Uma Princesa em Tóquio

Emiko Jean · Capítulo 13 de 38

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Uma Princesa em Tóquio

Capítulo 12

 

O sol se põe. São oito e meia. Falo para Mariko que estou cansada,

exagerando nos bocejos e me espreguiçando. Não sou nenhuma atriz, mas

ela cai na encenação. Fugir é bem mais fácil do que pensei; Yoshi me dá

instruções detalhadas sobre o que não vestir: nada de cardigãs ou saltos

quadrados. Estou vestindo jeans e uma camiseta dizendo: “Lute como uma

garota” — roupas da Izzy. É bom vesti-las de novo.

Ele também me dá instruções claras sobre como atravessar a propriedade.

A trilha leva a um pequeno muro de pedra, que eu pulo e pronto. Estou fora

do território imperial, em uma calçada próxima a uma rodovia.

É noite. Os carros passam a toda velocidade. A trinta metros de distância,

um guarda está de vigia. Meu coração para quando ele nota minha presença

e retoma um ritmo acelerado quando o homem me ignora. Não sou ninguém

para ele, só mais uma pedestre passando. Por que suspeitaria de mim,

afinal? Acho que as pessoas partem do princípio de que todas as princesas

vão ficar quietinhas no lugar. Grande erro. Vou para o lado oposto, tentando

caminhar com naturalidade, de cabeça baixa. Paro na placa redonda com

um círculo vermelho em volta do número quarenta, onde Yoshi disse que

me encontraria.

Num piscar de olhos, um carro estaciona na minha frente. É uma lata-

velha. O motor range e fumaça sai quando alguém abre a janela. Do banco de carona, Yoshi coloca a cabeça para fora.

— Entre — ele diz, com um sorrisão.

Está usando óculos escuros, uma jaqueta de seda multicolorida com um

tigre holográfico e o cabelo todo arrepiado. É hipnotizante.

— Adorei o visual — digo, subindo no banco de trás.

— Não repara — Yoshi diz. — É só minha versão balada.

No banco do motorista, há um cara magrelo com jaqueta de veludo e um

cigarro preso entre os dentes. O rádio está tocando jazz. Ele dá a partida e

entra no tráfego.

— Este é Taka — Yoshi diz. Pelo espelho, o homem ergue o queixo para

mim. — De dia, ele é motorista de Uber, de noite, ceramista. — Meu primo

se inclina sobre o assento, tampa a boca e faz careta. — Não peça pra ver

nenhuma de suas obras. São horríveis. — Ele fala alto o suficiente para que

Taka ouça.

Taka resmunga e aponta para sua própria cabeça brilhante.

— Não sou careca. Eu que quis assim, ok?

Egos masculinos são tão frágeis.

Yoshi solta uma gargalhada.

— Você é um filho da puta esquisito, Taka.

Taka sorri. Seus dois dentes da frente são de ouro. Cai bem nele.

— Hum, há quanto tempo vocês são amigos? — pergunto, colocando o

cinto de segurança.

E eu achando que Noora dirigia mal. A cidade passa num borrão: hotéis

da rede The Ritz Carlton e hostess clubs — casas noturnas japonesas para o

público masculino —, lojas de quimonos e butiques vendendo bolsas de

couro.

Os óculos de Yoshi refletem a luz neon.

— Nos conhecemos ontem à noite. — Quando faço uma careta, ele diz:

— Não se preocupe, você está em boas mãos. Além disso, já estamos aqui.

Agora que abrimos o quimono, não dá mais pra fechar.

Certo. É melhor eu avisar alguém sobre a minha localização, só para

garantir. A GGA tem uma política bem rígida de não permitir julgamentos.

Mando uma mensagem para o grupo.

Eu

Saí com meu primo e um motorista de Uber esquisitão. Se eu morrer, por favor, coloquem na minha lápide: “Morta por um urso” (ou algo igualmente épico).

 

Elas respondem com um joinha. Tudo certo. Agora posso relaxar e curtir.

A noite está límpida, e a cidade, iluminada, e logo paramos do lado de fora

de um restaurante. Taka estaciona em uma vaga quase apertada demais para

o carro, mas de algum jeito consegue entrar. Yoshi abre a porta para mim,

me oferece a mão e me gira em uma pirueta. Taka acende outro cigarro.

Ainda estou um pouco zonza quando sigo os dois até um restaurante do

outro lado da rua. A fachada não tem nada de mais — tijolos aparentes,

duas lâmpadas iluminando uma placa branca simples com um kanji,

luminárias vermelhas penduradas sob os beirais e menus exibindo os

preços. Uma janela grande mostra a cozinha. Um homem de jaqueta azul e

uma bandana hachimaki está suando sobre panelas fumegantes e uma

grelha em chamas.

Yoshi vai na frente e atravessa as portas duplas. Entramos. As luminárias

vermelhas também estão presentes lá dentro, lançando uma névoa quente e

carmesim no ambiente. Hip-hop toca baixinho, vozes se misturam e

garrafas tilintam. O lugar está lotado e os clientes acabam nos notando.

Nossa presença irradia ondas imperiais e depois se aquieta. Fomos

reconhecidos. Engulo em seco e começo a recuar, mas Yoshi me imobiliza.

— Estamos em um izakaya, o tipo de bar mais democrático que você

pode encontrar em Tóquio. — Como se para ilustrar, a multidão volta sua

atenção para a conversa, para a bebida, para a comida barulhenta. Ninguém

se importa.

Sentamos no bar, eu entre Yoshi e Taka. Mais adiante, há um grupo de

executivos. À nossa esquerda, há um grupo de garotas de cabelo rosa-

choque, vestidas com saias xadrez e a mesma camiseta branca com o rosto

de um homem. Ele tem uma feição delicada, meio élfica, com um queixo

pontudo e o mesmo cabelo rosa-choque das garotas.

Pego o cardápio. Está em japonês. Planejo apontar para qualquer coisa,

dizer “hai”, e torcer pelo melhor, mas Yoshi arranca das minhas mãos.

— Você não precisa disso. — Ele deixa o menu de lado e faz o pedido

por nós. Começamos com coragem líquida: uma garrafa índigo é disposta

na nossa frente. — Primeira regra do saquê. — Yoshi pega a garrafa e um

dos copos de cerâmica. — Nunca sirva para si mesma. — Ele serve uma

dose para Taka e outra para mim.

Eu retribuo, servindo uma para ele.

Cheiramos o copo. Notas adocicadas se destacam. Brindamos.

— Kanpai!

Então bebemos. O vinho de arroz desce frio, mas aquece minha barriga.

Dou mais uns goles e logo meus membros também esquentam. Comemos

vieiras e sashimi de olho-de-boi, depois bebemos mais saquê. Quando

chega o yakitori, um espetinho de frango grelhado, nossa garrafa está vazia

e minhas bochechas estão pegando fogo.

O grupo de executivos ficou barulhento, suas gravatas foram afrouxadas.

Yoshi pisca para as garotas de cabelo rosa-choque, que caem na risada. Meu

Deus, como será ter tanto poder sobre o sexo oposto?

Depois, comemos gyoza. Os pasteizinhos de carne de porco com molho

de pimenta queimam minha boca, mas cortam o efeito do saquê e eu fico

brevemente sóbria — bem quando o grupo de executivos nos envia uma

rodada de shōchū, uma bebida mais encorpada que o saquê, mas igualmente

deliciosa. Brindamos a eles, ao bar, à noite, a Tóquio. Meu estômago está

quase explodindo quando o chef coloca o agedashi, tofu frito, na nossa

frente. Por fim, Taka pede tripas de lula fermentadas. Eu não provo, mas

dou risada enquanto ele manda ver.

Yoshi paga a conta.

— O que vamos fazer agora? — pergunto.

Não estou pronta para encerrar a noite. Me sinto leve. Livre. Minhas

bochechas estão doendo de tanto rir. As possibilidades são infinitas. Taka

sugere irmos até uma escola local, onde um cultista da montanha que segue

uma mistura de budismo e xintoísmo vai caminhar sobre brasas. Fico

interessada.

Yoshi vira o resto de sua bebida e Taka acaricia a barriga.

— Não. Tenho uma ideia melhor. — Meu primo me lança um sorriso

nem um pouco tranquilizador.

Seguimos Yoshi enquanto tropeçamos até a porta ao lado, para um bar de

karaokê. O grupo de executivos se junta a nós, assim como as garotas de

cabelo rosa-choque. Yoshi as abraça.

Um dos homens caminha ao meu lado. Seu colarinho está aberto, e ele é

jovem e bem gato, com uma mecha de cabelo escuro que cai sobre seus

olhos. Ele quer praticar inglês.

— Sūpā — diz, apontando para o outro lado da rua.

— Supermercado — respondo.

— Superumerukado — ele repete devagar. — Ohime — fala, apontando

para o meu peito.

— Izumi — me apresento.

Ele balança a cabeça.

— Não. Ohime.

— Significa “princesa” — Taka diz atrás de mim.

— Princesa — o homem repete.

As restrições de antes ameaçam voltar, mas Yoshi parece achar que está

tudo bem. Ninguém tentou sacar uma câmera e tirar fotos da gente. Então

me deixo levar, permitindo que o álcool mascare minhas inibições, minhas

dúvidas.

O bar de karaokê está mais barulhento que o izakaya. As paredes são de

vidro e parece que viemos parar em uma espécie de filme futurista

vampiresco. Subimos um lance de escadas estreitas para o andar das

cabines particulares e nos acomodamos em assentos de vinil. Nossas

bebidas chegam: saquê com kiwi amassado, martini com raspas de

chocolate e algumas garrafas de cerveja.

Yoshi conta que morou um tempo fora das propriedades imperiais e foi

incrível. Então pergunta minha cor favorita, meu signo, onde eu cortei o

cabelo e qual é meu tipo sanguíneo.

— B positivo — digo.

Esse também é o lema da minha vida: ser positiva. As garotas de cabelo

rosa-choque estão cantando uma música de Hideto Matsumoto, o homem

nas camisetas. Yoshi explica que Hideto foi um famoso astro do rock e

ícone rebelde que cometeu suicídio aos trinta e três anos, deixando para trás

todo um culto de fãs como legado. Cinquenta mil pessoas compareceram ao

seu funeral.

— Não somos nada compatíveis. Meu tipo é A. — Ele faz beicinho. — E

você não fala nada de japonês? — Yoshi pergunta, cutucando o rótulo de

sua cerveja.

Engulo em seco, saboreando o chocolate do martini.

— Não muito. Estou aprendendo agora.

Velhas inseguranças fazem cócegas na minha nuca. É uma sensação

muito estranha ser capaz de passar despercebida neste bar mas ainda ser

uma forasteira. Me reconheço nos rostos de todos — em seus olhos e

cabelos escuros, na cor de pele —, mas não em seus modos, costumes. Não

pensei que seria assim no Japão. Pensei que tudo seria familiar, como vestir

um casaco velho. Reconheço algumas coisas, mas há outras que nunca vou

ser capaz de entender. Esta noite, pisei fora do palácio e dentro de Tóquio,

mas aqui não é meu lar.

Dou a Yoshi um breve resumo da minha família. Conto como já estava

perdida antes mesmo de nascer. Ele fica olhando para o gargalo da garrafa

de cerveja.

— Pesado, mas eu entendo. — Seus olhos encontram os meus. — Acho

que você e eu somos muito parecidos. Não consigo me imaginar trocando

de família, mas consigo me imaginar perfeitamente trocando de

circunstâncias. Nunca me senti em casa sendo um príncipe.

Eu também não me sinto em casa desde que me tornei uma princesa,

penso. Assinto, porque não tenho nada a dizer. Yoshi entende como é ser

parte de algo mas não pertencer completamente. Me pergunto se este será

meu destino aqui também. Será que estou perseguindo uma miragem? Será

que estou fadada a permanecer à deriva?

Taka pega o microfone e começa a cantar uma música lenta e um pouco

melancólica que parece uma canção de ninar. O grupo de executivos tira o

paletó e puxa as superfãs de Hideto para dançar. Confete cai do teto.

— Sinto falta do meu apartamento na cidade — Yoshi diz.

Dou um sorriso gentil. Conheço muito bem essa sensação de querer algo

diferente, um lugar para chamar de seu.

— Eu teria gostado de conhecê-lo.

Ele dá de ombros.

— Não era grande coisa, mas era meu. Eu podia ir e vir à vontade. Não

tinha nenhum mordomo pendurado em mim, espiando tudo que eu faço, me

arrastando de evento em evento. E você?

— Eu o quê?

— Sinto falta do meu apartamentinho de merda. E você, do que sente

falta?

Álcool sempre deixa as pessoas mais honestas.

— Mount Shasta — deixo escapar, percebendo que é verdade.

Sinto falta da minha casa, das minhas amigas, da minha mãe e do meu

cachorro fedorento — sinto falta do conforto do que é familiar. Só damos

valor ao que temos quando perdemos. Descrevo Mount Shasta para Yoshi, a

vida tranquila de cidade pequena, como lá tudo se move mais devagar.

— Então vai pra casa — ele diz, cutucando o rótulo da cerveja. — Parece

um ótimo lugar.

— Não é tão fácil assim. — Minha garganta está seca, então bebo um

pouco. — Não sei. Não ligue pra mim. — Faço uma careta e olho para as

minhas pernas. Estou cortando o clima.

Yoshi dá risada.

— Somos uma dupla patética, não somos?

— Súper. — Olho em silêncio para a mesa cheia de copos vazios.

— Não se preocupe, já estive nessa situação antes — ele diz. — Sei

exatamente o que devemos fazer para mudar isso.

— O quê?

— Cantar. — Yoshi dá tapinhas nas minhas costas. — Vamos cantar.

Em seguida, ele vai até a máquina de karaokê e faz sinal para que eu me

junte a ele. Analisamos as opções. Fico animada quando encontro algo que reconheço, algo que sei de cor. Se alguém está se perguntando se eu sei toda

a letra de “Regulate”, do Warren G, incluindo a parte do rap, a resposta é

sim.

Sim, eu sei.

 

Mais confetes caem do teto e ficam presos no meu cabelo. Yoshi e eu

afogamos nossas mágoas, e nossa conversa prévia se dissolve na noite. Eu

cantei rap a plenos pulmões em uma balada de Hideto Matsumoto. O tempo

é uma coisa nebulosa. Não há relógios no karaokê. Taka dança uma música

lenta com uma das garotas de cabelo rosa-choque e Yoshi tira um cochilo.

Os executivos cantam uma música do Bruce Springsteen, que dedicaram a

mim não sei por quê. Tentei explicar que o cantor é de New Jersey, mas eles

insistiram na homenagem. Quem sou eu para discutir? Fico de pé e

cambaleio.

— Banheiro — digo para Yoshi quando ele abre um olho.

— Andar de baixo, à esquerda. — Ele acorda. — Quer que eu vá com

você?

Balanço a cabeça e saio, me apoiando na parede. Uau, estou bêbada.

Devagar, caminho na direção que ele apontou. Minha visão está embaçada.

Por um milagre, consigo chegar no banheiro — uma cabine cromada mal

iluminada. De volta ao corredor, não lembro de onde vim. Esquerda ou

direita? Tenho cinquenta por cento de chance de acertar. Viro para a

esquerda e entro em uma porta preta.

A batida da música se extingue. No mesmo instante, percebo que cometi

um erro. Por centímetros não consigo segurar a porta, que bate. Estou do

lado de fora. O beco é estreito e tem algumas lixeiras e caixotes empilhados

contra uma parede. Meu estômago revira com o cheiro. Agora sei para onde

vão todos os resíduos de peixe do lugar. Tento abrir a porta, mas é claro que se trancou. Tudo bem, é só dar a volta até a frente do karaokê. Sem

problemas. Tudo certo. Só que… há uma cerca de arame rodeando o local.

Há um portão largo o suficiente para as caçambas passarem, mas está

trancado com cadeado. Olho para o céu em busca de uma resposta. Há mais

arame acima. Acabei em uma espécie de gaiola de lixo. Que ótimo. Estou

presa.

Pego o celular no bolso de trás da calça e ligo para Yoshi. Ele não atende.

Espero um minuto ou dois. Tento de novo. E de novo. E de novo.

— Por favor, atende. — Fico inquieta.

Arrepios percorrem meus braços. Um pouco de confete cai do meu

cabelo. Ele não está atendendo.

A porta se abre. Yoshi jamais chegaria tão rápido.

Estou certa. Não é ele. É o jovem executivo com quem eu estava falando

em inglês antes. Ele também deve estar perdido. O pessoal do bar deveria

fazer algo a respeito, tipo deixar um guarda na porta, ou um tanque cheio de

tubarões, ou um urso acorrentado para indicar que o perigo mora deste lado.

O cara fica se balançando para a frente e para trás, então solta um arroto

e abre o zíper. Viro o rosto enquanto ele cambaleia até uma das lixeiras e se

alivia. Ele termina com uma sacudida e tropeça para trás, quase em cima de

mim. Faço um barulhinho e ele vira.

— Sain — diz.

Levanto as mãos.

— Não sei o que isso significa.

Ele chega mais perto:

— Sain.

Ele ri, e sua risada ecoa pelas paredes do prédio. Estou bastante

consciente de que estou presa com um estranho bem maior e mais forte que

eu. Um alerta soa na minha cabeça. Perigo. Perigo. Perigo. Minha respiração fica mais rápida. Ele está me cercando. Posso sentir o cheiro de

cerveja em seu hálito e ver a comida entre seus dentes.

— Opa. — Recuo mais. Encosto na lixeira. Estou encurralada. — Você

está meio que invadindo meu espaço pessoal, cara. — Levanto os braços.

Ele se inclina. Solto um gemido, fecho os olhos e me preparo.

Ouço a porta, um zumbido de movimento, pés se arrastando. E logo não

sinto mais o calor do corpo do homem. Abro um olho, depois outro. Coloco

a mão no peito.

É Akio. Ele está de moletom cinza, jeans e tênis. E absolutamente

furioso, segurando o homem pelo pescoço contra a parede de tijolos. Uma

coisa é ler as qualificações de Akio no papel, outra bem diferente é vê-las

ganhando vida.

Sinto um formigamento na pele. Certo, eu não deveria achar isso

atraente. Péssima hora para isso.

Akio rosna algo em japonês. Não entendo uma palavra, mas deve ser

uma ameaça.

O rosto do homem fica todo manchado, vermelho, roxo e um pouco azul.

Suas mãos se agitam ao lado do corpo.

— Sain — ele engasga, erguendo e abrindo a mão.

Um pedaço de papel e uma caneta caem. Não preciso ser fluente para

entender a situação — ele queria um autógrafo. Um autógrafo, só isso. Mas

alguém realmente deveria ter uma conversa séria com ele sobre limites.

A boca de Akio se transforma em uma linha branca e tensa. Ele solta o

cara, que cai no chão, segurando o próprio pescoço. Meu guarda-costas se

agacha e fala algo baixinho para o executivo, que em seguida pega a

carteira do bolso da calça. Akio saca a identificação, tira uma foto do

documento e a devolve para o homem.

Akio levanta. Nossos olhares se encontram.

— Acho que ele não vai causar nenhum problema, mas agora tenho seu

nome e endereço.

Ainda estou em choque.

— O que está fazendo aqui? Como me encontrou? — pergunto de olhos

arregalados, mas ele não tem tempo de responder.

As caçambas ainda cheiram a peixe podre e eu definitivamente comi e

bebi além do meu limite. Não tenho escolha. O proprietário pregou uma

placa de despejo no meu estômago e o aluguel está atrasado. Todos foram

colocados para fora. Me inclino para a frente. E, sem cerimônias, vomito.