Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 34
E num piscar de olhos, já é o dia da formatura. As horas passam em um
turbilhão. Cadeiras e um palco são montados no meio do campo de futebol
do Colégio Mount Shasta. Vestidos azuis esvoaçam na brisa quente. Noora
faz seu discurso de oradora. Quando vou receber meu diploma, os aplausos
são extremamente altos — a maior parte vem da GGA e dos guardas
imperiais, que meu pai pediu que usassem tie-dye para a ocasião. Eles estão
superdisfarçados com a camiseta para dentro da calça social e fones de
ouvido. Só que não.
Depois, Jones capricha no banquete livre de organismos geneticamente
modificados e de pesticidas, com produtos locais e veganos, do tipo nada-
que-tem-mãe-vai-ser-comido. Um enorme bufê é servido em uma mesa de
madeira sob luzinhas aconchegantes. Cadeiras de tipos variados e até um
sofá velho são dispostos no gramado. O sol está se pondo, formando uma
aquarela de tons rosados e alaranjados no céu. O clima é alegre. Grateful
Dead está tocando em um alto-falante. Noora, Glory e Hansani estão
comemorando com suas famílias, mas virão para cá em breve. A companhia
é boa mesmo assim: uma mistura dos amigos de Jones, colegas de trabalho
de minha mãe, funcionários da Agência da Casa Imperial e os guardas.
Todo mundo parece estar se dando bem.
Preparo um prato de paella vegetariana com arroz integral e perambulo
pelo bosque próximo à minha casa. Ainda usando meu vestido azul, sento
em um tronco, aproveitando o silêncio por um momento. Meu pai vai
embora em breve.
Ouço passos se aproximando.
— Posso me juntar a você? — Jones pergunta.
Ele tem um prato na mão e está usando um terno de veludo cotelê cor de
diarreia, com uma gravata bordô e papetes. É horroroso. Realmente
horroroso.
— Claro — digo, abrindo espaço para ele.
Do outro lado do gramado, por entre as árvores, consigo ver meus pais
conversando animadamente, com as cabeças inclinadas um para o outro,
como ímãs procurando a outra metade.
— É difícil competir com um príncipe. — Ele está triste de verdade.
Quase chorando em sua paella.
— É por isso que está de terno?
— Sim. — Ele abaixa o prato e puxa a gravata. — Odeio essas porras.
Não sinto que sou eu mesmo com elas. — Ele tira a gravata e joga no chão,
depois desabotoa os dois botões de cima da camisa. — Cada um na sua,
sabe? Ainda bem que não fiz a barba. — Ele toca o queixo, acariciando seu
glorioso pelo facial.
— Acho que sim.
— Está gostando do jantar?
Ergo o prato.
— Hummm. — Apoio o prato no colo, desejando estar sozinha de novo.
— Obrigada por tudo.
Ele dá tapinhas nas minhas costas.
— Você é uma boa garota, Izzy.
Meu pai e minha mãe atravessam o gramado com os olhos fixos em nós.
— Sr. Jones — meu pai diz, estendendo a mão. — Obrigado pelo jantar.
Se algum dia for ao Japão, será bem-vindo no palácio.
Jones levanta e aperta a mão do meu pai em um gesto que logo se torna
competitivo.
— Me chame de Jones. Nada de sobrenomes. Obrigado pelo convite, mas
tenho fortes opiniões sobre instituições monárquicas. Elas entram em
conflito com meus valores igualitários fundamentais.
Eles soltam as mãos.
— Claro. Respeito sua posição — meu pai diz, imperturbável.
Jones vira para a minha mãe.
— Se precisar de algo, Hanako, já sabe onde me encontrar.
Eu sou a próxima. Jones se inclina e aperta meu nariz com o indicador e
o dedão.
— Fom-fom.
Afasto sua mão. Esquisito pra caralho. Mas ele é nosso. Não temos
escolha a não ser mantê-lo por perto, acho.
Ele vai embora, atacando agulhas de pinheiro e gritando com um de seus
amigos para interromper o bongô. Provavelmente está doido pela partida do
meu pai. Primeiro vai dar cabo dos tambores, depois das roupas.
— Seu vizinho é… interessante — meu pai diz.
— Você se acostuma. Ele é bonzinho.
Ele assente sabiamente.
— Preciso ir em breve. Izumi-chan, vamos dar uma volta? — Os
camaristas já estão se aproximando. Os guardas estão ficando agitados,
prontos para a ação.
— Claro. — Fico de pé, largando o prato perto da gravata de Jones.
Minha mãe nos dá espaço, mas sem se afastar muito.
Meu pai e eu damos uma volta tortuosa pelo bosque.
— Está pronto pra ir pra casa?
— Sinto falta da minha própria cama. — Ele sorri. O futom que ele tem
usado é todo grumoso e poeirento. — Mas não. Queria que você viesse
comigo. — É seu apelo final. A pergunta está evidente em seus olhos. Não
quer reconsiderar?
Meu vestido balança com a brisa. Cerro os punhos, e meu estômago
embrulha.
— Não posso. — Vou ficar aqui, passar o verão com a GGA e me
matricular na Universidade de Siskiyous no outono. Está decidido.
— Tem algo que você não está me dizendo? Aconteceu mais alguma
coisa? Não entendo por que está sendo tão teimosa. Você não é assim. —
Sua voz está carregada de frustração.
Algo dentro de mim explode e as comportas se abrem. Não consigo me
conter.
— Eu… — Minha voz está trêmula. — Você nem me conhece. — Meu
olhar é duro, feroz, determinado. Não sei o que estou fazendo, o que estou
dizendo, mas sigo adiante. — Eu não mantenho meu quarto arrumado.
Minha mãe precisa me obrigar a lavar minhas roupas. Minhas notas são
medíocres, e olhe lá. Se eu tentasse entrar na Columbia ou em Harvard, as
risadas dos avaliadores seriam ouvidas no mundo todo. Nos últimos dois
anos, minhas resoluções de Ano-Novo foram comer mais coisas com
confeitos. A maior parte da minha lista de leituras é composta de romances
melosos, seguidos de perto por fantasias pré-adolescentes. Amo minhas
amigas, mas a gente faz coisas idiotas, tipo ver se cabemos na geladeira, ou
comprar uma única uva no mercado, ou jogar “O chão é lava” em um
sábado.
Ele pisca para mim.
— Lava?
Balanço a mão, como se nada fosse.
— É uma brincadeira em que a gente finge que o chão é um rio de lava e
quem pisar nele morre. É besta. — Mas tão divertido. Olho para ele. —
Você nunca brincou disso quando era pequeno?
— Eu não tinha muitos amigos. Jogava Go com o meu irmão. — Certo.
Go, o jogo de tabuleiro abstrato de estratégia cujo objetivo é ganhar mais
territórios que seu oponente. Resumindo, é um jogo de guerra introdutório
para crianças.
— Está vendo? É isso que estou querendo dizer. — Dou um suspiro,
desanimada.
Nossas brincadeiras ilustram perfeitamente a distância entre nós, nossas
diferenças. Vivemos em mundos opostos.
— Isso o quê? — ele pergunta, confuso.
— Que… Que... eu sou americana. — Ele fica pasmo. Agora que
comecei a falar a verdade, não consigo parar. Provavelmente vou continuar
indo ladeira abaixo. — Não importa o quanto eu me esforce, não vou
conseguir ser quem você… quem o Japão quer que eu seja. — Respiro
fundo, vacilante.
Ele fica pensativo por um momento e então responde:
— Não quero que você seja o que não é. Da onde tirou isso?
— Não sou perfeita. — Levanto a cabeça.
— Eu também não.
— Nunca serei boa o suficiente para o Japão. Nunca vou me encaixar lá.
— Você é milha filha — ele diz com uma voz uniforme e feroz. — Seu
lugar é ao meu lado. — Ele exala devagar, contemplando as árvores, os
pássaros. — Gostaria de dizer a você para não se preocupar com a opinião
das pessoas, mas falar é muito fácil. Para ser honesto, essa preocupação nunca vai desaparecer. Você vai cometer erros. Os jornais vão noticiar. Às
vezes, sua vida não vai parecer sua. Essa é a realidade de um membro da
família imperial e o peso que devemos carregar, Izumi-chan. — Agora sua
voz é suave, e ele me encara. — Volte para o Japão. Vamos enfrentar isso
juntos. Nada é insolúvel.
Quero dizer sim. Mas a palavra está atrás de um muro que não consigo
escalar.
— Está certo. Não vou mais pressioná-la. — Ele suspira. — Convidei sua
mãe para ir com a gente. Ela também recusou.
Fico me balançando no lugar, olhando para os meus pés.
— Você será sempre bem-vindo aqui. Vamos sempre te receber.
Desculpa. — Ele está planejando voltar em agosto.
— Não precisa pedir desculpas — ele diz com tranquilidade. — Só não
me exclua da sua vida. Promete?
— Prometo — falo. Espero um pouco. Nem tudo é perfeito, mas parece
estar tudo bem entre meu pai e mim. — Acha que devemos nos abraçar?
— Acho que jamais haverá momento mais oportuno para nos abraçar. —
Ele abre os braços. Me aninho. — Confeitos, hein? — Ele comenta no meu
cabelo.
— Ah, sim. Melhoram qualquer coisa que você for comer. Deixam tudo
mais festivo. — Nos afastamos.
— Parece ótimo — ele diz, assentindo. — Filha.
Assinto de volta.
— Pai.