Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 28 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 27

 

Na manhã seguinte, acordo com meu celular vibrando na mesinha de

cabeceira. Estico o braço para pegá-lo. Há uma enxurrada de mensagens de

Noora e das meninas. A última diz: “Você está bem?”. Há um texto

anexado. Abro para ler. Manchetes piscam diante dos meus olhos, e as

palavras queimam, deixando cicatrizes.

S.A.I. a Princesa Izumi.

Caso.

Guarda imperial.

Cubro a boca automaticamente. É tudo muito sórdido. Obsceno. Akio é o

vilão. Eu sou a arrivista americana. Pior ainda são as fotos: no karaokê, do

lado de fora do restaurante em Kyoto, no hospital e, finalmente, no

aniversário do imperador. São desfocadas, como se tivessem sido tiradas de

longe. O ângulo revela que o fotógrafo estava na porta. Alguém nos

espionando.

As peças se encaixam. Fonte palaciana. Seu lugar não é aqui.

As Gêmeas Iluminadas.

Elas devem ter orquestrado tudo isso, provavelmente mandando alguém

me seguir durante esse tempo todo. E eu ainda por cima ajudei,

praticamente lhes dando de bandeja a história que será a minha ruína.

No mesmo instante, penso em Akio. A ideia de que ele esteja sofrendo é

demais para mim.

Encontro seu contato e ligo. Caixa postal. Mando uma mensagem: “Me

liga”. Mas a mensagem não chega. Tento de novo. Mesma coisa. O que

pode estar acontecendo? Ouço vozes pelo palácio. Visto um robe e vou até

a sala de estar. O sr. Fuchigami está ali com Mariko, dois outros camaristas

e um grupo de funcionários imperiais — secretários, assessores de imprensa

e guardas. Nada de Akio. Nada de príncipe herdeiro.

— Olá — digo. Minha voz está um pouco trêmula. Meu corpo também,

aliás.

A sala fica em silêncio. Todos olham para mim e desviam o olhar. Faço

um balanço da minha apresentação: cabelo bagunçado, roupão, lágrimas

embaçando minha visão. Estou péssima. É tipo a Estrela da Morte

explodindo, ou a Manopla do Infinito de Thanos destruindo tudo.

— Izumi-sama — Mariko diz.

Vou até o sr. Fuchigami.

— Não consigo falar com Akio.

Ele ignora o telefone tocando em sua mão.

— Sua Alteza, temos muito o que discutir. Talvez deva se trocar. Vamos

sentar e pensar em estratégias.

— Vamos ter que negar tudo — Mariko diz atrás de mim.

O sorriso do sr. Fuchigami é plácido.

— Impossível. O estrago está feito. Vamos entrar no jogo do Fofocas de

Tóquio e dizer que se aproveitaram da princesa.

— Não — digo, cerrando o punho. — Só… Não. Akio. Onde ele está?

Preciso falar com ele.

O sr. Fuchigami me olha como se estivesse surpreso por eu ainda estar

ali. Não falei para você ir se trocar?

— O sr. Kobayashi não é mais empregado da Guarda Imperial. Vamos

designar um novo guarda para sua posição.

Demitido. Akio foi demitido. É culpa minha.

Meus ouvidos estão zumbindo. É difícil pensar. Acho que vou vomitar.

Isto é terrível. O que foi que eu fiz? Deus, estou brava comigo mesma, mas

não tanto quanto os outros devem estar.

— E meu pai? Queria falar com ele.

— O príncipe herdeiro está com Sua Majestade o Imperador — o sr.

Fuchigami diz. — Os eventos de ontem exauriram seu avô. Receio que eles

não possam ser incomodados em seus assuntos oficiais. No entanto, seu pai

foi informado da atual situação e vai vê-la no jantar esta noite.

Fico com ânsia de vômito. Nunca levei um chute na barriga, mas tenho

quase certeza de que a sensação seria essa. Não quero olhar para o sr.

Fuchigami. Não consigo nem imaginar quais seriam as consequências se

isso saísse nos jornais. “Como membros da família imperial, é esperado que

sejamos irrepreensíveis”, foi o que meu pai disse depois do casamento do

primeiro-ministro.

— Ok. — Minha voz falha. É difícil encontrar as palavras certas. Para

que tentar? Viro e me obrigo a sair da sala.

As conversas recomeçam atrás de mim. Não quero ouvir. Encontro um

fio de esperança e me agarro a ele. Vou até meu armário, abro gavetas, visto

uma legging e uma camiseta. Mariko aparece e me impede de sair.

— Aonde você está indo? — ela pergunta com cautela.

— Preciso ver Akio.

— Izumi-sama — ela diz, tomada por pena.

— Me deixa. — Minhas pernas estão moles. Quero desabar. Ficar

encolhida na cama até que tudo passe. Se recomponha.

— Você não pode ir vê-lo.

— Por favor, chama o motorista — digo, vacilante.

— Não é uma boa ideia — Mariko alerta.

Limpo meu nariz. As lágrimas jorram descontroladas.

— Você não entende. Preciso vê-lo.

Mariko coloca as mãos nos meus ombros e aperta.

— Se você for para a casa dos pais dele, só vai piorar as coisas. O lugar

está cercado por paparazzi. O melhor a fazer por si mesma e por Akio é

deixar essa história morrer.

Fico paralisada, entorpecida. O que Mariko diz faz sentido. Não preciso

botar mais lenha na fogueira. Mas também não quero que ele pense que o

abandonei. De repente, sei o que fazer.

— Então você pode fazer um favor para mim?

Uma carta. Vou escrever uma carta para ele.

As narinas de Mariko inflam.

— O sr. Fuchigami ainda está aqui. Ele proibiu todo mundo de entrar ou

sair do palácio. — Ela gira os polegares enquanto pensa. — Mas por acaso

sei que seu primo Yoshi está na residência e não tem tantas restrições. Que

tal tomar um banho? Com a janela aberta? Está soprando uma brisa

adorável agora. Claro, vou pedir para a segurança evacuar a área.

Quero dar um beijo nela. Mas só dou um sorriso agridoce.

— Um banho parece ótimo. Se importa de pegar meus tênis de corrida e

uns papéis? Você sabe que são indispensáveis para meu banho.

— Sim, Sua Alteza — Mariko diz sensatamente. — Posso sugerir

também que leve um moletom com capuz? Algo escuro que combine com

as árvores da propriedade? Acho que tenho a peça perfeita. A última moda

para a primavera e aventuras secretas pela floresta.