Não precisa pedir duas vezes. A porta é pesada e abre com um rangido.

Mamãe tem estufas no campus, mas são feitas de hastes de plástico e lona.

Esta estufa é linda, uma obra de arte digna… bem, digna de um príncipe.

Ventiladores giram preguiçosamente, permitindo que o ar quente circule.

Sinto duas manchas rosadas se formarem em minhas bochechas. Há três

filas de longas mesas de madeira.

O lugar cheira a terra molhada, assim como minha mãe quando chega em

casa do trabalho com as unhas sujas de terra. Estou com saudade. Temos

trocado mensagens e nos falado pelo telefone, mas não é a mesma coisa. A

gente se acostuma a ver certas pessoas todos os dias.

Caminho entre duas fileiras, observando os vasinhos de plantas com

folhas largas. Seus caules tortos exibem delicadas flores vermelhas, brancas

e cor-de-rosa.

— Orquídeas — digo, emocionada. — A flor favorita de mamãe.

Meu pai fica um tempo refletindo. Ergue a sobrancelha.

— É mesmo?

Eu o observo com atenção. Será que é só uma coincidência ou ele cultiva

essas orquídeas para ela? Sua expressão me diz que ele não quer falar sobre

isso.

— Me conte mais sobre a sua escola — peço, mas pode apostar que,

assim que tiver uma chance, vou mandar uma mensagem para ela. Algo

mais ou menos assim: PSC, meu pai, seu ex-amante e príncipe herdeiro, tem uma estufa cheia de orquídeas. Não é sua flor preferida? Pensei que

você fosse gostar de saber.

Meu pai aproveita a deixa e começa a falar sobre sua época escolar. O ar

na estufa se enche com todas as coisas não ditas; ele não pode me contar

sobre seu tempo com minha mãe, e eu não posso contar como realmente me

sinto. Que não sei se tenho o necessário para ser uma princesa ou se

pertenço a este lugar. As coisas difíceis terão que esperar outra hora para

serem ditas.

O calor na estufa acaba me dominando. Nos acomodamos em duas

cadeiras de madeira maciça na beira do gramado. Uma brisa fresca sopra

em minhas bochechas. Minha mãe iria adorar. Este lugar é a cara dela.

Gostaria de dizer isso em voz alta, mas me seguro. Ela é o elefante cor-de-

rosa gigante deste complexo jardim — minha mãe, o antigo caso de amor

dele. Será que meu pai também sente isso? Não gosto de não poder falar

sobre ela, de tratá-la como um assunto proibido. Não ligo de parecer boba,

mas a verdade é que amo minha mãe. Ela é uma das minhas pessoas

favoritas.

— Você está quieta — ele comenta.

— Estava pensando na minha mãe… — Paro na mesma hora.

Meu pai se recosta na cadeira e suspira.

— Sim.

— Você não… Quero dizer, tudo bem se não quiser falar sobre ela. —

Mas vamos falar sobre ela. Sobre quanto você a amou e quanto ainda a

ama. Vamos falar sobre como ela é maravilhosa e alegre, e de vez em

quando um pouco triste também. Vamos falar sobre como vocês fazem a

mesma expressão quando o outro é mencionado.

Ele olha para a estufa e pensa um pouco antes de dizer:

— A verdade é que eu amei a faculdade, os Estados Unidos e a sua mãe.

É doloroso lembrar daquele período da minha vida. Desde o começo da

nossa história, eu sabia que não iria durar. Tudo foi um lindo sonho. Mas,

como todos os sonhos, tinha hora para acabar. E é assim que eu encaro isso

agora, como uma fantasia.

Junto as mãos e cruzo os dedos para impedi-los de tremer. Ouvi em seu

tom. Ele não consegue nem pensar na possibilidade de ter um

relacionamento com minha mãe. O sonho acabou. Então, o que isso diz

sobre mim?

— Mas eu estou aqui. — Sou a prova de que os dois existiram.

Ele sorri para mim.

— Sim, está. E você é um presente. É difícil conciliar esses dois eventos,

você aqui e agora e o eu daquela época. Não sei se faz sentido.

— Faz, sim. — De um jeito estranho.

Ele toca o braço da cadeira.

— Pode ter um pouco de paciência comigo?

— Se prometer que vai fazer o mesmo por mim — respondo suavemente.

Ambos estamos em um lugar tangível agora.

— Claro — ele diz. E olha mais uma vez para a estufa. — Então, o que

está na agenda para amanhã?

— Hum, acho que o sr. Fuchigami mencionou algo sobre sericicultura.

Meu perfil real está um pouco fraco. Preciso de um hobby. O sr.

Fuchigami sugeriu ictiologia com foco em carpas. Sem chance. Falei que

adoro confeitaria e ele achou comum demais. Amanhã, vamos tentar

sericicultura. A verdade: não estou cem por cento certa sobre o que é

sericicultura. Depois, vou sugerir falcoaria. A casa imperial tem um

falcoeiro, e todo mundo sabe que missões épicas começam com aves de

rapina.

— Boa sorte, apesar de eu achar que não precisará. O sr. Fuchigami disse

que você foi esplêndida com a simulação do banquete esta manhã. Todos os

olhos estarão voltados para você no casamento, e não para a noiva. — Ele

sorri com orgulho novamente.

Está praticamente radiante. Não quero apagar sua alegria.

— Pois é — concordo, sorrindo também.

Ficamos ali, ele e eu, perto da estufa que pode ou não ter sido construída

para a minha mãe.