Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 31
Uma semana inteira se passa. Sigo enfiada no meu quarto. Por um tempo,
me mantive atualizada sobre os tabloides; eles continuaram noticiando meu
caso amoroso, se banqueteando da carniça, mesmo que Akio estivesse
desaparecido, e eu, em outro continente. Até que não aguentei mais e passei
a só assistir a programas ruins, principalmente reality shows. No sétimo dia,
maratono uma série sobre um cara casado com cinco mulheres. Estou tendo
avanços significativos no quesito pena de mim mesma. É digno de prêmio.
Eu me convenço de que é uma coisa positiva. Temos que saber adaptar
nossas metas. Além disso, também não tenho tomado banho. Está fazendo
calor e não tenho ar-condicionado. Então, sim, estou na pior.
Minha mãe tem apoiado relutantemente meu novo estilo de vida eremita.
Ela traz comida e bebida e abre minhas cortinas, mesmo quando eu sibilo
para a luz do sol feito um vampiro. Jones passou aqui, trazendo uma infusão
para corações partidos e um pouco de aromaterapia — hortelã-pimenta para
melhorar meu humor e aumentar minha energia.
Noora entra no meu quarto como um furacão. Encara meus pijamas.
Escolhi um tema natalino esta manhã.
— Alguém aí esqueceu que já é tarde? — ela pergunta.
Seu cabelo está particularmente brilhante hoje. Detesto isso.
Eu a encaro com olhos moribundos, rezando pela doce libertação da
morte.
Ela fareja o ar.
— Bem, pelo menos sua caverna da vergonha está cheirando um pouco
melhor hoje. Isso é patchuli e hortelã-pimenta?
Deito de costas.
— Jones me deu umas essências.
— Você já saiu de casa?
— Minha mãe abriu a janela de manhã. — Não conto que não saí de casa
a semana inteira. Realmente não tenho motivos para sair. O mundo é um
lugar frio. A formatura é daqui a alguns dias. O chapéu e a beca estão
pendurados no armário. Suponho que eu tenha que dar as caras. Jones está
organizando um jantar de comemoração. Tenho mil por cento de certeza de
que é só para ficar perto da minha mãe. Posso decifrá-lo, até chegar a todo
aquele amor não correspondido. Pobre coitado. Sinto pena dele. De
verdade.
Na tela, as esposas lamentam serem perseguidas por conta de suas
crenças. Noora revira os olhos e desliga a televisão.
— Ei! — protesto, sem força. — Eu estava assistindo.
— Zoom. — Ela senta do meu lado na cama. — Você já está abaixo do
fundo do poço.
Viro para ela.
— Não dá. Não dá mesmo. Dói demais. — Só consigo pensar em tudo
que eu tinha. Em tudo que perdi. No quanto me machuquei. — Pensei que o
Japão era a resposta para tudo. Mas eu ainda sou eu. Nada mudou. — Fecho
os olhos com força e lágrimas escorrem pelos cantos. A grande revelação
sobre o meu coma de sete dias de reality shows é que não me sinto muito
melhor.
Ela deita ao meu lado e se aconchega. Nossos narizes quase se tocam.
— Por que isso é tão ruim? — Seus olhos escuros são poços de
preocupação.
— Você já sentiu que não pertence a lugar nenhum? Como se fosse duas
metades discordantes, vivendo em um só corpo? Não sou americana o
bastante nem japonesa o bastante. — Pensei que morar em outro país e
conhecer meu pai me tornaria completa, me mostraria um jeito de juntar
essas duas partes.
Alguns segundos se passam.
— Ah, entendi. Você está passando pelo dilema existencialista nasci-
com-uma-raça-diferente-na-América-branca.
— Tem nome pra isso?
— Claro que tem.
— E qual é a cura? — Meu coração se expande com esse último
resquício de esperança.
— Não sei se existe. Algumas coisas apenas devem ser sentidas.
— Então, não tem nenhuma solução milagrosa?
— Foi mal. Acho que não. Temos que descobrir sozinhas quem somos e
qual é o nosso lugar.
— E qual é o meu lugar?
— Bem — Noora diz. — Não tenho certeza, mas acho que você se
encaixa perfeitamente ao meu lado… e com Glory e Hansani, mas mais
comigo, porque eu sou a melhor. — Ela sorri. — Já é alguma coisa, não é?
Fungo e limpo o nariz na minha manga.
— É muita coisa.
— Volte para o mundo dos vivos — Noora pede, pegando minhas mãos.
— Se não houver uma solução, pelo menos podemos ficar juntas em nosso
estado de permanente confusão. Precisamos de você. — Ela faz uma careta. — Além disso, você precisa lavar esse lençol. Por que está tão fedido
assim?
Certo. Derramei um pouco de leite uns dias atrás. Reflito sobre o cutucão
gentil de Noora. Ela está certa. Esse fundo de quintal abandonado não sou
eu. Minha disposição natural é sempre caminhar pelo lado ensolarado da
rua. Além disso, preciso parar de assistir a reality shows. Por mim e pelo
mundo. É hora de voltar à terra dos vivos e ser um membro contribuinte, ou
pelo menos semifuncional, da sociedade.
Começamos arrumando minha cama. Pequenos passos. Noora finge que
vai vomitar quando migalhas e embalagens caem no chão. Ela também
pergunta se minha mãe tem um traje de proteção disponível. Não ligo.
Estamos colocando os lençóis na máquina de lavar quando alguém bate
na porta. Despejo uma quantidade generosa de sabão no recipiente e fecho a
tampa. Acho que isso deve resolver.
Outra batida.
— Deve ser o Jones — falo para Noora, pulando na frente dela.
Ontem, ele prometeu trazer mel fresco. Tamagotchi fica todo animado e
me segue.
Abro a porta. Meu queixo cai. Solto um pequeno suspiro.
Noora se apressa e para atrás de mim.
— Ele está aqui — ela sussurra-grita. — O George Clooney asiático. Em
carne e osso.
Estou sem palavras. Sem fôlego. Feito um peixe jogado pelas ondas na
areia. Ali, emoldurado na porta, simplesmente ali, está meu pai — o
príncipe herdeiro do Japão.