Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 29 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 28

 

 

Akio,

 

Por favor não me arranque

da memória, do seu coração

perfeito. Deixe

que continuemos como

antes, contra o mundo

 

Sinto muito por tudo. Por favor, me encontre em frente à placa de

limite de velocidade da rodovia, às 13h, do lado de fora da

propriedade imperial.

 

Izumi

 

Coberta pelo capuz do moletom, saio correndo pela propriedade. Quando

chego à casa de Yoshi, estou sem fôlego. A arquitetura do edifício é muito

semelhante à do Palácio Tōgū — moderna com linhas simples, porém um

pouco menor, e nem de perto tão grandiosa.

Ouço um estalo de cascalho atrás de mim e uma arma sendo engatilhada.

— Kōgūkeisatsu no meirei de, te wo agete kudasai.

Nunca pensei que aprender japonês pudesse salvar minha vida um dia.

Ainda bem que entendo o suficiente para fazer o que pediram: “Mãos para o

alto”.

Viro com as mãos erguidas e a carta entre dois dedos. É Reina, e ela está

apontando sua arma bem para o meio do meu peito.

— Sua Alteza. — Reina guarda a arma e faz uma reverência exagerada.

— Me perdoe. Confundi a senhorita com uma das fãs de Yoshi.

— Tátudobem — digo, as mãos ainda para cima.

Reina me lança um olhar duro.

— Pode abaixar as mãos.

Abaixo lentamente.

— Yoshi está em casa? — É mais uma afirmação que uma pergunta;

onde Yoshi vai, Reina vai atrás. Minha pulsação ainda está acelerada.

Respiro fundo, tentando superar minha experiência de quase morte.

Ela acena para a casa.

— Ele está lá dentro, e só chegou em casa depois das três da manhã.

Talvez nem esteja acordado ainda. Provavelmente está com uma dor de

cabeça terrível. Fale alto, se puder. Na verdade, toque a campainha, ele

odeia isso.

Uau, Reina, pode se abrir comigo.

— Eu não deveria estar aqui — digo, reparando no fone de ouvido em

sua orelha.

Ela dá de ombros.

— Você esquece que apontei uma arma para o seu peito, e eu esqueço

que você esteve aqui.

— Combinado. — Fazemos uma reverência uma para a outra.

Reina se funde novamente à paisagem. Bato na porta, e só para agradar

Reina, toco a campainha três vezes seguidas. Acorde. Acorde. ACORDE.

Depois de alguns minutos, Yoshi abre a porta. Seu cabelo está todo

desgrenhado, arrepiado em ângulos estranhos. Sua camiseta com decote V é

branca e sua calça esportiva de veludo tem uma faixa de lantejoulas

douradas de cada lado. Ele solta um resmungo alto, longo e dolorido.

— Falei para Reina que não queria receber ninguém — ele grita para as

árvores. Tenho quase certeza de que Reina, onde quer que esteja, está

mostrando o dedo do meio para ele. — Ah, é você. — Yoshi se concentra

em mim, preocupado. — Como vai, querida? Segurando firme? É assim

que se fala? Parece que não.

Retiro o capuz.

— Você soube o que aconteceu?

Ele zomba.

— Com proibição de mídias ou não, a família toda já está sabendo. A

Agência da Casa Imperial enviou um memorando. — Ele sorri, encostando

no batente da porta. — Sua safadinha. Não sabia que você estava de olho no

seu guarda imperial. Agora, entre e conte ao primo Yoshi todos os detalhes.

Vou preparar um drinque pra você. Como é que os americanos dizem? Deve

ser cinco horas em algum lugar? Tenho certeza de que essa eu acertei.

Ele vira, mas agarro sua camiseta e o puxo de volta.

— Opa, tire as mãos de mim — ele diz, com um olhar horrorizado. — É

Dior.

Eu o solto.

— Escuta, preciso que você entregue uma coisa para Akio.

Yoshi ergue o queixo.

— Estou intrigado. Conta mais.

— Isto. — Coloco a carta em suas mãos. — Por favor, é importante. —

Passo o endereço de Akio. — Não consigo falar com ele.

— Provavelmente o celular dele foi confiscado pela Agência da Casa

Imperial. — Ele fica revirando a carta. — Como é que se diz? Não sei o

quanto quero estar envolvido no seu escândalo sexual.

— Só estou tentando marcar um encontro. Preciso falar com ele.

Ele fica mais paciente.

— O que está fazendo, Izumi? Você sabe que nada de bom pode sair

disso, não é? Namorar um membro da classe trabalhadora não pode nem

passar pela sua cabeça.

— Sachiko vai casar com um plebeu.

— Sachiko vai casar com o herdeiro de um verdadeiro império de arroz e

que é parente dos Takamori. Ryu pode bancar a vida que ela costuma ter.

Takai, takai, takai. — A famosa expressão brinca com os três significados

da palavra takai: “caro”, “superior” e “alto”. As características ideais para

potenciais interesses amorosos.

Yoshi tenta me devolver a carta. Dou um passo para trás, me recusando a

pegá-la.

— Por favor. Faça isso por mim.

Ele solta um longo suspiro, resignado. Então cruza os braços, com a carta

no sovaco.

— O que vai acontecer se ele aparecer? Vocês vão fugir juntos?

— Se ele aparecer. Não vamos fugir.

— E se ele não aparecer?

Estrelas vão explodir. A Terra vai parar de girar. Remexo os pés, olhando

para o chão.

— Não sei. — Perco o fôlego. Japão é Akio. Akio é o Japão. Fecho os

olhos com força, depois os abro. — Só entregue a carta. Tenho certeza de

que ele vai aparecer.

Yoshi brinca com a língua atrás da bochecha.

— Está bem, eu entrego.

Sorrio e me aproximo para abraçá-lo.

— Obrigada. Você não sabe o quanto isso significa pra mim.

Ele me envolve em seus braços.

— Eu sei, eu sei, eu sou o melhor. — Ele me aperta, então se afasta. — E

por favor, eu te imploro… dá um jeito nesse cabelo. Você não vai

conquistar coração nenhum desse jeito.

— Você é o pior, Yoshi. Simplesmente o pior — digo, mas, pela primeira

vez no dia, estou sorrindo.

Ele aninha a carta no peito.

— Você nunca vai saber o quanto suas palavras me emocionaram.

Cruzo os braços.

— Tenho quase certeza de que Reina te odeia.

— Mentira. Blasfêmia. Ela está cega de amor por mim. — Ele bate a

carta no meu queixo. — Tendo um final feliz ou não com o guarda, você vai

ficar bem. Acredite em mim. Já me apaixonei meia dúzia de vezes. Você vai

superar.

— Certo. — Meu tom não poderia ser menos convincente.

Corro de volta para o palácio, deixando Yoshi com a carta em suas mãos.

Penso em Akio. Em sua alma generosa. Em seus olhos bondosos. No nosso

beijo. Esse não pode ser o fim.