Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 3 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 2

 

Escola. Meio-dia. Terça-feira. Caminho decidida pelos corredores do

Colégio Mount Shasta. Dezoito horas se passaram desde que um livro sobre

orquídeas raras e um poema ligeiramente lascivo viraram meu mundo de

cabeça para baixo.

Foram uma noite e uma manhã difíceis. Tantas perguntas agitavam minha

cabeça: “Será que era mentira que minha mãe mal conhecia meu pai? Se sim,

por que ela fez isso? Meu pai sabia sobre mim? Então, por que não me quis?

A vida não está nada fácil”. Estou tomando cuidado para conter as

expectativas, e ao mesmo tempo evito minha mãe. Ainda bem que sou ótima

em subterfúgios. Debaixo da minha cama tem meia garrafa de licor de

pêssego e um punhado de livros românticos (duque falido mais herdeira de

classe inferior é igual a amor eterno e verdadeiro). Minha mãe não sabe nada

disso. Agir casualmente é o segredo — sou apenas uma garota cuidando da

própria vida, nada além disso.

Avisto a entrada da biblioteca. Sigo em frente, passando por um grupo de

caubóis e duas garotas chamadas Harmony. As portas duplas batem atrás de

mim.

Ah, finalmente silêncio. Quem dera fosse tão fácil assim desligar meus

pensamentos. No fundo da sala, Noora está me esperando, morrendo de ansiedade. Eu também estou por um fio. Na última hora, uma enxurrada de

mensagens foi trocada entre a GGA.

Noora

MDDC. MDDC. MDDC.

Noora

Notícia quente. Reunião de emergência da GGA na biblioteca na hora

do almoço.

Glory

A gente come lá todos os dias.

Eu

?

Noora

Não se atrasem. Vocês não vão querer perder isso.

Glory

Se for sobre o terceiro mamilo do Denny Masterson de novo…

Noora

Bem que vc queria!

Hansani

Que tal uma dica?

Eu

??

Noora

Aff. E estragar a minha grande revelação?

100 ofensa, mas vocês vão ter que esperar.

 

Puxo para baixo a cordinha do balão cheio de esperanças que infla no meu

peito. A notícia quente de Noora provavelmente nem é sobre meu suposto

pai. Ela convoca reuniões de emergência por qualquer coisa.

— Finalmente. — Noora me agarra e me puxa por entre as estantes.

Saímos no canto nordeste. Hansani, uma garota esbelta do Sri Lanka, e

Glory, uma filipina birracial com sobrancelhas que eu morreria e/ou mataria

para ter, já estão esperando na mesa de sempre. Essas meninas. Minhas

meninas. Temos a inigualável habilidade de saber exatamente o que a outra

está sentindo apenas com um olhar. Nossa conexão nasceu nos primeiros

anos do ensino fundamental, quando aprendemos que nosso maior “defeito”

era a aparência.

Para mim, foi Emily Billings. Ela me encurralou no ônibus escolar e

puxou o canto dos olhos exageradamente para cima. Eu sabia que era

diferente, mas só soube que ser diferente era ruim quando alguém me

mostrou. Dei risada como as outras crianças, claro. Afinal, o humor é sempre

a melhor defesa. Fingi que não doeu. Assim como fingi que não doeu

quando um menino perguntou se a minha família comemorava o bombardeio

em Pearl Harbor como se fosse Natal. Ou quando os outros estudantes

pediam minha ajuda com a lição de matemática. Pior para eles, porque sou

péssima com números. Ainda assim, toda vez, algo dentro de mim parece

murchar, num misto de vergonha e silêncio.

Enfim, as meninas e eu nos entendemos. Todas nós sabemos como é ter

que lidar com diferenças culturais. As pessoas questionam por que Noora

não usa hijab. Perguntam se Glory é adotada quando ela está com o pai

branco. Hansani tem que aguentar o sotaque forçado de Apu dos Simpsons

— país errado, para os desinformados. E é claro, tem o clássico: “Não, mas

de onde você é de verdade?”.

As garotas já estão comendo — pão pita e homus para Hansani, salada de

ovos para Glory. Tem uma placa PROIBIDO COMER acima da nossa mesa. Aff,

regras estão aí para serem quebradas.

Largo minha mochila e a garrafa de água na mesa e sorrio para as duas.

Noora se joga na cadeira ao meu lado e estala os dedos para Glory.

— Notebook.

Glory pisca para Noora e estreita os olhos.

— Diga “por favor” — ela pede, enquanto pega um brilhante

chromebook.

Noora a cutuca com um lápis.

— Você sabe que eu te adoro, mesmo que seu nome não combine com

você.

Isso é verdade. Embora eu nunca ouse dizer. Glory é o tipo de pessoa que

enfia o dedo na boca de alguém que está bocejando só para mostrar quem

manda. Noora, por outro lado, não tem medo de apontar isso. A relação delas

pode ser definida como de amor e ódio. As duas são tão parecidas e nem

sabem.

Glory entrega o notebook.

— Me cutuca de novo com esse lápis que eu te dou um soco na jugular.

Pelo visto hoje está mais para ódio do que amor.

— Dá pra irmos logo com isso? — eu interrompo.

Noora pega o notebook e começa a digitar.

— Sim, dá. — Ela para, entrelaça e estala os dedos. — Que rufem os

tambores, por favor!

Hansani obedece, batendo os dedos na mesa.

Glory pega uma lixa e começa a moldar as unhas em formato de garras.

Fecho os olhos. Me preparo. Permito que o balão de esperança em meu

peito suba. Que seja sobre ele. E se for, que ele não seja um serial-killer

colecionador de peles.

— Eu encontrei! Encontrei Makoto. Mak. Seu pai! — Noora grita.

Abro os olhos. Pisco. Suas palavras penetram minha pele, criam raízes,

folhas. Florescem. Tantas emoções. Principalmente, desconforto. Então

apelo para o meu forte: solto uma piada. Mudo de assunto.

— Então não é sobre o terceiro mamilo do Denny?

Noora acena, cortando meu joguinho.

— Credo, não. Isso é tão dois meses e meio atrás. Agora, antes de mostrar

o que descobri, preciso te contar uma coisa — ela hesita, séria.

Minhas orelhas ficam quentes. Hansani estica o braço na mesa e segura

minha mão. Ela tem uma espécie de sexto sentido que detecta frequências

emocionais. É seu superpoder.

Olho para Glory e Hansani. Será que elas sabem o que Noora descobriu?

As duas balançam a cabeça. É uma coisa nossa, nos comunicar sem dizer

nada. Operamos na mesma sintonia. Neste momento, nenhuma de nós sabe

de nada.

— Certo. — Respiro fundo. — Desembucha. — Se prepare para o pior.

Espere o melhor.

Noora inspira forte.

— Achei seu pai muito gato.

Hansani solta uma risadinha.

Glory revira os olhos.

Minha confiança se esvai.

— Eca — digo. — A gente nem sabe se ele é mesmo meu pai.

— Ah, ele é o seu papai, sim.

Papai. Na minha cabeça, sempre me referi a ele como pai, nunca papai.

“Pai” é o título recebido no seu nascimento, “papai” é conquistado com o

tempo — depois de joelhos ralados, noites insones e formaturas. Eu não

tenho nenhum papai. Mas posso ter um dia. E essa promessa me deixa

absolutamente ansiosa.

— Você é a cara dele. Olha só. — Noora vira o notebook para o grupo.

Imagens preenchem a tela.

Glory bate a lixa de unha na mesa.

— Filho da fruta.

Hansani assobia baixinho.

— Cala a boca.

— Conheça Makotonomiya Toshihito. Seu papaizinho, Zoom Zoom! —

Noora clica em uma foto.

É ainda mais bizarro de perto. Ele está posando na frente de um prédio de

tijolos. Harvard, suponho. É jovem. Seu sorriso é cheio de promessas e tolas

esperanças. O tipo de sorriso que se ostenta antes do mundo te dar uma

rasteira. É impossível ignorar a semelhança. É assustadora. Ali estou eu em

seus lábios grossos, em seu nariz afilado, até nos dentes separados.

Minha boca abre, fecha e abre novamente.

— Noora estava certa. Benzadeus, que pai gato — Glory diz.

Minhas amigas se cumprimentam com soquinhos. Minha pulsação está

acelerada. Digo a mim mesma que ataques cardíacos são raros aos dezoito

anos.

— Como você… — Paro. Me recomponho. Organizo as ideias. — Como

você encontrou ele?

— Harvard não tem registro de alunos disponível na internet, mas tem um

formulário de solicitações com um número de telefone. Liguei esta manhã.

Falei com uma garota superlegal chamada Olivia. Olha que curioso, ela

cresceu em Ashland. — Ashland é perto de Mount Shasta. — O santo bateu

na hora. Viramos amigas. Ela provavelmente vai batizar a primeira filha em

minha homenagem.

— Ai, vai logo pra parte que interessa — Glory reclama.

Já eu, não consigo parar de olhar para a fotografia. Para Makoto. Para o

meu pai. Para as nossas semelhanças. Temos o mesmo tipo de sobrancelha,

embora eu tente manter a minha sob controle. Toco a tela, então afasto

rapidamente os dedos. Não é hora de ficar emocionalmente apegada.

— Enfim, ela não podia me dizer muita coisa — Noora continua. — Era

meio que confidencial. Então chegamos num beco sem saída.

— Ah, meu Deus — Glory diz.

Noora franze a testa para ela.

— Daí eu pesquisei as palavras “Makoto, Mak, Harvard, 2003”. E lá

estava ele. Foi molezinha, minha cara japinha. — Noora acena na frente do

meu rosto. — Tudo bem aí?

As palavras se formam e morrem na minha garganta.

— Sim. Não. Talvez?

— Vou considerar como um sim, porque tem mais.

Mais? Como pode haver mais?

— Ouve isso.

Noora fica em silêncio por um momento. Pigarreia. Hã-hã. Sou arrastada

da tela.

— Ele é da realeza. — Pausa. Seu sorriso aumenta. — É um príncipe. —

Mais uma pausa. Seu sorriso aumenta mais ainda. — Ele é O príncipe

herdeiro do Japão, pra ser mais exata. Seu nome real é Makotonomiya

Toshihito.

Os segundos soam no relógio acima da gente. O sorriso de Noora vacila.

Eu expiro. Tenho a plena sensação de estar no fim de um túnel longo e

escuro.

— Acho que ela não está passando bem — Hansani sussurra, preocupada.

— Talvez a gente deva chamar a enfermeira.

— Não temos mais enfermeira. Corte de custos — Glory afirma.

A histeria sobe pela garganta, sem ter outro caminho senão para cima e

para fora. Solto uma risada abrupta, incontrolável. Sim, estou perdendo o

controle.

— Sério, Zoom Zoom, não tem piada nenhuma aqui — Noora diz. —

Você é a filha ilegítima de um príncipe. Você é a descendente dele.

— Filha ilegítima parece coisa de filme — Glory aponta, com a boca

cheia de salada de ovo.

O sorriso de Noora vira uma careta.

— Você não acredita em mim. Nenhuma de vocês acredita. Beleza. Aqui

está a prova. — Ela minimiza a foto e abre uma matéria de jornal.

FOFOCAS DE TÓQUIO

 

 

O maior solteirão da história do Trono do

Crisântemo não tem planos de se casar

 

23 de maio de 2018

Aos trinta e nove anos, Sua Alteza Imperial o Príncipe Herdeiro Toshihito continua sendo um solteirão convicto e diz não ter planos de se casar, conforme afirma um informante do palácio. Apesar das muitas candidatas elegíveis, o príncipe herdeiro se recusa a assumir um relacionamento. A Agência da Casa Imperial está extremamente preocupada, apesar de não admitir…

 

A matéria segue especulando sobre as possíveis noivas para o príncipe

herdeiro: uma parente real distante, a sobrinha de um oficial do Santuário

de Ise, a neta do antigo primeiro-ministro do Japão, ou a filha de um rico

empresário industrial. A reportagem inclui fotos das mulheres de braços

dados com meu pai, lindos troféus roubando os holofotes e a atenção dele,

que, por sua vez, é o completo oposto: estoico, rígido, a testa rigorosamente

franzida. Nada parecido com a foto de Harvard. A matéria também critica

as mulheres. Não era o chapéu certo para uma festa no jardim; não era a

luva apropriada para um jantar oficial; sua família não era tão rica — ou

pior, a família ficou muito rica recentemente.

Minhas amigas se aglomeram atrás de mim. Ficamos encarando a tela do

notebook.

— Ele é tipo o George Clooney asiático — Hansani diz.

— Antes de se casar com a Amal Alamuddin e ter gêmeos — Glory

completa.

Fecho a matéria e passo os próximos cinco minutos clicando em mais

fotos. Ali está ele dividindo o camarote real da Royal Opera House de

Londres com o príncipe Charles e Camilla em uma performance de La

Traviata. Em outra, ele está num brunch com o grão-duque de Luxemburgo

no Castelo de Betzdorf. Em uma terceira, está navegando pelo

Mediterrâneo com o rei da Espanha. E por aí vai: esquiando em

Liechtenstein com o príncipe Hans, participando de um jantar oficial com o

presidente Sheikh bin Zayed al Nahyan, dos Emirados Árabes Unidos… E

como se não bastasse, tem uma foto real dele com George Clooney! Fecho

o notebook com uma pancada e o empurro para longe, precisando de um

tempo.

Noora, Glory e Hansani abrem um sorriso relutante. Estão irradiando

ansiedade.

— Meu pai é o príncipe herdeiro do Japão. — Quem sabe dizer em voz

alta faça com que pareça mais real.

Não.

É difícil acreditar, mas as imagens não mentem. Eu sou a cara dele. Sua

descendente. É, esse termo ainda soa estranho.

— Benditos sonhos-de-infância-que-viram-realidade! Você é uma

princesa! — Noora exclama.

Princesa. A maioria das garotinhas sonha com isso. Eu não. Minha mãe

me criou com Legos da Ruth Bader Ginsburg e Hilary Clinton. Meu único

sonho era ter um pai, saber minhas origens e poder falar com orgulho sobre

quem eu sou.

— Se você é da realeza, então eu também tenho que ser alguma coisa —

Noora dispara. — Vou comprar aquele teste genealógico quando chegar em casa. Espero que saia lá que eu sou cinquenta por cento Targaryen, trinta

por cento da realeza britânica e cem por cento irmã perdida da Oprah.

— Acho que não é bem assim que funciona — Hansani diz. Diante da

cara feia de Noora, ela ergue as mãos. — Só tô dizendo!

Noora não dá bola e vira para mim.

— Isso é a coisa mais legal que já me aconteceu. Minha melhor amiga é

da realeza! — Ela coloca a mão no queixo e pisca para mim. — Eu vou

superpegar carona na sua.

Minha cabeça está girando. Isso é muito mais do que eu jamais poderia

querer. Mais do que eu jamais poderia sonhar. Esperei dezoito anos por isso.

E mesmo assim… tem alguma coisa entalada na minha garganta. Algo

desagradável, inevitável.

— Minha vida toda é uma mentira. Por que minha mãe esconderia isso

de mim?

Glory estala os dedos.

— Essa é a pergunta que vale um milhão de dólares, amiga.