Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 27
Na manhã seguinte, acordo com meu celular vibrando na mesinha de
cabeceira. Estico o braço para pegá-lo. Há uma enxurrada de mensagens de
Noora e das meninas. A última diz: “Você está bem?”. Há um texto
anexado. Abro para ler. Manchetes piscam diante dos meus olhos, e as
palavras queimam, deixando cicatrizes.
S.A.I. a Princesa Izumi.
Caso.
Guarda imperial.
Cubro a boca automaticamente. É tudo muito sórdido. Obsceno. Akio é o
vilão. Eu sou a arrivista americana. Pior ainda são as fotos: no karaokê, do
lado de fora do restaurante em Kyoto, no hospital e, finalmente, no
aniversário do imperador. São desfocadas, como se tivessem sido tiradas de
longe. O ângulo revela que o fotógrafo estava na porta. Alguém nos
espionando.
As peças se encaixam. Fonte palaciana. Seu lugar não é aqui.
As Gêmeas Iluminadas.
Elas devem ter orquestrado tudo isso, provavelmente mandando alguém
me seguir durante esse tempo todo. E eu ainda por cima ajudei,
praticamente lhes dando de bandeja a história que será a minha ruína.
No mesmo instante, penso em Akio. A ideia de que ele esteja sofrendo é
demais para mim.
Encontro seu contato e ligo. Caixa postal. Mando uma mensagem: “Me
liga”. Mas a mensagem não chega. Tento de novo. Mesma coisa. O que
pode estar acontecendo? Ouço vozes pelo palácio. Visto um robe e vou até
a sala de estar. O sr. Fuchigami está ali com Mariko, dois outros camaristas
e um grupo de funcionários imperiais — secretários, assessores de imprensa
e guardas. Nada de Akio. Nada de príncipe herdeiro.
— Olá — digo. Minha voz está um pouco trêmula. Meu corpo também,
aliás.
A sala fica em silêncio. Todos olham para mim e desviam o olhar. Faço
um balanço da minha apresentação: cabelo bagunçado, roupão, lágrimas
embaçando minha visão. Estou péssima. É tipo a Estrela da Morte
explodindo, ou a Manopla do Infinito de Thanos destruindo tudo.
— Izumi-sama — Mariko diz.
Vou até o sr. Fuchigami.
— Não consigo falar com Akio.
Ele ignora o telefone tocando em sua mão.
— Sua Alteza, temos muito o que discutir. Talvez deva se trocar. Vamos
sentar e pensar em estratégias.
— Vamos ter que negar tudo — Mariko diz atrás de mim.
O sorriso do sr. Fuchigami é plácido.
— Impossível. O estrago está feito. Vamos entrar no jogo do Fofocas de
Tóquio e dizer que se aproveitaram da princesa.
— Não — digo, cerrando o punho. — Só… Não. Akio. Onde ele está?
Preciso falar com ele.
O sr. Fuchigami me olha como se estivesse surpreso por eu ainda estar
ali. Não falei para você ir se trocar?
— O sr. Kobayashi não é mais empregado da Guarda Imperial. Vamos
designar um novo guarda para sua posição.
Demitido. Akio foi demitido. É culpa minha.
Meus ouvidos estão zumbindo. É difícil pensar. Acho que vou vomitar.
Isto é terrível. O que foi que eu fiz? Deus, estou brava comigo mesma, mas
não tanto quanto os outros devem estar.
— E meu pai? Queria falar com ele.
— O príncipe herdeiro está com Sua Majestade o Imperador — o sr.
Fuchigami diz. — Os eventos de ontem exauriram seu avô. Receio que eles
não possam ser incomodados em seus assuntos oficiais. No entanto, seu pai
foi informado da atual situação e vai vê-la no jantar esta noite.
Fico com ânsia de vômito. Nunca levei um chute na barriga, mas tenho
quase certeza de que a sensação seria essa. Não quero olhar para o sr.
Fuchigami. Não consigo nem imaginar quais seriam as consequências se
isso saísse nos jornais. “Como membros da família imperial, é esperado que
sejamos irrepreensíveis”, foi o que meu pai disse depois do casamento do
primeiro-ministro.
— Ok. — Minha voz falha. É difícil encontrar as palavras certas. Para
que tentar? Viro e me obrigo a sair da sala.
As conversas recomeçam atrás de mim. Não quero ouvir. Encontro um
fio de esperança e me agarro a ele. Vou até meu armário, abro gavetas, visto
uma legging e uma camiseta. Mariko aparece e me impede de sair.
— Aonde você está indo? — ela pergunta com cautela.
— Preciso ver Akio.
— Izumi-sama — ela diz, tomada por pena.
— Me deixa. — Minhas pernas estão moles. Quero desabar. Ficar
encolhida na cama até que tudo passe. Se recomponha.
— Você não pode ir vê-lo.
— Por favor, chama o motorista — digo, vacilante.
— Não é uma boa ideia — Mariko alerta.
Limpo meu nariz. As lágrimas jorram descontroladas.
— Você não entende. Preciso vê-lo.
Mariko coloca as mãos nos meus ombros e aperta.
— Se você for para a casa dos pais dele, só vai piorar as coisas. O lugar
está cercado por paparazzi. O melhor a fazer por si mesma e por Akio é
deixar essa história morrer.
Fico paralisada, entorpecida. O que Mariko diz faz sentido. Não preciso
botar mais lenha na fogueira. Mas também não quero que ele pense que o
abandonei. De repente, sei o que fazer.
— Então você pode fazer um favor para mim?
Uma carta. Vou escrever uma carta para ele.
As narinas de Mariko inflam.
— O sr. Fuchigami ainda está aqui. Ele proibiu todo mundo de entrar ou
sair do palácio. — Ela gira os polegares enquanto pensa. — Mas por acaso
sei que seu primo Yoshi está na residência e não tem tantas restrições. Que
tal tomar um banho? Com a janela aberta? Está soprando uma brisa
adorável agora. Claro, vou pedir para a segurança evacuar a área.
Quero dar um beijo nela. Mas só dou um sorriso agridoce.
— Um banho parece ótimo. Se importa de pegar meus tênis de corrida e
uns papéis? Você sabe que são indispensáveis para meu banho.
— Sim, Sua Alteza — Mariko diz sensatamente. — Posso sugerir
também que leve um moletom com capuz? Algo escuro que combine com
as árvores da propriedade? Acho que tenho a peça perfeita. A última moda
para a primavera e aventuras secretas pela floresta.