Uma Princesa em Tóquio
Capítulo 29
Estou adiantada. Mariko está me cobrindo no palácio. Se alguém perguntar,
estou dormindo. O sol está alto e forte próximo à placa de limite de
velocidade da rodovia. Estou usando as mesmas roupas desta manhã. Não
segui o conselho de Yoshi.
Enfio as mãos nos bolsos, verifico as horas. Quase uma da tarde. Um
carro muda de faixa, desacelera perto do meio-fio e para, piscando luzes
vermelhas. A porta abre. Prendo a respiração. Não é Akio, são apenas umas
garotas. Dão risada e vão embora.
Vinte minutos se passam. Agora ele está oficialmente atrasado. Tudo
bem. O trânsito de Tóquio é uma merda. Talvez sua mãe estivesse
precisando de algo. Ou ele não tenha conseguido escapar da multidão do
lado de fora da sua casa. Sim. É isso. Fico procurando desculpas conforme
os minutos se passam, até completar uma hora. Observo os carros voarem
por mim. É engraçado como a vida continua quando a minha parece ter
parado. Já são duas horas. Encontrei um banco a uns metros de distância e
estou encolhida nele.
Noora está me fazendo companhia por mensagem de texto.
Noora
Nada ainda?
Eu
Nada.
Eu
Promete falar a verdade?
Noora
Sempre.
Eu
Se alguém de quem você gosta muito a fizesse perder o emprego, você perdoaria essa pessoa, certo? Mesmo se esse emprego fosse tudo para você e para a sua família? Mesmo se esse emprego tivesse sido passado de geração em geração, honrando centenas de anos de tradição e que deixá-lo por conta de um escândalo fosse arruinar sua família para sempre?
Noora
Ai, amiga…
Certo. Mal consigo respirar. É tão doloroso. É como se estalactites
minúsculas perfurassem meus pulmões. Todas as minhas esperanças se
foram. Gastei tudo o que tinha. Não tenho mais de onde tirar energia. Akio
nunca se atrasa. Ele não vem.
É hora de desistir. Meu corpo está pesado e vazio enquanto caminho de
volta para o palácio.
Mariko está à minha espera no quarto.
— Ele não apareceu? — ela pergunta.
Balanço a cabeça uma única e triste vez. Não quero falar sobre isso. Não
consigo. Vagueio pelo quarto, toco o edredom na cama. Sonhei com tantas
coisas aqui. Meus olhos pousam no baú de ouro. Uma árvore bonsai foi
colocada no lugar do arranjo de flores-de-íris. Fico observando-a. Os galhos
estão tortos, desconjuntados. Assim como eu. Um osso quebrado pode ser
colocado de volta no lugar, mas nunca mais vai ser o mesmo. É o que
acontece quando nipo-americanos retornam ao Japão. Eles podem até parecer os mesmos, mas são diferentes. Tortos. Estrangeiros. E essa é a
terrível verdade.
Meu lugar não é aqui. Tanta coisa me distancia do Japão. Nunca vou
entender completamente os costumes, a cultura, as regras. Aprendi a lição
final: princesas não namoram guarda-costas. Apontar para os outros,
caminhar na frente do príncipe herdeiro, ir para o aeroporto de moletom,
mencionar a irmã do primeiro-ministro para ele, eu não poderia ter feito
nada disso.
— Izumi-sama? — Mariko me chama.
— Estou bem — digo, sem vida.
Porque a sensação é de que minha vida acabou. Minha próxima parada é
o armário. Ignoro as roupas em tons pastel e pego a mala vermelha na
prateleira de baixo. A cor é tão espalhafatosa que é como um golpe em
todas essas roupas chiques. Ah, a ironia. Como pude pensar que algum dia
me encaixaria aqui?
— O que está fazendo? — Mariko se aproxima, com a expressão
oscilando entre sofrida e gentil e relutante.
— Vou para casa.
Uma coisa é indiscutível: se eu não tivesse vindo para o Japão, nada
disso teria acontecido. Fui uma idiota por acreditar que minhas raízes
poderiam se expandir para além de todas essas paredes construídas ao meu
redor. Afinal, sua vida só pode crescer de acordo com o tamanho do
recipiente em que você foi plantado.
Enfio calças de ioga, moletons e calcinhas bregas na mala. Meu celular
vibra. Uma coroa ilumina a tela — o emoji que escolhi para representar
meu pai. Ele deixa uma mensagem na caixa postal e uma mensagem de
texto, que diz: “Precisamos conversar. Saindo em breve”. Bloqueio a tela.
Mariko está me observando.
— Você não vai contar que está indo embora?
“Precisamos conversar.” Na última vez que ele disse essas palavras,
estava tão bravo… Não consigo nem imaginar como deve estar se sentindo
agora. Acho que não quero descobrir. Além disso…
— É melhor assim — digo.
Separações abruptas sempre se curam mais rápido, porque a verdade é
esta; a verdade é que todos vão ficar bem quando eu partir, provavelmente
até melhor. Tudo vai voltar a ser como era, menos para Akio. Nunca vou
me perdoar por isso.
Continuo fazendo as malas loucamente. Mariko não sai de perto,
testemunhando a minha absoluta destruição. Ligo para minha mãe e apoio o
telefone no ombro.
— Zoom? — ela fala com voz sonolenta.
— Quero ir pra casa. Pode me ajudar a reservar um voo?
Ouço minha mãe se mexendo, depois apertando o interruptor da luz.
— O que está acontecendo? — Fico em silêncio. Minha mandíbula está
tensa. — Izumi, fala comigo.
Inspiro. Expiro. Fungo.
— Tóquio virou uma confusão.
— Mas e seu pai…
— Por favor, mãe — explodo. — Só me ajuda a ir embora daqui. Te
conto tudo quando chegar.
O que importa agora é chegar em casa, e não precisa ser inteira.
Ela demora um pouco para responder, mas fala com uma voz uniforme:
— Tudo bem. Me dê uns minutos.
Desligo. Ela vai cuidar de tudo. A mala está cheia. Eu a fecho.
— Espere — Mariko diz.
Ela pega os documentos com a história da minha família materna na
mesinha de cabeceira e me dá. Agarro os papéis, mas ela não solta. Ficamos
em um cabo de guerra.
— Por favor, pense melhor.
— Já tomei minha decisão. — Ela deve ver a resolução nos meus olhos.
Não há o que fazer. Ela solta. Guardo os documentos na mala.
— Então é isso? — Mariko pergunta, sem emoção, apesar de seus olhos
estarem cheios de lágrimas. — Você simplesmente vai embora?
— É isso. — Lágrimas caem descontroladas, do rosto dela e do meu. —
Mas você deveria saber que… bem, você é a melhor dama de companhia
que eu já tive.
Ela revira os olhos de leve.
— Sou a única dama de companhia que você já teve.
— Sim, mas eu simplesmente sei que você é a melhor. Para completar,
você também é uma ótima amiga. — Mariko devia ter nascido princesa. —
Você vale muito mais que todas as Akikos e Norikos e os malas da escola
que te fizeram se sentir tão mal. Eu nunca vou te esquecer.
Mariko funga. Pega um lenço escondido na manga e assoa o nariz.
— Qual é o plano? Como vai sair daqui?
— Vou pegar um táxi na rodovia.
Ela balança a cabeça.
— Não. Não vai dar certo. Vou pedir um carro para você. Te encontro na
placa em frente à rodovia.
— Você faria isso?
— Claro — ela diz, de volta ao seu papel. — Sou sua dama de
companhia. É meu dever e minha honra.