Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 5
— Pegou calcinhas?
— Mãe.
O carregador gato coloca minha bagagem em um carrinho e sorri.
Estamos do lado de fora do aeroporto de São Francisco. Ontem, dei um
beijo na cara fedida do Tamagotchi uma última vez e me despedi de Noora
e das meninas. Depois, minha mãe e eu viemos para Bay Area para passar a
noite.
São sete da manhã. O céu está nublado e cor-de-rosa. Meu avião decola
em cento e vinte minutos. Em menos de catorze horas, estarei no Japão
conhecendo meu pai. Pensei que estaria eufórica, mas no momento estou
meio apavorada. Como minha mãe continua me encarando, sussurro,
furiosa:
— Sim.
— E seu protetor bucal?
Levanto a mochila.
— Na bagagem de mão.
— E o fichário que o embaixador Saito te deu?
Ah, o fichário. Antes de voltar a Washington, o embaixador Saito me
entregou em mãos uma montanha de papéis que continha:
1. Um questionário muito pessoal e detalhado com tudo ao meu respeito,
desde altura e peso até sonhos para o futuro e aspirações. Doeu um
pouquinho pular o quadradinho do japonês e marcar só o do inglês
correspondente ao “idiomas falados”. (“Não se preocupe”, o embaixador
Saito disse tranquilamente quando manifestei minhas preocupações com a
barreira linguística. “A família imperial e sua equipe são fluentes em várias
línguas, inclusive inglês. Um tutor também estará ao seu dispor para ajudá-
la a assimilar tudo, inclusive o idioma.”)
2. Um acordo de confidencialidade de vinte páginas, que me proíbe de
divulgar informações financeiras, pessoais, privadas e arquitetônicas
relacionadas à família real e suas propriedades — basicamente, as regras do
Clube da Luta.
3. Um dossiê (o fichário em si) com o itinerário de voo e histórico
familiar, incluindo: quem é quem na linha sucessória atual, com suas
diversas genealogias, perfis pessoais, deveres oficiais, atividades públicas,
propriedades, relações exteriores e o papel da Agência da Casa Imperial,
além de vários funcionários importantes. Meu grande plano é revisar tudo
isso durante o voo. Eu procrastinei, claro. Algumas coisas nunca mudam.
Não é como se eu estivesse evitando isso ou qualquer coisa do tipo porque
estou secretamente intimidada com os pedigrees dos meus primos ou por
estar prestes a ingressar na monarquia mais antiga do mundo. Nada disso.
Dou uma batidinha na mochila.
— Está aqui.
Um carro da polícia está por perto. Desde que a notícia foi divulgada,
estou sendo acompanhada o tempo todo — um oferecimento do governo
dos Estados Unidos para seu amigo Japão. Estou me esforçando bastante
para não pensar nos gastos disso tudo. Alguém está sendo pago para
basicamente seguir a mim e minha mãe por aí e ficar vigiando enquanto comemos massa em Little Italy. Claro que comprei um cannoli para cada
policial. Pensei que era o mínimo da minha parte.
Noto que o carregador está parado nos observando. Que bom que ele está
curtindo o espetáculo. Só para constar, eu ainda estou mortificada.
Minha mãe morde o lábio.
— O embaixador Saito não disse que alguém iria nos encontrar aqui? —
Ela finge vasculhar a área.
Há alguns paparazzi a trinta metros — é a imprensa estrangeira do Japão.
Minha indignação por ter sido seguida está cozinhando em fogo baixo.
Ainda não sei bem o que pensar sobre as pessoas se achando no direito de
espiar minha vida. É um pouco desconcertante, como comprar sutiãs na
internet e depois ficar duas semanas seguidas sendo bombardeada por
anúncios relacionados a tetas. De alguma forma, me tornei propriedade
pública.
— Zoom Zoom.
— Hã? — Olho para minha mãe.
— Era para alguém nos encontrar aqui.
Certo. O embaixador Saito mencionou que eu encontraria uma equipe de
segurança imperial me esperando no aeroporto. Mas seria o aeroporto de
São Francisco ou de Tóquio? Na hora não entendi bem e não perguntei.
Como minha mãe não iria gostar nada dessa falta de atenção aos detalhes,
apenas digo:
— Mãe, vai ficar tudo bem. Vou ficar bem.
Ela agarra meus braços.
— Queria que você não precisasse ir. — Soluça na última palavra.
Um nó se forma na minha garganta.
— Não preciso ir. — Ela me empurra meio forte. — Mãe. Ai.
— Nada disso. Esta sou eu te empurrando para fora do ninho. — Então
ela me abraça.
Caio no choro. Sabia que as coisas mudariam no último ano, mas pensei
que seria do jeito tradicional. Formatura. Faculdade. Campus.
Me afasto e enxugo as lágrimas, e um pouco de ranho, na manga da
blusa. Não me importo se o carregador ainda está olhando. Minha mãe
segura meus braços em outro aperto mortal.
— Tente não se meter em problemas.
Aff. Como se eu fosse do tipo encrenqueira.
— Volto logo — tranquilizo-a. — Em duas semanas.
— Duas semanas — ela repete. Seu rosto é pura apreensão, então
aumento o sorriso. Alguém tem que ser corajosa aqui. — Acho que vai ser
bom para você — ela finalmente diz, forçando um sorriso. — Você está se
jogando no mundo. Estou orgulhosa.
Por que as mães sempre conseguem ver os recantos escuros da nossa
alma? Tenho uma confissão a fazer. Na minha própria vida, nunca fui a
protagonista. Simplesmente não sou uma estrela, não nasci pra isso. Sempre
fui só a coadjuvante. Meu único propósito é apoiar os heróis, ficar em
segundo plano e talvez, em algum momento especial, sacrificar minha vida
pelo bem maior. Até então, esse papel me caiu bem. Se o voo não for alto, a
queda também não vai ser muito feia. Só que agora, de certa forma, fui
empurrada para os holofotes. Tudo isso me deixa desconfortável.
Ligeiramente desequilibrada.
Mais um abraço demorado. Me despeço da minha mãe. As portas se
abrem e eu vou na direção do balcão da Japan Airlines. Não olho para trás,
mas sei que ela vai ficar olhando até eu desaparecer.
Tlim.
As luzes piscam no compartimento todo. Sabe aquela sensação de que o
tempo está passando bem devagar, mas quando você se dá conta, não
consegue acreditar que chegou o dia? É como me sinto agora. Pousando em
Tóquio, meu estado geral é de entorpecimento.
Olho pela janela. Meu primeiro vislumbre do Japão é cinza e frio. A
realidade vem com tudo e meu estômago revira. Estou sozinha do outro
lado do mundo. Inspiro. Expiro. Vou conseguir. Me virar em um país
estrangeiro, morar em um palácio e conhecer meu pai. Sem problemas. Vai
ser moleza — moleza como um mochi.
A seção frontal do Boeing 777 parece um iate de luxo. Há oito assentos,
cada um em uma cabine própria. As poltronas de couro marrom se
transformam em camas. Um console de madeira de mogno com
revestimento dourado esconde todo tipo de tecnologia: controles de
massageadores de assento, tomadas e entradas USB, um sistema de jogos e
até fones com cancelamento de ruído da Bose. Os vasos sanitários dos dois
banheiros privativos dão descarga sozinhos e são equipados com bidês —
obrigada, mas estou fora. Até os banheiros cheiram a glamour, uma mistura
de caxemira e lavanda.
Há divisórias entre os assentos — o que é completamente desnecessário,
já que somos apenas dois passageiros ocupando o espaço. Passei as últimas
dez horas com um japonês entediante, mas até bonitão, de terno. Entre as
refeições (foram servidos três pratos, começando com um aperitivo de yuba
macio e ouriço-do-mar fresco), cochilos e uma maratona televisiva,
aproveitei para observá-lo. Ele mal se mexeu. Não afrouxou a gravata nem
levantou os pés, só comeu. Uma bandeja foi levada a seu assento e retirada
vazia depois. Acho que isso é algum tipo de bruxaria.
A comissária de bordo faz um anúncio em japonês e depois em inglês:
— Senhoras e senhores, bem-vindos ao Aeroporto Internacional de
Narita. A temperatura é de catorze graus Celsius, e são 15h32. Por motivos
de segurança, nosso capitão pede que permaneçam em seus assentos e
permitam que os passageiros da primeira classe desembarquem antes.
Obrigada e, mais uma vez, bem-vindos a Tóquio. Por favor, aproveitem a
estadia.
Minhas bochechas estão queimando. Que bom que há uma cortina pesada
separando a primeira classe do resto do avião. Ninguém pode me ver. O
Bonitão levanta, abotoa o paletó e dá uma última olhada na cabine. Fala
com as duas comissárias e coloca um pequeno fone na orelha. Elas fazem
uma reverência e ficam paradas em frente às cortinas de veludo azul. A
porta do avião abre fazendo barulho. Dois homens sobem, ambos de ternos
pretos parecidos com o do Bonitão. Endireito a postura. O Bonitão vem
para o meu lado, fazendo uma reverência, e diz:
— Sua Alteza, por favor, me acompanhe.
Olho seus sapatos pretos e brilhantes, então vou subindo — terno escuro,
gravata escura e o seu rosto. Ele é mais novo que pensei, talvez uns anos
mais velho que eu. E Deus, me leva, ele é ainda mais bonito de perto. Tão
bonito que chega a ser quase ofensivo — lábios grossos, olhos puxados,
nariz fino. Estou em uma seca permanente desde Forest, mas acho que
chegou a hora de reavaliar minha interdição autoimposta de banir qualquer-
coisa-com-um-pênis. Abro e fecho a boca. Ele fica esperando com um olhar
frio e avaliador.
— E você é…? — minha voz corta no meio.
— Kobayashi. Akio — ele diz. E só.
Pelo visto, é do tipo bonitão e silencioso. Por mim tudo bem, não tenho
problema nenhum com isso.
Eu o encaro sem saber o que fazer, confusa. Definitivamente é jet lag
combinado com adrenalina. Não existe palavra que descreva meu estado
atual. É uma onda do tipo estou-em-um-país-novo-prestes-a-conhecer-meu-
pai.
Ele se movimenta ligeiramente e limpa a garganta.
— Desculpe, Sua Alteza. Precisamos ir.
Dou um sorriso.
— Como é seu nome mesmo?
— Akio. — Ele está um pouco impaciente agora. — Devo estar no dossiê
que recebeu.
— Ahhhh, é. — O dossiê. A Japan Airlines tinha as duas primeiras
temporadas de Downton Abbey, então no voo acabei optando por esse
drama histórico em vez do meu próprio histórico familiar. Hora de encarar
as consequências. — Não tive muito tempo de dar uma olhada.
Seus olhos escuros cintilam.
— Sei. Tenho certeza de que tinha assuntos mais urgentes.
Eita. Estico o pescoço para olhar para trás. De seu assento, ele tinha uma
visão perfeita do meu. Sem dúvida viu minha maratona de Downton Abbey.
Então é isso.
— Talvez seja uma boa ideia dar uma lida no dossiê agora — ele sugere,
com o nível de impaciência se elevando à décima potência.
Os outros homens de terno não são tão hostis, mas estão igualmente
sérios. Não vão me ajudar.
— Claro. Hum. Vou fazer isso. — Meu rosto está pegando fogo, e não
daquele jeito sensual dos meus romances: está mais para desconforto e
nervosismo.
Enfiei o fichário no compartimento embaixo da televisão mais cedo.
Akio observa enquanto eu me contorço toda para pegá-lo, dando um show de falta de elegância. Além disso, o couro faz um som lamentável. Posso
praticamente ouvir o descontentamento de seu coração.
Abro o fichário. A foto dele está na página cinco, seguida por seus
contatos e uma lista de suas qualificações. O guarda imperial Akio
Kobayashi vai encontrá-la em São Francisco e acompanhá-la
pessoalmente. Vinte anos. Dois dedicados à Guarda Imperial, o mais alto
dan em uma variedade de artes marciais, credenciais de especialista em tiro
e por aí vai. Tudo me leva a crer que ele poderia matar um homem com as
próprias mãos. Impressionante.
— Desculpa não ter te reconhecido — digo. Fico de pé e pego minha
mochila. — Sabe como garotas são, estranhas e tal…
Ele move dois dedos e um oficial entra em ação, se encarregando da
minha bagagem de mão.
— Não tem problema. — Eu deveria ter lido o dossiê. Não consigo nem
imaginar o que ele está pensando de mim agora. Na verdade, consigo, sim.
Provavelmente passou a viagem toda fazendo uma listinha do mal a meu
respeito. Metida. Não me reconheceu no voo. Pensou que ninguém estava
vendo quando fungou o próprio sovaco. Duas vezes. Até agora, não
mostrou nada de interessante. Essa é a tal princesa? Não recebo o
suficiente para aturar isso.
— A imprensa sabe que você está chegando hoje — Akio diz, me
conduzindo com os outros guardas para fora do avião. Ele é de poucas
palavras e passos longos. Tenho que dar dois passos a cada um dele. Já
estou sentindo uma fisgada nas costelas por tentar acompanhá-lo. Eu
deveria me exercitar mais. Só que, infelizmente, gosto mais de bolo do que
de corrida. — Eles não sabem qual é o voo, mas tenho certeza de que vão
descobrir logo. Os tabloides compraram passagens para ter acesso ao
aeroporto principal. Mas conseguimos uma saída exclusiva de funcionários.
Outros oficiais se juntam a nós. O lema da nossa caminhada é “menos
conversa, mais pressa”. Vislumbro o aeroporto, que é quase como todos os
outros: pisos limpos, brancos e reluzentes. Placas e escadas rolantes
iluminadas com cores neon. Há algumas diferenças, porém, como um hotel
anunciando cápsulas para dormir e chuveiros.
— E minha bagagem? — pergunto, sendo guiada por uma porta de metal.
— Será levada ao palácio separadamente e deve chegar antes de você —
Akio responde, sem parar de andar.
O corredor é de concreto, vazio, sem janelas e com luzes fluorescentes
piscando no teto. Passamos por portas com placas ou números. Tudo está
em japonês. Finalmente, o corredor se alarga — chegamos ao coração do
aeroporto, acho. Aqui, os corredores cheiram a molho de soja e curry e se
ramificam feito artérias.
Minha testa fica suada. Não bebi o champanhe que serviram no voo, mas
tomei três cappuccinos — principalmente porque vinham acompanhados de
uns palitos de chocolate superdeliciosos. Uma aeromoça percebeu que eu
gostei e trouxe mais uma dúzia, me conquistando completamente. O
problema é que o mergulho no paraíso da cafeína está cobrando seu preço.
Ou, em termos mais mundanos: preciso fazer xixi.
— Hum, Akio — digo, baixinho.
Ou ele não ouve ou escolhe me ignorar. Provavelmente o segundo caso.
Alguém em sua posição deve ter uma audição melhor do que a média.
— Akio — repito mais alto.
Ele continua caminhando. Hora de tomar medidas drásticas. Minha
bexiga está prestes a explodir. Não posso fazer a dancinha do xixi no
primeiro encontro com meu pai. Não vai pegar bem. Paro. Todo mundo
para. Todos os olhos se voltam para mim.
— Preciso ir ao banheiro — explico. Então acrescento: — Por favor. —
Por educação e tal.
Akio está na minha frente.
— O que disse? — Ele finge não entender, mas sua expressão grita: “Não
acredito que você pediu para ir ao banheiro. Que tipo de demônio faria
isso?”.
— Tem algum banheiro por perto? — Aperto os olhos, esperando que ele
solte chamas pelas orelhas.
Mas o garoto só me encara por mais um segundo ardente. Fico mesmo
muito ressentida pelos centímetros que ele tem a mais que eu.
— Banheiro. Você precisa de um banheiro?
Dou de ombros e ergo as mãos.
— Bebi muito cappuccino no voo.
— Não planejamos isso — ele diz com uma voz um pouco tensa.
— Um banheiro?
Ele assente uma vez.
— Tudo bem.
Ele me observa por um momento, então vocifera algo em japonês. Um
oficial verifica o celular e aponta para uma porta. Em seguida, metade dos
oficiais se dirige para lá. Vozes ficam mais altas. Pelo tom, dá para notar
que alguém não está muito feliz. Quando as coisas se acalmam, um oficial
segura a porta aberta.
Akio estende o braço.
— Banheiro.
— Obrigada.
É uma cozinha. Os funcionários, um garçom e o zelador estão em um
canto. Um murmúrio percorre o grupo quando eles me veem. O ar está pesado com o aroma quente e gorduroso de panelas wok e missô. A alguns
metros, um oficial segura a porta do banheiro para mim.
Balanço os dedos, como um pedido de desculpas aos funcionários.
Recebo uma dúzia de sorrisos complacentes em resposta.
Quando saio, o chef está tendo algum tipo de desentendimento com um
dos oficiais. Depois de muita discussão e um pedido a Akio, o chef pega
uma faca e faz movimentos tão rápidos que só se ouve um zumbido. Ele se
aproxima de mim com uma reverência me oferecendo um rabanete em
forma de crisântemo.
— Um presente — Akio explica, formal.
Aceito o mimo com um sorriso grande. Minha mão está pingando.
— Não tinha papel. Desculpe.
Akio diz algo em japonês e logo uma enxurrada de lenços balança perto
do meu rosto. Até ele pega um quadrado branco do próprio bolso. Embora
seja o mais perto, eu o ignoro. Inimigo, né?
O lenço que o zelador me oferece está limpo e com vincos, como se
tivesse sido cuidadosamente passado. Enxugo as mãos, ainda segurando o
rabanete.
— Obrigada — digo para o chef e o zelador. Então aceno para os
funcionários. — Arigatō.
Os dois fazem uma reverência e respondem:
— Dōitashimashite.
— Peço desculpas se o almoço de alguém atrasou. Você pode traduzir
isso pra mim? — pergunto para Akio.
Ele bufa.
— Precisamos ir.
Adiciono teimoso à lista de qualificações dele. Eu poderia deixar passar,
mas ser legal com os outros é importante para mim. Cruzo os braços e olho para ele. Não gosto de ficar me gabando, mas já ganhei alguns concursos de
olhar fixo.
Um segundo.
Dois segundos.
Três segundos.
Eeee… Ganhei. Akio cruza as mãos às costas, pigarreia e fala em
japonês. Não tenho como saber se sua tradução é fiel, embora Akio me
pareça honesto. Você sabe, daquele tipo eu-morreria-por-meus-princípios.
Observação: isso foi a ruína de muitos grandes homens.
Quando Akio termina, a cozinha explode em sorrisos de aprovação.
Esqueça o palácio e meu pai. Acho que vou ficar aqui mesmo.
Akio me leva de volta para o corredor de concreto, e, desta vez, eu o sigo
de boa vontade. Sua aspereza não vai mais cortar o meu barato — meus
passos e minha bexiga estão leves. A luz do dia se infiltra pelas frestas de
um conjunto de portas duplas, e dois oficiais as abrem. O ar fresco
temperado com chuva e terra molhada inunda o corredor.
Luzes piscam. Fico momentaneamente cega. Um mar de pessoas espera
por mim do lado de fora gritando meu nome. Alguns têm crachás de
imprensa e câmeras com lentes de foco longo. Agentes de segurança
vestidos de azul contêm o público. Seria menos ensurdecedor se alguém me
agarrasse pelo pescoço e gritasse no meu ouvido.
Coloco a mão no peito, o coração acelerado.
Um elegante carro preto da Rolls-Royce está parado no meio-fio, com
uma bandeirinha no capô — ela é branca, tem uma borda vermelha e um
crisântemo dourado.
Abro a boca. Congelo. Meu pai está dentro do carro. Bem ali, do outro
lado do vidro. Dou meu melhor sorriso.
Akio se vira para mim com seus olhos cor de trufa.
— A multidão era menor quando pousamos.
Decido ignorá-lo. A porta do carro abre e um oficial desce. Fico
arrepiada, mas não é meu pai. É um homem mais velho de chapéu-coco
preto e gravata azul-escura. Sua papada me lembra um basset hound triste.
Outro oficial segura um guarda-chuva preto para ele, que avança e faz
uma reverência, gritando em meio ao burburinho:
— Yōkoso, Sua Alteza. Sou o sr. Fuchigami, camarista do Palácio Leste.
Em nome de seu pai, Sua Alteza Imperial o Príncipe Herdeiro, e em nome
do Império do Japão, desejo boas-vindas. — A chuva pinga das pontas do
guarda-chuva.
Ouço o clique das câmeras. Pisco, tentando espiar dentro do Rolls-Royce.
— Meu pai não está aqui? — Que decepção.
Alguém me chama, mas mantenho o foco no sr. Fuchigami. Mais fotos.
Flashes piscam, ficando gravados nas minhas córneas. Eu me pergunto se
eles perceberam minha decepção. Talvez a manchete vire “Princesa leva
bolo do pai”.
O sorriso do sr. Fuchigami é solidário.
— O príncipe herdeiro a espera no palácio. Pensamos que seria melhor se
o encontro de vocês fosse mais reservado. — Faz sentido. Acho. Ainda
assim, meu estômago se aperta como se tivessem dado um nó. — Por favor
— ele diz, estendendo o braço e indicando o caminho que espera que eu
faça.
A presença de Akio ao meu lado é mais sombria do que as nuvens no céu
enquanto ele olha para a multidão. A guarda imperial pode relaxar agora.
Ele com certeza vai curtir o momento. Provavelmente mal pode esperar
para se ver livre e fazer algo que considera relaxante, como dar corda no
relógio ou assustar criancinhas no pátio de uma escola ou quem sabe
também (na melhor das intenções) ele pode ir pastar.
Olho para a esquerda e para a direita. A porta do carro ainda está aberta.
A chuva entra. O sr. Fuchigami está esperando. Meu pai está esperando. O
Japão está esperando. Me preparo e tento ver o lado positivo da situação.
Meu pai pode não estar aqui, mas Tóquio está. Transformo minhas emoções
no concreto sob os meus pés: duras e impenetráveis. Sou corajosa. Sou
maravilhosa. Posso fazer qualquer coisa. (Se dispor de tratamento gentil,
dez horas de sono por noite e um café da manhã rico em proteínas, claro.)
Preparar.
Apontar.
Vai.