Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 27 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 26

 

Um almoço comemorativo é servido no salão de banquetes. Sento com

meus primos, menos as Gêmeas Iluminadas, cujos assentos estão vazios. As

mesas estão enfeitadas com faixas de linho branco e peças de cristal e

porcelana. Arranjos de flores baixos exibem crisântemos dourados. Os

lustres emitem uma luz quente, e saquê gelado embebido em crisântemo é

servido. Brindamos à longevidade do imperador. Ele senta à cabeceira da

mesa, com meu pai ao lado. O primeiro-ministro também está presente; ao

entrar, fiz uma reverência, a qual ele correspondeu. Está tudo bem. O clima

é alegre.

— Tudo o que estou dizendo é — Yoshi usa o garfo para pegar um

pedaço de carne de porco com molho marrom — que você deve considerar

soltar águias americanas em vez de pombos no seu casamento. Sabe, em

homenagem à nossa prima americana aqui. — Minha risada anima Yoshi.

— Teríamos que importá-las dos Estados Unidos, mas isso não deve ser

problema.

— Tenho quase certeza de que o Serviço de Pesca e Vida Selvagem não

permitiria — digo.

— Que tal galinhas, então? Aliás, não era pra esse bicho ser a ave

nacional? — Yoshi pergunta.

Masahito suspira, afunda na cadeira e joga o guardanapo no prato.

— Peru. A ave nacional dos Estados Unidos era para ser o peru.

— Bem, não tem problema — Yoshi diz. — Peru então. Eles não voam e

não são tão magníficos, mas acho que, em casos de emergência, podem

servir.

Sachiko revira os olhos.

— Não vou soltar pombos, águias nem perus no meu casamento.

— Sim — Ryu concorda. — Guarde essa ideia para o seu próprio, Yoshi.

Com quem quer que seja a infeliz pretendente.

Yoshi faz beicinho e uma careta ao mesmo tempo.

— Depois não vem colocar a culpa em mim se o casamento de vocês for

uma chatice. Vocês poderiam ter perus.

Limpo os cantinhos da boca, tomo um gole de saquê e vasculho a sala

com os olhos. A parede atrás do imperador é forrada com um tecido de seda

exibindo um pôr do sol espetacular. Criados de luvas brancas alinham-se

nas paredes junto aos guardas imperiais. Então eu vejo. Nossos olhares se

conectam e depois se desviam.

Levanto devagar.

— Com licença.

— Não consegue segurar o saquê — Yoshi explica.

O corredor está silencioso, mas há alguns retardatários — um dignitário

falando ao telefone, alguns camaristas discutindo cronogramas, as damas de

companhia das Gêmeas Iluminadas… hum. Elas estão bloqueando o

banheiro, como se estivessem de guarda. Curioso. Uma delas segura um

copo d’água e abre a porta. Vislumbro as Gêmeas Iluminadas curvadas

sobre uma mulher. É a mãe delas, Midori. Apertando a própria cabeça. Está

vestida com esmero em um vestido de seda, mas é evidente que está

desmoronando. Palavras ásperas são murmuradas e a dama de companhia se

retira, com o copo intocado. Diminuo o passo. Paro. E viro. As damas de companhia estão com os ombros colados, como se para me impedir de

entrar. Como se eu fosse forçar. Eu as encaro severamente, deixando meu

olhar pesar nelas como um fardo. Então elas se separam de cabeça baixa.

Me aproximo e abro a porta.

— Está tudo bem? — pergunto delicadamente. Midori geme baixo e vira

o rosto. As gêmeas estreitam os olhos para mim e param na frente da mãe,

escondendo-a. Eu estico o pescoço, tentando espiar. — Precisa de algo?

Água? Quer que eu chame alguém? Um médico?

Noriko avança. Seu vestido é azul-celeste de gola alta. Combina com a

sombra forte e dourada.

— Você não vai falar disso com ninguém — ela diz.

— Claro que não, eu…

Akiko se junta à irmã. Seu vestido é verde-pastel. Suas mãos se fecham

em punhos.

— Seu lugar não é aqui.

Recuo um pouco.

— Não vou contar a ninguém.

— Nem pense nisso mesmo, ou vamos arruinar sua vida — Noriko

ameaça.

— Como falei, não vou contar a ninguém. Mas este não é o lugar mais

discreto. Se conseguirem, vocês deveriam tirá-la daqui.

As gêmeas trocam um olhar, e é Noriko que fala:

— Nós que decidimos o que é melhor para a nossa mãe. Agora, vá

embora, por favor.

Espero um pouco, piscando para elas. Não é problema meu. É hora de

deixar pra lá. Coloco um sorriso no rosto.

— Melhoras — digo em voz alta, para que a mãe delas ouça.

As gêmeas ficam observando enquanto me retiro.

Estou de volta ao corredor e retomo meu curso. Me afasto do salão de

banquetes, adentrando cada vez mais fundo na toca do coelho. Viro à

direita. O amplo corredor está quase vazio. Dois guardas estão parados sob

luminárias de bambu e fazem sentido quando eu passo. O tapete vermelho

abafa meus passos, que se tornam mais apressados e mais frenéticos,

combinando com meu coração.

Finalmente, chego a um conjunto de portas. Abro e fecho com cuidado. É

a mesma sala onde me fotografaram mais cedo. O brilhante sol se infiltra

pelas janelas, em um raio de luz, e deixa as partículas de poeira visíveis no

ar.

As portas abrem. Eu viro. Akio. Sabia que me seguiria. Ele fica em

silêncio por um momento, me olhando com a cabeça inclinada. Está

iluminado pelo sol, que acentua todas as linhas duras de seu rosto. Ele é tão

bonito. Uma escultura de mármore e vidro.

— Você saiu da mesa. — É tudo o que diz.

Dou um sorriso doce.

— Você disse que queria conversar.

Ele dá um passo à frente.

— Certo.

Ergo o queixo.

— Então?

O silêncio se prolonga. Ele balança a cabeça.

— Não sei por onde começar. — Fico encarando-o, paralisada.

Com o coração saindo pela boca e tal. Ele estende a mão, correndo os

dedos do meu cotovelo até a palma da minha mão, envolvendo-a.

— Izumi. Princesa. Rabanete. — Ele me puxa. — Dança comigo?

— Não sei — hesito. Minha cabeça está girando. — Na última vez, não

deu muito certo.

— Na última vez, fui um idiota.

Verdade. Coloco a mão em seu ombro.

— Não temos música — comento.

Akio disse a mesma coisa para mim da primeira vez.

Por fim, ele sorri.

— Vim preparado. — Ele pega o celular do bolso, percorre as opções e

escolhe uma música. “The Rose” começa a tocar. — Não consegui

encontrar a versão do Coro dos Homens Gays. A versão original de Bette

Midler vai ter que servir.

— Eu aguento. — Meu corpo relaxa com um suspiro.

Está tudo certo com o mundo.

Ele apoia o queixo na minha cabeça. Começamos a nos balançar.

— Como foi com o imperador e a imperatriz?

— Bem, acho. — Eu me aconchego em seu peito.

Conto brevemente sobre o almoço. As piadas de Yoshi. A situação com

as Gêmeas Iluminadas e a mãe no banheiro.

— A princesa Midori não está bem há um tempo. A imprensa vai pegar

pesado com ela por ter perdido o discurso de aniversário do imperador.

Paro.

— É tão injusto.

Seu olhar é suave, seu tom, feroz.

— Melhor ela que você.

— Você não deveria falar assim — digo, embora seja sempre bom ter

alguém para nos defender.

— É verdade.

Faço carinho em seu peito.

— Só tente não repetir.

— Vou guardar meus pensamentos para mim, então.

Retomamos a dança. A música termina e começa de novo.

— Você colocou para tocar de novo?

— Aprendi com a melhor.

— Achei que você não tinha percebido.

— Claro que percebi. — Sua voz está mais baixa e um pouco rouca. —

Não há nada que eu não perceba em você.

Paramos de novo. Minha respiração está ofegante. Seu coração bate forte.

— Vai me falar o que queria?

— Não é óbvio? — Suas mãos sobem pela minha cintura, deixando um

rastro de fogo em minha pele.

— Sou uma garota que gosta que as coisas sejam desenhadas.

Seus olhos castanhos brilham com um ar suspeito.

— Aquela noite em Kyoto foi a melhor da minha vida. A ideia de nunca

mais ficarmos juntos de novo, a ideia de nunca mais tê-la em meus

braços… — Ele me aperta mais forte. — Rabanete, estou tão apaixonado.

— Estremeço, arrebatada por todos esses sentimentos. Essas são as palavras

mais doces que já ouvi. São tudo que eu precisava. Fecho os olhos e depois

abro. — Por favor, diga alguma coisa — ele implora.

Levanto o rosto e sorrio. Tudo está se encaixando, como dedos se

entrelaçando ou uma chave entrando em uma fechadura. Somos

compatíveis e não podemos nos separar.

— Definitivamente, acho que você deveria me beijar agora.

Ele enfim consegue respirar.

— Boa ideia.

Abaixa a cabeça. Seus lábios tocam os meus, hesitantes no início, mas

depois com vontade. Eu também. Nossos corpos são pura adrenalina. Nos

afastamos, nos olhando maravilhados e depois nos unimos de novo. Lábios com lábios. Mãos com mãos. Aqui, nesta sala, neste edifício, nesta terra,

milênios de tradições desmoronam.

Algumas regras são feitas apenas para serem quebradas.

FOFOCAS DE TÓQUIO

 

Notícias urgentes! S.A.I. a Princesa Izumi é pega com

seu guarda imperial

 

15 de maio de 2021

Em matéria exclusiva, Fofocas de Tóquio revela o caso de Sua Alteza Imperial a Princesa Izumi com o guarda imperial Akio Kobayashi. Os dois andaram aos amassos por todos os cantos de Tóquio e Kyoto. Nossas fontes revelam que faíscas voaram no momento em que eles se conheceram.

Tudo começou com uma discussão acalorada entre os dois quando S.A.I. a Princesa Izumi teve que fazer uma parada não programada no aeroporto para usar o banheiro da cozinha dos funcionários.

O garçom Denji Kanroji relata que testemunhou uma discussão tensa entre a princesa e seu guarda. “Ficou claro que eles não se gostavam nem um pouco”, Kanroji afirma.

Então como foi que os inimigos se tornaram amantes? A reviravolta aconteceu em Tóquio. A princesa escapou para curtir uma noite na cidade e acabou tendo problemas. Nas fotos obtidas com exclusividade pelo Fofocas de Tóquio, vemos S.A.I. a Princesa Izumi sendo carregada para fora de um clube de karaokê visivelmente embriagada. Os dois ficaram ainda mais próximos em Kyoto, disse uma fonte palaciana.

E quem é que esqueceu o incidente no hospital há uma semana? Nele, Kobayashi aparece protegendo S.A.I. a Princesa Izumi depois que um carrinho foi derrubado por acidente. “Ele a segurou por muito tempo”, relatou nossa fonte. “Mesmo depois que a ameaça passou, ele continuou abraçando-a com força.”

Por fim, no almoço de aniversário do imperador, os dois foram pegos dançando e se beijando em um salão de baile vazio.

Mas quem é este guarda imperial que chamou a atenção da princesa? Akio Kobayashi é filho de um ex-guarda imperial altamente condecorado. Apesar do legado de sua família, Akio foi escalado para se alistar na Força Aérea de Autodefesa. “Seu pai ficou arrasado quando Akio decidiu não seguir seus passos”, disse um amigo da família. “Foi só quando a mãe adoeceu e o pai se aposentou que Akio decidiu a contragosto se tornar um guarda imperial. O garoto sempre teve a cabeça nas nuvens. Queria se tornar piloto, e acabou como consorte da princesa!”

“Ele se excedeu”, diz a blogueira imperial Himari Watanabe. “Eu fico mal pela princesa. Está claro que ele se aproveitou dela. Kobayashi deveria ser demitido, no mínimo. É uma vergonha. A princesa merece coisa melhor.”

Há quem discorde de Watanabe. “Os dois são culpados”, disse uma fonte da Agência da Casa Imperial. “A princesa cortejou o guarda. No fundo, ela é uma romântica, americana demais. Impulsiva, ousada e teimosa. Ambos passaram dos limites.”

A Agência da Casa Imperial se recusou a comentar o caso.