Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 21 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 20

 

Segundo Shirasu me contou, Kyoto já foi uma cidade de comerciantes. O

bambuzal em que nos encontramos está em sua família há cinco gerações.

Eles têm fornecido bambu para a família imperial durante todo esse tempo.

Shirasu é cheio de rugas e seu corpo franzino parece um daqueles

papeizinhos de adivinhas esvoaçando do lado de fora do templo que

visitamos mais cedo. Meu nariz ainda está ardendo por causa do incenso.

Viemos até aqui de carro — uma hora de estradas de terra cobertas por

florestas antigas, com a névoa rolando em volta dos nossos calcanhares.

Este lugar é quase pré-histórico. Ao descer do carro, esperava ver um tigre-

dentes-de-sabre se esgueirando da vegetação rasteira. Em vez disso, foi

Shirasu quem veio nos cumprimentar. Ainda assim, é como se tivéssemos

voltado no tempo. Sua casa é simples, com telhado de palha. Ele insiste que

não precisa de mais nada. Adentramos no bambuzal de vinte mil metros

quadrados. Ele tagarela animadamente em um inglês básico.

— Meu pai pensou em vender o bambuzal anos atrás. Viajamos para

Tóquio para fazer negócio com uma empresa grande. — Ele esqueceu o

nome da tal empresa. Suas costas são curvadas pela idade. — Naquele dia,

as primeiras bombas caíram na cidade. — Ele simula a explosão com as

mãos. — Sumiu tudo. Me escondi debaixo da mesa. Meu pai não teve tanta

sorte. — Ele conta que o pai morreu por causa de um ferimento na cabeça.

Também fala sobre os pequenos incêndios que surgiram, derretendo

maçanetas e garrafas, e que ele brincou nas cinzas com outras crianças

enquanto esperava o transporte de volta para Kyoto. Sua mãe o trouxe de

volta para o bambuzal. Eles nunca mais falaram em vendê-lo novamente.

Ela cuidou dos negócios até que Shirasu tivesse idade suficiente para

assumir. O nome de seu pai está inscrito no Parque Yokoamicho em Tóquio.

Prometo visitá-lo algum dia para prestar minhas homenagens.

Nas últimas duas semanas, memorizei os kanjis mais comuns, passei por

cada centímetro cultural de Kyoto — casas de chá, teatro Kabuki,

confecções de sombrinhas — e fiz aulas noturnas de etiqueta com Mariko.

Por favor, repare como cruzo as mãos na frente do corpo, como meus

passos são bem mais curtos do que antes, como sorrio sem mostrar muito os

dentes, como cubro a boca para dar risada, e como, em vez de apontar,

agora gesticulo com a palma da mão aberta. Como se não bastasse, estou

praticando japonês com Mariko e com o sr. Fuchigami. Já consigo me

comunicar, mesmo que precariamente. Ainda não cheguei lá, mas

definitivamente estou muito melhor. As coisas mudaram rápido. Eu mudei.

O ressentimento em relação a meu pai também diminuiu. Sou mulher o

suficiente para admitir que errei. Kyoto tem me feito bem e sou grata por

isso.

— Alguns bambus podem crescer trinta metros em dois meses! —

Shirasu exclama.

Olho para os caules imponentes. São densos e foram plantados distantes

uns dos outros. Seria fácil me enfiar pelas brechas e me perder. Faixas de

luz cintilam através das fendas, espessas e quentes como mel. O vento

sussurra em meus ouvidos. Lembro dos ensinamentos xintoístas, que dizem

que os deuses habitam as colinas e árvores. Posso sentir a presença deles.

— O segredo é ter paciência. — Shirasu para no lugar. A seus pés, há um

buraco. — Bambu leva tempo para crescer, espalhar raízes. Demora três

anos para emergir. Mas depois disso… — Ele faz o mesmo gesto que fez

quando falou das bombas. Se ajoelha. — O melhor bambu fica debaixo da

terra. — Ele tira uma pazinha do bolso. Suas mãos são nós retorcidos. Ele

remexe a terra até retirar um bulbo branco feito lírio. Com a unha do

polegar, mostra que está maduro. — Macio. Como maçã — diz,

entregando-o para o filho.

O pequeno camponês absorve as palavras do pai como se fossem

sagradas. Um dia, ele vai assumir o bambuzal. O menino coloca o bulbo em

uma cesta.

Shirasu faz uma reverência e me convida a desfrutar de sua propriedade.

— Dōzo. — “Fique à vontade”, ele diz.

Assinto.

— Dōmo arigatō gozaimasu. — “Muito obrigada”, respondo.

Ele deseja que voltemos em breve. Talvez em junho, para ver as rãs cor

de esmeralda grudadas nos caules e para participar do Gion Matsuri, um

festival em que as mulheres vestem quimonos de verão, e as lojas ficam

todas decoradas. Há desfiles à noite e a música se espalha pelas ruas.

Deixo Mariko e o sr. Fuchigami para trás e me aventuro pela floresta.

Aqui, os bambus são mais altos, ainda esparsos, e as folhas largas eclipsam

o sol. Shirasu mantém as plantas com dois metros de altura, só que, por

algum motivo, elas cresceram livremente nessa área. Ouço passos atrás de

mim: Akio. Ele é minha sombra. Paro e passo as mãos em um caule,

tentando sentir alguma divindade dentro.

Vejo Akio pelo canto do olho. Sua expressão é tensa, a boca bem

fechada. Pequenas gotas de suor reluzem em sua testa.

— Você está bem? — Será que está doente?

É difícil imaginar meu guarda imperial convalescendo de um vírus

inoportuno.

— Sim. — Ele está rígido.

— Se você diz. — Continuo caminhando.

Os bambus ficam mais altos ainda. As folhas se agitam, cercando nossos

ombros. A névoa chega até os meus tornozelos. É como se a terra estivesse

expirando.

— A floresta está ficando um pouco densa, não acha? — Akio parece

sufocar.

Eu o observo com atenção, então entendo: ele é claustrofóbico. O vento

sopra forte. Uma folha toca a nuca de Akio. O medo transparece em seus

olhos. Paf. Puta merda. Akio agarrou o bambu atrevido e o partiu em dois.

Caramba, ele é forte. E está tendo um chilique, lutando contra o bambu.

— Opa. — Me aproximo dele. — Calma. O bambu do mal já era. —

Toco seu ombro. Ele paralisa. — Chega. O sol já vai se pôr, grandão.

Ele vira para me olhar, depois olha minha mão em seu ombro. Eu a retiro

bruscamente, como se tivesse me queimado. Ainda há uma fagulha entre

nós.

Ele solta o bambu.

— Você acabou de citar Os vingadores?

— Sim. — E não me envergonho disso.

Ele seca as mãos e murmura consigo mesmo:

— Se eu fosse um herói, não seria o Hulk.

Minhas sobrancelhas quase saltam do rosto.

— Não?

— Não. Obviamente, eu seria Tony Stark, o Homem de Ferro.

Dou risada. Ele não. Suspiro.

— Está falando sério?

Sua expressão é neutra.

— Bem, eu com certeza não seria o Hulk nem o Gavião Arqueiro.

— É, o Gavião Arqueiro é o pior. — Ele até tem uma história de amor

bacana. Mas arco e flecha? Fala sério. — E o Doutor Estranho? — Me

arrependo assim que pergunto.

Akio bufa.

— Um cara branco que usa o antigo misticismo chinês?

— É mesmo um pouco problemático. Podia ter mais representação

asiática. — Pelo menos um pouco. Pelo menos uma. Um herói asiático. Não

é pedir muito.

Rimos juntos. Olho para baixo. Fico me balançando.

— Então você não gosta de espaços apertados, hein?

Ele balança a cabeça.

— Minha família me levou para conhecer um bambuzal quando eu era

criança. Não era uma fazenda como esta, estava mais para uma atração

turística. Fiquei perdido por horas. Não conseguia encontrar a saída. — Ele

ergue o braço e passa a mão pelo meu cabelo. Resisto à tentação de ceder ao

seu toque. — Folha — diz, tirando uma folhinha e largando-a.

Certo. Melhor mudar de assunto.

— Acho que é melhor a gente ir. — Não espero a resposta dele e começo

a andar.

Akio me segue. Não quero que as coisas fiquem assim, tensas e confusas

entre nós.

Paro abruptamente. Quase trombamos. Recuo, sem querer tocá-lo de

novo.

— Akio…

— Sua Alteza…

Falamos ao mesmo tempo. Ele estende a mão para mim.

— Por favor.

Agora que consegui uma oportunidade, não sei o que dizer. Engulo em

seco. Queria poder interpretá-lo melhor. Queria mais ainda poder tocá-lo.

— Desculpa pelo modo como agi no trem. E no carro, quando te pedi

para me chamar de “Sua Alteza”.

— Eu entendo. — Ele assente, como se nada fosse.

— Só não quero que ache que realmente penso em você dessa forma.

Não me acho superior a você. Não foi minha intenção.

— Deveria ser. — Ele diz com sinceridade.

Fungo. Sou tão chorona.

— Também andei pensando que você estava certo.

— Sobre o quê?

— Sobre nós. Sei que não pode rolar nada. Foi um erro bobo. — Respiro

fundo. Permito que as lágrimas sequem. — Além disso, se ficássemos

juntos, as pessoas pensariam que sou superficial por ficar com alguém tão

bonito. — Levanto o nariz. Aprendi a me preocupar com a minha imagem

pública.

A risada dele é seca.

— As pessoas pensariam que traí a monarquia e que sou um oportunista

sem-vergonha.

Touché.

— Definitivamente não é o que queremos.

— Então é isso. — Nossos olhares se encontram por um momento, e logo

se afastam.

— É isso.

Por que parece que estou perdendo algo de novo?

— Mas ainda podemos ser amigos, não é? — Senti falta de conversar

com ele.

Ele se mexe um pouco. Se aproxima. A tensão diminui, como uma mola

se recolhendo lentamente. Ele estende a mão, dizendo:

— Amigos.

Aperto a mão dele. Nossos dedos se fecham. Apertamos firme. Por

tempo demais. Devagar, nos soltamos. Pode ser a última vez que nos

tocamos. Quero lembrar de sua pele áspera, de seu calor.

Caminhamos juntos pela floresta.

— Você lembra o caminho? — Akio pergunta.

Ah, ele ainda está com medo. Que fofo.

— Claro — digo para acalmá-lo.

Sua testa está franzida de nervosismo.

— Podemos esquecer o meu pequeno ataque de pânico? O

constrangimento é pior do que o incidente em si.

Finjo fechar os lábios com um zíper. Depois o abro.

— Não vou contar pra ninguém, mas preciso dizer que acho essa coisa de

guarda imperial vulnerável muito cativante. Te torna mais humano.

— Ah, é? — Sua boca se curva em um sorriso relutante.

— Ah, sim, é o meu tipo favorito. Em segundo lugar, está o guarda

imperial ranzinza e lacônico.

Ele dá risada. A tensão de seu corpo dissipa. Missão cumprida. Consegui

animá-lo. É o que amigos fazem.

Sigo na frente, puxando conversa. Pergunto sobre sua mãe.

— Ela está bem na medida do possível. Telefono sempre que posso, mas

não tenho conseguido visitá-la… — Ele para de falar, mas entendo o que

fica no ar: eu o afastei dela.

Queria poder fazer algo por Akio. Poderia pedir uma substituição e

liberá-lo de suas obrigações. Mas não quero perdê-lo. Sou egoísta, eu sei.

Contra a minha própria vontade, começo a sugerir:

— Se quiser… — Eu realmente vou oferecer. — Se quiser ir pra casa,

tudo bem por mim.

Ele olha para mim muito sério.

— É isso o que quer?

— Não — respondo rápido demais. — Mas eu entenderia. Ficaria triste

de vê-lo indo embora. Me acostumei a ter você por perto.

— Não quero ir. — Ele suspira forte. — Também me acostumei com

você.

Molho o lábio.

— Combinado então. Você fica.

— Eu fico.

Ele diz como se fizesse um voto. Morro um pouquinho por dentro.

Avistamos o sr. Fuchigami e Mariko e interrompemos a conversa. No

caminho de volta ao palácio, Akio se senta na frente. Eu vou no banco de

trás com os dois.

— Mariko, você tem papel e caneta?

Ela fica curiosa, mas não faz nenhuma pergunta. Apenas pega um

bloquinho de anotações e um lápis em sua bolsa. Parte de seu trabalho é

estar preparada. Ela tem todo tipo de coisas maravilhosas na bolsa: agulha e

linha, balas, absorventes e até dinheiro. A família imperial não carrega

dinheiro nenhum. Tudo é pago pela Agência da Casa Imperial. Mas ando

com um cartão de crédito de emergência da minha mãe. Só por precaução.

Rabisco algo no papel e o dobro ao meio.

— Sr. Fuchigami. — Entrego-o ao camarista.

Ele o abre. Quando lê o que escrevi, suas sobrancelhas de lagarta se

erguem.

— Isso não é nada comum.

Não consigo ler seu tom. É algo entre como-você-ousa e eu-respeito-este-

ato-de-bondade-a-contragosto. Poderia ser ambos.

— Onegai shimasu — digo. “Por favor.” Fecho os olhos. Meu coração

está preso em algum lugar perto das minhas amígdalas. Faça uma coisa por

mim. Por Akio. Por sua família.

Ele enfia o bilhete no bolso.

— Vou ver o que posso fazer.

— Arigatō. — Faço uma reverência para ele.