Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 17 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 16

 

Do lado de fora do New Otani Hotel, há um desfile de veículos luxuosos e

brilhantes. Homens de fraques e mulheres envoltas em casacos de pele

descem de Jaguars, Bentleys e Maybachs. Cerca de duzentas e cinquenta

pessoas da nata da sociedade japonesa foram convidadas. Curiosos

compareceram em massa. Atrás de uma barricada, eles agitam bandeirinhas

Hinomaru, com o círculo vermelho do Japão, e tiram fotos dos convidados.

O Rolls-Royce imperial desliza ao longo do meio-fio e para. Akio

levanta do banco da frente, com o fone de ouvido e a cara fechada de

sempre. A porta abre, e ele estende a mão para mim. Encaixo meus dedos

enluvados nos dele e me permito ser puxada para fora do carro. Me sinto

em um filme antigo. É tudo muito O grande Gatsby.

Câmeras surgem. Clique. Flash. Tchac.

— Não gosto dessa multidão — Akio diz.

Guardas imperiais me cercam. Abrimos caminho. Chega de fotos por ora.

Sou um pedacinho de seda no meio de uma rajada de vento. Cruzamos

portas duplas de vidro. Mais flashes. As portas fecham. A multidão silencia,

redirecionando seu foco para o Tesla que estaciona em seguida trazendo

uma atriz de cinema famosa. Do lado de fora do salão, um harpista toca a

corda errada e arregala os olhos, assustado com a expressão de eu-devoro-

pequenos-aldeões de Akio.

Cruzamos a soleira, passando por uma mesa com uma pilha alta de

envelopes ornamentados. Nos casamentos japoneses, dinheiro é a lei. O

primeiro-ministro e sua noiva distribuirão presentes, e cada assento terá

uma linda sacola de papel feita à mão, cheia de pequenos mimos para os

convidados.

Um braço se entrelaça ao meu, me roubando de Akio.

— Aff, finalmente você chegou — Yoshi resmunga. — Até agora a noite

está horrível. Tio Tadashi me encurralou e não parou de falar de seu galo

premiado. — Minhas sobrancelhas vão parar no couro cabeludo. — Ele só

sabe falar de suas galinhas e galos. — Yoshi olha Akio como quem diz:

“Por que você ainda tá aqui?”. — Pega leve, cara. Meu Deus, isto é uma

festa. Tenta parecer feliz.

Akio não responde, apenas faz uma reverência e desaparece na multidão.

Copos tilintam. Mulheres dão risada. Um homem de fraque toca um piano

Bösendorfer. Os pais de Yoshi, tia Asako e tio Yasuhito, se aproximam.

— Dá pra acreditar? — tia Asako pergunta, tocando os diamantes em

volta do pescoço. — Um primeiro-ministro descendente do clã Tokugawa

casando com uma narikin? Nunca pensei que veria isso.

Tio Yasuhito grunhe em concordância. Eles continuam a falar sobre a

noiva, que além de ser uma narikin, uma nova rica, é muito mais jovem que

o primeiro-ministro. Do outro lado da sala, uma mulher lança um olhar de

reprovação para Yoshi. Ela parece brava, mas é bonita e usa um vestido

preto elegante.

— Quem é aquela? — sussurro, cutucando Yoshi.

Ele pega duas taças de champanhe de uma bandeja e oferece uma para

mim.

— Aquela é Reina, minha guarda imperial.

Tio Yasuhito ouve e diz:

— Yoshi que a contratou.

— Insisti em contratar uma mulher porque sou feminista demais. — Ele

estufa o peito. Está usando black tie como todo mundo, mas há um certo

brilho em suas lapelas. — Ela tem os terninhos mais encantadores do

mundo e faz atividades manuais nas horas vagas, principalmente álbuns e

colagens. É capaz de matar um homem de dez maneiras diferentes usando

um pedaço de papel. Ela me dá medo, e eu adoro isso. — Ele treme de

brincadeira.

— Yoshi está meio apaixonado por ela — tia Asako diz, indulgente.

Ele lança a Reina um sorriso cintilante e ela responde com uma careta.

Tia Asako assente para uma mulher do outro lado do cômodo. A mulher

responde o cumprimento, então retoma a conversa com um homem muito

mais velho em trajes militares. Pai e filha? Eles têm os mesmos lábios finos

e sobrancelhas grossas.

— Os Fukada — tio Yasuhito fala, percebendo minha dúvida. — Ele é

um general da Força Terrestre de Autodefesa. Sua filha é o filho que ele

sempre quis ter.

— Parece que eles caçam pessoas por esporte — comento, enquanto o

champanhe esquenta minha barriga e minhas bochechas.

Os três dão risada e eu me sinto bem, como se fizesse parte do grupo.

Na frente do pai-e-filha-caçadores-de-gente-por-esporte está um grupo de

meninas, com as Gêmeas Iluminadas no centro. Elas me encaram,

sussurram algo com as amigas e depois dão risada. Sem dúvida, da minha

cara.

Yoshi solta um suspiro.

— Opa, você despertou a atenção da panelinha Gakushūin. Cuidado,

desvie o olhar devagar. A lua está cheia, o que significa que os poderes

delas estão no auge.

Faço o que ele diz. Gakushūin. Lembro de meu pai e o sr. Fuchigami

mencionarem esse nome. É para onde Mariko vai.

— Gakushūin? — pergunto, mais alto do que gostaria.

Tia Asako toca sua pulseira, uma confecção de diamantes e safiras que

complementam seu vestido.

— É a escola mais exclusiva do Japão, talvez do mundo.

Tio Yasuhito assente.

— Todos os jovens membros da realeza e descendentes de famílias

proeminentes frequentam essa escola. Yoshi foi o primeiro de sua turma,

quando se formou.

— Você também teria estudado lá. — Tia Asako me olha de cima a

baixo. — Onde você estudou? Ouvi dizer que há instituições particulares

maravilhosas na Califórnia.

— No Colégio Mount Shasta.

Seu sorriso desvanece.

— É uma escola pública?

— Sim — digo, sem hesitar.

Ela dá de ombros.

— Bem, se alguém perguntar, diga que estudou no exterior.

— Cuidado, mãe. Seu elitismo está aparecendo — Yoshi bufa.

— O que foi? — Tia Asako coloca a mão no peito e vira para o marido,

enquanto Yoshi me afasta deles. — O que foi que eu disse?

— Em nome da minha família, peço desculpas — ele fala.

— Tudo bem. — Tudo mesmo. Não tenho vergonha das escolas em que

estudei.

— Não está nada bem. Não tente esconder seus sentimentos. Você está

claramente abalada. — Yoshi me lança um sorriso torto, que eu

correspondo.

Estou tão feliz por ele estar aqui comigo.

Ele me leva para o meio da multidão. Contornamos um desajeitado

yokozuna, um campeão de sumô. Yoshi sorri para os convidados enquanto

os descreve para mim, enchendo meus ouvidos com um quem é quem

completo: o presidente do Banco de Tóquio, um fabricante de vinagre de

arroz, dois irmãos donos de uma das maiores e mais antigas destilarias de

uísque em Hokkaido, o Velho Oeste do Japão.

Há membros das famílias Kuge e Kizoku, a antiga nobreza do Japão,

formada por condes e condessas antes da Segunda Guerra Mundial.

Perderam seus títulos, mas não sua posição social nem sua arrogância. Eles

se ressentem de meu avô, pai, tio e agora de minha prima Sachiko, por se

relacionarem com plebeus — e, por tabela, de mim também. Yoshi não fala

nada, mas posso ler nas entrelinhas. Saquei tudo. Mesmo sendo descendente

de japoneses, sou americana demais. Não tenho sangue azul suficiente em

minhas veias.

Também há capitães da indústria, como um famoso fabricante cuja

empresa de tecnologia começa com a letra S, e um titã dos automóveis cujo

nome de família começa com a letra T. No topo, estão os ministros de

Kasumigaseki, a colmeia burocrática de Tóquio.

Chegamos às mesas redondas com toalhas de linho branco e arranjos de

flores baixas — lírios e ramos de pinheiro simbolizando os brasões das duas

famílias. Os lugares estão marcados. As pessoas se movem, examinando os

cartões. Yoshi e eu nos separamos. Ele vai ficar com a parte estendida da

família imperial em outra mesa. Os membros mais proeminentes da

sociedade têm a honra de sentar com a noiva e o noivo. A organização é

hierárquica, ou seja, o príncipe herdeiro, sua filha, meu tio e suas filhas (as

Gêmeas Iluminadas) sentam com o primeiro-ministro e sua noiva. Minha tia, a mãe das gêmeas, deveria estar aqui, mas não veio. Vou tentar lembrar

de perguntar a Mariko se ela está doente.

Desabo em uma cadeira preta laqueada, me esforçando para não virar

cinzas sob os olhares fulminantes das gêmeas. Coisas que eu gostaria de

poder dizer a elas: “Vocês não acham que isso é um pouco clichê, serem

más com a forasteira? A hostilidade é uma praga terrível entre jovens

mulheres. Quando torturar outras pessoas se tornou um rito de passagem?”.

O primeiro-ministro entra com meu pai ao lado. A noiva vem atrás. Em

um vestido de seda branca coberto com pérolas, a nova esposa do primeiro-

ministro é a definição de unicórnio banhado em purpurina. Sua tiara de

diamantes cintila à luz das velas quando ela senta.

Meu pai me cumprimenta.

— Você está linda.

— Obrigada. Você também está lindo… hum, quero dizer, ótimo. — Fico

envaidecida com a atenção dele. Sorrimos um para o outro. O salão todo

aguarda o príncipe sentar para se acomodar.

Discursos são proferidos. Meu pai brinda aos noivos. Todos falam em

japonês e eu não entendo quase nada. Quando ele termina, as Gêmeas

Iluminadas sussurram alto o suficiente para que eu ouça.

— Ele esqueceu de mencionar a irmã de Adachi — Akiko diz.

Noriko estala a língua.

— Ele deveria ter falado algo sobre ela não estar presente. É um

infortúnio ela não poder se juntar a nós.

Meu pai cometeu um erro. Fico me perguntando como é que isso pode ter

acontecido, mas ao mesmo tempo me conforta. Acho que todos somos

passíveis de erros.

O jantar é servido. É uma dança elegante, coreografada por garçons em

luvas brancas e fraques. Mais discursos são proferidos. Meu pai conversa com o primeiro-ministro. Eu converso com a noiva. Ela é ex-diplomata,

mas agora planeja ficar em casa em tempo integral e apoiar o marido.

Tomamos uma sopa clara com gyoza e um creme saboroso com enguia e

cogumelos, peixe grelhado e arroz branco com feijão-vermelho. Mariko me

disse que o educado é não deixar comida no prato. Isso eu consigo.

Meu pai limpa a boca com um guardanapo branco.

— Izumi-chan, você parece contente esta noite.

— Estou — respondo.

Uma dança. Um casamento. Uma garota em um vestido de baile. O que

poderia dar errado?

— O Japão está te fazendo bem.

— Está. — Um garçom retira nossos pratos. Meu estômago está quase

explodindo. — Não quero que acabe.

— Sua Alteza. — O primeiro-ministro chama minha atenção. Ele é mais

velho, e seu cabelo preto tem mechas grisalhas. Sua primeira esposa morreu

de doença cardíaca. — Muito obrigado por comparecer. Minha esposa e eu

estamos honrados com a sua presença.

Tecnicamente, não tive muita escolha. Mas estou feliz de estar aqui.

— O evento está maravilhoso. Obrigada por me receberem. — Lembro

dos comentários de Akiko e Noriko. — É uma pena que sua irmã não tenha

vindo. — Meu sorriso é radiante, expectante. Estou pronta para receber uma

resposta calorosa do primeiro-ministro. Talvez ele responda com uma

anedota divertida sobre a irmã. Talvez meu pai me agradeça por ter vindo

em seu resgate. Talvez eu tenha um futuro na diplomacia. — Aposto que o

senhor gostaria que ela estivesse aqui.

Meu pai quase engasga com o arroz. A conversa ao meu redor morre.

Olho em volta, sem entender. Noto algo suspeito nas bocas de Akiko e

Noriko, como pontas afiadas de facas. O primeiro-ministro abaixa a cabeça e cerra o punho no guardanapo. Em seguida, começa a falar em japonês —

suavemente, a princípio, e então mais alto, à medida que ele se exalta. Sua

esposa se apressa para acalmá-lo.

Fico ali sem entender.

— O que…

— Izumi. — O tom de voz do meu pai é duro, uma clara reprovação. Ele

nunca falou assim comigo. — O primeiro-ministro e sua irmã não têm uma

boa relação. — Ele abaixa a voz e fala quase em um sussurro: — Ela o

acusou de coisas horríveis. Nós não… falamos dela. Nunca.

Meu pai entra na batalha para tentar conter o primeiro-ministro, que

continua a vociferar e a apontar para mim. Agora sei o verdadeiro

significado da palavra “catástrofe”. O salão parece ir diminuindo. Os

convidados desviam olhares. O primeiro-ministro continua a bravata. As

gêmeas estão gargalhando atrás de seus guardanapos. Não há absolutamente

nada que eu possa fazer. Enfim, ele para de falar, mas ainda treme de raiva.

— Sinto muito, primeiro-ministro Adachi — digo. Ele está

silenciosamente furioso agora. Tudo o que consigo ver é o topo de sua

cabeça. Ele me ignora. Fui ostracizada. Toco o braço do meu pai, mas ele

não me olha. É verdade que os golpes mais inesperados são os que mais

doem. Algo se quebra dentro de mim. — Minhas sinceras… — Levanto da

mesa. — C-com licença. — Tropeço nas palavras, no meu vestido. A

humilhação cresce no meu peito, rasgando-o e abrindo um caminho ardente

até a minha garganta. Lembro do conselho de Mariko. — Banheiro. —

Consigo dizer.

— Gaijin — Akiko solta quando eu passo por ela.

Noriko repete, caso eu não tenha ouvido de primeira:

— Gaijin.

Minhas primas armaram para mim.

De cabeça baixa, eu fujo.