Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 1
É dever sagrado de uma melhor amiga nos convencer a fazer coisas que não
deveríamos.
— Você nunca vai terminar. Você tentou. Tentou mesmo — Noora, a
melhor amiga supracitada, diz. — Deu o seu melhor.
Meu melhor foi escrever em cinco minutos uma redação sobre o
crescimento pessoal retratado em As aventuras de Huckleberry Finn, de
Mark Twain. Era para a Noora estar me ajudando. Eu a chamei para me dar
apoio moral.
— É melhor a gente desencanar de vez e seguir em frente. — Ela se joga
na minha cama, com os braços tapando os olhos, como se estivesse
literalmente desmaiando. Tão dramática.
A sugestão é tentadora. Tive quatro semanas para fazer o trabalho. Hoje é
segunda. O prazo é terça. Não sou tão boa em matemática assim para
calcular a probabilidade estimada de terminar a tempo, mas aposto que é
baixa. Olá, consequência das minhas próprias ações. Você por aqui de novo,
velha amiga.
Noora ergue a cabeça do meu travesseiro.
— Meu Deus, seu cachorro fede.
Abraço Tamagotchi.
— Não é culpa dele.
Meu terrier vira-lata tem uma condição glandular rara sem cura nem
tratamento. Ele também tem uma carinha-tão-feia-mas-tão-fofa e uma
obsessão nojenta pelas próprias patas. Está sempre chupando os dedos.
Tenho certeza de que fui colocada neste planeta para amar esse canino.
— Não posso desencanar do trabalho. Preciso dele pra passar nessa
matéria — digo, surpreendendo a mim mesma.
Raramente sou a voz da razão. Confesso: não existe voz da razão nessa
amizade. Nossas conversas normalmente seguem a seguinte dinâmica:
Noora: *ideia ruim*
Eu: *hesito*
Noora: *cara de decepção*
Eu: *ideia pior ainda*
Noora: *cara animada*
Basicamente, ela me provoca e eu dobro a aposta. Ela é o Timberlake da
minha Biel, o Edward da minha Bella, o Pauly D do meu Jersey Shore.
Minha irmã de outra vida. Minha parceira de crime. Tem sido assim desde o
segundo ano, quando ficamos amigas por conta da cor da nossa pele — um
tom mais escuro do que o das crianças brancas de Mount Shasta, na
Califórnia — e da nossa inabilidade em seguir instruções simples.
“Desenhar uma flor?” Pff. Por que não um oceano inteiro com estrelas-do-
mar criminosas e um golfinho detetive que faz o tipo eu-não-sigo-as-regras?
Juntas, somos metade da Gangue das Garotas Asiáticas — GGA. No
entanto, estamos mais pra Supergatas do que para crime organizado.
Hansani e Glory são a outra metade. A anuidade do nosso grupo é restritiva
e paga com certo crédito em ancestralidade asiática. Significado: somos
pan-asiáticas. Em uma cidade caracterizada por tie-dyes e bandeiras
confederadas, não podemos nos dar ao luxo de discriminar.
Noora me encara.
— É hora de desistir. Se adaptar. Superar. Ficar em paz com o seu
fracasso. Vamos ao Emporium. Será que aquele gato ainda trabalha no
balcão? Lembra quando a Glory ficou toda nervosa e pediu “picalé” de
chocolate? Vamos, Zoom Zoom — ela insiste.
— Queria que você nunca tivesse ouvido minha mãe me chamando
assim.
Eu me mexo e Tamagotchi escapa dos meus braços. Não é nenhum
segredo: eu o amo mais do que ele me ama. Ele dá uma voltinha e deita,
enfiando o focinho no bumbum. Tão. Fofo.
Noora dá de ombros.
— Mas eu ouvi, e achei ótimo. Agora não consigo não usar.
— Prefiro Izzy.
— Você prefere Izumi.
Correto. Só que, lá pelo terceiro ano, já tinha ouvido essas três sílabas
serem tão massacradas que quis simplificar meu nome. É mais fácil assim.
— Se pessoas brancas conseguem aprender Klingon, também podem
aprender a pronunciar o seu nome.
Contra fatos não há argumentos.
— Verdade — admito.
Minha melhor amiga tamborila na própria barriga, um sinal claro de
tédio. Senta com um sorriso felino — misterioso, orgulhoso. Mais um
motivo para eu gostar mais de cachorros. Nunca confie em um gato, eles
vão comer a sua cara se você morrer. (Não tenho provas disso. Apenas um
forte pressentimento.)
— Esquece o Emporium, então. Estou me sentindo feia e sem graça.
Agora estou rindo. Já tivemos essa conversa antes. Fico feliz por saber o
que fazer.
— Talvez a gente devesse só se arrumar e tentar de novo — sugiro, muito
prestativa.
Tamagotchi ergue as orelhas.
Noora assente sabiamente.
— Grandes mentes pensam igual.
Ela me lança outro sorriso e sai correndo em direção ao banheiro da
minha mãe, também conhecido como a Beverly Hills dos cosméticos. É
difícil pensar nos itens naquela bancada lascada de vinil e não salivar —
estojos brilhantes de paletas de sombras Chanel, máscaras de dormir com
caviar La Prairie, delineadores Yves Saint Laurent Couture. Ah, e produtos
coreanos para a pele, alguém quer? Sim, por favor. Cada pequena
indulgência decadente contém uma promessa de um futuro melhor. Tipo, as
coisas estão muito ruins agora, mas tenho certeza absoluta de que esse
bronzer Golden Goddess vai resolver tudo.
A ironia é que essa coisa de maquiagem cara é o total oposto da
praticidade comedida da minha mãe. Ela dirige um Prius, faz um nível
muito acima da média de reciclagem (às vezes acho que me teve só para
conseguir ajuda para remexer a pilha de compostagem) e reutiliza meias-
calças. Tem pedacinhos de sabonete sobrando aí? Jogue em uma meia velha
e esprema até extrair o último resquício de espuma deles. Quando aponto
essa hipocrisia, ela assume um ar indiferente. “Não importa”, ela diz. “É
tudo parte da minha mística feminina.” Eu não discordo. Nós, mulheres,
somos múltiplas. A verdade é que os brilhos labiais e iluminadores são o
prazer secreto da minha mãe. E o meu e de Noora é simplesmente pintar a
cara enquanto ela está dando aula na faculdade comunitária do bairro.
Encontro Noora passando um gloss da Dior e espiando pela persiana.
— Jones está no seu quintal de novo.
Atravesso o tapete e me junto a Noora na janela. Sim, é ele. Nosso
vizinho está com um chapéu molenga cor-de-rosa, camiseta branca, Crocs
amarelas e um sarongue tão colorido que chega a ser ofensivo — quero
dizer, quem inventou uma coisa tão profana?
Ele está levando dois frascos de um líquido escuro para a varanda dos
fundos. Deve ser kombucha. O barbudo tem uma queda pela minha mãe,
fabrica seu próprio chá, cria abelhas e sua camiseta favorita diz: O amor
não vê cor. O que é mentira, óbvio. O amor definitivamente vê cor.
Exemplo: quando tomei coragem para dizer que gostava de um garoto do
sétimo ano, ele respondeu: “Desculpa, mas não acho meninas asiáticas
bonitas”. Desde então, minha vida amorosa tem seguido o mesmo caminho
amaldiçoado. Meu último relacionamento foi um desastre. Ele se chamava
Forest e me traiu durante o baile da escola. Nós concordamos em terminar.
Esfrego a lateral da barriga, onde de repente sinto uma dor aguda —
provavelmente gases, nada a ver com a lembrança.
— É meio esquisito que ele traga coisas pra sua mãe o tempo todo. É tipo
quando gatos selvagens deixam ratos mortos na sua porta. — Noora retoca
o gloss e pressiona os lábios.
O vermelho intenso combina com a personalidade dela. Sutileza não faz
parte do seu vocabulário.
Cruzo os braços.
— Duas semanas atrás, ele trouxe um livro cheio de flores secas.
Minha mãe pode ser professora de biologia, mas botânica é a sua paixão.
O que falta em estilo, Jones compensa no flerte. Isso eu devo admitir.
Noora sai da janela e joga o gloss na colcha de brechó na cama. Minha
mãe é fã de coisas velhas.
— Esse é o livro que ele fez pra ela? Orquídeas raras da América do
Norte?
Agora ela está na mesinha de cabeceira, mexendo nas coisas da minha
mãe. Tão bisbilhoteira.
— Não. Esse é outro.
Nunca prestei muita atenção nesse livro. Porque, né, orquídeas raras e tal.
— A-há. O que é isso? — Noora bate o dedo na folha de rosto e começa
a ler. — “Minha adorada Hanako”…
Levo um momento para entender. Adorada? Hanako? Arranco o livro das
mãos dela.
— Ladra — ela murmura, pousando o queixo no meu ombro.
A caligrafia é elegante e inclinada, e o lápis está quase apagado.
Minha adorada Hanako,
Por favor, deixe que as palavras digam o que eu não consigo dizer:
Queria estar tão perto
De você quanto a saia molhada
De uma garota na chuva.
Penso sempre em você.
— Yamabe no Akahito
Com amor,
Makoto “Mak”
2003
Noora assobia baixo.
— Parece que Jones não é o único admirador não-tão-secreto da sua mãe.
Sento na cama.
— Minha mãe nunca mencionou nenhum Makoto.
Não sei lidar com essa informação. É estranho pensar na vida dos seus
pais antes de você existir. Pode me chamar de narcisista, mas é prerrogativa
dos adolescentes acreditar que tudo começa no momento em que nascemos.
Tipo: Izzy chegou. Terra, já pode começar a girar. Não sei, talvez seja coisa
de filha única. Ou talvez minha mãe tenha me amado tanto que me deixou
assim.
Ainda estou processando tudo quando Noora diz, com cuidado:
— Mas então. Você nasceu em 2003.
— É. — Engulo em seco, olhando para a página.
Nossos pensamentos apontaram para a mesma improvável embora
intuitivamente correta direção. Minha mãe me contou que engravidou de
mim no último ano da faculdade. Ela e meu pai eram da mesma turma.
Harvard, 2003. Ele tinha vindo do Japão fazer intercâmbio. Ficaram juntos
uma noite só. Mas não foi um erro, ela sempre ressaltou. Nunca foi um erro.
Fico olhando para o nome. Makoto. Mak. Quais são as chances de minha
mãe ter tido dois casos com japoneses diferentes no ano em que nasci? Olho
para Noora.
— Pode ser o meu pai. — Dizer isso em voz alta é estranho, pesado.
Tabu.
Esse assunto sempre foi uma nota de rodapé na minha biografia. Izzy foi
concebida em 2003 por Hanako Tanaka e um japonês desconhecido. Não é
saber minhas origens que me deixa mal. Sou filha do século XXI; jamais
sentiria vergonha da liberdade sexual da minha mãe. Respeito as decisões
dela, ainda que as palavras “mãe” e “sexo” juntas me façam querer botar
fogo em alguma coisa.
O que faz minha alma doer é não saber. Caminho pela rua examinando as
pessoas, me perguntando: “Você é meu pai? Conhece ele? Sabe algo a meu
respeito que eu não sei?”.
Noora me observa.
— Conheço esse olhar. Você está ficando esperançosa.
Abraço o livro. Às vezes é difícil não sentir inveja da minha melhor
amiga. Ela tem tanta coisa que eu não tenho — um pai, uma mãe e uma
família enorme. Já passei um feriado de Ação de Graças na casa dela. É
uma verdadeira pintura de Norman Rockwell, só que com um tio bêbado,
burburinho de palavras em fársi, molho de romã e torta de caqui no lugar de
torta de maçã. Ela sabe exatamente de onde veio, quem é e tudo sobre a
própria identidade.
— Até parece — finalmente digo.
Noora senta e me dá um empurrãozinho.
— Até parece? Ele pode ser seu pai. Pode não ser seu pai. Não
precisamos tirar conclusões precipitadas.
Tarde demais.
Quando eu era pequena, pensava muito no meu pai. Às vezes, fantasiava
que ele era dentista ou astronauta — e, uma vez, ainda que jamais admita
em voz alta, até desejei que ele fosse branco. Na verdade, eu queria que
tanto meu pai quanto minha mãe fossem brancos. Branco era lindo. Branco
era a cor das minhas bonecas e das modelos e das famílias que eu via na TV.
Era como se abreviar meu nome, ter a pele mais clara e um olho mais
redondo fossem tornar minha vida muito mais fácil e o mundo muito mais
acessível.
Olho a página.
— Harvard deve ter um registro de ex-alunos — solto, hesitante.
Nunca me atrevi a procurar meu pai. Sequer falo sobre ele. Até porque
minha mãe nunca me encorajou a isso. Na verdade, a relutância dela em
falar sobre ele me desencorajou. Então permaneci calada, sem querer
cutucar essa ferida entre mãe e filha. Continuo não querendo. Mas eu também não deveria ter que fazer tudo sozinha. Não é para isso que servem
as melhores amigas? Para dividir o peso?
Clique. Flash. Noora tira uma foto da página com o celular.
— Vamos revirar essa história — ela promete.
Nossa, queria poder capturar a confiança e a firmeza dela. Se ao menos
eu tivesse metade disso.
— Você está bem? — ela pergunta.
Meus lábios tremem. Sinto uma inquietação no peito. Pode ser uma
grande descoberta. Grande mesmo.
— Sim. Só é muita coisa pra processar.
Noora me abraça forte. Encerramos a conversa assim.
— Não se preocupa — ela diz, séria. — Vamos encontrar ele.
— Você acha mesmo? — Meus olhos brilham de esperança.
O sorriso felino volta.
— Rolinhos de canela são meu ponto fraco ou não?
— Baseada em seu histórico de consumo, eu diria que sim.
Ela assente com confiança e agilidade.
— Vamos encontrar ele.
Viu só? Parceiras de crime.