Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 18
Acordo com alguém me sacudindo com mãos pequenas mas fortes. Que
merda é essa? Minhas pálpebras remelentas abrem.
— Izumi-sama — Mariko diz. — Você precisa levantar agora.
Sento, com os olhos molhados. Que droga, parece que fui atropelada por
um caminhão. Nada como chorar até dormir.
— O que…
— O príncipe herdeiro está te esperando. — Mariko está muito aflita.
Perambula pelo quarto, agitada, com os braços cheios de roupas e
chinelos. Jogo as pernas para fora da cama.
Ela me veste em menos de quinze minutos. Não consigo ajudar muito.
Meus braços e pernas estão rígidos, como se eu fosse uma boneca de
madeira.
— Você nem lavou o rosto? — Ela estala a língua, me censurando.
Começa a limpar minhas bochechas com uma toalha fria. Apesar de seus
movimentos serem gentis, eles me despertam como um tapa na cara. Depois
de um pouco de maquiagem e uma escovada no cabelo, ela me empurra
para fora do quarto.
O corredor parece mais claro que o normal, mas pode ser por causa da
minha ressaca de choro. Lágrimas são mesmo uma merda. O sr. Fuchigami
e um bando completo de camaristas estão reunidos do lado de fora do escritório do meu pai. Criados e motoristas também estão à espreita,
carregando bagagens com o monograma imperial para um carro.
— Bom dia — digo com cuidado.
— Sua Alteza. O príncipe herdeiro está no escritório — o sr. Fuchigami
responde, solene.
Engulo em seco e assinto. Posso ouvir meu coração batendo acelerado
quando bato na porta e deslizo para dentro.
Meu pai suspira ao me ver.
— Izumi, entre, por favor. Sente-se.
Caminho arrastando os pés e desabo em uma cadeira, com um baque
suave. Meu pai está sentado em sua escrivaninha, de terno e gravata,
impecável, embora pareça um pouco cansado. Pelo visto, ambos tivemos
uma noite difícil. Minha cabeça está latejando e tenho quase certeza de que
meu rosto ainda está inchado. Não tive coragem de me olhar no espelho.
— Parece que fui chamada à sala do diretor. — Junto as mãos à minha
frente. — Se é por conta do casamento do primeiro-ministro…
— Precisamos conversar… — Falamos ao mesmo tempo. Paramos. Nos
encaramos.
— Você primeiro — meu pai diz, abrindo as mãos.
Cravo as unhas nas palmas. Tento olhar para o meu pai, mas meu rosto se
recusa, preferindo ficar voltado para baixo.
— O casamento do primeiro-ministro… Me desculpa. — Minhas
bochechas esquentam conforme lembro do que aconteceu, das Gêmeas
Iluminadas rindo de mim, de como envergonhei meu pai, do doloroso fora
de Akio.
Meu pai não diz nada. Me obrigo a levantar o rosto e me arrependo. Seus
lábios estão contraídos. Ele tamborila em sua escrivaninha envernizada.
— Felizmente, a imprensa não foi autorizada a participar do evento. Não
consigo nem imaginar quais seriam as consequências se isso saísse nos
jornais. Imagens de você fugindo do casamento estariam em todas as capas.
As especulações… se eles descobrissem que você ofendeu o primeiro-
ministro… — Ele balança a cabeça. — Teria sido desastroso.
— Desculpa — repito. Será que existe uma palavra para “mais fundo do
que o fundo do poço”? — É que Akiko e Noriko disseram que você não
tinha citado a irmã do primeiro-ministro no seu discurso, daí pensei que
talvez eu devesse mencioná-la… só estava tentando ajudar — concluo,
baixinho.
Ele balança a cabeça.
— A contenda foi pública e muito feia. Tenho certeza de que você
entendeu mal o que elas disseram.
— Mas… — digo, perplexa.
Ele se recosta na cadeira, sinalizando que a conversa terminou.
— Não importa como aconteceu. Como membros da família imperial, é
esperado que sejamos irrepreensíveis.
— Entendo — falo, calmamente, apesar de não estar nem um pouco
calma.
Pedi desculpas e tentei me explicar. Será que tive mesmo alguma chance
neste mundo? Eu não sabia de nada, e mesmo assim estou sendo culpada.
Ele esfrega o rosto, aparentemente sem palavras.
Cabeças passam pela janela; manobristas carregam malas. Espio pelo
vidro.
— Alguém está indo viajar?
Ele se empertiga.
— Sim. — Ainda está abatido. Nós estamos abatidos. — Eu estou de
partida.
— Você está de partida? — Ah. Uau. Um minutinho para eu juntar os
cacos do meu coração. — Quando? Para onde vai?
— Era para eu ter partido esta manhã, mas adiei para falar com você.
Essa viagem não estava programada. O imperador, meu pai, não está se
sentindo muito bem. — Ante meu olhar preocupado, ele acena com a mão.
— Não é nada grave. Acredito que só esteja cansado, por viajar demais.
Pediram que eu fosse substituí-lo.
Balanço a cabeça, entorpecida.
— Como… Quanto tempo você vai ficar fora?
Ele suspira.
— Dezesseis dias.
Essa conta é fácil. Vou embora em alguns dias. Abro as mãos.
— Acho que isto é uma despedida então. — Começo a levantar.
— Izumi. Espere. Pare.
Afundo de volta na cadeira e ergo a cabeça.
— Estou fazendo tudo errado. — Ele pega uma caneta de prata pesada e
brinca com ela. — Não quero que isto seja uma despedida. — Ele limpa a
garganta. Fico imóvel. — Me pergunto se não poderíamos estender nosso
tempo juntos. — Seus olhos encontram os meus. — Gostaria que você
ficasse.
Contenho um suspiro. Não estou sendo chutada para fora? Essa decisão é
inesperada… e nada fácil para mim. Eu e as meninas tínhamos grandes
planos para essa primavera, como tomar café da manhã no Black Bear
Diner e nadar feito ursos polares no Castle Lake, antes de seguirmos
direções diferentes: Glory vai para a Universidade de Oregon, Hansani,
para Berkeley, e Noora para a longínqua Columbia. Eu pretendia ficar perto
da minha mãe, na Faculdade de Siskiyous. Só nos restam poucos meses
juntas, depois de uma vida inteira lado a lado.
Faço uma careta.
— Não posso perder a formatura. Você poderia ir me visitar, que tal? —
solto.
Não sei o que minha mãe acharia disso. Talvez fique surpresa. Todo
mundo gosta de surpresas, não é?
Ele abaixa a cabeça.
— Preciso conferir minha agenda.
— Claro — digo, apressada. — Se tiver tempo — adiciono, soando
arrogante.
— Vou falar com minha secretária. — Ele espera um pouco, então bate a
caneta na mesa. — Você não respondeu minha pergunta. Ficará aqui?
— Não sei. — Hesito, ainda abalada com os acontecimentos das últimas
vinte e quatro horas. Tem sido uma montanha-russa. Será que continuo no
carrinho, sem saber onde vou parar? Neste momento, só estou tentando
recuperar o fôlego.
Ele me olha atentamente.
— Izumi-chan, posso perguntar por que veio ao Japão?
Entrelaço os dedos e fico olhando para a espada de samurai atrás de sua
escrivaninha. A lâmina está reluzindo. Consigo ver parte do meu reflexo, a
suave elevação dos meus olhos. Há um dragão enrolado no cabo. A
princípio, pensei que eu tinha vindo aqui para conhecer meu pai. Só que foi
mais que isso.
— Queria descobrir quem eu sou, de onde venho. — Encontrar meu
lugar.
— Sua história é importante — ele diz. Depois reflete por um momento,
e conclui: — Fique. O sr. Fuchigami sugeriu Kyoto, e acho que é uma ótima
ideia. Você vai poder conhecer o interior e continuar com as suas aulas. Quando eu voltar, vamos ao aniversário do imperador juntos. É feriado
nacional e um grande evento. Você poderia conhecer seus avós.
Fico girando os polegares, seduzida com as promessas, mas ainda estou
chateada. Não posso evitar que o sr. Fuchigami e meu pai façam planos para
mim pelas minhas costas. De repente, entendo a vontade de Yoshi de se
distanciar da família imperial. É difícil não se sentir como um peão em um
tabuleiro de xadrez. Assistentes ditam seus passos. Homens decidem o que
é melhor para você.
— Preciso falar com a minha mãe.
Pondero sobre Kyoto, uma parte do país que eu não conheci ainda. Sei
que minha busca não acabou. Essa é uma oportunidade importante demais
para deixar escapar só porque estou brava. Sabe, dizem que não é bom
tomar decisões com raiva e tal.
— Certo — ele fala devagar.
Claramente estava esperando que eu ficasse mais animada. Acho que não
tem muita experiência com adolescentes. Tudo o que posso dizer é: “Bem-
vindo à selva, cara”.
— Isso é tudo? — Fico de pé.
— Sim. — Ele também levanta. — Vou para o aeroporto em… — Ele
verifica as horas. — Uma hora.
— Te aviso sobre a minha decisão.
Nos encaramos.
— Tudo bem.
— Então tudo bem — imito-o.
Vou até a porta com a postura ereta, implacável.
De volta ao meu quarto, um café da manhã completo foi servido ao lado
das janelas que vão do chão ao teto. Pego meu celular e sento em uma mesa antiquada. Ligo para minha mãe e espio o que há sob o domo de prata —
um lombo de carne Wagyu com ovos mexidos, trufa preta e cebolinha. Deve
estar uma delícia, mas não sei onde foi parar meu apetite.
— Zoom Zoom! — Ela atende no primeiro toque. Sua voz soa alegre.
— Mãe — digo.
— Ah, não. O que aconteceu?
Só pelo meu tom de voz ela sabe que tem algo errado. Cara, que saudade
dela.
— Meu pai pediu para eu ficar mais tempo no Japão e quer que eu vá
para Kyoto — conto de uma vez.
Do lado de fora, um grou mergulha no ar e pousa na água. Não faço
questão nenhuma de procurar Akio.
— Mãe? Está aí?
— Estou. — Ela está desconfortável. — Só precisava de um minuto. Seu
pai quer que você fique?
— Sim. — Meu estômago se agita.
— Sei. Bem… e o que você quer?
— Acho que quero ficar? — Será que devo contar sobre o casamento?
Sobre meu pai? Sobre nosso desentendimento? A desastrosa história já está
na ponta da língua, mas então imagino sua reação, sua preocupação. Seria
muito difícil para ela saber que estou sofrendo a um oceano de distância.
— Eu ficaria mais tranquila se você não tivesse falado em tom de
pergunta.
Passo o dedo pelo vidro, seguindo o pescoço do grou. “Por que veio ao
Japão?”, meu pai perguntou.
— Quero ficar. Sei que vou acabar perdendo mais aulas, mas não tive
tempo suficiente aqui ainda. — Paro. Espero um pouco. Me recomponho.
Posso ouvir a respiração dela. Queria poder vê-la. Mapear sua expressão.
Ela funga.
— Ah, meu Deus. Você está chorando? Se quiser que eu volte, eu volto.
Por que está chorando? É por causa da escola? Acha que vou perder a
formatura? Prometo que volto até lá. Não chora. Por favor, não chora.
— Ah, não é nada disso. — Ouço um barulho, e então uma assoada de
nariz discreta. — Não estou pensando nas aulas nem na sua formatura,
embora eu fosse amar te ver de beca. Só quero que você seja feliz. — Ela
suspira. — Acho que só estou tendo dificuldade de dividir você. Não estou
conseguindo desapegar. Essa coisa de maternidade é difícil, sabe?
Não faço a menor ideia, mas posso imaginar.
— Sei.
Mais uma fungada.
— Estou sendo boba. Vá para Kyoto.
— Tem certeza?
— Tenho. Você tem a minha bênção.
Suspiro de alívio.
— Obrigada.
— Sem problemas. — Sua voz está mais leve agora. — Olha, eu quero
encorajá-la a ser independente, mas talvez você pudesse ligar com mais
frequência, que tal?
— Pode deixar. Vou ligar. — De repente, estou faminta. Pego o pesado
garfo de prata, experimento o ovo e olho para o grou. Ele levanta uma
perna, dá um passo lento e comprido e depois sai da água. — Sabe, essa
coisa dos filhos evitarem os pais é diretamente proporcional à segurança
que eles sentem na relação.
— Então fiz um bom trabalho?
— Com certeza. O melhor. — Lambo o garfo, me sentindo mais calma,
mais confiante.
Meu destino está definido. Sei para onde estou indo, pelo menos por ora.
Recosto na cadeira e fico olhando o grou dar mais uma volta e depois
desaparecer entre as árvores.