Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 10
Tenho um almoço com meu pai no palácio, só nós dois. Minha conversa
com Akio ressoa em minha mente como um miasma, mas, apesar de tudo, o
clima é bom. Casual. O jogo de jantar é informal, sendo o ohashi o único
utensílio. Me animo e relaxo um pouco. Prepararam uma surpresa: ayu, um
peixe parecido com truta, pescado no rio Nagara, na região de Gifu. É
servido inteiro sobre uma cama de arroz, o cereal que antes era moeda de
troca e agora é sagrado.
— Está fresquinho — o chef avisa com um sorriso orgulhoso. — Foi
pescado esta manhã.
— É considerado uma iguaria — meu pai diz quando o chef sai.
Ainda não provei. Estou observando como meu pai vai comer o peixe.
Ele traz a tigela para perto do rosto, depois usa o ohashi para pegar o
peixe e dar uma mordida, começando pela cabeça. Fico olhando a cena.
Entendi. Então é assim que se come. Pego meu ohashi e copio seus gestos.
Cravo o dente no peixe. Espero a ânsia de vômito aparecer, mas não
aparece. A pele é crocante e salgada, mas o interior é macio e doce, e tem
gosto de melancia. Minhas glândulas salivares entram em ação. E assim,
como num passe de mágica, estou dentro. Se ayu estiver no cardápio, vou
querer dois.
Mandamos ver.
Meu pai explica como é realizada a pescaria, transformando suas
palavras em uma pintura. A tela tem tons de roxo e azul, as marcas da noite.
Um único fogo de artifício se eleva sobre o rio, sinalizando o início da
pesca noturna. Neste momento, as torres do Castelo de Gifu ficam em
relevo. Os pescadores usam saias de palha, túnicas índigo e chapéus
pontudos. Em cestos de bambu especiais, levam corvos-marinhos, pássaros
de penas escuras e bicos em forma de gancho, em uma espécie de coleira.
Eles deslizam pela água em longos barcos de madeira, com tochas acesas na
proa. Os pássaros mergulham para pescar e depois armazenam os peixes na
garganta, mas não conseguem engolir por causa da coleira.
— A relação entre o corvo-marinho e o pescador é muito importante —
meu pai diz. — Para os tratadores, os pássaros são como família. Na
natureza, eles vivem de sete a oito anos, mas, com os pescadores, podem
viver muito mais. O recorde é trinta anos.
Minha tigela está vazia. Meu estômago, cheio. Minha alma deseja poder
estar nas margens do rio Nagara à noite. Limpo a boca com o guardanapo.
— Gostaria de ver isso um dia.
— A alta temporada é no verão. Vou pedir para o sr. Fuchigami
programar… — Ele para de falar de repente.
Então nós dois nos damos conta ao mesmo tempo: eu não vou estar aqui.
Em duas semanas, já terei partido.
Depois do almoço, saímos para caminhar um pouco. O sol aquece minha
cabeça. Cabelo escuro é o pior. O cascalho sob meus pés ainda está
molhado e pequenas poças reluzem no gramado. O clima do Japão é tão
inconstante. Tipo, se decide, né? Uma temperatura por vez.
— Está dando tudo certo com sua dama de companhia? As aulas estão
indo bem?
Abandonando o paletó e a gravata, meu pai arregaçou as mangas. Ele fica
mais relaxado ao ar livre. Lembro que adora montanhas, trilhas e coisas
assim. Este é seu lugar favorito.
— Sim — digo.
A verdadeira questão é: será que eu estou indo bem? Fico pensando nisso
enquanto lambo um resquício de Nutella que ficou no meu polegar, a última
gota da minha mais nova obsessão. Depois do almoço de ontem, o chef
serviu dorayaki: Nutella entre duas panquecas bem fofinhas. Bum.
Explosão de sabor. No instante em que provei um pedaço, ascendi para um
plano superior. Desde então, o chef tem me abastecido com frequência, e eu
o amo por isso.
— Foi assim que você foi criado? Sabe… os professores vinham até o
palácio e você tinha aulas de etiqueta como as que estou tendo?
— Não. Eu frequentei a Escola Gakushūin. Meus colegas de classe, todos
os cinco, foram criteriosamente escolhidos. — Fico me perguntando como
deve ter sido saber que todas as pessoas da sua idade que te rodeiam foram
escolhidas especificamente para isso. Ele espera um pouco, então diz: —
Dei uma olhada na sua agenda. O sr. Fuchigami está mantendo você bem
ocupada. Espero que não esteja sendo rigoroso demais.
A luz desaparece sob as árvores arqueadas, nos deixando na sombra.
Minha cabeça quente suspira de alívio.
— Sou muito grata pela oportunidade de aprender. — Às vezes, quando
estou falando com meu pai, não pareço eu mesma. Não uso o mesmo tom
que usaria com a minha mãe. Se eu estivesse com ela, estaríamos nos
acabando em piadas escatológicas. Pelo menos eu estaria. Mas sei que no
fundo ela adora. Ela vive uma vida dupla. Bem, é meio que necessário,
sendo vizinha de Jones.
O caminho fica mais largo e o cascalho se abre em um círculo. Chegamos
a uma clareira. Um prédio reluz ao sol, coberto de vidro por todos os lados.
— Suponho que compartilhe do apreço da sua mãe por plantas. Pensei
que gostaria de ver a estufa. — Sim, sim, sim! Diante do meu sorriso, ele
estica a mão e diz: — Por favor, vá na frente.
Não precisa pedir duas vezes. A porta é pesada e abre com um rangido.
Mamãe tem estufas no campus, mas são feitas de hastes de plástico e lona.
Esta estufa é linda, uma obra de arte digna… bem, digna de um príncipe.
Ventiladores giram preguiçosamente, permitindo que o ar quente circule.
Sinto duas manchas rosadas se formarem em minhas bochechas. Há três
filas de longas mesas de madeira.
O lugar cheira a terra molhada, assim como minha mãe quando chega em
casa do trabalho com as unhas sujas de terra. Estou com saudade. Temos
trocado mensagens e nos falado pelo telefone, mas não é a mesma coisa. A
gente se acostuma a ver certas pessoas todos os dias.
Caminho entre duas fileiras, observando os vasinhos de plantas com
folhas largas. Seus caules tortos exibem delicadas flores vermelhas, brancas
e cor-de-rosa.
— Orquídeas — digo, emocionada. — A flor favorita de mamãe.
Meu pai fica um tempo refletindo. Ergue a sobrancelha.
— É mesmo?
Eu o observo com atenção. Será que é só uma coincidência ou ele cultiva
essas orquídeas para ela? Sua expressão me diz que ele não quer falar sobre
isso.
— Me conte mais sobre a sua escola — peço, mas pode apostar que,
assim que tiver uma chance, vou mandar uma mensagem para ela. Algo
mais ou menos assim: PSC, meu pai, seu ex-amante e príncipe herdeiro, tem uma estufa cheia de orquídeas. Não é sua flor preferida? Pensei que
você fosse gostar de saber.
Meu pai aproveita a deixa e começa a falar sobre sua época escolar. O ar
na estufa se enche com todas as coisas não ditas; ele não pode me contar
sobre seu tempo com minha mãe, e eu não posso contar como realmente me
sinto. Que não sei se tenho o necessário para ser uma princesa ou se
pertenço a este lugar. As coisas difíceis terão que esperar outra hora para
serem ditas.
O calor na estufa acaba me dominando. Nos acomodamos em duas
cadeiras de madeira maciça na beira do gramado. Uma brisa fresca sopra
em minhas bochechas. Minha mãe iria adorar. Este lugar é a cara dela.
Gostaria de dizer isso em voz alta, mas me seguro. Ela é o elefante cor-de-
rosa gigante deste complexo jardim — minha mãe, o antigo caso de amor
dele. Será que meu pai também sente isso? Não gosto de não poder falar
sobre ela, de tratá-la como um assunto proibido. Não ligo de parecer boba,
mas a verdade é que amo minha mãe. Ela é uma das minhas pessoas
favoritas.
— Você está quieta — ele comenta.
— Estava pensando na minha mãe… — Paro na mesma hora.
Meu pai se recosta na cadeira e suspira.
— Sim.
— Você não… Quero dizer, tudo bem se não quiser falar sobre ela. —
Mas vamos falar sobre ela. Sobre quanto você a amou e quanto ainda a
ama. Vamos falar sobre como ela é maravilhosa e alegre, e de vez em
quando um pouco triste também. Vamos falar sobre como vocês fazem a
mesma expressão quando o outro é mencionado.
Ele olha para a estufa e pensa um pouco antes de dizer:
— A verdade é que eu amei a faculdade, os Estados Unidos e a sua mãe.
É doloroso lembrar daquele período da minha vida. Desde o começo da
nossa história, eu sabia que não iria durar. Tudo foi um lindo sonho. Mas,
como todos os sonhos, tinha hora para acabar. E é assim que eu encaro isso
agora, como uma fantasia.
Junto as mãos e cruzo os dedos para impedi-los de tremer. Ouvi em seu
tom. Ele não consegue nem pensar na possibilidade de ter um
relacionamento com minha mãe. O sonho acabou. Então, o que isso diz
sobre mim?
— Mas eu estou aqui. — Sou a prova de que os dois existiram.
Ele sorri para mim.
— Sim, está. E você é um presente. É difícil conciliar esses dois eventos,
você aqui e agora e o eu daquela época. Não sei se faz sentido.
— Faz, sim. — De um jeito estranho.
Ele toca o braço da cadeira.
— Pode ter um pouco de paciência comigo?
— Se prometer que vai fazer o mesmo por mim — respondo suavemente.
Ambos estamos em um lugar tangível agora.
— Claro — ele diz. E olha mais uma vez para a estufa. — Então, o que
está na agenda para amanhã?
— Hum, acho que o sr. Fuchigami mencionou algo sobre sericicultura.
Meu perfil real está um pouco fraco. Preciso de um hobby. O sr.
Fuchigami sugeriu ictiologia com foco em carpas. Sem chance. Falei que
adoro confeitaria e ele achou comum demais. Amanhã, vamos tentar
sericicultura. A verdade: não estou cem por cento certa sobre o que é
sericicultura. Depois, vou sugerir falcoaria. A casa imperial tem um
falcoeiro, e todo mundo sabe que missões épicas começam com aves de
rapina.
— Boa sorte, apesar de eu achar que não precisará. O sr. Fuchigami disse
que você foi esplêndida com a simulação do banquete esta manhã. Todos os
olhos estarão voltados para você no casamento, e não para a noiva. — Ele
sorri com orgulho novamente.
Está praticamente radiante. Não quero apagar sua alegria.
— Pois é — concordo, sorrindo também.
Ficamos ali, ele e eu, perto da estufa que pode ou não ter sido construída
para a minha mãe.