Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 34 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 33

 

 

Dia um.

A Casa da Agência Imperial aparece em Mount Shasta com uma

comitiva de camaristas, secretários, chefs particulares e motoristas. Uma

reunião privada é realizada em nossa cozinha. Minha mãe e eu somos

relegadas à garagem com os agentes do serviço secreto, guardas imperiais e

veículos diplomáticos designados para visitantes de estados estrangeiros.

Vozes furiosas ultrapassam as janelas. Meu pai sai batendo a porta de casa.

— Mak? — minha mãe chama.

Seguro a coleira de Tamagotchi enquanto ele cava o cascalho da entrada

da garagem.

A carranca do meu pai se suaviza.

— Está tudo bem. Só estávamos resolvendo uns detalhes. Algumas

reuniões tiveram que ser canceladas e remarcadas. Mas trago más notícias.

Aparentemente, hotéis não são seguros… — Ele coça a nuca.

Estou quase certa de que ouvi um dos camaristas dizer justamente o

oposto.

— Ah — minha mãe fala. — Bem, você é mais do que bem-vindo aqui.

Acho que não vamos ter espaço para toda a sua equipe, mas talvez Jones…

— Obrigado por oferecer sua hospitalidade. Os camaristas podem

acampar, se necessário. — Meu pai abre um sorriso vitorioso. Malandro. Os camaristas saem aos montes da casa, vestidos com ternos pretos e azul-

marinho, pastas e tudo. — Agora, estou animado para conhecer Mount

Shasta.

Ele estende a mão. Um dos camaristas — ou seria seu secretário? — abre

uma pasta. Ele a equilibra desajeitadamente nas mãos enquanto procura o

Guia do Visitante de Mount Shasta.

— O que devemos fazer primeiro? — Ele folheia as páginas. — Andar

de bicicleta? Sair para um passeio? Explorar o centro da cidade?

Minha mãe engole em seco.

— Talvez uma trilha em Castle Lake? Quem sabe podemos parar em

Berryvale e pegar alguns itens para fazer um piquenique.

Meu pai mostra os dentes.

— Parece ótimo.

— Zoom, o que acha? — minha mãe pergunta com a sobrancelha

arqueada, como se fosse um desafio.

— Estou dentro — digo, com todo o entusiasmo que não sinto.

Ela me lança um olhar desconfiado, me analisando. Minha mãe sabe que

não curto trilhas. A última vez que me sugeriu isso, eu disse algo tipo:

“Prefiro fazer um enema em um gorila”.

— Excelente — meu pai diz. — Quero ver tudo o que é importante para

você. — Ele está animado. A verdade é que estou um pouco também.

 

Dia dois.

Minhas pernas ainda estão doloridas da trilha de ontem. Cometemos o

erro de levar Tamagotchi. Ele desistiu na metade do caminho e tive que

carregá-lo. É um cão tão preguiçoso.

— As pessoas comem isso de uma vez? — Meu pai encara o biscoito do

tamanho de um prato à sua frente.

— Aham.

O Black Bear Diner está bem vazio hoje. Dois coroas jogam damas nos

fundos. Um caminhoneiro toma café e come uma torta no balcão. Os

garçons de suspensórios seguem com suas tarefas rotineiras como se não

houvesse agentes do serviço secreto e guardas imperiais nas mesas ao nosso

redor e postados do lado de fora. Os paparazzi apareceram, mas foram

expulsos de quase todos os estabelecimentos. As pessoas de Mount Shasta

podem até odiar monarquias, mas odeiam ainda mais quando ameaçam sua

privacidade. O lugar onde nunca me senti bem-vinda de repente está

mostrando seu apoio.

Meu pai come seu biscoito com garfo e faca. Minha mãe ri escondendo a

boca e ele sorri como se estivessem compartilhando uma piada interna. Ele

mergulha um pedaço na manteiga e na geleia quente e depois come.

— É bem doce. Gostei — ele declara.

Em seguida, pede biscoitos para todos na conta do príncipe herdeiro.

Depois que devoramos nossos biscoitos, panquecas macias e salsichas

gordurosas, meu pai limpa a boca e fala:

— É aqui que você vem com as suas amigas?

— Sim. — Fico brincando com o cardápio em forma de jornal.

Um camarista se aproxima, fazendo uma reverência para o meu pai.

— Com licença, um momento — ele diz, levantando da mesa.

Minha mãe me chuta por baixo da mesa.

— Ai.

— Você está agindo estranho — ela comenta.

— Não, não estou. Você é que está estranha. Digo, tem coraçõezinhos

literalmente flutuando em cima da sua cabeça.

Ela coloca seu guardanapo amassado com cuidado na mesa e apoia a

cabeça nas mãos.

— Você está certa. No que estou pensando?

Uau. A GGA e eu seguimos uma conta do Twitter chamada “Am I the

Asshole?”, em que as pessoas contam umas coisas aleatórias que fizeram e

perguntam aos seguidores se foram cuzonas. Coisas do tipo: “Sou uma

cuzona por pedir à minha madrinha para perder dez quilos para o meu

casamento? Sou cuzão por pedir à minha esposa um teste de paternidade?”.

Neste momento, eu nem precisaria consultar um bando de estranhos. Sou

totalmente cuzona.

— Desculpa. Você não está agindo como uma boba apaixonada. — Ela

franze a testa para mim, sem acreditar. — Bem, está, um pouco, sim, mas

ele também. Que nojo. Odeio isso — digo, sem emoção.

— Depois de todos esses anos… nunca pensei que tivéssemos uma

chance de ficar juntos. Mas se você não quer…

Estico o braço e faço carinho na sua mão. Às vezes, minha mãe exagera.

— Tudo bem. Você tem a minha bênção. Mas, assim, tente trancar a porta

ou talvez pendurar uma meia na maçaneta.

— Izumi — ela diz, totalmente de volta ao modo mãe.

Meu pai está terminando a conversa.

Levanto as mãos.

— Só não quero ver nada que possa me traumatizar para sempre.

Ela franze os lábios.

— Acho que a gente deveria conversar sobre o motivo de você não

querer voltar com o seu pai.

Durante a trilha, ele me pediu para voltar para o Japão de novo. Eu

desconversei apontando para um zimbro superinteressante.

— Não sei do que está falando. — De repente, encontro uma marca

fascinante na parede.

— Querida. — Ela espera até que eu a encare. — Você precisa se abrir

com ele.

— A gente não pode só aproveitar o almoço e nosso tempo juntos

enquanto ele estiver aqui?

Ela faz uma careta.

— Você acha que ele não vai gostar do que ouvir? Porque sua tarefa não

é ser agradável.

Meu pai volta.

— O que eu perdi? — pergunta, desfazendo o sorriso ao perceber a

tensão na mesa.

Minha mãe cruza os braços, voltando sua ira para o meu pai.

— Séculos de pressão sobre as mulheres para serem agradáveis e

cederem a expectativas emocionais irreais dos outros.

— Isso não parece justo. — Ele franze a testa.

— Se você diz — minha mãe bufa.

Trinca a mandíbula. Certeza de que está sonhando com um motim, com a

destruição do patriarcado. Sabe, essas coisas…

Chamo a garçonete. A conta, por favor.

 

Dia três.

De tarde, Glory, Hansani e Noora nos visitam para conhecer meu pai

oficialmente. Fazemos as apresentações, e tudo vai bem, até Hansani faz

uma reverência. Meu pai fica impressionado quando descobre que Noora

vai estudar em Columbia no ano que vem. Eu permaneço muda. A

faculdade comunitária está parecendo cada vez menos glamorosa. Depois,

minha mãe mostra a composteira para ele. Lembrete para mim mesma: dar

umas dicas de paquera para ela.

— Você acha que se disséssemos que precisamos cortar um pouco de

lenha, ele faria isso? — Noora pergunta com os dedos no parapeito da

janela.

Estamos espionando os dois, amontoadas atrás das cortinas. Meus pais já

se tocaram sem querer pelo menos três vezes até agora. Ela aponta algo e

ele assente.

— Ele provavelmente teria que tirar a camisa. Está terrivelmente quente

hoje — Glory observa.

— Parem de objetificar meu pai. — Como sempre, Hansani não falou

nada, mas é culpada por associação. Meus pais chegaram na composteira.

Moscas voam ao redor. — Não coloque a mão aí. Não coloque a mão aí.

Por favor, não coloque a mão aí — digo.

— Ela com certeza enfiou a mão ali — Hansani diz.

Pois é. Minha mãe tem um punhado de compostagem na mão e mostra ao

meu pai. Pelo menos ele realmente parece interessado. Ele está mais casual

hoje, com calças largas e uma camisa polo. Minha mãe joga a terra de volta

na pilha, limpando as mãos na calça jeans.

— Ela vai mostrar a caixa de minhocas para ele. Não consigo olhar. —

Cubro os olhos e me afasto da janela.

Noora e Hansani desaparecem. Glory continua ali.

— Ela está na caixa de minhocas. Você não vai querer saber o que ela

está fazendo agora.

— Ainda vamos ver um filme hoje? — Noora pergunta.

— Opa.

Meu pai convidou minha mãe para jantar. Ela achou que comida indiana

seria uma ótima ideia, mas eu a fiz desistir. Curry uma hora cobra seu

preço, se é que você me entende. Reservei uma mesa para dois no

restaurante italiano local.

— Hansani queria ver O guarda-costas, mas eu falei que era cedo demais

— Noora diz.

Hansani fica ofendida.

— Não queria, não.

Noora dá um sorrisinho malicioso.

Me jogo na cama.

— Nada de romance, por favor. Nem de princesas — digo.

— E se a gente maratonar alguma série? Schitt’s Creek?

— Feliz demais — digo.

Glory se afasta da janela.

— Terror, então.

— Isso — respondo. — De preferência, algo em que o bonitão morra

logo no começo.