Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 19 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 18

 

Acordo com alguém me sacudindo com mãos pequenas mas fortes. Que

merda é essa? Minhas pálpebras remelentas abrem.

— Izumi-sama — Mariko diz. — Você precisa levantar agora.

Sento, com os olhos molhados. Que droga, parece que fui atropelada por

um caminhão. Nada como chorar até dormir.

— O que…

— O príncipe herdeiro está te esperando. — Mariko está muito aflita.

Perambula pelo quarto, agitada, com os braços cheios de roupas e

chinelos. Jogo as pernas para fora da cama.

Ela me veste em menos de quinze minutos. Não consigo ajudar muito.

Meus braços e pernas estão rígidos, como se eu fosse uma boneca de

madeira.

— Você nem lavou o rosto? — Ela estala a língua, me censurando.

Começa a limpar minhas bochechas com uma toalha fria. Apesar de seus

movimentos serem gentis, eles me despertam como um tapa na cara. Depois

de um pouco de maquiagem e uma escovada no cabelo, ela me empurra

para fora do quarto.

O corredor parece mais claro que o normal, mas pode ser por causa da

minha ressaca de choro. Lágrimas são mesmo uma merda. O sr. Fuchigami

e um bando completo de camaristas estão reunidos do lado de fora do escritório do meu pai. Criados e motoristas também estão à espreita,

carregando bagagens com o monograma imperial para um carro.

— Bom dia — digo com cuidado.

— Sua Alteza. O príncipe herdeiro está no escritório — o sr. Fuchigami

responde, solene.

Engulo em seco e assinto. Posso ouvir meu coração batendo acelerado

quando bato na porta e deslizo para dentro.

Meu pai suspira ao me ver.

— Izumi, entre, por favor. Sente-se.

Caminho arrastando os pés e desabo em uma cadeira, com um baque

suave. Meu pai está sentado em sua escrivaninha, de terno e gravata,

impecável, embora pareça um pouco cansado. Pelo visto, ambos tivemos

uma noite difícil. Minha cabeça está latejando e tenho quase certeza de que

meu rosto ainda está inchado. Não tive coragem de me olhar no espelho.

— Parece que fui chamada à sala do diretor. — Junto as mãos à minha

frente. — Se é por conta do casamento do primeiro-ministro…

— Precisamos conversar… — Falamos ao mesmo tempo. Paramos. Nos

encaramos.

— Você primeiro — meu pai diz, abrindo as mãos.

Cravo as unhas nas palmas. Tento olhar para o meu pai, mas meu rosto se

recusa, preferindo ficar voltado para baixo.

— O casamento do primeiro-ministro… Me desculpa. — Minhas

bochechas esquentam conforme lembro do que aconteceu, das Gêmeas

Iluminadas rindo de mim, de como envergonhei meu pai, do doloroso fora

de Akio.

Meu pai não diz nada. Me obrigo a levantar o rosto e me arrependo. Seus

lábios estão contraídos. Ele tamborila em sua escrivaninha envernizada.

— Felizmente, a imprensa não foi autorizada a participar do evento. Não

consigo nem imaginar quais seriam as consequências se isso saísse nos

jornais. Imagens de você fugindo do casamento estariam em todas as capas.

As especulações… se eles descobrissem que você ofendeu o primeiro-

ministro… — Ele balança a cabeça. — Teria sido desastroso.

— Desculpa — repito. Será que existe uma palavra para “mais fundo do

que o fundo do poço”? — É que Akiko e Noriko disseram que você não

tinha citado a irmã do primeiro-ministro no seu discurso, daí pensei que

talvez eu devesse mencioná-la… só estava tentando ajudar — concluo,

baixinho.

Ele balança a cabeça.

— A contenda foi pública e muito feia. Tenho certeza de que você

entendeu mal o que elas disseram.

— Mas… — digo, perplexa.

Ele se recosta na cadeira, sinalizando que a conversa terminou.

— Não importa como aconteceu. Como membros da família imperial, é

esperado que sejamos irrepreensíveis.

— Entendo — falo, calmamente, apesar de não estar nem um pouco

calma.

Pedi desculpas e tentei me explicar. Será que tive mesmo alguma chance

neste mundo? Eu não sabia de nada, e mesmo assim estou sendo culpada.

Ele esfrega o rosto, aparentemente sem palavras.

Cabeças passam pela janela; manobristas carregam malas. Espio pelo

vidro.

— Alguém está indo viajar?

Ele se empertiga.

— Sim. — Ainda está abatido. Nós estamos abatidos. — Eu estou de

partida.

— Você está de partida? — Ah. Uau. Um minutinho para eu juntar os

cacos do meu coração. — Quando? Para onde vai?

— Era para eu ter partido esta manhã, mas adiei para falar com você.

Essa viagem não estava programada. O imperador, meu pai, não está se

sentindo muito bem. — Ante meu olhar preocupado, ele acena com a mão.

— Não é nada grave. Acredito que só esteja cansado, por viajar demais.

Pediram que eu fosse substituí-lo.

Balanço a cabeça, entorpecida.

— Como… Quanto tempo você vai ficar fora?

Ele suspira.

— Dezesseis dias.

Essa conta é fácil. Vou embora em alguns dias. Abro as mãos.

— Acho que isto é uma despedida então. — Começo a levantar.

— Izumi. Espere. Pare.

Afundo de volta na cadeira e ergo a cabeça.

— Estou fazendo tudo errado. — Ele pega uma caneta de prata pesada e

brinca com ela. — Não quero que isto seja uma despedida. — Ele limpa a

garganta. Fico imóvel. — Me pergunto se não poderíamos estender nosso

tempo juntos. — Seus olhos encontram os meus. — Gostaria que você

ficasse.

Contenho um suspiro. Não estou sendo chutada para fora? Essa decisão é

inesperada… e nada fácil para mim. Eu e as meninas tínhamos grandes

planos para essa primavera, como tomar café da manhã no Black Bear

Diner e nadar feito ursos polares no Castle Lake, antes de seguirmos

direções diferentes: Glory vai para a Universidade de Oregon, Hansani,

para Berkeley, e Noora para a longínqua Columbia. Eu pretendia ficar perto

da minha mãe, na Faculdade de Siskiyous. Só nos restam poucos meses

juntas, depois de uma vida inteira lado a lado.

Faço uma careta.

— Não posso perder a formatura. Você poderia ir me visitar, que tal? —

solto.

Não sei o que minha mãe acharia disso. Talvez fique surpresa. Todo

mundo gosta de surpresas, não é?

Ele abaixa a cabeça.

— Preciso conferir minha agenda.

— Claro — digo, apressada. — Se tiver tempo — adiciono, soando

arrogante.

— Vou falar com minha secretária. — Ele espera um pouco, então bate a

caneta na mesa. — Você não respondeu minha pergunta. Ficará aqui?

— Não sei. — Hesito, ainda abalada com os acontecimentos das últimas

vinte e quatro horas. Tem sido uma montanha-russa. Será que continuo no

carrinho, sem saber onde vou parar? Neste momento, só estou tentando

recuperar o fôlego.

Ele me olha atentamente.

— Izumi-chan, posso perguntar por que veio ao Japão?

Entrelaço os dedos e fico olhando para a espada de samurai atrás de sua

escrivaninha. A lâmina está reluzindo. Consigo ver parte do meu reflexo, a

suave elevação dos meus olhos. Há um dragão enrolado no cabo. A

princípio, pensei que eu tinha vindo aqui para conhecer meu pai. Só que foi

mais que isso.

— Queria descobrir quem eu sou, de onde venho. — Encontrar meu

lugar.

— Sua história é importante — ele diz. Depois reflete por um momento,

e conclui: — Fique. O sr. Fuchigami sugeriu Kyoto, e acho que é uma ótima

ideia. Você vai poder conhecer o interior e continuar com as suas aulas. Quando eu voltar, vamos ao aniversário do imperador juntos. É feriado

nacional e um grande evento. Você poderia conhecer seus avós.

Fico girando os polegares, seduzida com as promessas, mas ainda estou

chateada. Não posso evitar que o sr. Fuchigami e meu pai façam planos para

mim pelas minhas costas. De repente, entendo a vontade de Yoshi de se

distanciar da família imperial. É difícil não se sentir como um peão em um

tabuleiro de xadrez. Assistentes ditam seus passos. Homens decidem o que

é melhor para você.

— Preciso falar com a minha mãe.

Pondero sobre Kyoto, uma parte do país que eu não conheci ainda. Sei

que minha busca não acabou. Essa é uma oportunidade importante demais

para deixar escapar só porque estou brava. Sabe, dizem que não é bom

tomar decisões com raiva e tal.

— Certo — ele fala devagar.

Claramente estava esperando que eu ficasse mais animada. Acho que não

tem muita experiência com adolescentes. Tudo o que posso dizer é: “Bem-

vindo à selva, cara”.

— Isso é tudo? — Fico de pé.

— Sim. — Ele também levanta. — Vou para o aeroporto em… — Ele

verifica as horas. — Uma hora.

— Te aviso sobre a minha decisão.

Nos encaramos.

— Tudo bem.

— Então tudo bem — imito-o.

Vou até a porta com a postura ereta, implacável.

 

De volta ao meu quarto, um café da manhã completo foi servido ao lado

das janelas que vão do chão ao teto. Pego meu celular e sento em uma mesa antiquada. Ligo para minha mãe e espio o que há sob o domo de prata —

um lombo de carne Wagyu com ovos mexidos, trufa preta e cebolinha. Deve

estar uma delícia, mas não sei onde foi parar meu apetite.

— Zoom Zoom! — Ela atende no primeiro toque. Sua voz soa alegre.

— Mãe — digo.

— Ah, não. O que aconteceu?

Só pelo meu tom de voz ela sabe que tem algo errado. Cara, que saudade

dela.

— Meu pai pediu para eu ficar mais tempo no Japão e quer que eu vá

para Kyoto — conto de uma vez.

Do lado de fora, um grou mergulha no ar e pousa na água. Não faço

questão nenhuma de procurar Akio.

— Mãe? Está aí?

— Estou. — Ela está desconfortável. — Só precisava de um minuto. Seu

pai quer que você fique?

— Sim. — Meu estômago se agita.

— Sei. Bem… e o que você quer?

— Acho que quero ficar? — Será que devo contar sobre o casamento?

Sobre meu pai? Sobre nosso desentendimento? A desastrosa história já está

na ponta da língua, mas então imagino sua reação, sua preocupação. Seria

muito difícil para ela saber que estou sofrendo a um oceano de distância.

— Eu ficaria mais tranquila se você não tivesse falado em tom de

pergunta.

Passo o dedo pelo vidro, seguindo o pescoço do grou. “Por que veio ao

Japão?”, meu pai perguntou.

— Quero ficar. Sei que vou acabar perdendo mais aulas, mas não tive

tempo suficiente aqui ainda. — Paro. Espero um pouco. Me recomponho.

Posso ouvir a respiração dela. Queria poder vê-la. Mapear sua expressão.

Ela funga.

— Ah, meu Deus. Você está chorando? Se quiser que eu volte, eu volto.

Por que está chorando? É por causa da escola? Acha que vou perder a

formatura? Prometo que volto até lá. Não chora. Por favor, não chora.

— Ah, não é nada disso. — Ouço um barulho, e então uma assoada de

nariz discreta. — Não estou pensando nas aulas nem na sua formatura,

embora eu fosse amar te ver de beca. Só quero que você seja feliz. — Ela

suspira. — Acho que só estou tendo dificuldade de dividir você. Não estou

conseguindo desapegar. Essa coisa de maternidade é difícil, sabe?

Não faço a menor ideia, mas posso imaginar.

— Sei.

Mais uma fungada.

— Estou sendo boba. Vá para Kyoto.

— Tem certeza?

— Tenho. Você tem a minha bênção.

Suspiro de alívio.

— Obrigada.

— Sem problemas. — Sua voz está mais leve agora. — Olha, eu quero

encorajá-la a ser independente, mas talvez você pudesse ligar com mais

frequência, que tal?

— Pode deixar. Vou ligar. — De repente, estou faminta. Pego o pesado

garfo de prata, experimento o ovo e olho para o grou. Ele levanta uma

perna, dá um passo lento e comprido e depois sai da água. — Sabe, essa

coisa dos filhos evitarem os pais é diretamente proporcional à segurança

que eles sentem na relação.

— Então fiz um bom trabalho?

— Com certeza. O melhor. — Lambo o garfo, me sentindo mais calma,

mais confiante.

Meu destino está definido. Sei para onde estou indo, pelo menos por ora.

Recosto na cadeira e fico olhando o grou dar mais uma volta e depois

desaparecer entre as árvores.